Corrigindo o rumo

GUGAGustavo-Pacheco-01

Pois foi, na hora de caçar a vela puxei a escota errada e só dei por fé quando o barco panejou e a tripulação, sempre alerta, gritou: – Comandante, qual o rumo mesmo?  No texto, O velejador que faz bumbo, o Gustavo, Guga, é o Peixoto, o Pacheco é o “Rato”, que não faz bumbo, mas assim como o outro é lenda viva do iatismo brasileiro. E sendo assim, a cabeça de vento desse escrevinhador trocou Peixoto por Pacheco, mas já desfez o rebuliço     

O velejador que faz bumbo

AVE RARAGUGA

Tem personagens no mundo dos veleiros que são impagáveis e suas estórias navegam por entre ondas de causos e lendas a alegrar bate papos, regados a cervejas geladas, nos palhoções dos clubes náuticos. No rol das boas estórias da vela de oceano, não podem faltar as estripulias do grande Guga, Gustavo Peixoto, comandante em chefe da nau pernambucana Ave Rara, barco que ele defendia e fazia voar baixo como nenhum outro.

Certa vez a flotilha da REFENO foi alertada que uma frota de navios de guerra dos EUA poderia cruzar a rota entre Recife e a Ilha de Fernando de Noronha, e os comandantes dos veleiros deveriam manter vigilância redobrada durante a prova. Porém, os navios da marinha brasileira, que acompanhavam a regata, não informaram, não sabiam ou não podiam, em que momento se dariam o rumo cruzado. A frota americana cruzava os limites do mar brasileiro em rumo batido para o Golfo Pérsico, com as baladeiras afiadas e azeitadas para trocar desaforos com os iraquianos, povo brabo que nem siri numa lata.

Naquele tempo, as exigências da Marinha, para os participantes da REFENO, não passavam de uma lista de recomendações, desejos de boa navegada e uns pra que mais dos defensores da natureza da ilha maravilha. Com as informações anotadas na cachola dos comandantes e tripulantes, a flotilha partiu do Marco Zero, no Porto do Recife, caçaram as velas e logo que deixaram a Boia Norte por bombordo, aproaram no rumo 60º e mandaram ver. – Guga, tá lembrando dos navios de Tio Sam? – Homi, esqueça isso e cace mais essa genoa, pois daqui a pouco quero tomar uma em Noronha!

No meio da madrugada Guga avistou luzes se aproximando por bombordo, mas manteve o rumo e ouviu o chamado pelo VHF, com ordem para se afastar do rumo dos navios da frota dos EUA. Sem pestanejar, pegou o microfone e disparou: – Se afastem vocês, pois estão no meu país e não vou mudar o rumo, não! Imediatamente um helicóptero deu um rasante ameaçador sobre o Ave Rara e quando acenderam um holofote para ver quem era o maledicente, só avistaram um dedão estirado.

Os porres de Guga na ilha são homéricos e numa noite ele chegou na frente da casa de Carlinhos, ponto de encontro da turma de Natal e onde sempre fazíamos churrascos comunitários, tomado de dores com alguma desavença no Bar do Cachorro. Com o álcool em nível elevado, ele nem conseguia completar as frases e como ninguém entendia patavina, ele começou a arrastar os pés para trás. Vendo a cena, o velejador Fernando Luiz perguntou a Carlinhos: – Porque ele está ciscando? – Sei lá, acho que ele acha que é um galo!

Joca, outra figura impoluta, conta que uma noite ele e Guga vinham da Baía Sueste, em direção ao Porto, quando passaram na frente de uma pousada chique, deram de cara com um casal bem-apessoado, que fizeram festa ao ver Guga e até convidaram para um drinque, que por incrível que pareça, não foi aceito. Ao se despedirem, Joca perguntou quem eram. – Estudaram comigo. Ele é cardiologista e ela é juíza federal. – Como assim, estudaram com você? – Joca, a vida é assim, tem gente que dá certo e tem gente que não dá. Pra mim deu certo, pra eles não! E assim, seguiram rindo noite adentro.

Certa noite na casa de Carlinhos, de onde se avista a mais linda paisagem do Porto de Santo Antônio, perguntei a Guga o que ele fazia quando não estava velejando: – Eu faço bumbo, velejar é hobby. – Faz bumbo? – Sim, fabrico bumbo para um monte de bandas de Pernambuco e de São Paulo. E agora estou montando o bloco “Tá podre, mas tá bom”, para participar do Carnaval de Olinda e azucrinar o “sistema”! – Eu posso fazer parte? – Claro que sim!

Numa regata Fernando de Noronha/Natal, a primeira após a inauguração da Ponte Newton Navarro, sobre o Rio Potengi, a comissão de prova, ao dar as coordenadas, salientou que as luzes da Ponte eram avistadas a partir de 15 milhas e, para quem se aproximasse de Natal, na madrugada ou a noite, não tinha errada. Como o Ave Rara sempre chegou em primeiro e durante o comecinho da madrugada, a tripulação não conseguiu visualizar a iluminação alardeada. No desembarque foram informados que a fiação havia sido roubada. No dia seguinte, na hora da premiação, Guga falou: “– A Ponte está apagada por um motivo justo: Distribuição de rendas!”.

O velejador Gustavo Peixoto, é um cara literalmente com os pés no chão e quando não está velejando ou fazendo bumbo, tem sempre uma latinha de cerveja ou uma dose de cachacinha na mão. É um cara do bem, de personalidade forte e extremamente sincero. Com Guga não tem meio termo e era pensando assim que ele assumia a cana de leme do Ave Rara, em Recife, e só desgrudava quando cruzava a linha de chegada no Boldró. Como ele dizia: “Sem tirar de dentro! ”.

Nelson Mattos Filho

Fita Azul

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“Em simbolismo, fita azul é o termo usado para descrever algo de alta qualidade. O uso veio da banda Azul, um prêmio concedido, por linhas de passageiros, a barcos que cruzam em menor tempo o Oceano Atlântico ou o primeiro barco a cruzar a linha de chega de uma regata, a famosa Blue Riband – Fita Azul. ”

Recorri ao Wikipédia para ilustrar a definição de Fita Azul no acirrado mundo do iatismo, mas não precisava, porque foi uma das primeiras coisas que aprendi, com o comandante Cláudio Almeida, quando entrei no mundo dos veleiros, tendo ele como professor.

Ao navegar por entre os veleiros da regata Fernando de Noronha/Natal ancorados em frente ao Iate Clube do Natal, em 1999, percebi que apenas um barco exibia uma fita azul tremulando no alto do mastro e perguntei a Cláudio o motivo. Ele disse que aquele tinha sido o primeiro barco a cruzar a linha de chegada, receberia um troféu, era o mais festejado, mas não significava que seria premiado na classe que participava. – Poxa, se ele foi o primeiro a chegar entre todas as classes, como não será o primeiro na classe dele? – Nelson, as regras de regata levam em conta uma série de fatores, medições e um dia você irá entender, mas o bom mesmo é competir.

Pois é, eu nunca consegui entender as regras de regata, mas também nunca fui um competidor apaixonado, apesar de ser feroz incentivador e ter participado de inúmeras. Usava as competições eletrizantes para aprender um pouco mais sobre regulagem de velas, conseguir o máximo de rendimento do barco, porém, no pódio, nunca alcancei o degrau mais alto.

O troféu que mais festejei foi o penúltimo lugar em uma REFENO – Regata Recife/Fernando de Noronha, Troféu Tartaruga Marinha, que além da enorme fuzarca na noite da premiação, tive aos meus 15 minutos de fama ao ser entrevistado pela TV Golfinho. Aliás, ganhei também o Tartaruga Marinha, no mesmo ano, na outrora regata Fernando de Noronha/Natal. – O Avoante é um barco lento? – É não, o comandante que era meio desligadão!

Voltando ao Fita Azul, o barco que mais vi ganhar a premiação foi o trimarã pernambucano Ave Rara, com o fabricante de bumbo, Guga, no comando. Mas foi na REFENO 2013 que percebi que a Fita tão desejada estava começando a desbotar, chamuscada pelas labaredas das fogueiras das vaidades.

Naquela edição da prova, o veleiro Magia V, comandando pelo Torben Grael, chegou em primeiro, mas a Fita Azul foi entregue ao Ave Rara, que chegou minutos depois. O argumento da comissão de prova foi que o veleiro pernambucano havia largado 30 minutos depois e por isso, entre contos, pontos e contrapontos, decidiram que era justa a premiação. No alto do pódio, Guga envergonhado pela decisão, recebeu a Fita Azul, fez um breve discurso de protesto e se dirigiu ao Torben para entregar o troféu que por direito lhe pertencia. E assim, uma Fita Azul, dividida ao meio, tremulou na ancoragem do Porto de Santo Antônio.

Nos dias de hoje, quando vejo a premiação de Fita Azul sendo distribuída indiscriminadamente entre as várias classes de veleiros de uma regata, com a intenção apenas de amaciar o ego de alguns, fico imaginando em qual quadrante de vento deixamos para trás a ética náutica tão cultuada pelos iatistas do passado.

Certa vez, em um bate papo sobre as tábuas da varanda do clube baiano Angra dos Veleiros, um amigo regateiro e medidor de veleiros, se esforçou para justificar que o novo entendimento, de uma Fita para cada classe, era um incentivo a mais para os competidores e era mais do que justo. Olhei para ele, pensei em responder, ele baixou a cabeça, para não me encarar, sorriu amarelo, e falei: – João, traga outra cerveja cu de foca!

Eh, Cláudio Almeida, jamais esquecerei seus ensinamentos, mas aquela Fita não é mais azul. Sou mais o troféu Tartaruga!

Nelson Mattos Filho

A Basílica de Acari

BASÍLICA DE ACARI

Padre João Medeiros Filho, ocupante da cadeira 18 da Academia Norte-Riograndense de Letras, é um dos mais brilhantes intelectuais do Rio Grande do Norte e um dos grandes estudiosos do cristianismo. Sou leitor fervoroso dos seus artigos, nas terças-feiras, no jornal Tribuna do Norte, e tenho a alegria de ser um dos endereçados dos seus textos, que os recebo e arquivo com imenso carinho. Eu, como homem do mar e devoto do Senhor do Bonfim, não poderia deixar de registrar a história da Basílica de Acari, dedicada a Virgem Mãe da Guia. 

Padre João Medeiros Filho

Nossa Senhora da Guia é uma invocação mariana ligada ao dogma da Assunção, cuja festa é celebrada em 15 de agosto. Subindo aos céus, Ela tornou-se guia de nossa peregrinação em busca da Pátria definitiva. Historicamente, a devoção teve origem na Igreja bizantina, no século VII, onde a Mãe de Cristo é venerada como “Hodegétria” (orientadora de caminhos). Um ícone retrata Maria com o Menino Deus no colo, indicando-o como o caminho (Jo 14, 6). Por esta razão, passou a ser louvada como “estrela nos mares de nossa vida”, segundo o poeta Claudel. O culto foi adotado no Ocidente, desde o século XI, difundindo-se em vários países, inclusive Portugal.

Os lusitanos trouxeram a veneração para o Brasil. Na corte, comemorava-se a solenidade junto com a do Senhor do Bonfim. Segundo pesquisadores, nas primeiras décadas de 1700, um capitão da Marinha Real aportou em Salvador (BA), trazendo as imagens de Nossa Senhora da Guia e do Senhor do Bonfim. Ambas foram entronizadas na Igreja da Penha, em Itapagipe. Portugal de antanho voltava-se para as atividades marítimas, associando o orago à proteção contra os oceanos bravios. À época, nos sertões seridoenses, de atividade pastoril, havia necessidade de tanger rebanhos por fazendas e lugares incertos (potiguares e paraibanos). Os tangedores suplicavam o auxílio da Virgem Mãe da Guia para chegar aos seus destinos. Começa assim tal crença, nas plagas do Acari, em 1737. Posteriormente, em 1790, chegou a Patos (PB), uma das possíveis rotas dos tropeiros.

Inegavelmente o culto secular a Maria Santíssima, no Seridó, já seria motivo digno de todas as homenagens dos fiéis. A Paróquia de Acari é a primeira freguesia do Seridó dedicada à Mãe de Deus e a segunda erigida naquela região. Foi desmembrada de Santana de Caicó, em 1835. Na sua criação, pertencia à diocese de Olinda (PE), cujo bispo Dom Frei João da Purificação Marques Perdigão era natural de Viana do Castelo (norte de Portugal), onde se reverencia também Nossa Senhora com tal invocação. Entretanto, não bastariam apenas argumentos históricos para elevar a matriz acariense à dignidade de basílica, a única do RN até o presente.

Acari sempre se distinguiu por sua piedade mariana. Hoje, fala-se em Terço dos Homens. No entanto, já nos idos de 1950, a oração era ali rezada piedosamente com significativa presença masculina, liderada por Artur Cortez, pai do inolvidável Padre José Dantas Cortez. “A liturgia e os atos religiosos na Matriz do Acari nada deixam a desejar aos ritos e cerimônias dos importantes templos brasileiros e europeus”, ressaltava Dom José Adelino Dantas, segundo bispo de Caicó. É digno de encômios o esmero do canto sacro nas missas e novenas solenes, legado do exímio compositor Felinto Lúcio Dantas. A vivência espiritual mariana da Matriz da Guia marcou também as paróquias dela nascidas. Primeiramente, Jardim do Seridó surgiu sob a égide de Nossa Senhora da Conceição. Florânia floresce com o culto à Senhora das Graças (Santuário do Monte). Cruzeta tem sua matriz consagrada à Virgem dos Remédios. Currais Novos, além de uma comunidade paroquial devotada à Imaculada Conceição, herdou de Acari o amor ao Coração de Jesus e a Cristo Eucarístico: “Rei eterno, Deus humanado…, milagre sublime de amor”, na poesia de Monsenhor Paulo Herôncio. Em Carnaúba dos Dantas, as capelas do sopé e cimo do Monte do Galo são sentinelas do amor à Virgem Santíssima. Alguns afirmam que a advocação de Nossa Senhora do Ó, em Serra Negra do Norte, teve influência dos boiadeiros acarienses.

Celeiro de vocações religiosas é Acari. Doze de seus filhos foram ungidos presbíteros. Destaca-se Dom Eugênio de Araújo Sales, primeiro cardeal norte-rio-grandense, figura notabilíssima no cenário da Igreja. Cabe registrar o contributo do Padre Flávio José de Medeiros Filho, que vem prestando relevantes serviços ao Vaticano. Terra agraciada com ilustres sacerdotes, berço de uma linhagem de músicos sacros, monumento erguido à fé católica e a Maria, eis Acari! Indubitavelmente, sua matriz é merecedora do título de basílica. Etimologicamente, o termo significa casa do rei e da rainha. De modo inspirado e solene, o Papa Francisco proclamou que no solo seridoense há uma morada especial para a Rainha do Céu, o templo de Nossa Senhora da Guia!

“Por um punhado de dólares”

APACHES

Eh, parece que o grande chefe Biden mandou bater a poeira dos tambores de guerra, enviou sinais de fumaça para as nações Apache, Sioux, Comanche, Navajo, Cherokee, Creek, reunirem os cavalos, afiarem as pontas das flechas, azeitarem as velhas e boas Winchesters, porque ele quer guerrear e como todo mundo está mesmo com os chinas atravessado na garganta, ele quer aproveitar a deixa para dar vazão ao seu instinto guerreiro. Mas sei não, pois o grande chefe dia desses quase vai a nocaute ao dar um trupicão num beiço de batente do Pássaro de Ferro Um e saiu catando cavaco, dou por visto quando tiver diante da fúria de um pequeno gafanhoto. Lá pras bandas do Mar da China Meridional guerreiros americanos e chineses navegam se estranhando, porém, com as barbas de molho e pano reduzido. Bem, por enquanto é só fuxico!

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É assim!

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Um conto sobre o tempo

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“…Vai ver, vai ver/É mudança de estação…” E é sim, Cor do Som, estamos em uma das mais lindas estações do ano, onde o céu é mais belo, as nuvens apresentam coloração mágica, os ventos são de uma bondade de fazer sorrir até o mais cético dos navegantes e o mar, ah o mar, de cada dia se apresenta com um convite mais apaixonante. – E as chuvas? – Só temos a agradecer e festejar, se bem que as vezes elas se precipitam em doses fartas e preocupantes, mas tudo são partes dos maravilhosos segredos que a Natureza não conta. E o tempo pelo continente brasileiro está bonito, com chuvas torrenciais pelos campos do Centro-Oeste e nas florestas do Norte. Pelo Nordeste do Padim Ciço e Frei Damião, os açudes estão de fazer festa e nas biqueiras dos telhados já se formam finas camadas lodosas. Já pras terras frias do Sul e no café com leite do Sudeste, os riscados da meteorologia apresentam traços que não se cruzam, mas as linhas sinalizam e apontam para a cara levada de um ciclone extratropical que ajunta forças nas beiradas do Estuário da Prata para subir desembestado e cuspindo fogo no rumo Norte. Os meninos das ciências do tempo dizem que a cruviana desembocara pelos pampas sulistas entre os dias 9 e 11 de agora. Pois é isso e quem quiser que conte outra!     

Mais um

1 Janeiro Fevereiro (103)

Não, não nunca mais tive notícias do filósofo do coqueiral e ando saudoso dos seus ensinamentos e da sua fala mansa mirando o horizonte, por muito além da linha de visada, enquanto pitava o inseparável cigarrinho de fumo leve e perfumado.

Hoje acordei com imagem do filósofo bem viva em minha frente. Era uma imagem tão nítida que até pensei que ele havia se danado a caminhar, em passo lento, pelo beiço de mar de Enxu, no rumo Sul, e ao chegar à capital dos Magos, entrou em becos, saiu de becos e numa esquina de calçada descobriu meu endereço, entrou de mansinho e lá estava eu. Mas não foi assim, porque num piscar de olhos a imagem desapareceu, deixando um imperceptível som de passos se indo com o vento.

Ao abrir o computador, para passar a vista no noticiário da manhã, me deparei com a notícia que o Rio Grande do Norte, apesar da enorme riqueza presenteada e abençoada por Éolo, deus dos ventos, e do gigantesco parque eólico já instalado, que lhe dá o primeiro lugar no ranking brasileiro da alardeada energia limpa, está prestes a perder a liderança e novos investimentos, porque seus mandatários preferem duelar eternamente nas rinhas das brigas ideológicas e deixam de lado a cartilha do ABC que leva ao desenvolvimento.

O mesmo Rio Grande do Norte que perdeu a Petrobrás, que sobrevoa no chorume exalado das pistas de um aeroporto sem plano de voo e que caminha serelepe sobre um temeroso desmonte de investimentos públicos e privados, porém, nas propagandas oficias e oficiosas, tudo são flores.

Os CEOs, tecnocratas, populistas e incendiários de plantão dizem que faltam projetos e interessados em investir na construção de subestações para receber e distribuir a energia produzida pelos totens de pás de vento. Ora pois, prumode não pensaram nisso antes? Aliás, o RN tem um senador que fez carreira nas empresas de energia limpa, foi um dos grandes baluartes na luta para implantação dos parques eólicos brasileiros e festejou tudo isso como um gênio da lâmpada mágica.

Contam que um matuto foi visitar um primo que morava na cidade grande e ficou maravilhado com água saindo da torneira e pensou: “Vou levar essa novidade para meu lugar, que é seco feito a peste, e vou ganhar muito dinheiro. Ora, é só abrir um buraco na parede, colocar essa gerigonça e pronto”. Pensou, mas não disse nada a ninguém, porque não queria concorrência. Se apressou a fazer o caminho de voltar e na primeira loja de construção que encontrou, comprou uma ruma de torneiras e saiu a dar risadas, fazendo a conta do lucro.

Ao chegar em casa escondeu o bisaco embaixo da cama e no dia seguinte, antes do galo cantar, acordou a patroa e os filhos com o barulho de paredes sendo quebradas. A mulher arregalou os olhos e perguntou: – Perdeu o juízo, homem de Deus? – Perdi não, mulher, tu vai ver que benção eu arranjei para nós ficar rico! – Homem, deixe de astúcia! Ao terminar o serviço, deu uma boa gargalhada e disse: – Pronto, agora é só juntar o dinheiro e preparar a mudança para uma casa boa na cidade! Ao abrir a torneira, nada da água sair. Fechou, abriu, coçou a cabeça, abriu, fechou e nadica de água. Quebrou a parede, retirou a torneira, tornou a colocar e nada.

Nisso a mulher vendo o aperreio do marido que estava branco que só uma alma penada, falou: – Homem, vá ali chamar o compadre Chico que ele é escolado e deve saber o que está entupindo essa bixiga. Num fôlego só o marido correu até a casa do compadre e pediu por tudo que é mais sagrado para que o socorresse numa bronca. Chico vendo a brancura desfalecer o rosto do amigo, ajuntou dos pés e fez carreira. Chegando lá viu do que se tratava, danou-se a rir e disparou: – Homi, tá faltando você construir a caixa d’água e colocar a encanação na parede.

Será que na base do projeto eólico brasileiro faltou a assessoria de um compadre Chico? Sei não, mas acho que a aparição fantasmagórica do filósofo do coqueiral foi para me dizer alguma coisa.

Não é com palavrório que se junta água, primeiro tem que arrumar nem que seja uma quenga de coco.

E assim, o vento levou…

Nelson Mattos Filho

Ever Given – epopeia

Ever Given

Para quem assistiu o desencalhe do navio Ever Given, que paralisou o Canal de Suez por seis dias, causando monstruoso prejuízo ao comércio mundial, e achou que a cena decretava o ponto final na novela, pode ir tratando de preparar a poltrona, comprar mais pacotes de milho para pipoca e botar coca-cola para gelar, porque as imagens da peleja foi apenas um trailer do que está por vir e as cenas já estão sendo filmadas, a todo vapor, nos bastidores. Tudo indica que o rumo aponta não para uma simples novela, mas para uma epopeia e deverá navegar por oceanos tão bravios que nem de longe passou pelas ideias delirantes dos grandes diretores de cinema. Após o desencalhe, o navio foi levado para o Grande Lago Bitter e depois de ancorado recebeu uma força-tarefa de especialistas, com ordem de chafurda até a vida pregressa dos ratos do porão. A primeira pergunta é para desnortear o capitão: – O que deu errado aqui?. Como “sei lá” não consta no quadrinho de resposta e o caboco vai engasgar, os caras devem entabular a segunda: – Esse navio pertence a quem? Essa resposta o capitão vai tirar de letra: – Pergunte outra, porque essa é de prova de medicina? Segundo John Konrad, do site de navegação gcaptain.com, “O Ever Given é um conglomerado multinacional”. O blog Mar e Marinheiro diz que, “o  navio pertence a uma empresa japonesa, que entregou a sua gestão a uma empresa alemã, é operado por um transportador taiwanês, tem bandeira do Panamá e ficou preso no Egito, a situação, rapidamente, se vai tornar um pântano internacional.” Bem, as ações já se acumulam nos tribunais e se brincar vai juntar papel para superar em mais de três tantos a capacidade de carga do Ever. Por enquanto a conta apresentada pelos que se acham no prejuízo dá para comprar uma danação de vacina contra a Covid-19 e ainda sobra uns trocados para as fotos de praxe. Nas seguradoras tem gente que já roeu até as unhas dos pés e a fila de executivos nas portas dos consultórios cardiológicos dá duas dobras em torno do porto. Se você acha que é papo de palhoção, embarque no blog Mar e Marinheiro, se posicione na proa e olhe o horizonte.   

“Um dia…

AMIGOS

…você e seus amigos foram andar de bicicleta pela última vez e nem perceberam”.

Noite de sábado, esquina da Av. Hermes da Fonseca com a Rua Ângelo Varela, no bairro do Tirol, e o Posto da Patota, ponto de encontro de todas as noites, fervilhava de bons papos. Era final dos anos 70 e começo da década de 80 sob a magia de uma cidade, até então, pacata, linda e encantadora.

Na sede da AABB, vizinho ao posto, uma festa marcava o compasso da noite, porém, os frequentadores do Patota preferiam a convivência animada, carregada de moídos, causos, fofocas e até das mais puras verdades meio verdadeiras. Devido a festa e a grande frequência do posto, a rua Ângelo Varela estava entupida de carros estacionados e muitos em fila dupla e até tripla. Naquele tempo Natal era uma cidade onde todos se conheciam e naquele pedacinho de paraíso provinciano, poucos estavam preocupados com a ordem das coisas. Porém, a ordem quando chegava, chegava chegando, mas aí tudo se resolvia com as credenciais familiares e amigas.

Passava das 23 horas quando chegaram duas viaturas do batalhão de trânsito para tentar organizar a bagunça e diante da impossibilidade de resolver na conversa, os policiais pediram reforço de um guincho. Vendo que o bicho ia pegar, os motoristas – que tinham carteira de motorista, porque muitos eram de menor – se apressaram a retirar os carros, mas sem antes terem de confessar os pecados e levar um sermão dos guardas. E assim em pouco tempo a ordem foi restabelecida e no final restou, fora de ordem, apenas um fusca branco em frente a uma garagem.

O fusca era bem conhecido dos policiais, pois vivia fazendo estripulias pelas ruas do Tirol, Petrópolis, Cidade Alta e os policiais já preparavam o guincho para a remoção, porque o proprietário não aparecia. Na verdade, ele estava no Patota, mas não podia ir até lá, porque não tinha habilitação. Renato, que gostava de presepada e também não tinha habilitação, pediu a chave e foi caminhando, em passo bêbado, até o carro, fazendo de conta que não estava vendo os policiais, e tentou abrir a porta.

Um policial encostou, perguntou se ele era o dono do carro e ao receber o sinal de positivo, pediu os documentos, Renato nem deu atenção e continuou tentando abrir a porta. O policial falou que o carro seria apreendido, que Renato teria que acompanhá-lo e daí um bafafá se formou.

– Num vou! – Vai! – Você não sabe com quem está falando! – Nem quero saber! E assim parte da turma do Patota foi chegando para acompanhar a peleja, as vaias comeram no centro, os guardas pediram reforço e logo chegou um caminhão da polícia, tipo batalhão de choque, com seis soldados armados com cassetetes, deram voz prisão, colocaram todos em cima do caminhão e lá fomos, – pois é, eu também – quem devia e quem não devia, passear de caminhão até a delegacia do bairro da Ribeira, onde já se encontravam, sérios e carrancudos, o pai de Renato, Deputado Dari Dantas, outros pais e até um juiz, para livrar a cara de todo mundo e ainda “pedir” que o mesmo caminhão levasse de volta os que estavam a pé.

Os dias que se seguiram foi de risadas com os detalhes do “passeio noturno no caminhão”, porém, a partir dali alguns passaram a assumir responsabilidades com estudos, profissão, família e num piscar de olhos a vida tomou rumo e ninguém percebeu.

Na turma do Patota foram forjados governadores, prefeitos, políticos de todas as esferas, juízes, advogados, engenheiros, arquitetos, industriais, fazendeiros, comerciantes, médicos, professores e toda uma gama de bons profissionais e amigos. Todos marcados pela lacuna entre o último encontro não percebido e um encontro fortuito no presente ou pelo aperto no peito diante de uma notícia triste.

Depois do passeio no caminhão tive poucos contatos com o grande presepeiro Renato, que tempos depois, seguindo os passos do pai, entrou na política e chegou a ser presidente da Câmara dos Vereadores de Natal. O Primo era uma das figuras que fizeram da Natal, dos blocos de elite, das discotecas, dos tempos áureos da Praia dos Artistas, dos veraneios da Redinha, das turmas das esquinas, do charme de uma Ponta Negra sem a feiura do calçadão, uma cidade de sonhos.

Não, não era tão amigo de Tirso Renato Dantas, mas o bastante para sentir a dor da perda após acompanhar diariamente os boletins médicos da sua luta contra o monstruoso Sar coV-2. O bastante para olhar para trás e ver um grupo de jovens sonhadores jogando conversa fora por entre as bombas de um posto de gasolina. O bastante para pedir a Deus que o tenha em bom lugar.

Eh, essa é uma doença muita estranha e apesar de todo mal que espalha, nos obriga, após cada notícia estarrecedora que faz chegar de enxurrada, olhar para o passado para visualizar o dia que até então deixamos passar em branco.

– Nos resta o adeus? – Não, não resta, porque sacanamente o monstro pandêmico não permite!

Nelson Mattos Filho