Mergulhadores resgatados na Flórida

Mar-Mergulhadores-Resgate-696x392Dia 24 de maio sete mergulhares, na Flórida/EUA, foram pegos por uma correnteza e arrastados para distante da embarcação que os dava apoio. Dois foram encontrados pela equipe do barco, porém, cinco deles ficaram a deriva e somente foram resgatados com ajuda de equipes de resgate, isso porque se utilizaram dos sinalizadores, conhecidos como salsichão de mergulho e foram facilmente avistados. Aí fico pensando numa conversa que tive com um amigo que gosta de se aventurar pelas maravilhas do fundo do mar. Na ocasião observávamos uma garrafa avermelhada se movimentando sobre o mar e perguntei se seria um mergulhador. Ele disse que sim, mas falou também que aquilo era uma besteira e que não tinha necessidade num lugar daquele  com pouquíssimo movimento de embarcação. Olhei para ele incrédulo diante daquela resposta e para não entrar em polêmica, preferi abrir mais uma cerveja e mudar de assunto. Fonte: Brasil Mergulho  

Aviso aos navegantes

anima_alturaEssa semana, de 22 a 28/05, os ventos andam soltos pelas esquinas do litoral brasileiro e os alísios que acariciam o litoral do Nordeste estão batendo fácil na marca dos 20 nós, cerca de 40 quilômetros por hora. Pela animação do gráfico do CPTEC/INPE, dá para ver que o mar está de gente grande e a orientação da Marinha do Brasil é que embarcações miúdas permaneçam no porto e as demais, revisem o material de salvatagem, os equipamentos de segurança e passem a vista nos motores, velas e bombas de esgoto. Veja o que diz o aviso:

MAR CONTINUARÁ AGITADO COM RISCO DE RESSACA ENTRE O LITORAL NORTE DA BA E AL

Entre hoje(23/05) e o início da quarta-feira(24/05), o mar ainda continuará agitado com risco de ressaca entre o litoral norte de RS e ES devido à chegada das ondas atingindo quase perpendicular à costa com alturas entre 2 e 3 metros. Por outro lado, a persistência dos ventos de sudeste mais intensos continuarão deixando o mar agitado no litoral norte da BA, SE e AL com ondas de sudeste entre 2 e 3 metros de altura entre a terça-feira(23/05) e quinta-feira(25/05). O risco de ressaca continuará na região.

Poema para a humanidade

9 Setembro (148)

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa 

 

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

 

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

Nota: Em negrito está o fragmento mais conhecido desse poema 

 

 

Lembranças

foto de papai

De que é feito a saudade se não de lembranças? Sou sim um saudosista e faço disso um alimento para nortear minha alma. Vivo minhas lembranças como se fosse o presente e muitas vezes fecho os olhos para não sentir tanta dor, mas se tudo isso são devaneios de loucura, desejo continuar louco.

Ontem tentei dormir e os olhos teimavam em abrir, mas na insistência do cansaço mergulhei naquele estágio em que o corpo levita e a mente se aproxima da cortina dos sonhos, porém, de repente não existia cortina, não existia sonho, não existia nada, apenas eu, com os olhos vidrados no teto, procurando entender o porquê daquele fugaz prazer. Foi nessa hora que escutei o eco da frase entrecortada de soluços, “…a partir de hoje nossa vida vai mudar…”, e como uma fita em alta rotação, o filme retrocedeu e lá estava eu, atendendo um chamado pelo interfone, onde a pessoa dizia: “Nelsinho, corra aqui que seu pai está passando mal”. Sinceramente não lembro da fração de segundos que se passaram entre a colocação do interfone no gancho – e nem sei se o coloquei – e minha entrada naquele escritório que parecia paralisado no tempo. As pessoas estavam imóveis, os olhos arregalados e ninguém falava nada, porque a boca não fechava e nem emitia som. Era como se ali a vida não existisse. Aquela sala parecia um museu de cera em que os personagens estavam retratados em suas mais terríveis expressões. Quando a porta se fechou, a sala tomou vida e lá estava meu pai, com a camisa entreaberta, os braços caídos para os lados, o rosto disforme e a boca emitindo palavras indecifráveis, como se quisesse retomar o controle da situação, mas já não dava. Ali estava um homem que me pedia ajuda e eu, seu filho, seu nome, apenas gritei: Espere aí papai, não me deixe agora que vou pegar o carro. Ao cruzar a porta de volta, cruzei com alguém e pedi que desse a ele água com açúcar e nesse momento o mundo parou novamente, até que me vi dentro do carro, saindo a toda pelo portão e parando em frente ao prédio de onde meu pai já vinha carregado nos braços do funcionário Campos, que tinha o apelido de Campo Redondo. Colocamos ele no carro e saí a toda. Novamente o mundo parou, apesar da minha correria louca pelas ruas da cidade, e apenas voltou a se movimentar em frente a uma loja de materiais de construção, localizada na avenida dois, porém, o mundo se movimentava, mas o carro curiosamente não saía do lugar. – O que houve? Gritei em meio ao nada. Olhei para meu pai, peguei em sua mão, ele me olhou com o olhar distante e lhe falei: Papai, fique comigo e não morra que vou pedir ajuda. – Preciso de um carro. Preciso de ajuda. Meu pai está morrendo lá fora. Todos me olhavam e ninguém esboçava nenhuma reação de ajuda. Corri ao vendedor, que tantas vezes atendeu meu pai naquela loja, e ele apenas disse que não tinha carro a disposição. Corri de volta. Novamente olhei para meu pai e lá estava ele balbuciando palavras incompreensíveis. Novamente peguei em sua mão e ele me olhou como se soubesse tudo que iria acontecer. Um taxi parou e voltamos a correria pelas ruas até o hospital. Dessa vez não larguei sua mão e não parei de falar com ele, pedindo que aguentasse firme que iria ficar bom. Novamente ele me olhou e fechou os olhos, mas sua mão apertava a minha e isso era o que eu queria, pois aquilo era sinal de vida, aquilo era sinal que ele estava comigo. Chegamos ao hospital, ele foi colocado em uma maca, levaram para a urgência e fui junto, mas o médico não aparecia. Deixei ele na sala e corri pelos corredores do hospital Walfredo Gurgel a procura do médico e disseram que ele estava em atendimento, entrei na sala e o puxei pelo braço, – Corra que meu pai está morrendo. O médico pediu calma, levantou e saiu caminhando calmamente. – Doutor, por favor, corra! Cheguei a sala onde meu pai estava na maca, peguei em sua mão, rezei e pedi ao meu irmão, Iranildo, que havia falecido há dez anos, que o socorresse e de repente me vi sentado no corredor de espera do hospital. – Seu pai vai ser transferido para outro hospital, mas estamos providenciando uma ambulância. Disse o médico ao sair do atendimento. – Como providenciando? Nessa hora minha mãe chegou, a ambulância chegou, colocaram meu pai e fomos atrás em outro carro. Na saída do hospital, ao ouvir a sirene da ambulância que o levava para o Hospital São Lucas, minha mãe sentenciou: “- Meu filho, a partir de hoje nossa vida vai mudar! ”. E mudou! Hoje meu pai é a melhor lembrança, a melhor saudade e o melhor dos entreatos que alegram meus sonhos. Aonde ele está eu sei, aonde ele vai eu sei. Quando ele está triste eu sei. Quando ele está alegre, quase sempre, eu sei. Quando ele não está junto a mim eu sei. Não tem um dia que ao abrir os olhos não pense nele. Ele é meu anjo da guarda, mas tem uma coisa que sempre me atormenta: – O que será que ele me dizia naqueles momentos que segurava minha mão e me olhava. Tio Emídio, que também já não está entre nós, certa vez me perguntou qual recado que meu pai mandou para minha Mãe. – Recado? – Sim recado, porque sua Mãe ontem sonhou com ele dizendo que havia deixado um recado com você. Pois é, até hoje tento decifrar aquele olhar e ouvir o eco dos sons disformes que saiam de sua boca e não consigo. Quem sabe uma noite, em que o sono entrar naquele estágio entre a levitação e as profundezas eu consiga escutar.

O eco das palavras de minha Mãe soou por alguns bons momentos entre as paredes do quarto e foi ouvindo-as que peguei na mão de Lucia, dei um beijo e dormi. É assim há 35 anos! Hoje, 22 de maio, Nelson Mattos, meu Pai, o melhor trombonista do mundo, o melhor entre todos os homens, o mais lindo e amado, faria 94 anos e logo cedo minha Mãe passou-me uma mensagem perguntando se ele fosse vivo ainda estaria tocando trombone. – Ceminha, tocando eu não sei, mas a nossa casa hoje estaria cheia e ornamentada de belas e inesquecíveis melodias.

Parabéns meu Pai!

Nelson Mattos Filho

Histórias de um viageiro – II

clip_image002Calma, não precisa ficar bravo comigo, pois promessa é divida, e como disse que dividiria com vocês essa história em suaves capítulos, aí vai a segunda parte da peleja do velejador, geólogo e viageiro Sérgio Pinauna, um baiano arretado da mulesta, pelas terras e dunas das deliciosas juçaras. Quem se perdeu, ou quem quiser acompanhar do começo, não precisa se avexar, bastar clicar AQUI, viu!

MARANHÃO – PIAUÍ 2008

Sérgio Netto

O nosso turismo começou em São Luís, uma cidade hoje com quase um milhão de habitantes, implantada numa ilha enorme, quase do tamanho da Baia de Todos os Santos com todas as suas ilhas. Esta ilha de São Luís separa a foz do Rio Itapecuru, do lado leste, da foz do Rio Mearim, do lado oeste, e depois de Marajó é a maior da costa brasileira. O Rio Mearim desemboca na Baia de São Marcos, cuja área e amplitude da maré são o dobro das respectivas na Baia de Todos os Santos. A correnteza na Baia de São Marcos no pico da maré passa de 6 nós, de forma que a navegação ai é saindo na vazante e entrando na enchente. Exceto no canal balizado que dá acesso ao super-porto da Vale do Rio Doce, por onde sai o minério de Carajás, é tudo raso. O Iate Clube nem tem píer de atracação, os barcos ficam encalhados na praia. É a terra dos catamarãs, os meio-barco de quilha não tem vez.

clip_image002[9]clip_image002[11]

Veja acima a flotilha de catamarãs na praia do Iate Clube, e o estaleiro de Gaudêncio na Vila Bacanga. Abaixo, uma biana na maré vazia debaixo da ponte de acesso à Vila Bacanga, e uma vista da maré vazia olhando para noroeste a partir da cidade histórica, no pátio da Capitania dos Portos. Esta área há dez anos era atracadouro de navio!

clip_image002[13]clip_image002[15]

O assoreamento dentro da baia é intenso, e a cidade de São Luís vem crescendo e se modernizando as expensas de enormes aterros. O rio Mearim foi represado a montante, e a megamaré mobiliza o sedimento dentro da baia, o qual é parcialmente removido com dragas para manter os canais e fazer crescer a área urbana. Os bairros de Renascença I, Renascença II e Ponta d’Areia, onde ficam os hotéis e as Universidades particulares, foram criados assim nos últimos dez anos. A passagem pela cidade histórica, com artesanato e casas azulejadas mal conservadas, não me criou interesse.

A única saída rodoviária da cidade e da ilha é para sul, pela BR-135, em pista dupla, bem conservada. A estrada segue paralela à Ferrovia Carajás, de bitola larga, e à Ferrovia do Nordeste, de bitola estreita. Nos 60 km que andamos para sul até Bacabeira, vi dois trens da Vale transportando minério de ferro, cada um com 1km de comprimento e 3 locomotivas. Em Bacabeira, já fora da ilha, a BR-135 entronca com a MA-402, de pista simples e de boa qualidade, a qual segue para leste por 200 quilômetros até Barreirinhas.

A MA-402 foi construída por sobre as dunas fixadas por vegetação, e é paralela à costa, 50 a 60 km para dentro. As dunas são quaternárias, tem espessura de dezenas de metros e estão implantadas por sobre os arenitos cretácicos da Formação Itapecuru. Depois que passamos o Rio Piriá, nos afastando da ‘civilização’, a paisagem fica deslumbrante. Trinta quilômetros para norte da estrada estão as dunas móveis do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (quatro fotos acima na p.2), e 60 km para o sul fica a estrutura geológica do final do paleozóico, o Arco Ferrer, que foi soerguido há 300 milhões de anos para isolar a Bacia do Parnaíba do Mar de Tethys.

Não vou encher o saco com muita geologia, mas esta área para mim é marcante porque foi ai que tive meu primeiro contato com a prática de geologia de petróleo. Em 1964, como estudante de geologia da UFBA, fui estagiar na Petrobras orientado pelo geólogo australiano Warren Jopling no poço PAF-7-MA (Projeto Arco Ferrer nº7, Maranhão). Foram estes poços PAF que comprovaram a estrutura consequente da quebra do supercontinente Pangea em Gondwana e Laurásia. Os resquícios do Paleo-Tethys existem até aqui na Bahia, quando o mar interior ficou isolado pelo Arco Ferrer, secou e deixou no que é hoje a ilha de Matarandiba, o depósito de sal que é produzido à profundidade de 1100m pela Dow Chemical.

Barreirinhas é um fim de mundo na margem direita do Rio Preguiças, uma vila turística onde termina a MA-402. Lá existe uma pista de pouso onde você pode fretar um monomotor para sobrevoar os lençóis, umas tantas pousadas com ar condicionado e restaurante, e algumas empresas que disputam os turistas para levá-los de jardineira (jipe preparado para safári) nas dunas e/ou de voadeira até Caburé, na foz do rio Preguiças. De Barreirinhas você volta para São Luís ou segue para o Piauí com as empresas de turismo. A gringalhada e os paulistas do nosso grupo voltaram. Nós seguimos.

Em Caburé ficamos na Pousada Porto Buriti, a única que tem restaurante, gerador a diesel e telefone via rádio. Engraçado, não vi pretos no Maranhão nem no Piauí, exceto um turista paulista. O povo é caboclo ou branco, muitos de olhos claros.

O rio Preguiças é da largura do Reno na Alemanha, e é dos pequenos aqui no Maranhão. Por aqui existe um lugarejo chamado Vassoura, e tem esse nome porque o vento na estação de estio varre tudo. As dunas móveis são de areia média, mediana de tamanho de grão entre 1Ø e 2Ø, enquanto que o normal nos ambientes eólicos é de 2Ø a 3Ø, areia fina. As dunas começam logo no pós-praia (backshore), e a Pousada Porto Buriti para não ser soterrada as mantém cobertas plantando salsa.

clip_image002[17]clip_image002[21]clip_image002[23]clip_image001A primeira foto acima mostra as dunas, resultantes do retrabalhamento pelo vento da areia da praia. O tamarineiro da segunda foto é centenário, e se ajustou ao vento que transporta areia média. A terceira foto é a pousada com dez chalés em Caburé, e a ultima é no caminho para Tutóia, para onde fomos pela praia numa Toyota Hylux com a maré vazia: uma placa avisando aos motoqueiros que não entrem no povoado de capacete. No ano passado dois motoqueiros de capacete praticaram um roubo no povoado. Os moradores foram atrás e trouxeram os dois de volta, amarrados pelos pés e arrastados com um jipe. Um morreu, o outro foi socorrido pela polícia de S.Luis que chegou de helicóptero. A vida aqui ainda é tranquila, o caboclo não se aborrece à-toa.

Em Tutóia alugamos uma voadeira com skipper e motor de popa e seguimos para o Piauí percorrendo os 40km do delta do Parnaíba. Impressionante e incomum, um super delta alongado paralelamente à costa e sem referências na literatura geológica brasileira!

Dada à grandiosidade do que está preservado, imagino que a construção começou pelo menos no Pleistoceno, o rio Parnaíba deixando sua carga e formatando a barra da boca do canal principal no que é hoje a Ilha Grande de Santa Isabel, também referida em outro mapa como Ilha Grande do Piaui. Ai o Parnaíba se divide em dois distributários, um que vai para nordeste com o nome de Igaraçu e outro que vai para noroeste e mantém o nome de Parnaíba. Na saída do Igaraçu para o mar aberto foi construído um molhe de 2,5km, no que deveria vir a ser o Porto de Luís Correa. O lado de barlavento do molhe se mantém profundo, mas o lado protegido, de sotavento e sotamar, foi completamente assoreado em dez anos! Os sedimentos que escapam da planície deltáica pelos canais distributários são parcialmente acumulados na frente da Ilha das Canárias e da Ilha do Caju, compondo uma frente deltáica alinhada com a corrente equatorial. As ondas de leste-nordeste empurram esta areia praia adentro e o vento forte na estação do estio remove parte da frente deltáica para dentro da planície deltáica como dunas eólicas de mais de dez metros de altura. Mais para oeste, na Baia de Tutóia ficam as argilas do pro-delta por sobre o ‘cascalho de marisco’, como descreveu Maica, o nosso skipper, naturalista por vocação, neto de índio, gente boa. Maica também nos ensinou e mostrou muito da fauna e flora na área do delta.

De olho no tempo

mapserv
Não é só falar de seca
Não tem só seca no sertão …

Orós II – João do Vale e Oséas Lopes

As esperançosas chuvas que molharam algumas regiões do sertão nordestino desde março, numa intensidade bem abaixo do desejável, infelizmente começam a fazer falta, deixando no ar o cheiro de uma cruel seca medonha. O sertão é lindo por natureza, mas com chuva é um paraíso só. Olhando a imagem do satélite, bate sim a desesperança, mas como diz Seu Nilo de Tita: – Deixe de agonia homem, que ainda vem muita água por aí para vingar o milho e o feijão. Veremos.       

 

Cartas de Enxu 15

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 14 de maio de 2017

Sabe Ceminha, se Deus me concedeu uma graça, essa foi ser seu filho e de todas as alegrias que já tive na vida, a mais maravilhosa é poder continuar te abraçando, acariciando seus cabelos e beijando seu rosto. Sei que não sou aquele filho tão presente, como a senhora queria, porque minha sede de aventura sempre me leva a apostar em rumos que transbordam em dolorosos lamentos em seu coração, mas sei que mesmo assim sigo abençoado, porque sinto a força de sua presença em cada passo que dou.

Ceminha, sei que poderia passar horas e horas escrevendo palavras de ternura e carinho e mesmo assim não falaria tudo o que sinto pela Senhora, justamente porque são palavras vindas de um poço de amor sem fim, mas não vou, pois preciso lhe contar coisas dessa vidinha que escolhi, sob as sombras dos coqueirais de uma Enxu mais bela.

Sabe Mãe, não é difícil e nem complicado optar pelas coisas simples da vida e isso eu aprendi quando aproei pela primeira vez meu Avoante para as águas da Baía de Camamu. Aquela entrada de barra meio enigmática, meio mágica, meio assustadora e bastante interrogativa, foi como a abertura das cortinas de um teatro encantado em que luzes, cores e cenário nos leva a um fascinante delírio de emoções. Aquele momento me transformou e nunca mais consegui ver o mundo através de outras lentes, outras cores, outros cenários e outras certezas, pois aquilo era a vida em seu mais lindo e fiel esplendor. Mas Camamu ficou para trás e um dia voltarei a navegar sobre os segredos de suas águas e com o sonho sonhado de por lá permanecer para sempre. Mas não se avexe minha Ceminha, pois isso são planos de um sonho de vida.

Hoje estou aqui, sobre as sombras da varandinha de uma cabaninha de praia, olhando o mundo pelas lentes com que vi pela primeira vez a linda baía mágica da costa do dendê e sabendo que, apesar dos pesares e das vontades dos homens, a simplicidade, a humildade, o bem querer e o amor, fazem parte de uma só força. – Sabe onde aprendi isso, minha Mãe? – Com a Senhora, com os seus atos, com seus princípios, com a sua ética, com a sua força de Mãe, com a sua determinação, com a sua amizade explicita pelos amigos, com a sua fé em Jesus Cristo e na Virgem Santíssima, com as honras com que recebes os que a procuram, com o carinho de seu olhar para com todos que a cercam, com seus ensinamentos, com a paixão com que abraça suas causas e com todos os doces e saudáveis frutos que a Senhora espalha ao seu redor.

Está vendo Cema, como é fácil deixar que palavras e emoções fluam quando queremos falar de Mãe? Basta deixar os dedos sobre o teclado que eles sabem direitinho juntar as letrinhas, sem esforço algum. O que eu queria mesmo contar era sobre a homenagem que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, assinada em baixo por todos os vereadores que compõem a Câmara de Vereadores de Pedra Grande, na gestão 2017 – 2020, me indicando para receber o Título de Cidadão Pedragrandense. Foi emoção sim, foi uma festa inesquecível, desejo participar de outras com o mesmo fim e queria muito que a Senhora e Tia Cecília estivessem ao meu lado naquela noite. Mas tudo bem, nem tudo que a gente quer a gente pode, recebi o Título, fiz meu agradecimento e voltei para minha cadeira para presenciar a glória e o reconhecimento de uma dama do amor ao próximo.

Cema, foi com lágrimas nos olhos que vi Dona Nerize, com seu andar vacilante, caminhar para receber seu título de cidadã. Ela é um anjo que foi indicada para servir e morar em Enxu Queimado e durante décadas faz a vida florescer sobre a comunidade. Mulher simples, de fala mansa, de mãos abençoadas e que estava, e está, sempre pronta para trazer ao mundo os bebes que ali nascem, unicamente com o propósito de fazer valer sua missão na terra. Basta vê-la caminhando pelas ruas e recebendo os pedidos de bênçãos de adultos e crianças e ela com a voz mais carinhosa abençoado a todos. Seu agradecimento na tribuna da Câmara deixou no ar a leveza e a grandeza de um coração de luz e paz. Foi difícil segurar as lágrimas, e não consegui.

Ceminha, como é gostoso viver em um mundo onde a realidade está ali nua e crua em nossa frente. Como é gostoso abrir os olhos e ver que o a vida continua linda, a paz continua a reinar, os pássaros voam soltos e as pessoas caminham despreocupadas nas ruas e a velha e linda parteira é a personalidade mais importante do lugar. Mas não era assim que deveria ser sempre?

Iracema Lopes Mattos, minha Mãe, minha Rainha, hoje, Dia das Mães, peço sua benção e lhe desejo muito amor, mas peço que me deixe também render homenagens a essa senhora que é Mãe de quase uma cidade inteira, Dona Nerize.

Nelson Mattos Filho