Arquivo do mês: novembro 2017

Água rasa

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Zé Mauro Nogueira é um irrequieto, tão irrequieto que quando chegou a bordo do Avoante, em 2013, sorriu, olhou para cima, olhou para os lados, olhou para o mar e falou: – Vamos nessa comandante! Senti que a frase havia sido pronunciada como sentença de libertação e que todo tipo de preocupação ficaria abandonado sobre as tábuas do píer. E assim foi durante quatros dias maravilhosos e assim Zé virou um grande e bom amigo, que gosta de escrever e mantém um blog, chamado Blogueio Maldade. Eu: – Porque blogueio? Ele: – É a junção das letras, Blog eu e o maldade, porque tenho uma mente ferina. – Ah tá! Pois bem, fui até o blogueio maldade e, sem pedir licença e nem perdão, copiei uma das últimas postagens, instigante como as outras, para tentar mexer com os brios do cronista bissexto que há muito esqueceu o caminho das letras. – Vamos nessa Zé!

Muito antes de Zygmunt Bauman alardear que a vida é líquida na pós modernidade, Marshall Berman já nos lembrou que tudo que é sólido desmancha no ar.

Mas o que isso quer dizer, essa fluidez, essa evanescência? Onde as observamos? Cotidianamente, em todas as nossas relações, sejam afetivas ou profissionais.

Uma das ideias básicas por trás do conceito é a de que as coisas se personificam e as pessoas se coisificam. Ou seja, passamos a atribuir valor demasiado às coisas, criando apego ao que é mera mercadoria, e passamos a tratar as pessoas como coisas, itens descartáveis, consumíveis.

Essa característica leva a uma outra, a transitoriedade das relações. Como tudo é consumo, até mesmo os outros seres humanos, mesmo as relações tradicionalmente mais importantes passam a ser efêmeras, descartáveis, duráveis apenas na medida em que cumpram uma utilidade. Por isso líquidas, porque não duram o tempo de se tornarem sólidas, não chegam a criar vínculo efetivo, muito menos compromisso real.

No ambiente online, de amigos de Facebook ou de grupos de whatsapp, isso fica explícito. A facilidade com que se fica “amigo” de alguém é proporcional à de terminar a “amizade”. Basta um click. Sem afeições ou explicações. Números de uma organização social que mede sucesso e felicidade estatisticamente, através de contadores de redes sociais.

Essa facilidade com o que as coisas acontecem num mundo líquido, essa velocidade de uma sociedade conectada, 24×7, tornam-se ditames, gabarito para todo o resto. Quase ninguém mais está disposto a investir tempo em se dedicar a alguma coisa para colher resultados futuros, quase ninguém mais quer se esforçar verdadeiramente para conseguir algo de valor.

Infelizmente, essa expectativa de facilidade e velocidade, vai formando uma sociedade além de líquida, rasa, superficial, óbvia. Contraditoriamente, é a sociedade do conhecimento formada por indivíduos que, em sua maioria, não querem perder tempo ou se esforçar para obtê-lo.

O sucesso e a riqueza devem acontecer de forma rápida e sem maiores esforços. Na velocidade de realizar uma transação eletrônica, na facilidade de encontrar uma explicação no Google, sem o desafio real da complexidade da vida.

Alunos universitários que, em sua maioria, não querem teoria, que não têm tempo a perder estudando nem estão dispostos a se esforçar para ler os autores no original; preferem as apostilas, os resumos. Querem o conhecimento colocado em suas cabeças de forma fácil e rápida, como um download de arquivo via Dropbox. Que acabarão por se tornar profissionais que vivem à base de citações da revista VOCÊ S/A ou do que ouviram no FANTÁSTICO, que repetem o que a massa diz num control C, control V frenético, e que usam “filosofia” como expressão pejorativa.

Mercado farto para os livros de autoajuda, que prometem receitas simples para a felicidade, para o sucesso profissional e para qualquer outro desafio humano. Bom também para os livros que prometem a fórmula mágica, em sete ou dez passos, para ser um gerente eficaz ou para ser um Líder de verdade, só precisando encontrar quem mexeu no seu queijo ou um monge não executivo.

Ou, como a última moda, demanda inesgotável para coaches e, agora, masters coaches. Alguém que promete “desenvolver” o outro, transformar-lhe, de maneira personalizada, objetiva, prática, tudo como o mundo atual exige.

Quem está familiarizado com a proposta da caracterização das gerações e sua classificação, poderá enxergar o z, o y ou o x em cada ponto do discurso, seja no objeto ou no sujeito que o pronuncia. Isso porque o conhecimento, a ciência, partem da observação do mesmo fenômeno, usando abordagens diferentes: o indivíduo (psicologia), o homem em sociedade (sociologia) ou como garante sua sobrevivência (economia), por exemplo.

Ter a capacidade de sentir-se confortável no maelstrom, nesse turbilhão potente de relações efêmeras, de mudanças hipervelozes e de predominância do que é superficial e óbvio, é característica adaptativa relevante dos seres humanos, absolutamente útil à sobrevivência.
Para os mergulhadores, resta aprender a se divertir em água rasa.

             Zé Mauro Nogueira

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Um mar de memórias

IMG-20171128-WA0032O velejador/escritor, Érico Amorim das Virgens, lança dia 30 de novembro,  a partir da 19 horas, no Iate Clube do Natal, Um Mar de Memórias, uma obra imperdível para todo aquele que tem o mar como paixão, em que o autor resgata fatos, fotos e causos que marcaram a história do iatismo no Rio Grande do Norte. Vamos lá! 

Ponta Negra – Uma praia entregue as ratazanas

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A praia de Ponta Negra tem talvez o conjunto de paisagem mais retratado da capital potiguar. Outrora uma das mais belas praias do Brasil e recanto disputado por visitantes de várias partes do mundo, basta ver o festival de idiomas, Ponta Negra está se acabando no vácuo dos erros e descasos dos homens que tinham por dever mantê-la viva e linda para sempre, pois a natureza caprichou no traçado e a cada dia cobra a parte que lhe foi tomada de assalto. Ponta Negra era dotada de uma beleza ímpar, com coqueiros a beira mar, uma larga e vasta faixa de areia, uma vegetação de praia fora do comum e fascinantes desenhos recortados em uma conjunto de falésias que tinha até areias coloridas. Quando criança e adolescente fui veranista da bela praia dos arrastões de rede antes do nascer do Sol, das caminhadas sobre o Morro do Careca, do banho de mar em águas mornas, dos cajus e mangabas da enorme mata onde hoje está aboletado o conjunto Ponta Negra, da velha e boa vila dos pescadores e da paz silenciosa das tardes sobre as areias frias se deliciando com uma bacia de mangas.  Eita Ponta Negra velha de guerras, o que fizeram com você? Quem foi o covarde que assinou a sentença para assassinar sua linda faixa de areia e lhe condenou a ostentar uma monstruosa passarela de concreto e pedregulho? Minha cara Ponta Negra, peça encarecidamente ao mar, que lhe acaricia a alma, que aumente a força de suas ondas e mostre aos homens que eles não passam de grandes bestas quadradas. Levante-se Ponta Negra, enxugue suas lágrimas de tristeza e assuma novamente a  magnânima beleza que um dia encantou o mundo, mas antes, expulse os algozes e os crápulas de suas areias. As imagens acima podem até encantar, mas para mim, são provas de um crime sem perdão.         

Japão encontra mais um barco fantasma

xCORRECTION-JAPAN-NKOREA-TRANSPORT-ACCIDENT-FISHING.jpg.pagespeed.ic.1tn1CbwMFLNotícias sobre o aparecimento de barco fantasma é um prato cheio para roteiristas e escritores do gênero suspense ou terror, como também para pessoas que gostam de criar fantasias mirabolantes para seus pesadelos. Perdi as contas de quantas vezes me perguntaram se já tinha visto alguma assombração vagando pelos mares e em todas as vezes, preferi fazer ar de riso do que ter que tentar responder o que não tem resposta, pois se dissesse que sim, teria que criar uma fantasia e se dissesse que não, poderia ser que o interlocutor achasse que eu estaria desdenhando dos “fantasmas”. Porém, deve ser um deus nos acuda dar de cara com o espectro de um barco a deriva vagando pelos oceanos e no momento da aproximação, perceber que a bordo tem alguns corpos sem vida ou apenas ossadas. Já me basta a série de filmes, que adoro, Piratas do Caribe. Registros de embarcações a deriva com os tripulantes mortos é comum no noticiário mundo afora e as autoridades navais não cansam de alertar os navegantes sobre a ocorrência de embarcações perdidas e algumas jamais foram encontradas, apesar de alguns informações desencontradas de que foram avistadas, só não não se sabe onde e nem quando. O ditado diz que, o mar é um mundo e eu completo dizendo que, é um mundo estranho. Pois bem, o Japão anuncia que mais um “barco fantasma” foi dar em uma de suas praias e a bordo foram encontrados os esqueletos de 8 pessoas. As autoridades acreditam que são pescadores da Coreia do Norte, porque a praia onde se deu o achado macabro está virada para as terras do “reino” de Kim Jong-un. Somente em 2017 foram encontrados 43 barcos de madeira, mesmo modelo do encontrado está semana, e pelos pertences e inscrições nos costados, tudo leva a crer que sejam norte coreanos, mas como nas terras do “baixinho invocado” nem tudo é permitido comentar, fica o dito pelo não dito. No ano passado a conta chegou a 66. 

ARA San Juan

SUBMARINOHá nove dias do desaparecimento do submarino argentino ARA San Juan, com 44 tripulantes a bordo, o que sobra na imprensa é um festival de desinformações e pitacos dos mais variados. O que mais me intriga, diante do grande trauma para a nação argentina, são as declarações oficiais e vindas do mais alto comando naval argentino, ou sei lá de onde, que irresponsavelmente, depois de transcorridos vários dias, trazem marcar profundas para a integridade neurológica dos familiares dos oficiais desaparecidos. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento das coisas do mar, sabe que não é fácil encontrar uma embarcação, por maior que ela seja, sobre as águas de um oceano tempestuoso e amuado, como é o caso do Atlântico Sul, local onde o ARA San Juan informou sua última posição, como também que não é baseado nas certezas das teorias que se resolvem os enigmas marítimos, ainda mais quando a embarcação navegada sob as águas, como é o caso de um submarino. O que houve ninguém sabe, talvez jamais saberemos e não é o caso de acusar ninguém pelo ocorrido, mas as primeiras informações repassadas a imprensa, que já fala pelos cotovelos e põe pontos, vírgulas, exclamações e interrogações onde bem deseja, deveriam ter se mantido na mais fiel linha de veracidade, clareza e passando a confiança de que todos os esforços foram aplicados e assim serão mantidos. O desespero dos familiares nas dependências da Base Naval é de cortar o coração de um homem do mar. Desespero de quem, além de não saber de nada, perdeu a confiança nos informantes e está vendo a esperança se esvair como poeira diante de palavras como, explosão, falência de equipamentos e asfixia, palavras que deveriam ter aparecido nos primeiros comunicados. Que os deuses dos oceanos tenham compaixão! 

          

Magias da natureza

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“Umbuzeiro é a árvore sagrada do sertão”

frase do livro Os Sertões

Correção

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Na postagem “O homem do mar” comentei, seguindo informações do site argentino Gaceta Mercantil e G1, que o submarino ARA San Juan havia sido localizado. A informação foi desmentida pela Marinha Argentina e as buscas continuam. Vários países, inclusive o Brasil, ofereceram ajuda e já enviaram equipes para a área em que o ARA San Juan fez contato peça última vez. O submarino está com 44 tripulantes a bordo.