Arquivo da tag: energia eólica

Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 40

8 Agosto (37)

Enxu Queimado/RN, 16 de maio de 2019

Mauricio, hoje ao escutar o zumbido do silêncio que faz eco por entre as palhas dos coqueirais que varrem as sobras da noite, enveredei por minhas filosofias de varanda e me enganchei pelas veredas que levam ao nada. Das janelas da cabaninha de praia olho para a floresta de geradores eólicos que cercam essa Enxu mais bela e fico matutando em que lugar do tempo e do espaço mora o futuro. Será que algum dia a humanidade encontrará com ele? Qual a cara do futuro? Será que é novo, será que tem meia idade ou será que ele é um velho rabugento, metido a novo e pinta os cabelos de acaju? Meu amigo, vejo o futuro como um ser tão arisco que quando pensamos que chegamos a ele, o danado se vai e só nos resta olhar para frente e mirar o passado. Pois é Maurição, pense nuns pensamentos amalucados que fui achar de pensar! Mas como você faz parte do grupo de pessoas que escavaca as novidades do mundo computacional, me avexei a escrever esta carta, pois sei que de futuro você entende.

Mauricio, cabra bom, antes de continuar com meu moído filosófico, futurista e amalucado, vou mandar um cheiro para Dona Regina e quando você tiver um tempinho para tomar aquela gela na varanda do Aratu Iate Clube, olhando para o maravilhoso pôr do sol, tome uma por mim e dê um abraço na baianada que por lá se deleita. Pois bem, vamos falar do futuro.

Rapaz, desde que o Brasil se danou a estocar vento, que se não estou enganado tudo começou nas terras da Iracema, pelo menos foi lá que vi os primeiros cata-ventos, escuto falar que enfim chegamos ao futuro. Os primeiros totens cearenses deram cria e hoje seus descendentes se espalham pelo país, produzindo feito coelhos. O Rio Grande do Norte tomou gosto pela coisa e, segundo dizem, fincou o pé e tomou a dianteira na produção de energia eólica. Dizem que pelas terras de Poti está implantado o que existe de mais moderno na seara eólica e foi daí que fiquei criando interrogação no juízo. Escarafunchando pelos atalhos da “grande rede” fiquei sabendo que os galegos da Holanda estão fabricando uma turbina de energia eólica que é uma monstra e tem pareia não. Os holandeses garantem que a bichiguenta, apenas umazinha, terá capacidade de produzir energia para alumiar umas dezesseis mil residências e mais uma danação de bico de luz. Danou-se! A monstra terá 260 metros de altura, o rotor 220 metros, cada hélice terá 107 metros de comprimento e produzirá 45% mais do que qualquer turbina que esteja hoje em funcionamento. Foi aí que ao terminar de ler sobre a holandesa comedora de vento, mirei o parque eólico de Enxu e não vi nem a sombra e nem o vento do futuro.

Eh, Mauricio, esse tal futuro é mesmo escalafobético e ai daquele que tentar passar-lhe a perna! Dia desses chegaram por aqui umas Naus tripuladas com uns marinheiros fantasiados de bacanas, que se diziam donos do mundo e da razão, só prumode tinham nas mãos uns trabucos que pipocavam fogo e amostravam um tal brazão de um tal reino de além-mar e num papo torto para entortar cabeça de índio, meteram os pés pelas mãos e nesse blá, blá, blá, entre uma cachimbada e outra, afirmaram que vinham do futuro, mas nas cartas que enviavam para lá diziam que o futuro era aqui e ele estava nu. Pois é, meu amigo, no espaço entre o passado, o presente e o futuro dessa história meio engembrada, cabe todo tipo de conto e até hoje – que não sei mais se é presente, futuro ou passado – quem conta o conto aumenta um ponto e o que era futuro virou passado e tudo indica que continuará passado e malpassado, pois do que foi passado ninguém conta e do futuro ninguém quer saber, porque todos vivem o presente e este não tem passado e nem futuro. Vixi, agora lascou em banda e nem eu estou entendendo mais nada!

Maurição, hoje a Lua está crescente e toda mimosa fazendo fita no céu. Ei, amigo, o luar por aqui é bonito de se ver, viu! Se eu fosse tu, pegava o beco e vinha dar uns bordos por aqui para comer umas postas de peixe fresquinho da silva. Se bem que os escamudos estão meio arredios e as produções andam poucas. Mas pelo menos dá para a gente arranjar uma dúzia de caíco para colocar na panela do escaldaréu, para comer na mesma moda que os pescadores comiam antigamente, sentados no chão da praia, com uma garrafa de cachaça enfeitando a areia e a Lua luminosa prateando o arredor. Eh, moonlight, curto o presente, adoro a vida que se vivia no passado, pois não conheço o futuro. Se for aquele que está chantado na Praia do Marco, não vale, porque futuro ele nunca teve. Homi, deixa pra lá!

Luis Mauricio Vila, cabra arretado de uma Bahia de mar e cantorias, estou com saudades da sua alegria e das boas risadas. Pegue sua Regina e venha ligeiro ver a vida como ela é e merecer ser. Venha, meu amigo, e venha logo, pois Enxu Queimado fica de cara e de peito aberto para o paraíso.

Vou botar a cerveja no gelo, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 39

11 Novembro (107)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2019

Caro amigo, Fernando, bem que poderia juntar letras e escrevinhar sobre jangadas, paquetes, botes, redes e balaios de bicudas gordas, coisas que em Enxu são de belezas infinitas. Poderia falar sobre a imensidão de dunas brancas que cercam o lugar ou ainda dos quilômetros a fio de belas praias encantadas que se estendem até onde a vista alcança. Poderia falar das paneladas de escaldaréu degustadas nas noites a beira mar, acompanhado de deliciosos bate papos e cerveja, como diria o rei do baião, escumando, porque diante da força da brisa noturna dos alísios daqui, não tem gelo que dê conta. Quem quiser tomar cerveja gelada que adiante o passo nas goladas. Poderia falar sobre muitas coisas do cotidiano desse povoado praieiro tão mágico e tão incompreendido, mas vou me atrever a falar de coisas que me enchem de tristeza e desalento, porém, não se avexe e nem me queira mal por carregar essa cartinha com coisas dos pecados dos homens.

Amigo, você ainda lembra daquele dezembro de 2018, quando esteve por aqui? Pois é, naqueles dias andamos um bocado pelas estradas vicinais que traçam picadas por entre os lugarejos que povoam essa região de porta de entrada do sertão e lhe mostramos um Brasil que o Brasil desconhece, mas que é o mais simples e desnudo Brasil real, onde tudo é nada e nada é tudo. Você gostou tanto do “tour” que no dia seguinte embarcou no bugre bala de Luciano e foi ter um passeio de certezas e incertezas pelas dunas até a paradisíaca praia de Galinhos. Agora cá pra nós: Aquele bugre merecia uma participação especial nos filmes de Mad Max, num é não? Pois é, Fernando, aquelas estradas continuam igualmente você viu e irão continuar iguais por muito tempo, porque foram condenadas a uma vida de promessas e quando entra nesse departamento é difícil achar a saída.

Fernando, sei que você gostou daqui e até confessou em um áudio que me deixou feliz e emocionado, pois colocou Enxu um degrau acima de Gostoso, dois degraus arriba de Galinhos e quase emparelhou nossa prainha com a mutante praia de Pipa, afamada que só a peste. Claro que você queria nós agradar com as palavras de altivez e agradou tanto, que até hoje, sempre que tenho oportunidade, faço ecoar seu testemunho. Ei, você sabia que o município de Pedra Grande, do qual Enxu Queimado é distrito, completou neste mês de maio 57 anos de emancipação? Pois foi! Em maio de 2018 escrevi a Carta de Enxu 24, a amiga Lourdinha, e depois de relê-la posso dizer que em um ano nada de novo foi acrescentando e muito foi diminuído, apesar da monstruosidade do parque eólico que aqui gera energia, impostos e empregos. Aliás, comparo as empresas eólicas que usufruem das benesses dos ventos que varrem essa região, com gigantescas sanguessugas, porque sugam até as entranhas do que podem e em troca oferecem míseras migalhas em benefícios e ações sociais. Se os governantes não abrirem os olhos, muito em breve não teremos nem a estrada RN 120, que está praticamente intrafegável, insegura, sem sinalização, sem um mínimo de fiscalização e diariamente recebe dezenas de carretas com largura suficiente para tomar todo o espaço da estrada e carregadass com pesos desaconselháveis para uma via tão precária.

Rapaz, de vez em quando escuto falar em um tal Motores do Desenvolvimento do RN e fico a matutar o que danado é esse bicho! Será que os tais motores bateram biela antes de funcionar? Se a região que dizem ser a maior geradora de energia eólica do País está em situação periclitante, imagine o restante. Não dá para acreditar que paragens com tanta importância em uma área segurança nacional, que emprega milhares de funcionários, ocupada por gigantescas corporações industriais, não conte com um hospital bem equipado, não mantenha suas cidades, cercanias e estradas bem policiadas, não tenha um projeto bem elaborado de capacitação profissional e todas as cidades envolvidas estão situadas no Índice de Desenvolvimento Humano baixo. Pedra Grande ocupa a 5066ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros.

Eh, meu amigo Fernando Rabello Sessler, velejador de primeira linhagem, como disse na abertura dessa missiva, queria falar de coisas belas e encantos praieiros, porém, hoje acordei meio sei lá e ao olhar o coqueiral de fronte a minha cabaninha de praia, senti que o bailar das palhas estava com cadência entristecida. A natureza é sabia e mestre em emitir razões em forma de sinais. Nada passa despercebida de suas leis e suas sentenças são enigmáticas. Na história de Adão e Eva o paraíso foi oferecido e bastava que zelassem pela sua manutenção, mas o Casal botou tudo a perder ao sentir o cheiro e provar do sabor de uma doce e apetitosa maçã.

Fernando, não se deixe levar por estas palavras de desabafo pecaminoso, porque elas não levarão a nada. Venha passar mais alguns dias se refrescando nos alísios desse litoral encantador para colher novas experiências de um Brasil quase esquecido. Venha meu amigo, venha que garanto nova rodada de escaldaréu e a velha rede armada na varanda!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 36

2 Fevereiro (165)

Ângela, não sei se é verdadeiro o conto de que nascemos com o plano de vida traçado em algum lugar entre o Céu e a Terra e por mais que tentemos mudar nosso destino, não tem como. Mas como duvidar do conto, se quando começamos a caminhar no labirinto, o máximo que conseguimos é chegar a uma imensa e indecifrável clareira onde tudo casa com tudo sem nem sabermos o porquê? Amiga, aquele carequinha era o máximo e não tem como deixar de agradecer Aquele que traça o destino das pessoas, em ter cruzado o de vocês com o nosso.

Sabe, amiga, a vida nessa praia paraíso continua caminhando na paz e na tranquilidade e lembra um pouco Terra Caída/SE, aquele pedacinho do Céu debruçado sobre os rios Piauí e Cajazeiras, só não tem o Zé de Teca, porém, tem uma trinca de cabocos resenheiros que se brincar, deixa Zé segurando o queixo. Pois veja só: Certa manhã, depois de uma madrugada de relâmpagos e trovoadas, sentei para papear com uns amigos e o assunto não poderia ser outro a não ser o riscado dos coriscos que lumiaram a noite e o ronco surdo de Thor. Lá pras tantas, alguém afirmou que primeiro vinha o trovão e em seguida o clarão do relâmpago. Tentei corrigir a crença do amigo e por mais que eu argumentasse que primeiro vinha o relâmpago e logo após o trovão, porque a luz é mais rápida do que o som, não teve jeito, pois naquela roda de bate papo todos estavam convencidos que o som vem primeiro do que a luz. Teve até quem dissesse assim: – Menino, quando a gente solta um peido de velha primeiro vem o pipoco e só depois aparece o fogo do traque. E vou confessar uma coisa, viu amiga: Pois num é que saí daquela resenha quase convencido que eu estava errado, tamanha era certeza dos debatedores. No próximo encontro vou perguntar se a Terra é redonda ou plana só para ver o circo pegar fogo. Vai ser onda, viu!

Amiga, nesse mundão sem fronteiras e com a rede de computadores emitindo dados e notícias a cada milionésimo de segundo, por mais isolado que seja o recantinho do planeta o zumbido chega e chega ligeiro e nem uma redinha preguiçosa e despretensiosa, estirada em uma varandinha de praia, serve de trincheira para um vivente se esconder. Pois veja só, estava eu sobre a varandinha, maravilhado com a história de São Lucas, no livro Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldell, quando me deu na telha de pegar o celular, bicho anunciador de boas e más, e na telinha apareceu a notícia de que o presidente dos ianques, Donald Trump, em discurso cutucou os defensores da energia eólica e disse que o barulho emitido pelas pás e turbinas geram câncer. Não é preciso dizer que a largada do galego deu o que falar mundo afora, mas da minha varandinha fiquei a matutar ao olhar para a floresta de “moinhos de vento” que por aqui se estende além de onde a vista alcança e mais um pouco: – Agora danou-se, e se esse “topetudo” estiver certo? Dia desses uma amiga que mora no povoado do Alto da Aroreira, parede e meia com Enxu, disse que tinha horror do barulho constante das torres de eólico, que cercam o lugar. Disse que aquele zumbido surdo dava até dor de cabeça e que muitas vezes não conseguia dormir. – Vai vendo, amiga, vai vendo!

Pois bem, deixei o alerta do galego para lá, pois o danado é dado a falar pelos cotovelos, se bem que acerta quase todas. Lembra do atentado na Suécia? O bixiga só errou a data! Pulei a tela e diante da notícia seguinte encolhi os olhos para ler o que achava que não estava lendo. O STF, que agora se avexou a cesurar a boca e os dedos do povo e a emitir ameaças veladas a torto e a direita, deu carta branca para o sacrifício de animais nos terreiros de umbanda, sob alegação de cunho religioso, cultural e histórico. Cada qual com sua fé, mesmo que seja torta! Agora me diga, Ângela: – E se o santo pedir o sangue, como tem acontecido por aí, de uma pessoa, será que também está dentro da permissão dado pelos senhores supremos?

Eh, amiga, esse mundo está virado de ponta cabeça, ou melhor, sempre esteve. E falando de sacrifícios de humanos: – Você viu que nos Andes encontraram centenas de esqueletos de crianças, coisa feita pelos Incas? Os estudiosos relativizam e dizem que as crianças eram sacrificadas para que os deuses abrandassem os efeitos do El Niño. Será que naquela época tinha STF naquelas montanhas de frente para o Pacífico? Sei lá! E pior é que o danadinho do El Niño e sua irmãzinha querida, continuam dando as cartas e mandando ver nas coisas do tempo, isso quer dizer que as crianças incas morreram por nada. Tem muito pecado em meio a fé!

Pois é, Ângela Cheloni, essa missiva era para falar das coisas dessa Enxu mais bela, mas fui inventar de curiar o celular e me perdi por entre as vias marginais das histórias mal contadas, mas tudo bem porque tudo vale quando se quer puxar conversa com uma amiga.

Beijo e não demore a voltar por aqui, viu!

Nelson Mattos Filho

A energia eólica avança mar adentro

10 Outubro (78)

Quando a presidente Dilma Rousseff, em discurso na ONU, falou em “estocar vento”, o mundo veio abaixo nas redes sociais e até hoje, vez por outra, Éolo traz de volta as lembranças das palavras presidencial, porém, errada ela não estava de tudo e a ciência prova isso, basta pesquisar por aí os estudos que estão bem adiantados, principalmente no Reino Unido, inclusive com participação de cientistas brasileiros. Pois bem, o Brasil ainda não consegue “estocar vento”, mas está entre os maiores produtores de energia eólica do mundo e o Rio Grande do Norte aparece na liderança com o maior parque instalado. A energia dos ventos alísios que sopram no RN transformam o cenário de dunas, cidades litorâneas e caminha a passos largos para modificar a paisagem das serras e matas do sertão. O potencial é enorme e despertou interesses até na estatal do petróleo, e esta, entabulou estudos e anunciou investimentos para invadir o mar com torres, pás e geradores. A primeira planta-piloto da eólica, em alto mar, da Petrobras será instalada no campo petrolífero de Guamaré/RN e tem previsão de entrar em funcionamento até 2022. Se algum dia conseguiremos estocar vento, eu não sei, mas que vamos produzir uma danação, isso vamos.     

A energia de Éolo

4 Abril (151)

Dia desses ouvi comentários de pitaqueiros afirmando que o Rio Grande do Norte havia excedido sua capacidade de produzir energia eólica e por isso não seria beneficiado com novos parques. Da minha varandinha, olhei para as palhas dos coqueiros, que não paravam de bailar, sopradas pelos alísios do Nordeste e dei risadas. Pense num povo para inventar histórias! Ora bolas, em matéria de ventos o Rio Grande do Norte é todo poderoso, tanto é, que ocupa a primeira posição, com 135 parques instalados, produzindo 3.678,85 MW,  bem distante do segundo colocado, que é a Bahia, com 93 parques que produzem  2.410,04 MW e em terceiro vem o Ceará, com 74 parques produzindo 1.935,76 MW de capacidade instalada, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 15/02, pela  Associação Brasileira de Energia Eólica, em que coloca o Brasil na 8ª posição do ranking mundial com 52,57 GW de capacidade instalada. Em primeiro lugar está a China com 188,23 GW. O segmente eólico responde por 8,3% da energia produzida no Brasil, enquanto as hidroelétricas produzem 60,9%. Os parques eólicos localizados no Nordeste, no mês de setembro de 2017, foram responsáveis por 64% da energia consumida na região. Agora se os pitaqueiros, que escutaram o grilo cantar sem saber aonde, dissessem que todo esse potencial energético está andando a passos de tartaruga, seria uma verdade, pois os leilões de novos parques ficaram parados em 2016 e 2017 e esse desmazelo terá reflexos nos resultados de 2019 e 2020. Segundo estimativas, o Brasil tem potencial eólico superior a 500GW.   

Além da realidade

IMG_0318

Surreal: que denota estranheza, transgressão da verdade sensível, da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo