O catamarã de velocidade – IV

20160423_171355Na literatura náutica existe uma infinidade de tratados sobre enjôo e os motivos que levam a ele. Em meio a rodadas de conversas entre navegadores o tema é tratado com desdém, risos, piadas e tem até quem declare, em alto e bom som, que o problema se deve a frescura ou simplesmente alteração do psicológico. As teorias são muitas e dificilmente se acha um navegador com coragem para admitir que enjoa. Alguns, para se livrar da pecha de fracote, conseguem admitir que logo no começo da vida náutica enjoavam, mas que isso é coisa do passado e ponto final. A conversinha é essa!

Nos meus vinte e poucos anos fui diagnosticado com uma forte e terrível labirintite que me deixou acamado por mais de uma semana. A danada foi tão poderosa que no dia que senti sua presença, às cinco horas da manhã, tentei levantar da cama e cai para trás sentindo o mundo rodar em minha volta. Eu disse sentindo, pois nem abrir os olhos eu pude. Apenas no terceiro dia consegui sair da cama e mesmo assim rastejando para ir ao banheiro e tomar um banho. Foi duro!

Depois de uma semana, o médico que estava me atendendo, em casa, jogou a tolha e indicou para que eu fosse à doutora Joaquina, afirmando que somente ela poderia me curar. Marcamos a consulta, fomos até o consultório da doutora e depois de dez dias os efeitos maléficos da labirintite estavam praticamente curados. Ufa! Como foi bom abrir os olhos e ver que tudo estava paradinho.

No dia em que a doutora me liberou, disse assim: – Nelson, você nunca vai poder passear de barco e nem suportará luzes fortes e incidentes em direção a sua vista, porque são coisas que podem desencadear novas crises. Respondi: – Doutora, sendo assim, uma parte está resolvida, pois nunca tive barco e nem pretendo ter. Quanto às luzes, vou me precaver. Isso aconteceu há mais de trinta anos e Lucia gosta de dizer que eu ainda não estava sob seu poder. Dizer o que? Nada né! Aí você pergunta: – E o que isso tem haver com essa história? Peraí que chego lá!

O Tranquilidade navegava ao largo da costa sergipana e nem sinal de nada, porque passávamos a mais de 20 milhas da costa e, vendo apenas céu e mar, a ordem da tripulação era curtir o azul infinito, as nuvens, o vento no rosto e encher a boca de água com o cheiro delicioso que vinha da cozinha. Claro que não faltaram algumas cervejas gelada para esfriar a goela, mas eu não quero fazer inveja a ninguém.

Logo pena manhã eu havia colocado a linha na água na esperança de surpreender a tripulação com um peixinho, porém, tive que trocar várias vezes de isca artificial e juro que o problema não foi do pretenso pescador, mas sim das próprias iscas, porque todas acabavam enroscadas na linha. A última tentativa foi com um pequeno anzol revestido com uma lula rosa artificial, que até já havia esquecido que tinha lançado ao mar. Já no finalzinho da tarde a carretilha gritou e quando corri para pegar a vara, senti que tinha pegado um peixe um pouquinho maior do que eu estava acostumado.

A segunda providência foi pedir para folgarem as velas do Tranquilidade, para diminuir a velocidade, e iniciar a luta com o peixe. O bicho era pesado, o maior peixe que até então eu já havia pescado, e quando deu um salto vi que era um belo de um dourado. Eu e ele ficamos na peleja por quase trinta minutos e por várias vezes tive que soltar quase toda a linha do carretel, para depois recolher tudo novamente e com muita dificuldade. Quando o dourado cansou – eu também – foi à vez de embarcá-lo, com muita dificuldade e com a ajuda providencial do Myltson.

Quando estiramos o peixe sobre o convés vimos a real dimensão do resultado da pescaria. O dourado tinha mais de metro e pesava por volta de 15 quilos e me perguntei como consegui pescá-lo com um anzol tão pequeno. Ao tentar retirar o anzol notei que o segredo foi à gula do dourado. O bicho foi com tanta sede ao pote que o anzol entrou e enganchou em suas guelras.

Com a adrenalina a mil, devido ao esforço da puxada, e aliado a tentativa quase inglória de retirar o anzol sem me ferir, trabalhando abaixado e com a cabeça baixa, comecei a sentir os sinais do enjôo. Como sempre acontece e para não deixar que ele tome conta do meu eu, meti o dedo na goela, apressei o resultado e continuei tratando o peixe, pois queria provar a delícia do seu sabor o mais breve possível.

Bem, o peixe estava delicioso, eu enjôo sim e agradeço a doutora Joaquina um dia ter me curado de uma labirintite, que se fosse recorrente eu jamais poderia está relatando essa história ocorrida no mar. Aliás, ela disse que eu nunca iria navegar e esqueci-me desse detalhe.

O Tranquilidade segue o rumo e agora com um peixão a bordo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Longe do mar e próximo da história

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Nosso passeio pelos caminhos de Minas Gerais continua e estou passando apenas para dizer que os séculos de história por aqui tem um enredo bem contado e preservado. Como é gostoso caminhar pelos corredores onde estão gravados os arquivos do tempo!

Um lugar imperdível

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Instituto Inhotim, em Brumadinho/MG, é um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo, emoldurado por uma fascinante coleção botânica de espécies raras de todos os continentes. O Inhotim é considerado o maior museu de arte ao ar livre da América Latina. Quer saber como cheguei até aqui? Espere um pouquinho que contarei em breve, mas vou dar uma dica: Na programação de sua próxima viagem, não deixe de incluir esse destino. Imperdível!

Ventos desfavoráveis nas Olimpíadas Rio 2016

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Já não bastassem os problemas causados pela poluição desenfreada das águas da baía da Guanabara e a ameaça do terrível Aedis aegypti, agora é a vez da violência sem controle, que deixa o brasileiro acuado, chegar ao pódio da Olimpíadas Rio 2016, como se isso já não fosse esperado. Infelizmente nada em nosso querido país é tão sério quanto parece ser e por mais que as autoridades tentem jogar a sujeira para debaixo do tapete, mais os ventos desfavoráveis escancaram a bagaceira. Como se diz na Bahia: Que porra é essa homem? Dias atrás integrantes da equipe espanhola de vela foram assaltados no bairro de Santa Teresa enquanto caminhavam para tomar café da manhã. No dia 17 o treino das equipes da Dinamarca, Grã-Bretanha, Irlanda e Nova Zelândia, foi interrompido por causa de um tiroteio no Morro do Cavalão, em Niterói, e choveu balas de fuzil sobre as águas. Diante do ocorrido, e como aconteceu no caso da poluição que teve até secretário fazendo chacota e dando um mergulho midiático nas águas da Guanabara, a Prefeitura de Niterói e a organização que deveria já está cuidando da segurança dos atletas olímpicos, anunciaram que haverá mais policiamento nas regiões de maior concentração de estrangeiros, principalmente nos bairros de São Francisco e Charitas. E quanto a segurança dos tupiniquins? Enquanto isso, a tocha promove oba oba Brasil afora!

Olha Marte aí gente!

mars16Quem resolveu fazer sucesso em 2016 foi o planeta Marte e nesse finzinho de maio, o planetinha vermelho, que acostumamos a sonhar acordado em viagem interplanetária até ele, está dando um show apoteótico para cientistas, curiosos e afins. Eu faço parte dos afins, ou será dos curiosos? Sei lá! Vamos em frente. Do dia 22 passado até meados de junho das fogueiras, Marte estará todo amostrado fazendo pareia com a Lua de São Jorge no firmamento e bem pertinho de nós. Alias, pertinho vírgula, na verdade é um bem ali de matuto, pois a estrelinha vermelha estará a mais de 75 milhões de quilômetros de distância de nossas cabeças. Ufa! Os homens das ciências dizem que já faz mais de uma década que Marte não fica tão próximo da Terra e naquele tempo o bicho passou “raspando” a 55 milhões de quilômetros. Quem achar que a distância de hoje não merece a perda de tempo para olhar o céu, basta esperar até 2018 que novamente a distância será a mesma de dez anos atrás. Quem tiver a curiosidade de observar, basta olhar em direção a Lua e verá um astro muito brilhante ao seu lado. É ele! Quem quiser se aprofundar mais no assunto, basta navegar nos mares internéticos. Eu naveguei nos sites: G1 e tvi24

O catamarã de velocidade – III

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Digo que não é fácil levantar âncora quando o clima e os amigos conspiram para que fiquemos mais um pouco. Na Barrinha dos Marcos/PE foi assim, um ajuntamento de fatores e carinho a nos prender, mas tínhamos que seguir viagem, porque o destino final de nossa velejada estava umas tantas milhas mais ao sul.

Assim que o dia amanheceu preparamos o Tranquilidade e atracamos próximo ao píer da futura marina Angra da Ilha, de propriedade do velejador pernambucano Cleidson Nunes, mais conhecido por Torpedinho, e de mais dois sócios. A marina ainda está em construção, porém, já podemos notar que será um empreendimento da melhor valia para o mundo náutico de Pernambuco e do mundo. A Barrinha é um porto dos mais abrigados e dotado de belezas paisagísticas de encantar. Atracamos na marina para reabastecer os tanques de água do Tranquilidade e receber o amigo Elder Monteiro que voltou a bordo para nos desejar boa viajem e ainda trouxe de presente ovos de galinha caipira e pata, produção da fazenda Belo Horizonte. Segundo Elder, o ovo da pata é tido pelo sertanejo como alimento afrodisíaco. Pelo sim, pelo não, teve tripulante que comeu de boca cheia.

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Abastecido com água e ovos, antes do meio dia, levantamos as velas e tomamos o rumo do mar com uma grande alteração em nossa programação de paradas. Inicialmente, depois da Barrinha, pretendíamos parar na praia de Carneiros, litoral sul de Pernambuco, e depois em Barra de São Miguel/AL, porém, o castigo que vínhamos tomando do mar desde Natal/RN fez com que parte da tripulação começasse a sentir saudade da caminha gostosa de casa. Sendo assim, ao sair do raso canal de acesso ao canal de Santa Cruz, aproamos o Tranquilidade para a sereia Maceió, terra de menestréis, vastos canaviais e mar de águas cristalinas.

A partir de Itamaracá a velejada passou a ser em mar de almirante e vento soprando na medida de nossa vontade. Assim fomos deixando para trás os batuques do frevo e do maracatu e em menos de 20 horas ancoramos em frente a Federação Alagoana de Vela e Motor, clube que recebe o navegador de braços e coração aberto.

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Nossa parada em Maceió foi mais por necessidade do que estratégica. Tivemos um pequeno vazamento em uma bomba pressurizada e perdemos mais da metade da água dos reservatórios. Necessitávamos também repor a despensa e Lucia vinha tendo sintomas de infecção urinária e nada melhor do que uma cidade grande para resolver essas pelejas. Resolvemos o problema da bomba e reabastecemos águas e diesel com a ajuda do Carlinhos, caiqueiro que está sempre alerta e a disposição do navegante que ancora em Maceió. Levei Lucia no hospital da Unimed-Maceio, que por sinal tem excelente atendimento, e depois de alguns exames foi liberada sem maiores recomendações, porque a medicação que ela estava tomando a bordo se mostrou eficiente para curar a infecção.

Já ouvi muito velejador reclamar do fundeio em Maceió e muitos nem chegaram a ir até lá. Dizem que o local de ancoragem é sujo, perigoso e a proximidade com os barcos de pesca na ancoragem gera um clima de insegurança a bordo. Sinceramente nunca me senti intimidado em minhas passagens por Maceió. Sim, a praia por detrás do proto não é limpa e em algumas épocas a sujeira acumulada na areia é de enojar, mas abdicar de parar ali é querer perder uma das melhores e calorosas recepções de uma navegada. A turma da Federação é mestre em receber bem o visitante e a cidade é de uma beleza ímpar.

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Até recentemente existia uma favela vizinho a Federação, mas essa foi retirada e dizem que em breve sugira no local uma praça e um novo mercado de peixes. A coisa ainda caminha a passos lentos e capenga, mas tudo indica que existe vontade política para a revitalização completa daquele pedaço de orla. Também ouvi comentários que o Porto cresce os olhos no local e sinaliza uma expansão, o que traria dificuldades a Federação Alagoana de Vela e Motor e consequentemente a navegação amadora. De uma coisa eu sei, mas não ouvi ninguém falar: A capital alagoana precisa urgentemente de uma marina pública para dinamizar e acelerar o turismo no estado. A falta de um píer de atracação é uma lástima para um estado que tem no mar seu maior tesouro.

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O novo farol de Maceió, localizado sobre o molhe do Porto, foi ficando para trás e o Tranquilidade foi ganhando velocidade em direção ao mar da Bahia. Seriam 260 milhas náuticas de uma velejada que prometia ser um sucesso. Mar de almirante e vento brando que empurrava nosso veleiro na maior maciota. Durante a madrugada cruzamos a divisa entre Alagoas e Sergipe, demarcada pela foz do Rio São Francisco, e em menos de 24 horas deixamos para trás também a cidade de Aracaju, que passamos sem nem avistar, pois navegávamos a mais de 20 milhas da costa para fugir do rugi rugi do movimento das plataformas de petróleo daquela região.

Pensei com meus botões: Esse é um mar de peixe!

Nelson Mattos Filho/Velejador

O mundo perde um grande navegador

Oleg Belly - capitão gutemberg.blogspot

“O homem do mar deixa pegadas sobre os oceanos que jamais se apagarão”. Oleg Belly, lendário e mitológico velejador, desembarcou do veleiro Kotik para traçar rotas nos oceanos celestiais. Oleg faleceu sexta-feira, 20/05/2016, vítima de câncer. O velejador deixa um legado maravilhoso para a vela de cruzeiro, principalmente para quem pretenda navegar pelo oceano austral. A bordo do Kotik, um veleiro fantástico, ele foi inúmeras vezes a Antártida e era um especialista na travessia do estreito de Drake, um dos mares mais amuados do planeta. Conheci Oleg em Natal/RN no final dos anos 90, quando de minha iniciação no mundo náutico. Ele navegava ao largo da costa do Rio Grande do Norte em direção aos EUA, quando decidiu alterar o rumo e adentrar em Natal para rever e abraçar o velejador Zeca Martino, veleiro Borandá. Ao se aproximar do Iate Clube do Natal, ele, a esposa Sophia e um dos filhos estavam no convés e olhavam para o clube, quando o saudoso marinheiro Galego, que estava fazendo manutenção no alto do mastro de um veleiro no píer do clube, deu o alarme que o KotiK estava pegando fogo e a tripulação não havia notado. Foi um corre corre geral. Naquela época existia uma balsa que fazia a travessia dos automóveis entre a zona leste e norte da cidade do Natal e por sorte existia uma base do corpo de bombeiros em um terminal da Petrobras, nas proximidades do porto. O clube acionou os bombeiros e uma das balsas ficou a espera do caminhão para apagar o incêndio do Kotik, tudo numa rapidez espantosa. O interior do veleiro queimou quase que por inteiro e a única vítima foi o gato de estimação de bordo que morreu queimado. O fogo foi causado por um curto-circuito no motor elétrico que suspende a quilha do veleiro. O Kotic teve que permanecer em Natal por vários meses e Oleg refez pessoalmente todo o interior do barco. A imagem que ilustra essa portagem foi retirada do blog Capitão Gutemberg, onde o autor conta relato de uma viagem feita a bordo do Kotic para a Antártida.