Partiu o homem, ficou a lenda

EDSON DE DEUS E GÉUPASSAGEIROS DO VENTONos anos 90 o velejador baiano Edson de Deus embarcou a esposa Gerusia(Géu) e as filhas, Maria Luiza e Elizabethe, no veleiro Aleluia, e se mandou para um giro pelo Atlântico Norte. A aventura redeu um livro maravilhoso e que serve de fonte para muitos que sonham com a vida a bordo de um veleiro, e aqui está um deles. Passageiros do Vento é uma obra fascinante que não pode faltar em nenhuma biblioteca náutica. Conheci Edson, pessoalmente, em 2005, na Ilha do Campinho, Baía de Camamu. Ao avistá-lo caminhando pelas areias da praia da ilha, convidei para ir até o Sitio Sabiá, pois desejaria que ele autografasse o livro, que tinha comprado anos antes e já havia lido umas três vezes. Ele sorriu meio envergonhado e disse: – Pode ser agora? – Pode, mas preciso ir até o Avoante buscar o exemplar. – Sem problema, pois assim vou buscar a Géu para autografar também! o Aleluia passou alguns dias ancorado no Campinho e retornou a Salvador. Tempos depois soube que Edson havia vendido o barco e refleti quando ele disse, “Marinheiro fica velho”. A última vez que nos vimos foi em 2014 no calçadão da Ribeira, em frente a marina Angra dos Veleiros. Ao passar por mim, falou: – Ainda no mar, Avoante? Tenho acompanhado seus escritos. Respondi: – Você é um dos grandes culpados! Ele sorriu e se foi. O Passageiro do Vento, Edson de Deus, partiu para os oceanos do Senhor, no sábado, 05/06/2021, data que ficará marcada pela tristeza no calendário náutico do Senhor Bonfim.       

Davi, um marinheiro

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A primeira vez que o vi foi no verão de 2005, na Baía de Camamu/BA, como imediato do veleiro Nó Cego, do comandante Zacarias. Chegaram durante o finalzinho da tarde e jogaram âncora sob as cores mágicas do pôr-do-sol, que naquelas paragens é de magnitude ímpar. Após a faina de bordo, desembarcaram e foram papear na cabaninha do restaurante do Sítio Sábia, até que o peso das 60 milhas de velejada, de Salvador a Ilha do Campinho, se apresentasse. Naquela noite vi que estava diante de um homem apaixonado pelo mar.

Na manhã do dia seguinte, enquanto caminhava pelo píer, percebi que ele se apressou em pular dentro do bote de apoio, amarrado na popa do veleiro, e saiu a toda no rumo de um rapaz que nadava da praia em direção aos barcos na ancoragem. O vi embarca o rapaz no bote e desembarcá-lo a bordo de um veleiro mais a ré, mas não percebi se comentou alguma coisa com os tripulantes do barco do rapaz.

Ao retornar ao Nó Cego, me viu no píer e mudou o rumo. – Você viu o que ia acontecer? – Não, apenas me chamou atenção a sua pressa. – Percebi que o rapaz estava cansando e me apressei para evitar uma tragédia! – E ele estava cansado? – Ele disse que não, mas estava, porque suas braçadas não davam impulso para frente e ele estava se afastando lateralmente. Naquele local a correnteza é traiçoeira nessa maré de fim de vazante, mas safei a onça dele e não contei ao pai. Achei melhor assim.

Na hora do almoço contei o ocorrido para Juvêncio, proprietário do Sítio Sabia, que disse entre risos que Xará era assim mesmo, pronto para ajudar quem quer que fosse e no mar estava sempre alerta. Contou também que ele participou do projeto das BAN’s – Bases de Apoio Náutico, ficadas a cada 20 milhas do litoral da Bahia, sendo o Sítio Sabiá uma delas, e que foi o idealizador do Guia Náutico da Bahia, livro com dezenas de rotas e waypoints, para alavancar o turismo náutico. O Guia foi lançado em vários idiomas, fez, e ainda faz, sucesso, mas as BAN’s, depois de vários anos de bons serviços, naufragaram no maledicente costume político de desmontar as boas coisas implantadas pelos antecessores.

Regamos e mantivemos boa amizade e sempre que nos encontrávamos ele queria saber das minhas navegadas, se eu tinha novas rotas, se estava precisando de alguma informação e até se tinha alguma modificação a fazer no Guia Náutico, porque fiz e refiz seus traçados em várias ocasiões e sempre em segurança. Como se diz: Naveguei as rotas traçadas e indicadas por ele, de olhos fechados.

Certa vez, navegava a bordo do catamarã Tranquilidade, de Natal para Salvador, quando o comandante Flávio Alcides, falou da intenção de conhecer a Baía de Tinharé e perguntou se poderíamos ir até lá. Falei que sim e que iriamos tomar umas cervejas geladas com ostras cruas, em Canavieirinhas, mas tinha um problema: Eu só conhecia a navegação até o município de Cairu. Na ocasião navegávamos ao largo do litoral sergipano e quando alcançamos o sinal de celular, liguei para Xará e perguntei se poderia me enviar a rota. Ele perguntou qual o modelo do GPS de bordo e disse que enviaria o arquivo para meu email, com as instruções para inserir no cartão de memória do aparelho. Assim foi feito!

Um ano depois, nos encontramos na marina Angra dos Veleiros e ele falou: – Nelson, foi bom você ter me perguntado sobre a rota até Canavieirinhas, pois fiz dois ajustes, que há tempos deveria ter feito. Não era nada que comprometesse a segurança, mas estava me deixando encucado

Em 2016 ligou perguntando se eu estava no Angra dos Veleiros, respondi que estava no Aratu Iate Clube. Disse que iria me ver. Chegou com um chip na mão, pediu meu GPS portátil, retirou o chip e inseriu o dele. – Pronto, agora você está mais bem equipado. Esse programa é novo e tem tudo o que você precisa para navegar pelo litoral brasileiro. Aproveite!

A última vez que nos falamos, por telefone, ele estava montando um grupo de WhatsApp, Escola de Sagres, e queria me incluir, mas para isso eu teria de enviar a foto da carteira de capitão amador, porque o grupo era exclusivo para capitão e ele precisava ter o registro de todos. Falei que não estava com ela em mãos e garanti enviar assim que retornasse para casa. – Nelson, você é o primeiro do grupo e a garantia será pelo fio do bigode.

Davi Perroni, Xará, professor, partiu na madrugada do sábado, 05/06/2021, para navegar nos oceanos do Céu. Ao receber a notícia lembrei da última conversa, peguei a carteira de capitão e disse baixinho: – Desculpe, caro e bom amigo, garanti que iria enviar e você nunca me cobrou.

E o mar da Bahia ficou um pouco mais triste!

Nelson Mattos Filho

O ovo

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Ora, seu menino, não estou mais para me espantar com as coisas do mundo, ainda mais nesses tempos coisados onde o espanto nem espanta tanto quanto o malfeito dos arteiros, mas digo que dia desses me vi rindo pela surpresa de ler uma crônica do jornalista Vicente Serejo, no jornal Tribuna do Norte, intitulada “O ovo criminoso”, e reparar que estão querendo colocar freio demais nesse mundo velho de guerra. Como bem disse quem disse: “A Terra não é plana, mas está muito chata! ”

Desde “antonte” que o ovo entra e sai – que nem couro de “joelho” – da lista dos grandes vilões da saúde dos sapiens, numa clara demonstração de que por dentro dos tubos de ensaio da ciência, queiram ou não os extremados, os jornalistas, os torquemadas do sim ou não, os pitaqueiros de plantão e os que arrotam sabença e certezas, as equações, os mistérios e os segredos não seguem a quadratura das partituras e os remédios indicados para os possíveis efeitos maléficos do ovinho– ou seriam impossíveis? – seguem em passos mambembes pelas veredas dos caminhos sem as devidas comprovações, mas surtindo bons resultados de cura diante da fé dos que neles acreditam.

Pois bem, já não bastasse a pecha de entupidor de coronárias, agora o ovo entrou na linha de tiro da justiça brasileira e, pelo jeitão que estão carregando a bandeja, vai sentar no banco dos réus e é bem provável, para desespero do galinheiro, que logo estará frente a frente com uma supremada cabecinha lustrosa, que nem…, deixa pra lá.

Acusações como, “gesto criminoso gravíssimo, trama, maquinação e conspiração” estão sendo usadas em inquéritos contra quem se arma com um inocente ovo para “atentar contra a vida” ou lambuzar o terno bem cortado de um poderoso qualquer. E para quem acha que os inquéritos são parciais, pode ir tratando de passar um lenço na lambança, porque os resmungos vêm dos dois lados do muro.

Só tomara que as casas legislativas, instigadas pela militância dos malcheirosos omeletes, não convoquem a CPI do ovo. Se assim acontecer é bem capaz que o dono do carro do ovo da galega, que abastece a comunidade de Enxu Queimado, seja intimado a depor, sob a acusação de vender uma bandeja de “granadas” sem o devido porte de armamento.

Não pretendia sentar diante do computador para juntar letrinhas e falar do chorume que escorre pela lapela dos fariseus, pois acho mesmo que eles merecem. O que chamou minha atenção na crônica de Serejo, foi um tal de ovo esfalfado, que segundo ele, é uma receita ‘dos nossos patrícios de além-mar’.

– E o que danado é ovo esfalfado? Foi isso que me deixou encucado durante o almoço na casa de Ceminha, minha Mãe, e que rendeu várias confabulações e ferozes pesquisas no modernoso e feiticeiro pai dos burros digital, que tudo sabe e tudo diz, mas dessa vez ficou pelo dito e o não dito.

Luciano, casado com minha sobrinha, disse que sabe o que é ovo apalpado e ovo encarcado, mas esfalfado nunca ouviu falar. O pai dos burros googleano, indicou ‘escalfado’, que acho ser a mesma coisa e a culpa da mudança do “f” pelo “c” fica por conta das intempéries e elucubrações da travessia oceânica. Os entendidos nas artes das panelas, que ouvi, dizem que escalfado é quando o ovo é colocado inteiro, e sem casca, na panela, até que fiquem cozidos por fora e a gema mole. Sei lá, só sei que estou matutando o juízo com o esfalfado!

Na ilha do Campinho, baía de Camamu, Juvêncio, ex-proprietário do Sítio Sabiá, preparava, no café da manhã, ovos a la rancheira, que era uma receita deliciosa, dizendo ele ter aprendido com uma mexicana. A receita era preparada com legumes, muito molho shoyu, pimenta do reino e ovos nadando sobre a mistura até ficarem, acho eu, tipo escalfados. Comíamos até o bucho ficar por acolá e ainda lambíamos os beiços.

Eh, pensando bem, acho que não tenho motivos para ruminar sobre os ovos, porque é uma questão inexorável de semântica, problema teria se o carro do ovo passasse anunciando: Esfalfe os ovos da galega, por apenas dez reais! Seu menino, o rebuliço em Enxu ia ser grande e talvez até, como diria Odorico Paraguaçu, a coisa “entraria para os anais e menstruais…”

Esfalfado? Lá ele!

Nelson Mattos Filho

Curiosidades

NAVIO MONITOR PARNAÍBA

Curioso pra danado, me avexei a pescar na página do facebook, Navegantes do Mar de Oceano, timoneada pelo maranhense Jorge Dino, um pedacinho da história do mais antigo navio de guerra da Marinha do Brasil.

Monitor (Navio de Guerra)!!!
Monitor era um navio de guerra relativamente pequeno que não era nem rápido nem fortemente blindado, mas carregava armas desproporcionalmente grandes.
Usados ​​por algumas marinhas da década de 1860, durante a Primeira Guerra Mundial e com uso limitado na Segunda Guerra Mundial.
Durante a Guerra do Vietnã, eles foram usados ​​pela Marinha dos Estados Unidos .
O monitor original foi projetado em 1861 por John Ericsson , que o nomeou USS Monitor .
Projetados para águas rasas serviram como navios costeiros.
O termo às vezes era usado como genérico para qualquer navio com torres.
O Parnaíba da Marinha do Brasil é o último monitor em serviço.

Padrão Colonial de Touros

11 Novembro (286)

O fascinante é que na história não cabe o ponto final. 

Fui buscar nos arquivos de Eduardo Alexandre Garcia (Dunga), escritor, fotógrafo, agitador cultural, irrequieto irremediável e apaixonado por Natal, um texto do saudoso jornalista e acadêmico Nilson Patriota, contando um pedacinho da história do Marco de Touros, história essa tão cheia de  atalhos e veredas. De uma coisa eu sei: Se o Marco não tivesse sido resgatado em 1972 pelo acadêmico Oswaldo de Souza, com a promessa de um dia retornar ao local em que foi chantado, promessa que nunca se cumpriu, seria hoje apenas uma triste, dolorida e esfacelada lembrança.  

Nilson Patriota

O Marco de Touros, o mais antigo padrão colonial do Brasil, foi chantado em território brasileiro (praia de Ubranduba, Touros, RN) no dia 7 de agosto de 1501 pela expedição manuelina comandada, segundo Câmara Cascudo, por Gaspar de Lemos, ou, conforme outros autores, por André Gonçalves. Por motivos atualmente mais que justificados, a tendência é se reconhecer o comando de Gaspar de Lemos (1). A convite de Dom Manuel I, e na condição de piloto ou cosmógrafo, fez parte dessa expedição o navegante florentino Américo Vespúcio (2).

No referido marco não figuram data nem inscrição. Porém, no terço superior de uma das suas faces, destaca-se a escultura em alto-relevo da cruz da Ordem de Cristo, armas e quinas dos reis de Portugal.

Os padrões coloniais tipificavam o domínio oficial da Coroa Portuguesa sobre suas colônias e possessões.

Em 1483, em viagem exploratória na costa africana, o navegante português Diogo Cão chantou um desses padrões na foz do rio Zaire. A partir daí, os padrões de pedra lioz passaram a substituir as cruzes de madeiras usadas para afirmar a autonomia de Portugal sobre as terras conquistadas ou descobertas para o serviço de difusão da fé cristã.

O primeiro registro do padrão colonial de Touros foi feito no final do século XIX pelo historiador pernambucano José Vasconcelos, em seu livro Festas Notáveis da História do Brasil.

A 7 de agosto de 1928, os historiadores Luís da Câmara Cascudo e Nestor dos Santos Lima (do IHGRN) foram ao local da chantadura do Marco de Touros, tomaram-lhe as medidas e dele fizeram completa descrição.

Em janeiro de 1972, o acadêmico Oswaldo de Souza, representante do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, esteve várias vezes na Praia dos Marcos (3), na intenção de convencer os moradores do lugar a concordarem com a transferência temporária do marco de Touros (4) para Natal. Após inúmeras gestões a população da localidade onde o monumento histórico se encontrava, acabou cedendo à argumentação do historiador Oswaldo de Souza. Em Natal o marco foi exposto na Fortaleza dos Reis Magos, onde ainda aguarda o dia em que voltará ao lugar de sua primitiva chantadura.

1) Era Gaspar de Lemos o piloto da nau enviada a Portugal pelo almirante Pedro Álvares Cabral para levar a notícia do descobrimento ao rei Dom Manuel. Pelo menos 3 documentos escritos ele levava: “a carta do piloto anônimo, a carta de mestre João e a longa exposição do escrivão Pero Vaz de Caminha, com detalhes sobre a terra descoberta e os seus habitantes.

2) Américo Vespúcio, presente à solenidade de chantadura do Marco, afirma em duas de suas missivas que o desembarque na costa brasileira ocorreu a 7 de agosto. Mas na “Lettera”, outra missiva de sua autoria, ele revela que foi a 17 de agosto, o que me parece verdadeiro. O acontecimento teria acontecido após a expedição alcançado o cabo de São Roque no dia anterior, 16 de agosto de 1501.

3) Praia dos Marcos porque o padrão colonial se compunha de três peças: o marco propriamente dito e seus dois tenentes ou testemunhas feitas da mesma pedra de Lioz então abundante em Portugal. Ubranduba era como primitivamente se denominava a praia em que foi o marco chantado.

4) Marco de Touros, porque a praia onde foi encontrado pertencia a esse município.

O Templo e o Forte

TEMPLO DE MUSSENDEN - IRLANDA DO NORTEFORTALEZA DOS REIS MAGOS - WAGNER

É inveja, sim e não poderia ter outro sentimento quando me deparo com as imagens do Bing que de forma dinâmica embelezam a tela inicial do meu computador. Já comentei várias delas por aqui e não me canso de comentar, porque sempre lembro das inúmeras obras, verdadeiros tesouros da engenharia humana e da natureza, espalhados pelo Brasil, terrivelmente, descaradamente, criminosamente jogadas ao descaso. Hoje o Bing estampou a imagem do Templo de Mussenden, Irlanda do Norte, construído em 1785, a 10 metros da beira de uma falésia,  para satisfazer as vontades e o ego do conde de Bristol, tanto foi assim que a engenharia usa a palavra “folly”, construção que serve apenas como decoração, mas também pode significar capricho, contra-senso e besteira. O conde usou o capricho para acomodar sua biblioteca, mas a umidade era tão grande, devido a proximidade com o mar, que era necessário manter o ambiente permanentemente aquecido por um fogo no subsolo. Dá para concluir que o Conde não aceitava conselhos e pela sua cabeça condada não passava a palavra erosão e nem sei se naquele tempo o termo era conhecido, se era e o engenheiro lembrou de comentar, o conde o mandou para aquele lugar. Pois bem, por mais de 200 anos a natureza foi comendo devagarinho e quando os meninos do instituto de preservação do patrimônio natural e histórico da Inglaterra – por lá a coisa funcional– deram por fé, xingarem até a última geração do conde, arregaçaram as mangas em 1997 e desde lá lutam para manter o terreno estabilizado na esperança de preservar a história para as novas gerações. Enquanto isso, na foz do Rio Potengi, uma das mais fascinantes construções da época da colonização, o Forte dos Reis Magos, marco inicial da cidade do Natal, construído em 1599, duzentos anos antes do Templo de Mussenden, está há 422 anos praticamente sem sofrer ameaças da natureza, mas está sendo destroçado e corroído pela insensatez, irresponsabilidade, desfaçatez e ego inflado de meia dúzia de ocupantes de cadeiras de institutos e secretarias de governo, que autodenominam-se intelectuais e bons administradores.

Alarido

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Uma discussão nos grupos virtuais dos amantes do mar, sobre as mudanças nos exames, 2021, para habilitação de navegante amador, me transportou para um bate-papo, a bordo do Avoante, em 2009, durante a travessia entre a ilha de Fernando de Noronha e Natal.

No lusco-fusco de um fim de tarde de sábado oceânico, o comandante Francisco Vasconcelos, na época Capitão dos Portos do Rio Grande do Norte, que fez questão de embarcar no Avoante no retorno ao continente, deixou de lado as dragonas e levou ao centro do cockpit uma sensata opinião sobre as carteiras de amador, que diante das condições de faroeste dos elementos, vento e mar, daquele dia, me fizeram navegar em reflexão até que uma onda estourou na bochecha de bombordo e despejou sobre convés uma deliciosa ducha com a pureza e benção de Netuno.

Vascon, como carinhosamente e chamado pelos amigos que plantou em solo potiguar, falou que as provas de amador precisavam de uma boa revisão para que impingissem mais responsabilidade ao navegante, valorizassem a modernidade que a todo instante saltava aos olhos e oferecessem condições para que todo aquele que desejasse se fazer ao mar assim o fizesse, mas sabendo eles que enfrentariam, verdadeiramente, a força da lei caso descuidassem das suas responsabilidades, pois é assim que acontece em vários países do mundo.

Aliás, em alguns países, como os EUA, a partir de 35 anos, o pretendente a navegante amador não precisa ter nenhuma autorização para comandar uma embarcação, pois as leis vigentes no país já bastam. Para quem tem abaixo de 35 anos, basta um simples teste de orientação, para que ganhe o mundo.

Por aqui temos carteiras de motonauta, arrais, mestre e capitão, todas com provas complexas, mas que na prática não provam nada, e quando o encarteirado se mete em encrencas, escapa, assim como todo encrencado, pelas brechas da lei e ainda passa a gozar de prestígio.

Pois bem, segundo contam, o alarido é porque foram abolidas da prova de capitão amador, 2021, questões sobre Rosa de Manobra, matéria importada das salas de comando das grandes embarcações e que 99,999999% dos navegantes amadores jamais fizeram uso e só têm conhecimento quando pretendem enfrentar a prova de capitão e depois, de tão sem propósito diante das fascinantes invenções eletrônicas que equipam embarcações de esporte e recreio, abandonam o pseudoconhecimento nos cafundós mais inacessíveis dos porões.

Concordo que quanto mais conhecimento e experiência um marinheiro levar a bordo, mas a chance de sucesso na navegação, porém, isso não pode ser impedimento para a realização do sonho dos aventureiros e muito menos para barrar a força da experiência em prol da teoria. Não é uma simples carteira que define um homem do mar e muitos dos grandes navegadores não as reconhecem e até desdenham.

Quando me perguntam o que precisa para navegar para fora do Brasil, respondo que basta ter um barco, a vontade e a disposição de seguir em frente. O demais fica por conta e crédito das informações ditas por aqueles que não navegam além da sombra de uma varanda de clube.

Certa feita, conversando com um navegador alemão, que tinha registrado no diário de bordo mais de uma dezena de voltas ao mundo, ele perguntou quantas vezes eu tinha ido a ilha de Fernando de Noronha no meu barco. Na época, respondi, oito, mas a partir daquele ano só poderia ir se tivesse carteira de capitão. Ele arregalou os olhos e disse: – Por que? Dei risadas, ele balançou a mão em sinal de maluquice e mudamos de assunto.

Fico feliz em saber que a Marinha do Brasil decidiu rever as questões das provas de amador e tomará que aprofunde nessas mudanças, deixando-as mais próxima da realidade de um país com mais de 8,5 mil quilômetros de litoral, que precisa democratizar o seu mar, um dos melhores do mundo, tornando-o acessível a novos navegantes e assim, contribuindo para a implementação de novos estaleiros.

Para que o marulhar tomasse forma de mar grosso e o enjoo fosse maior, deveriam ter abolido também as questões sobre navegação astronômica.

Eh, Vascon, aquelas palavras soltas aos alísios, estão ecoando por aí!

Nelson Mattos Filho

Um velho diário

Velho Diário

Meus olhos te viram triste/Olhando pro infinito/Tentando ouvir o som do próprio grito/E o louco que ainda me resta/Só quis te levar pra festa/Você me amou de um jeito tão aflito…

Seguia pela avenida ainda envolvido pela sombra tétrica da onça caetana, de feições orientais, que se afastava em passos lentos, porém, dando longas paradas para olhar para trás, talvez se sentido estúpida por ter deixado escapar a presa ou, quem sabe, para ter a certeza de ter tatuado o medo para sempre em meu rosto. Seguia aliviado por ter ouvido da doutora, mesmo sem ela ter visto os últimos exames, que eu estava pronto para voltar ao convívio social.

No cruzamento, enquanto esperava sem pressa o sinal abrir, displicentemente liguei o rádio do carro e a bela composição de Vander Lee preencheu o pequeno ambiente. Sem dizer nada, mas com os olhos marejados, olhei para Lucia, enquanto ela cantarolava baixinho, e percebi o quanto aquela obra poética contava um pouco dos oitos dias de inquietude que vivemos.

Que eu queria poder te dizer sem palavras/Eu queria poder te cantar sem canções/Eu queria viver morrendo em sua teia/Seu sangue correndo em minha veia/Seu cheiro morando em meus pulmões…

O sinal abriu, virei a esquina e não me arrisquei a conferir através do retrovisor se a danada da onça ainda me observava. Acelerei, tentei cantar, mas as palavras não saiam, talvez porque estivesse embebecido pelos sons melodiosos que saiam dos lábios do meu amor. Precisava ouvi-la cantar. Precisava respirar seu grito em meus pulmões. Queria ouvi-la cantar mil canções e aquela era apenas a primeira do meu novo sopro de vida.

…Cada dia que passo sem sua presença/Sou um presidiário cumprindo sentença/Sou um velho diário perdido na areia/Esperando que você me leia/Sou pista vazia esperando aviões..

Oito dias sem seu abraço, sem seus beijos, sem sentir seu cheiro, sem seus chamegos, sem alisar seus cabelos, sem um mísero toque de mão. Oito dias perdido em devaneios, sem chão, sem alegria, sem orientação e sendo sobrevoado por uma aeronave carregada de artefatos de loucura.

Que doença medonha! Quem a criou sabia que colocaria os gigantes de joelho aos seus pés. Que dominaria nações. Que seria reverenciado e temido. Sabia que se tornaria o dono do mundo, pois ele, diferentemente dos super-heróis, é de carne e osso. Ele é real, inatingível, com milhões de disfarces e dono de uma retórica inabalável e cruel.

Diante da força maléfica do monstro eu não era nada e a cada segundo ele me fazia saber dessa verdade. Dormia sobressaltado. Sonhava com o nada. Acordava com a incerteza dos segundos seguintes. Aspirava sem saber se conseguiria respirar novamente e olhava em volta sem enxergar o horizonte.

Sou o lamento no canto da sereia/Esperando o naufrágio das embarcações”

Naveguei em uma Nau sem timoneio, em meio a tempestade, sobre um mar apinhado de rochedos e ouvindo ecos de um canto lamurioso. A tempestade passou e quando as nuvens se dissiparam, cacei as velas e segui em frente empurrado por uma brisa leva.

Passando a vista no convés senti falta de velhos companheiros, olhei para trás e os vi se afastando na esteira da embarcação.

Não me foi permitido dizer adeus!

Obrigado, Doutora Kyvia Bezerra Mota.

Nelson Mattos Filho

“As Palavras e o Mundo Cínico”

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Neste domingo, 23/05, meio assim sei lá, porque todos os domingos para mim são assim sei lá, busquei na cachola palavras para juntar em um escrito, mas elas escaparam pela tangente, talvez fugindo do meu senso de humor dominical, que sempre se apresenta angustiado e armado com navalhas de duplo corte. Para desanuviar as ideias larguei de mão o editor de texto, para alívio dele, pois sempre dá nó em pingo d’água para  pelo menos tentar aprumar meu português barato, coisa que jamais consegue e larga de mão quando perde a paciência com as tortuosas regras ortográficas dos meus escrevinhados. Pois bem, com o Jarbas, o editor, suspirando aliviado, fui navegar pelos campos férteis dos doutores e mestres das letras e entre inúmeras coisas boas, me apeguei em reflexões ao ler o texto do Sr. Napoleão Veras, postado na coluna do Dr. Domicio Arruda, no site Território Livre. Confesso que não pedi licença para copiar e colar, só tomara que minha pena seja leve.     

* Napoleão Veras

Hoje bem cedo, ainda na cama, Clarice lembrou-me que cada coisa é uma palavra.

Fiquei a ruminar sobre a passagem da Hora da Estrela, e mais, a conferir preguiçosamente até aonde vão as pernas da afirmação.

A marina de Dorian Gray dependurada em frente, a nostalgia daquele universo diáfano, um nome para cada cor.

O espelho comprido a um canto que não me reflete, fonte de revelação e decepção.

Da música de Miles Davis, que acabo de tocar, a harmonia que desejo para esta manhã. A elegância do Concierto de Aranjuez, melodia concebida para arranjo de violão clássico e orquestra, e gravada pelo genial Miles com trompete apenas.

Um parafuso ali esquecido na bancada, agora imprestável após uma força desproporcional, por isso o adjetivo, estuprado.

Na realidade me toco, ao contrário do que diz Clarice, nem todas as coisas estão nomeadas. As línguas não abarcam tudo. Nem quero relembrar o questionável só é possível filosofar em alemão, de Caetano.

A saudade, esse sentimento que nos enche o corpo e a a alma, comum à criatura humana seja daqui, da Manchúria, de Serra Leoa, dos Paises Bascos, apenas o português e o árabe têm vocábulos para dizê-la.

Alguns podem até morrer de saudade, mas, chamá-la pelo nome, só a nós e aos árabes é possível fazê-lo.

Povos africanos de Moçambique, me parece , por medo ou superstição, não criam palavra para determinadas coisas ou sentimentos para não atraí-los.

Tristeza, uma delas.

Se não existe o nome, imaginam, o sentimento fica mais difícil achegar-se. Ideia semelhante também no nordeste profundo de todos nós, de que determinadas palavras atraem coisas ruins. Não dizê-las; no caso, sequer fazê-las existir.

Como não existir também as bombas, os mísseis, que caem agora em Jerusalém e na Faixa de Gaza sobre crianças e anciãos acamados. Carregam consigo o combustível letal e abominável que responde pelo nome de estupidez humana. E quando a imprensa mundial reporta-se sobre o massacre, a manchete é quase sempre cínica: Guerra renhida entre palestinos e judeus.

Guerra, que Guerra, cara-pálida?

Outra imagem da semana: bebê marroquino lívido, frio, sem responder a estímulos, no lastro de uma barcaça, em companhia dos pais, e de mais 8 mil africanos que tentam por todos os meios e águas chegar à Espanha, e quem sabe escapar da fome, da miséria. O aparato policial impedindo, devolvendo-os à morte.

Os discursos contraditórios da União Europeia. A Europa civilizada, oráculo e palmatória do mundo, de costas às palavras da moda que adora pronunciar, cobrar e ensinar aos coitados terceiro-mundistas: empatia, humanização, solidariedade.

A empatia só lhes aparece na hora de contar os cadáveres.

Não será por acaso genocídio apropriar-se das vacinas fabricadas em todo o mundo para combater a pandemia?

Por que os países ricos, que detém apenas 13% da população do planeta, negociarem mais de 70% da produção mundial de imunizantes?

A África conseguiu comprar um 2% de sua necessidade.

Os EEUU que estocaram milhões de vacinas, um excedente pra humilhar, agora atraem turistas usando a promessa de imunização como moeda de troca; imunizam crianças cujos estudos não comprovam estatisticamente sua necessidade, e atraem a clientela refratária com oferta de vacina, batata frita e, provavelmente, catchup.

Um escárnio.

O topo do poder econômico e político mundial sem gesto de compaixão. O que os ricos americanos e europeus fizeram para assistir os desvalidos da pandemia?

Quando o Brasil atingiu as mais de três mil mortes/dia por Covid, uma tragédia com todas as tintas, nenhum país do dito primeiro-mundo compadeceu-se, estirando a mão com ajuda, vacina, ou algum consolo. Silêncio e desprezo.

A audição chega agora (costumo escrever com a música nas alturas) às lindas canções do Led Zeppelin. Uma que tenho adoração — pela estranheza e força poética, Stairway to Heaven:

Há uma dama que acredita.

Que tudo o que brilha é ouro.

E ela está comprando.

Uma escada para o paraíso

E quando chega lá percebe que

Com uma palavra

Ela consegue o que foi buscar.

Resgate

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Marinha do Brasil, informa: “O Navio-Patrulha “Grajaú” resgatou, ontem (15), a jangada “Vasco II” e seus dois tripulantes, após três dias de buscas. A embarcação de pesca foi encontrada pelo navio da Marinha a 5,5 km da costa. Os pescadores foram levados em segurança ao Porto do Mucuripe (CE).”