Viva o Carnaval!

Matutei nas ideias em busca de acender a centelha carnavalesca aqui no blog e por mais que eu tentasse desanuviar os pensamentos, minha alma festeira só me levava a enveredar pelos passos eletrizantes e radiantes do frevo e das machinhas, talvez pelo meu romantismo, sentimentalismo e eternas lembranças do meu Pai, Nelson Mattos, – músico, trombonista, inveterado amante da boa música e que não deixava passar em branco nenhum reinado de Momo. Me desculpem, mas Carnaval sem frevo não existe e frevo arretado de bom ninguém faz melhor do que o povo de Pernambuco. O Menestrel pernambucano Alceu Valença não deixa barato!

Navegação Astronômica é com o Mucuripe

8 Agosto (220)

Eu sou daqueles que levantam as mãos para o alto e agradecem as cabeças iluminadas que criaram o GPS – sistema de posicionamento global –, porque depender das visadas para obter as linhas de posição e emendar os bigodes nos cálculos não é e nunca será a minha praia. Claro que numa travessia oceânica saber se orientar pelos astros dá ao navegador uma segurança sem tamanho, mas o difícil é encontrar navegador que domine totalmente, e na prática, essa técnica quase ancestral. Tomara não ter pisado nos calos de ninguém! O Elson Mucuripe Fernandes, um cearense mais arrochado do que os cabras da peste do bando de Lampião, é um abnegado estudioso sobre Navegação Astronômica e adora divulgar, ensinar e repassar essa arte para os amantes dos mares. Mucuripe é tão letrado no assunto que nem no Lago Paranoá, onde navega, ele abre mão do sextante. Vez por outra o cearense se vê em apuros quando os cálculos de posição afirmam que ele está navegando sobre o gramado do Palácio do Planalto, cercado pelos Dragões da Independência. Mas num se avexe com meus comentários desairosos, pois sei que o Mucuripe vai é rir das minhas lorotas, e trace rumo no blog Velas do Mucuripe para aprender um tiquinho sobre o assunto. Só dou um conselho: Bote no rosto uns óculos bem escuro, tipo Waldikc Soriano, que é para não torrar as retinas na hora de olhar para o Sol.  

O mar serve para tudo

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O fundo do mar é um imenso depósito em que estão escondidos vários segredos da humanidade, provas cabeludas dos mais terríveis crimes e maracutaias de declarados cidadãos de bem, mas devido a inacessibilidade, estão perdidos para o sempre, porque dificilmente assistiremos a montagem de grandes expedições policiais ou científicas para cascaviar o fundo dos oceanos em busca de provas. Podemos até dizer que o fundo do mar é um enorme Data Center.  – O que? – Data center? Pois é isso mesmo! A Microsoft pretende construir Data Centers autossustentáveis para serem guardados no fundo dos oceanos. O primeiro protótipo foi lançando em agosto de 2015 e ficou em atividade durante 105 com excelentes resultados. Um Data Center tem a finalidade de abrigar milhares de servidores, bancos de dados e processar quantidades incalculáveis de informação e para isso precisam de sofisticados projetos contra incêndio e complexos sistemas de resfriamento para manter a temperatura estável. Além de exigirem sistema inviolável de segurança. No fundo do mar, os equipamentos estariam permanentemente resfriados e a segurança seria praticamente total. A empresa afirma que muito em breve toda essa parafernália estará a disposição dos usuários a preços que não assustarão o bolso de ninguém. Bem, já estou imaginando a seguinte situação: Quando alguém nos pedir uma informação urgente, poderemos responder para o interessado esperar um pouco que iremos o pescar. Fonte: Revista Náutica e Canal Comstor.

Sobre velejadores e índios – II

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– Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!” Foi com essa frase de Lucia que encerrei o moído no texto que aprumou o rumo para que esse tivesse seguimento. Mas afinal, será que todo índio tem cabelo liso? A verdade é que os “papa mé” da Cachoeira dos Índios, tinham cara de índio não. Aliás: vida de índio nesse Brasil de meu Deus ficou difícil desde que por aqui aportaram uns marinheiros de fala esquisita e que navegavam numas canoas enormes mais perdidos do que cego em tiroteio. Deixa queto!

Outra verdade é que as reentrâncias desse nosso Brasil, tão jovem que ainda nem aprendeu a andar direito, é entupido de lugarzinhos arretados que só vendo. São recantinhos com enorme potencial turístico, mas que ficam enterrados sob os escombros indecentes de políticas que se dizem públicas. Quanto desperdício!

E já que embrenhei pelos campos férteis onde se misturam reclamações, pitacos e afins, vou corrigir algumas informações e desinformações da primeira parte dessa historinha barata. A primeira é que a Cachoeira dos Índios fica a 104 quilômetros da capital baiana e não 100 como escrevi. Aí você pergunta: E precisa corrigir por causa de quatro quilômetros a mais? – Claro que sim, pois vai que o cara resolve ir a pé!

A segunda é que na Linha Verde, uma estrada ainda arretada de boa e onde se lê nas placas que é proibido o tráfego de caminhões pesados, já podemos cruzar com verdadeiros mastodontes do asfalto. Não sei por que danado os homens que se metem a fazer leis, normas e regras em nosso país, assinam embaixo de um papel e não garantem as calças que vestem. A estrada Linha Verde, que foi projetada para o tráfego de veículos leve, muito em breve estará em estado calamitoso e tudo sob os olhares permissivos daqueles que se dizem autoridades.

A terceira é que acho bom você se adiantar em conhecer as bonitezas que ainda existem ao longo dessa estrada, porque a besta fera do progresso já se instalou de mala e cuia na região.

A Cachoeira dos Índios é um lugar que se fizesse parte da paisagem de países onde o certo é o certo e o errado é o errado, estaria ornamentando roteiros para visitantes abobalhados diante de tanta beleza. Os pretensos indígenas que lá estão, fazem parte do contexto desastrado onde nada precisa ser tão perfeito assim, mas a presença deles é a melhor ferramenta de acusação para se desmontar o teatro das “boas intenções” politiqueiras em que cada ator se diz o mais santo de todos. Vixi! Onde estou me metendo?

Só vai à Cachoeira quem tem espírito de aventura, mas isso a gente só descobre quando se vê diante de uma trilha interditada e recebe a informação do proprietário das terras de que o caminho é difícil e que ele acha que nosso carro não chega. – Tem nada não, vamos até onde der! O serviço da estrada foi concluído, o proprietário entrou em uma caminhonete tracionada e eu acelerei valentemente o Uno para acompanhar a tirada por entre a mata. Você deve estar pensando que esse foi um programa de índio e eu já me apresso em responder que foi sim, e de cocar e tudo.

Ao chegar numa clareira em meio a floresta, o homem parou e pediu que deixássemos o carro. Segundo disse, o nosso carro não teria condições de seguir adiante. E não tinha mesmo! Abandonamos o Uno em meio ao nada e pulamos na caçamba da caminhonete, porque não nos cabia na cabine que estava cheia de ferramentas. Se enroscando e tirando fino por entre as arvores, numa trilha morro abaixo que ninguém consegue enxergar, a caminhonete seguiu por uns dois quilômetros e eu imaginado como faríamos para voltar. Será que esse senhor acerta sair?

Paramos em outra clareira e o “índio chefe” informou que teríamos que continuar a pé e ele voltaria para a porteira. Lucia perguntou: – E a gente volta como até o carro? Ele respondeu rindo: – A pé! Lucia treplicou: – De jeito nenhum, o senhor pode tratar de nos esperar. Ele fez cara de muxoxo e concordou. Indicou o caminho e seguiu sendo o guia da nossa aventura. Atravessamos uma ponte de madeira, diante de uma paisagem de encantar, e depois de uns 200 metros estávamos diante da Cachoeira dos Índios, uma pequena cachoeira de águas cristalinas e frias. Uma barraquinha de madeira desocupada, que segundo o proprietário só funcionam aos domingos, quando funcionam, completa a cena.

Ficamos encantados e maravilhados com tanta beleza incrustada na mata. A água fria espalhava no ar uma áurea de frescor e paz. Deu vontade de mergulhar naquelas águas, mas infelizmente esquecemos no carro a roupa de banho e voltar toda aquela trilha a pé não era incentivo para ninguém. Sentamos em uma das mesas a beira do riacho e o proprietário falou das dificuldades de tocar aquelas terras, mas confessou que não pretendia fazer daquele lugar um terminal turístico, porque não tinha ajuda de ninguém e os frequentadores que se aventuravam a ir até lá nos finais de semana, não tinham o mínimo zelo com o meio ambiente. Confessou que não queria nem divulgação.

Depois de um bom tempo conversando embaixo das arvores, sentindo a frieza do ar umedecido e escutando o marulhar da água escorrendo nas pedras, tomamos a trilha de volta até a caminhonete. O proprietário nos deixou na clareira onde havíamos deixado o carro e antes de pegar a estrada, ficamos uns segundos escutando o sussurro do silêncio da mata.

Tem lugares que nos enche de paz e faz nossa bateria recarregar apenas com o respirar. Lugares em que a magia é parte viva da paisagem e que nos leva a um estado de pura reflexão. Lugares sem segredos, mas que escondem olhares ocultos a nos espreitar por entre as folhas. Lugar de seres invisíveis, mas que nos faz sentir o calor de suas presenças. Lugares em que buscamos respostas, mas que nos deixa cada vez mais carregados de perguntas.

A Cachoeira dos Índios é um lugar assim, mas em breve será apenas uma boa e vaga lembrança em meio ao caos do mundo urbano que avança a passos largos. Assim como tantos outros.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Carne de Fumeiro é a cara da Bahia

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Para quem viaja a Bahia achando que vai comer apenas moqueca, acarajé, abará, caruru e tudo temperado com o fogo ardido do mais puro molho lambão, é bom tratar de ir apurando o paladar para saborear um produto da mais pura culinária baiana e que passou despercebida das letras e versos dos grandes autores das terras do Senhor do Bonfim. Vai uma carne de fumeiro hoje freguês? A carne de fumeiro tem sua grife mais famosa na cidade de Maragojipe, uma das joias preciosas do Recôncavo, e por isso dificilmente você compra alguma em Salvador que o vendedor não garanta que ela venha de lá. A carne de fumeiro que é talvez o produto mais original da culinária baiana e é produzida com carne de porco. A defumação é uma técnica ancestral e totalmente artesanal, onde a carne é cortada em mantas e exposta a fumaça do pau de pombo para desidratar e ter a superfície selada, para evitar que estrague. Alguns antigos moradores da região não usam a palavra defumar e sim moquear, que é uma expressão indígena para a técnica de desidratar carnes e peixes. O sabor da carne de fumeiro é único e delicioso, e ai daquele que for a Bahia e não provar da iguaria.

20160108_09240120160115_10561620160115_10572620160115_10563820160115_105604No calçadão do bairro da Ribeira todas as sextas-feitas acontece uma feirinha que já virou tradição do bairro. Lá podemos encontrar produtos de excelente qualidade oriundos das cidades do Recôncavo Baiano, como as deliciosas, carnes, farinhas de mandioca, beijus, farinhas de tapioca, biscoitos, dendês, pimentas, frutas – como a jaca, que fez a alegria dos colonizadores –, verduras e tudo vendido com uma simpatia que só vendo. Aliás, simpatia é o nome de um dos mais famosos feirantes do pedaço e que já está por lá há mais de trinta anos. O passeio a feirinha da Ribeira é completo, pois além das compras, você vislumbra uma das mais fascinantes paisagens de Salvador e para quem é do mar, ainda tem o prazer de apreciar belas embarcações que refletem a história das navegações na Bahia. Vá lá e comprove!

Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O Avoante revigorado

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Esse aí é o Rodrigo Rosa, um eletricista náutico de primeira qualidade e que acabou de refazer toda a instalação elétrica do Avoante. A última vez que nosso veleirinho passou por uma recauchutagem elétrica foi sob os cuidados do pai dele, o Rogério Rosa, e isso foi há mais de 10 anos. Tudo estava funcionando na mais perfeita ordem, mas seguindo o ditado que diz que, quem vai ao mar, avia-se em terra”, já estava na hora da revisão. Rodrigo, que é gaúcho, mora em Salvador/BA e só anda de bicicleta – fazendo parte de vários grupos da turma do pedal –, atende pelo telefone (71)99235-7404. O Avoante agora está pronto para mais 10 anos de mar.