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Zanzibah – No porto

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A madrugada foi de céu limpo, Lua cheia, mar liso e sopros mornos de uma brisa insistentemente preguiçosa e, enquanto Lucia tirava uma soneca e o Zanzibah navegava macio sobre um mar de azeite, eu espichava o olhar em busca do brilho dos faróis. Adoro navegar pelos faróis! Mas onde foram parar os lampejos serenos dos velhos e bons sentinelas dos navegantes noturnos daquele pedaço de litoral? Dizem que, assim como outros, perderam a razão de existir. Será verdade? Que tristeza visualizar a bela estrutura do Farol de Tamandaré silenciado em sua mais fiel missão.

Perdido em reflexões, vi os primeiros raios do Sol clarear a barra do nascente e lembrei da avezinha oceânica que havia se aproveitado da nossa boa acolhida entre os litorais da Bahia e Sergipe, e perguntei: – Por onde ela avoa? Claro que ela tinha algo a dizer, mas naquele dia, não entendi seu olhar e muito menos seus sinais, mas assim que o astro rei esquentou a turbinas sobre o mar de Pernambuco e o vento Leste acariciou as velas adormecidas do Zanzibah, sorri para mim mesmo e lembrei do olhar enigmático da avezinha. E lá fomos nós, sorridentes, com velas enfunadas no rumo da capital do frevo.

Não, a navegada no Zanzibah não foi um passeio, foi trabalho, um delicioso trabalho que adoramos cumprir, com empenho, responsabilidade e segurança, porque é assim que agem todos aqueles que se comprometem a comandar embarcações daqueles que nos confiam o sonho de uma vida. Porém, os escritos e reflexões que fazem parte desse relato, que hoje chega a segurança de um porto, são registros de observações que se apoderam de minha alma marinheira desde que pisei pela primeira vez em um veleiro. Alguns acham que é poesia mambembe, outros que é um sonho amalucado e há quem veja apenas escritos disformes, rabiscados de utópicas cores, mas são registros, apenas registros que não consigo deixar que fiquem esquecidos sob as profundezas abissais dos oceanos.

Os ventos que por aqui passaram, o fascinante e preguiçoso Nordeste que acompanhou o Zanzinbah durante quase a totalidade de sua travessia de Salvador a Recife, vem do quadrante das cores vibrantes e deixa o mar com as feições do pecado. Vem das brasas das fogueiras que levam alegria as praias nordestinas. Vem das fábricas de maquiagens que faz aflorar a beleza das alvas dunas. É um vento macio que sopra como quem não quer nada, querendo tudo. É o vento de descidas manhosas e subidas que atiçam a inteligência. O Leste, que resolveu dar o ar da graça nos últimos passos da nossa lenta caminhada oceânica, é o vento da alegria de velas ao vento. Das esteiras fosforescentes dos plânctons. Vento de través folgados e escotas apaziguadas. Vento de corsos de cavalas, bicudas, dourados, serras, atuns, bonitos e da gostosura de um delicioso escaldado de peixe fresco. Sou um apaixonado pelos ventos, seja de que quadrante for, porque sou fascinado na sabedoria que exala por entre as pedras do templo de Éolo.

Cinco horas e trinta minutos, da tarde do primeiro sábado de um mês de março que dificilmente o Brasil, e o mundo, esquecerá, com a Lua prateando o mar em frente ao Cabo de Santo Agostinho, navegamos sob a maravilhosa trilha sonora que ecoava do dial da Rádio Tribuna, de Pernambuco, e assim, as luzes da cidade do Recife surgiram no fundo da paisagem. Cravei o rumo nos lampejos do Farol de Olinda e previ a hora da chegada, se o Leste não abandonasse o posto, por volta 23 horas.

Lucia foi até a cozinha, preparou os acarajés congelados que havia comprado no aeroporto de Salvador, depois de uma batalha em que colocou quase toda força tarefa do aeroporto para se movimentar, até que alguém gritou, com uma caixa na mão: – Pronto, achei uma! Os demais fizeram em coro: – Ufa!!!!!! Pense num reboliço grande!!

Vinte e três horas, maré com uma hora de enchente, adentramos a Boca da Barra do Recife em meio as sombras e os cheiros de um canal que tantas vezes navegamos. Em frente ao Pernambuco Iate Clube, recolhemos as velas e mansamente aproamos o Zanzibah para navegar em meio as marcações do canal do Cabanga.

Sábado, 07/03/2020, vinte e três horas e trinta minutos, com as bênçãos do Senhor do Bonfim e na segurança da ancoragem do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, meu coração aliviou e falei baixinho: – No porto!

Nelson Mattos Filho

Zanzibah – Parte III

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Antes de prosseguir no relato da viagem é preciso corrigir o rumo para realinhar a data da saída do portinho do Jaraguá, para o dia 06/03, sexta-feira, e não 07/03, sábado, como está escrito na Parte II. Pronto, com o pecado corrigido, vamos seguir.

Com a Lua crescente iluminando o céu de uma sexta-feira atribulada a bordo, deixamos para trás as águas mansas do fundeadouro do Jaraguá, na bela Maceió, e aproamos as sombras escuras do horizonte ainda sob os efeitos de um aparente vento Leste até que cruzamos a fronteira invisível da prova dos nove e ao mudar o rumo para aproar a capital do frevo, demos de cara com a verdade que vinha nos acompanhando desde a Bahia, tchan tchan tchan tchan…., Nordeste na cara! – Fazer o que? – Seguir em frente sem reclamar da vida! Mas peraí, acho que ninguém aguenta mais esse papo furado de velejador de só falar de mar, vento, céu, nuvens, lua, sol, estrelas. – Que tal falar de divagações? – Pois é, né, vamos lá!

Com o veleirinho singrando a escuridão da noite e após Lucia servir o jantar, me posicionei no cockpit para o turno de comando e repassar cada momento daquela navegada, conferido os acertos e aprendendo com os erros, porque é assim que atravesso os turnos de vigia. – De vigia? – Sim, vigiando as sombras da noite e a movimentação luzes e embarcações que por ventura surjam no horizonte, porque em um barco bem equipado, bem cuidado, com a manutenção em dia, tudo funcionando perfeitamente, principalmente quando traçamos uma rota segura e a todo momento, mesmo sem precisar olhar para o GPS, sabemos exatamente onde queríamos estar, a navegada se torna um prazer sem igual, ainda mais quando o piloto automático não nega fogo.

Foi assim, que repassando o “filme” da viagem senti saudade da avezinha oceânica que em um fim de tarde, entre a Bahia e Sergipe, pousou sobre o bote de apoio e após examinar a cara dos tripulantes, felizes com sua presença, foi se chegando, chegando e quando percebi, estava agachadinha ao meu lado, enquanto eu tirava uma soneca. Ela passou a noite ali, observando tudo e sempre aproada ao vento. Quando os primeiros raios do dia iluminaram o mar, ela alçou voou e se foi para mais um dia de pescaria. Sempre gostei de ter pássaros pegando carona a bordo, trazem bons fluidos e trabalham como mensageiros da natureza.

Mais uma olhada no manto negro da noite e ri sozinho da resposta que dei ao amigo Antônio Carpes, quando perguntou sobre o Zanzibah: “…barco acima da média, mas com o velho pecado de todo Delta 32: O banheiro! Meu amigo, se o cara for ao banheiro fazer alguma coisa, faça o que programou, porque se resolver mudar, não tem como, pois não dá nem para mexer e nem pensar muito. Ou faz, ou não faz e se nesse meio tempo quiser fazer mesmo, tem que sair e entrar novamente no modo que for a necessidade. Segundo um amigo, o projetista que desenhou o banheiro do Delta 32 deve ter tirado as medidas por ele, que deve ter o maior bi… do mundo, porque o mortal comum não consegue fazer o número um nem com reza braba: Quando chega próximo ao sanitário, bate a testa na antepara e o “maquinário” não alcança para mirar a caçapa. Se tentar fazer sentado, pior, pois tem que dá um retrocesso, sair do banheiro, pois não consegue mudar de posição, e quando senta no trono, bate com a nuca na antepara. Pense num aperreio e se tiver muito apertado já viu, né, vai esquentar o mocotó!

Pois bem, respondi tudo isso para Tonho, que é cabeleireiro, através de mensagem de áudio e o coitado inventou de escutar, a todo volume, enquanto cortava o cabelo de um cliente. Pense num moído dentro do salão, até ele conseguir baixar o volume, que nessas horas não tem quem consiga!

Foi com o olhar focado nos movimentos noturnos e o pensamento viajando pelo mundo que meu turno de “vigia” se passou e nem percebi quando adormeci. Ao acordar, Lucia estava vigilante, como sempre esteve. Aliás, quando navegando ela nunca dorme mais do que 15 minutos, mesmo que não esteja em seu turno de comando, e sempre que abre os olhos, passa a vista na imensidão do mar, aguça os sentidos para ouvir todos os sons do barco, manda – sempre manda – alguma ordem e volta para o berço para mais 15 minutos. Amo minha comandante!

Duas horas da madrugada e lá estou novamente alerta e agora em busca do brilho dos faróis, mas o clarão de Maceió ainda estava bem visível pela popa. – Vento? – Nem brisa, apenas o fascinante mormaço do mar!

Nelson Mattos Filho

Zanzibah – Parte II

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Enquanto o Zanzibah cruzava as águas da Baía de Todos os Santos, buscando a luminosidade avermelhada do Farol da Barra, eu aproveitava o conforto do piloto automático para ficar à espreita com os sentidos antenados em pressentir a movimentação das sombras da noite, porém, era como diz o ditado, um olho no peixe outro gato, pois não tem como navegar as águas encantadas da terra de todos os santos, emoldurada por uma rica biblioteca ao ar livre, da mais pura história de um povo varonil, e ficar indiferente. Navegar no mar da Bahia é show! Certa vez, na Ilha de Itaparica, em conversa com um velejador alemão, que já havia dado várias voltas ao mundo, ele apontou um veleiro que se dirigia para o canal interno da Ilha e disparou: “Quer saber? Não existe, no mundo, lugar melhor para velejar do que a Baía de Todos os Santos…”. Não sou bairrista, não sou baiano e nem conheço os mares do mundo, mas não duvido e boto fé nas palavras do alemão.

E foi nesse cenário de reciclagens e lembranças que cruzamos a Boca da Barra de Salvador, agradeci os lampejos do belo farol e posicionei a proa do Zanzibah para navegar entre o estreito canal entre o Banco de Santo Antônio e a praia da Barra, mas uma novidade me deixou encucado e até hoje fico a me perguntar: Onde danado foi parar a boia luminosa, lampejo amarelo, que outrora estava ali para orientar os navegantes quanto a ponta Norte do famoso banco de areia? Será que me confundi? Não, não pode ter sido! A boia não estava lá, porque passei próximo do ponto, diminui a velocidade, olhei em volta e nada da danada. Bom, deixa pra lá e vamos seguir viagem!

Desde que enveredei pelos caminhos do mar fiquei condicionado a acompanhar as previsões do tempo, na esperança de me antecipar aos amuos da natureza e ter com isso navegadas sem muitas surpresas. Mas confesso que nem sempre a coisa funciona como prometem os satélites, gráficos e os analistas, e é daí que temos de tirar da cartola a paciência e fazer uso dos ensinamentos aprendidos na lida náutica, entre eles, que previsão é apenas previsão. Ao observar os gráficos para os dias dessa navegada entre Salvador e Recife, vi que seria de vento Nordeste e, em certas horas do dia, suaves refrescos de Leste. Nada mal, pois bastaria motorar até a ponta de Itapuã e dali abrir as velas e curtir o momento. Ora, estávamos saindo a noite, período de tradicionais ventos brandos, ou nenhum, na Bahia, mas tudo bem, estenderíamos o uso do motor até o dia amanhecer e assim que entrasse a viração, velas ao vento.

O dia amanheceu, foi passando, passando e nada do Leste dar sinal de vida e o planejamento de chegar a Recife depois de 60 horas de navegada foi sendo refeito, outro dia chegou e nada do nordestão abandonar o posto. – E o mar? – Bem, o mar era de amante de almirante! – Como assim? – Rapaz, é aquele mar que mais parece um tapete persa de tão macio. Mar feito para fazer todos os desejos da amada. – E não poderia ser mar de esposa de almirante? – Pode ser, né, mas as vezes o cara quer descontar algumas pelejas caseiras e sendo assim, quanto pior, melhor!

Foi somente no terceiro dia de navegada, já no litoral de Alagoas, que o Leste resolveu retornar das férias de verão. Desligamos o motor e apaguei a luz encarnada que vinha acesa em minha cabeça, pois dificilmente conseguiríamos motorar até o Porto de Maceió com a quantidade de diesel que restava. – E não se veleja com vento Nordeste? – Claro que sim, mas com quatro ou cinco nós de vento, para empurrar um barco de cinco toneladas, ninguém merece, né!

Em Maceió, porto que adoro e onde temos grandes e bons amigos na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM, nosso tripulante, Jorge Rezende, desembarcou e voltou para Natal de ônibus, na mesma noite em que chegamos, porque o tempo que ele havia reservado para a viagem havia se esgotado. Jorginho foi um excelente parceiro, um exímio pescador, excelente papo e fez os dias de vento nordeste ficar mais divertidos a bordo. Sem nosso tripulante, Lucia preparou o jantar e desmaiamos na cama nos embalos das águas mansas do porto do Jaraguá.

Pela manhã, com a ajuda providencial dos amigos Plínio Buenos Aires, Ângela Cheloni, Paulinho Cerqueira e Pinto de Luna, conseguimos que o barqueiro Jó viesse nos dá apoio para comprar diesel e depois seguir viagem. Manobra feita, barco abastecido, agradecemos ao Jó e ao tocar na chave para ligar o motor, nada. Resultado: Entrada de ar! Tentei os truques básicos e nada. Mais uma vez, pedi ajuda aos amigos para me indicarem um mecânico, acionei também a turma online do grupo Velejar, e no finalzinho da tarde chegou um marinheiro da força tarefa da FAVM para colocar ordem na máquina.

Dezoito horas, do dia 06/03, sexta-feira, tomamos o rumo da capital do frevo. – Vento? – Nordeste soprando a 4 nós!

Nelson Mattos Filho

Zanzibah – Parte I

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O Arquipélago de Zanzibar é um paraíso exótico da Tanzânia, costa leste africana, formado por duas ilhas, Zanzibar e Pemba, e é considerado ponto de fusão entre a África e a Arábia, recebendo forte influência muçulmana. Em swahili, língua banto mais falada na região, o Arquipélago é conhecido por Unguja, porém, os muçulmanos deram-lhe o nome de Zanj-Bar, que significa costa dos negros, e daí Zanzibar. O paraíso africano tem praias de azul turquesa, areias brancas e finas e um povo de sorriso largo. – Se eu conheço? – Conheço não, mas fui escavacar no maravilhoso mundo Google e encontrei na Wikipédia e no site Catraca Livre as informações que abrem o diário da navegada que fiz a bordo do veleiro Zanzibah, entre Salvador/BA e Recife/PE, no início de março de 2020.

– Ei, peraí, Nelson – O que foi? – Você começou explicando o que danado é Zanzibar e agora vem falando em Zanzibah? – Sim e daí? – E daí o que? – Homem, deixe de coisa “coisada” só por causa de um “r” ou um “h”, pois digo que vamos navegar que é o melhor a gente faz, viu!

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E foi assim que dois dias antes do Carnaval me ligou o velejador João Maria de Lima, o grande Joca, para saber o que eu estava fazendo. Respondi que estava dando um treinamento especial no “figueredo” para enfrentar com bom rendimento o reinado de Momo. Logo em seguido ele passou a senha que faz brilhar os olhos de qualquer velejador apaixonado: “Que tal ir pegar um veleiro na Bahia e levá-lo a Recife? ”. – Quando? – Ontem! – Oxente, meu bichim, tais com brincadeira? – Estou não, Nelsão, é coisa de embarcar, levantar as velas e seguir rumo! – Só tenho condições após o Carnaval? – Pronto, fechado, marque o dia! – Na primeira segunda-feira após calarem os batuques! – Pois boa viagem, Nelson, vou falar com o Galego e tudo certo. – Que Galego? – Vicente Gallo, homem, porque é ele que está no comando da transação. – Ok, beleza!

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O Carnaval chegou, os blocos passaram diante da varandinha da nossa cabaninha de praia e entre uma gelada e outra eu aproveitava para acompanhar as previsões de tempo, colocando na cachola os dados e gráficos dos satélites e a partir deles, traçar minhas impressões e estratégias de navegada. Na tela o cenário não mudava: Vento Nordeste e mar cheio de amor para dar. Maravilha!

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Como sempre faço em minhas navegadas, convidei alguns amigos que gostam de mar para embarcar nessa onda, mas não senti firmeza nas respostas e assim a tripulação seria apenas eu e Lucia. Liguei para meu dentista, Jorge Rezende, pedindo para adiar uma consulta que estava marcada, expliquei o motivo, porém, ele disse que adiaria, mas eu teria que levá-lo. Bora nessa!

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Sábado, 29 de fevereiro, desembarcamos no aeroporto 2 de Julho e antes de chegar na marina Angra dos Veleiros, no bairro da Ribeira, em Salvador, passamos pela Igreja do Bonfim, para pedir benção ao Senhor da Colina Sagrada, depois paramos em uma banca de acarajé e após matar a vontade da iguaria baiana, fomos nos apresentar ao barco, um modelo Delta 32, muito bem cuidado e pronto para velejar. Umas cervejas depois, com o pretexto de comemorar o breve retorno ao mar, voltamos a bordo para dormir o sono dos justos, embalados pelo balanço suave das águas que banham a Península de Itapagipe.

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O domingo, 01/03, foi de verificar os detalhes do barco, fazer inventário dos equipamentos de bordo e segurança, ver documentação, checar a rota a ser seguida, abraçar meus filhos e genro, Nelsinho, Amanda e João, que moram em Salvador, comer pastel, que Nelsinho adora, e fechar a noite saboreando o delicioso sorvete da Ribeira, que Nelsinho também adora. Aliás, quando o assunto é comida, ele gosta de tudo.

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Segunda-feira, 02/03, barco pronto, abastecido e ficamos à espera da liberação do seguro total, que até então estava pendente e o Vicente pediu para aguardarmos um pouco. Pretendíamos soltar as amarras às 9 horas da manhã, aproveitando a maré de enchente que na baía de Itapagipe deve ser bem observada. Como a liberação não chegou, abortamos a saída, fechamos o barco, pegamos um “buzão” e fomos bater perna pelo centro da cidade. Salvador é uma festa de cores e sabores, emoldurada por paisagens belíssimas!

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À tardinha estávamos de volta ao clube e com a mensagem informando que poderíamos soltar as amarras. Às 18 horas, com o Sol começando a clarear o outro lado mundo, maré com duas horas de enchente, o Zanzibah cruzava a boia da Ribeira, ponto crítico, e aproava a boca da Barra.

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Olhei para o alto da Colina Sagrada, pedi proteção ao Senhor do Bonfim e falei baixinho: Recife, aí vamos nós!

Nelson Mattos Filho

Sabigati – Parte III

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O poeta um dia cantou loas ao vento dizendo assim: “…Vamos chamar o vento/Vamos chamar o vento…”. Ninguém cantou o mar como Caymmi. As letras e melodias do Obá de Xangô, falam de uma Bahia encantada em lendas, da culinária, das ladeiras, das sereias de Itapoã, do suor do pescador, das morenas, cheiros, dos saveiros. Falam do mar, dos encantos mágicos, inebriantes, misteriosos e apaixonantes, o mar da Bahia e foi para ele que aproamos o Sabigati II, quando deixamos Maceió no início da manhã ensolarada do dia 18 de fevereiro de 2019, mês que recebe as bênçãos de Iemanjá.

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“…Vento que dá na vela/Vela que leva o barco/Barco que leva a gente….”, foi nessa entoada do “baianinho maneiro” que seguimos cortando as águas das Alagoas, cruzamos a foz do rio que vai bater no meio do mar e desaguamos na indecifrável beleza do mar sergipano. Desde quando enveredei nos traçados da navegação passei a escutar comentários sobre a força das águas do Velho Chico ao adentrar nas paragens de Netuno. Eram história que fascinavam a cabeça deste inveterado sonhador, que dormia idealizando como e quando seria a primeira vez. Quando ela chegou, trouxe a tristeza da fragilidade angustiante e agoniante do rio cantado em verso e prosa. Vieram outras e outras tantas se sucederam e naquele 18 de fevereiro lá estava eu novamente diante do São Francisco, tirando fino em sua foz tão inofensiva. Dizem que o Velho Chico é a salvação do Nordeste, mas ninguém diz quem irá salvá-lo.

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Diante das sombras da noite seguimos nosso rumo e nem de longe avistamos a cidade de Aracaju, porque do São Francisco sempre traço uma reta, por fora das plataformas de petróleo, para novamente aterrar quase vinte e quatro horas depois no través do farol do Itariri, lugar de peixe franco e a vontade, mas aí já estava na Bahia e foi daí que entoei Caymmi e sua bela canção, …vamos chamar o vento…, mas nesse dia ele não apareceu. Cantarolando seguimos navegando com a força dos motores e tentando planejar a nossa chegada na Ilha de Itaparica, onde deixaríamos o Sabigati. – Tentando? – Isso mesmo, tentando, pois para que a pressa meu rei, se a cidade está bem ali!

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Espreguiçando, levantei da poltrona da cabine e fui conferir a navegação e fiquei sabendo que chegaríamos a Itaparica no meio da madrugada. Argumentei que deveríamos diminuir a marcha para chegar pela manhã, mas fui voto vencido e ainda ouvi Lucia dizer assim: – E qual o problema de chegar de madrugada se já chegamos tantas vezes e você conhece aquele fundeio de olho fechado? – Eh! Então vamos! E fomos contando aviões. – Contando aviões? – Isso mesmo, porque chegando em Salvador, à noite, nem precisamos se preocupar em procurar os lampejos do Farol de Itapoã, porque ele fica nas imediações do aeroporto e como o tráfego aéreo por ali é muito grande, é um tal de descer e subir avião que duvido o caboco não se perder na conta.

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Deixamos o Itapoã para trás e nos metemos na aproximação da entrada da barra, que a noite, devido o clarão da cidade, é literalmente uma barra. Alguém haverá de perguntar se não utilizo a facilidade da carta digital do GPS. Claro que sim, mas quando o assunto é segurança na navegação, nada melhor do que o olho do marinheiro e disso eu nunca abri mão. E assim, com os olhos bem atentos, cruzei o canal entre o Banco de Santo Antônio e Praia da Barra e a meia noite recebi os acenos, pelos lampejos do Farol da Barra, que havíamos adentrado a Baía de Todos os Santos.

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Como sempre fiz, olhei para o alto da Colina Sagrada, agradeci ao Senhor do Bonfim, pedi licença para navegar em suas águas e que Ele nos guiasse até o ancoradouro em frente a marina de Itaparica. Foi com as graças e proteção que jogamos âncora às 3 horas da madrugada, desligamos os motores, olhei para Lucia, Pedrinho e Pedro Filho, agradeci, dormi e sonhei com um violeiro cantando assim: “…Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar/Quem ouve desde menino/Aprende a acreditar/Que o vento sopra o destino/Pelos caminhos do mar/O pescador que conhece as histórias do lugar morre de medo e vontade de encontrar/Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar…”

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Quando o Sol acendeu os primeiros raios, tomamos café, recolhemos a âncora e atracamos o Sabigati II no píer da marina de Itaparica, seu novo porto seguro.

Nelson Mattos Filho

Velejador

Sabigati – Parte II

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Existe uma máxima em meio aos velejadores que diz assim: Veleiro é bom, mas o motor é que atrapalha.

O Sabigate II é um catamarã, modelo BV36, construído pelo estaleiro Bate Vento, do Maranhão, e como todos os BVs, tem pedigree de barco marinheiro, e isso eu atesto e dou fé.

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Soltamos as amarras do píer do Iate Clube do Natal na manhã do sábado, 16/02, depois de um longo quiproquó com o motor de boreste, que teimava em não beber o combustível oferecido pelo reservatório que lhe daria o sustento. Por obra e graça de algum duende que sempre povoam embarcações, o combustível não passava – e não passou mesmo – pela mangueira nem com reza braba e muito menos com os armengues testados por Pedrinho, e que não foram poucos. Por sorte, o ex-proprietário havia instalado reservatórios reservas, com 20 litros, para cada motor e isso foi a nossa redenção diante da presepada dos duendes. – Ei, Nelson, e o Sabigati num é um barco a vela? – É, rapaz, e precisava fazer essa pergunta capciosa? Pois é, um motor tira o velejador do sério e dois então…!

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Velas em cima, motores funcionando, fomos deixando para trás a cidade dos Reis Magos e ao cruzar a boca da barra os duendes mexeram mais uma vez no caldeirão, retiraram uma porção de maldades e lá se foi o piloto automático. A correia do piloto era nova, mas desintegrou-se. Tínhamos uma sobressalente, porém, não tínhamos as ferramentas necessárias para a substituí-la. Poderíamos improvisar com as ferramentas que tínhamos a bordo, mas poderíamos estragar a peça. Como éramos quatro para dividir o comando, resolvemos deixar que os duendes festejassem a vitória e tocamos o barco em frente, em um mar que mais parecia um tapete e vento Leste/Nordeste tão carinhoso impossível. Se não fossem os motores…!

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Me surpreendi com o BV36, pois já tinha navegado no BV42 e no BV43 e achei o 36 um barco mais na mão, incrivelmente fácil de navegar e não desperdiça energia da tripulação. Foi nessa tocada suave que após 42 horas de navegada, a partir de Natal, ancoramos na alagoana Maceió. Mas não pensem que a nossa navegada foi exclusivamente na força dos motores, porque a partir do Cabo Branco/PB, que aliás não tem mais os lampejos do farol, o vento entrou com vontade e somente abandonou o posto no través da praia de Tamandaré/PE, que infelizmente também está com o farol apagado. Foi uma tristeza ver que a maioria dos faróis na costa entre o Rio Grande do Norte e a Bahia estão desativados e sobre esse assunto comentarei em outro texto.

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Tivemos 42 horas de puro deleite, com quatro peixes embarcados e só não pegamos mais, porque perdemos a rapala e o carretel de linha, numa bobeira do pescador. Mas os peixes que embarcados, quatro Serras deliciosos, fez a alegria das nossas refeições e ainda sobrou umas postinhas para presentear o novo proprietário do barco. Tivemos momentos de deliciosos bate papos naquela nossa pracinha navegante e fizemos, garanto por mim e por todos os tripulantes, uma das mais gostosas navegadas em uma fração de oceano Atlântico que nem sempre – pelo menos na faixa entre o RN e PE – é bondoso com os navegantes.

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Em Maceió paramos apenas o tempo necessário para desembarque do comandante Érico Amorim, que retornaria a Natal para aniversário do filho, e abraçar os amigos que estavam na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM. A parada em Maceió é uma alegria, mas a tristeza continua sendo a sujeira que se estende na praia da ancoragem. Antigamente diziam que a podridão era causada pela comunidade que ocupava um terreno entre o Porto e a FAVM, mas a comunidade foi retirada e o problema continuou. Todos sabem muito bem de onde vem o lixo que invade aquele belo recanto, que se fosse bem cuidado seria um dos pontos de maior atração na cidade do mar de esmeralda. O lixo é levado até ali pelo Salgadinho, um rio imundo que cruza a cidade e onde boa parte da população joga todo tipo de milacrias. Maceió é linda demais para suportar a falta de zelo com o Salgadinho. Mas quem sou eu para estar falando da cidade alheia! Logo eu, nascido em uma cidade banhada pela imundice histórica do Rio Potengi! Não, não poderia falar, mas falo sim, do Salgadinho, do Potengi, do Capibaribe, do Paraíba, do Rio Vermelho e de tantos outros rios jogados ao desleixo nesse Brasil sem leis, sem ordem e sem comando.

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Três horas após de ter ancorado em Maceió, levantamos velas e ao sabor dos ventos, nos despedimos daquela terra bonita, que ainda preserva os lampejos do seu lindo farol, apesar de camuflado pelos prédios que o cercam.

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A Bahia é logo ali!

Nelson Mattos Filho/Velejador 

Sabigati – Parte I

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Quem um dia molhou os pés nas águas do mar, do mar não esquece jamais. Foi assim, que após três anos de ter desembarcado do Avoante, o mar me chamou e mandou tomar ciência, porque os deuses dos oceanos jamais perdem aqueles que lhes devem respeito e honra. O mar me chamou e atendi seu chamado!

Moro hoje em uma cabaninha de praia, de frente para um lindo coqueiral que é a alma de um lugar, e da minha varandinha visualizo por entre a floresta de coqueiros um pedacinho de um ser maravilhoso, mágico, deslumbrante, inebriante, enigmático e que tive a alegria de conviver intimamente por longos dias, meses e anos. Ele sabe meus segredos, conhece de cor e salteado minhas dúvidas, acolheu meus lamentos, guiou minhas incertezas, me fez mais humano e com suas verdades me mostrou um mundo que dificilmente, algum dia, conseguirei palavras para descrever. Mar, uma palavra tão doce que me revira os sentidos e basta saber que ele está ali, a poucos metros de mim, que minha alma alivia.

Era um sábado qualquer de janeiro de 2019 e estávamos na varanda da cabaninha quando toca o telefone. – Nelson, aqui é o Kauli. – Pois não! – Você pode levar um barco de Natal para Salvador? É que o Glauco, do Maranhão indicou você. Sem pestanejar, olhei para o pedacinho de mar em minha frente, e ele se fez de desentendido como se não fosse com ele, e pensei: – O que você está aprontando?

– Para quando seria essa viagem? – Para fevereiro! – E que barco é? – Um catamarã BV36. Novamente olhei para o mar e ele estava com aquela cara de menino levado e sorrindo pelo canto da boca e respondi: – Posso! – Ok, Nelson, vou falar com a pessoa que quer me comprar o barco e depois te ligo! – Ok, fico no aguardo, mas por favor: Kauli de onde? – Kauli Seadi. – Beleza, campeão!

Ao desligar o telefone, fiquei alguns segundos viajando naquela proposta, matutando em minha pronta resposta afirmativa e travando diálogo com a consciência. – Danou-se, parece que fiquei maluco, pois nem combinei com minha comandante que sempre tem a palavra final e se ela disser não? – Aí você não vai, Nelson, simples assim! – Eh!

Lucia que estava com os ouvidos antenados na conversa, foi logo perguntando: – Quem era, amor? – Kauli! – Que Kauli, homem? – Kauli Seadi, ora! – Agora danou-se, desembuche! – Bem ele está vendendo um barco e indicaram meu nome para fazer o delivery de Natal a Salvador. – Quando isso? – Em fevereiro, mas ele ainda vai confirmar tudo, apenas queria saber se eu poderia fazer o serviço. – E escutei você dizer que poderia, não foi? – Foi! – Ok, precisamos mesmo tirar umas férias! – Mas não é férias, é trabalho! – Está bem, então precisávamos mesmo de um descanso! – Descanso? – Sim, descanso! – Eh, deixa assim!

Janeiro passou rápido, fevereiro chegou me deixando um ano mais velho e como presente, recebi a ligação que tudo estava confirmado e só faltava conhecer o barco, saber alguns detalhes, levantar as velas e cravar o rumo para a Bahia. Mas não era só isso, faltava conhecer o Kauli e o novo proprietário do barco, Dr. Silvio Marques, um baiano arretado de bom, de coração maior do que o mundo e que falou assim quando nos apresentamos: – Nelson e Lucia, o barco é de vocês e podem convidar para a viagem quem vocês desejarem, porque sei que sempre tem algum amigo disposto a dar uma velejada. – Ops! Olhei pra Lucia e perguntei: – Quem será que desejaria fazer uma viagem dessa? – Vamos ver!

É sempre assim, todo mundo quer velejar e todo velejador tem um sonho de uma viagem mais longa, mas na hora do vamos ver, aparece cada desculpa esfarrapada que dá vontade de rir. Na época do Avoante eu tinha até um caderninho com as desculpas que surgiam e eram bem criativas. Dessa vez não foi diferente e dos onze convites feitos, apenas o comandante Érico Amorim, que nunca diz não, nem deixou eu terminar o convite, aceitou de pronto. Eita comandante arretado! Porém, Pedrinho, parceiro desde as minhas primeiras velejadas, ouviu a história da viagem e disse: – Eu vou nessa, veio, e posso levar Pedro Filho? – Meu amigo, Dr. Silvio disse que o barco era meu e se é meu é seu e vamos nessa!

Tripulação pronta, eu, Lucia, Érico, Pedrinho e Pedro Filho. Sinceramente, nunca naveguei um barco com uma tripulação tão afinada. Não era preciso delegar nada e muito menos corrigir, porque todos ali sabiam exatamente o que fazer, como fazer e para que fazer. Foram quatro dias de puro deleite em um mar tão macio que parecia festejar nossa passagem e o Sabigati II, um BV36, confortabilíssimo, navegava sereno e feliz.

Primeira perna: Natal a Maceió, metade do caminho e estávamos de volta ao mar.

Nelson Mattos Filho

Velejador

Navegada em Maragogi nos porões da memória

IMG-20171128-WA0032O navegador Érico Amorim das Virgens, lenda viva do iatismo potiguar e uma das maiores autoridades na faixa de mar entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, tem um arquivo de memórias para preencher páginas e páginas de livros e se for para emendar os bigodes em um gostoso bate papo, não tem pareia. Adoro sentar com o comandante para escutar suas histórias e assim vou enriquecendo meus conhecimentos sobre as coisas do mar. O autor de três  maravilhosos livros, o último Um Mar de Memórias, enviou um pedacinho de suas lembranças sobre a regata Maragogi-Maceió, da qual participou da primeira a última edição.      

Navegar nem sempre é tão simples quanto imaginamos ao ver passar  aquele veleirinho no horizonte azul.  A navegação em barco a vela,  esporte prazeroso e desafiador, sempre tem um probleminha a resolver: compor a tripulação.
É explicado por exigir dias para se  fazer uma simples travessia de Natal até Recife e nem todos tem o privilégio de se ausentar de seus  afazeres por dias seguidos. Normalmente levaria 2 dias no mínimo. Imagine meu caso em 2009 para ir a regata Maragogi-Maceió, da qual  participava quase todos os anos desde 1992, em sua primeira edição. O fato de a regata ter sido sempre em janeiro facilitava muito, pois  meus companheiros geralmente estavam em férias. Não sei o que  aconteceu naquele ano que meus tripulantes sumiram do mapa.
Aprontei o barco e fiquei enchendo o saco de um e de outro até que  Cláudio Almeida concordou em ir até João Pessoa. Dito e feito, lá  chegando arrumou a trouxa e se mandou de volta. Em lá estando comecei  novamente a minha batalha. E aí diante das negativas eu insistia: e só  até Recife?  Findei pagando a um rapaz que se dizia homem do mar e na  hora H meu amigo Luiz Dantas resolveu aderir. Afinal seria só uma  noite no mar. Resultado do trajeto: o marinheiro vomitou a noite toda  e Luiz achou bom termos pescado uns dois ou três peixes.
Em Recife eu estava bem mais perto do meu destino, mas continuava com  o mesmo problema: sem tripulante para a regata de Maragogi. Na semana anterior à minha chegada, o pessoal de Recife havia  realizado uma regata até a praia de Tamandaré e o barco de JP lá se  encontrava exatamente para participar da regata de Maragogi,  uma vez  que as praias são próximas. Com aquela conversa de palhoção  que todo  iate clube tem, fiquei sabendo que Alfredão e Evelin iriam com JP  pegar o barco em Tamandaré. Não foi difícil convencê-los a ir comigo e eu os deixaria em Tamandaré. Assim aconteceu e nós três levantamos as  velas na noite de sexta-feira e tivemos uma navegada maravilhosa, com  ventos brandos e favoráveis. Sem esquecer que os dois fizeram questão  de me deixar dormir a noite toda. Ao amanhecer Alfredão nos guiou com  segurança até o local de fundeio e aproveitamos para fazer um café com  tudo que tinha direito; o barco estava devidamente abastecido.
Agora eu estava bem próximo de meu destino e com outro problema: como  sair de Tamandaré contornando todos aqueles parrachos? Depois do café, nada mais a fazer, ficamos no barco conversando e  dando tempo ao tempo. Diversas ligações foram feitas até que JP disse  que se fosse para Tamandaré, seria a noite ou no outro dia. Aí enchi o  peito e propus que continuassem comigo este pequeno trecho e estava  tudo resolvido. Caberia a mim tão somente trazê-los de volta. Foi uma  pequena navegada e lá pelo meio dia contornamos os parrahos coloridos  de Maragogi. Fechamos o sábado com chave de ouro no restaurante “Frutos do Mar” do amigo Gilberto. À noite, já no clima festivo, fiquei sabendo que a regata seria  corrida em frente, em mar aberto e que não haveria a tradicional  Maragogi-Maceió, nem feijoada e muito menos tripulante para que eu  pudesse voltar. Tive como companheiros na regata Eugênio Cunha e um  velejador de Laser, seu amigo. Nossa participação foi um sucesso e a regata um tremendo fracasso:  apenas 3 barcos, se não me falha a memória. Lembro-me bem do Resgate,  do comandante JP, com Alfredão e Evelin em sua tripulação; Musa e um  barco sob o comando de Daniel, amigo lá de Maceió que faleceu agora em  2018. Se havia mais alguém não lembro.
Terminada a regata o problema de arranjar companhia para sair da praia  de Maragogi continuava. Por sugestão de Eugênio fui bater à porta de  Zé Fernando que no seu “Mestre Fura” tinha feito a comissão de regata.  Cedeu-me Zezé, velho amigo da Federação de Alagoas. Como é originário  daquelas bandas solicitou ir visitar uns parentes e já à tardinha  retornou para irmos até Maceió. Sendo já quase noite optou por sair  por entre os parrachos, cantando as profundidades: vai dá 2m, vai dá  1,80 e meu coração querendo saltar pela boca, pois mais e mais me  afastava da rota tantas vezes percorrida. Aí ele falou: pronto agora  passamos todos os cabeços. Parece até que foi o barco que ouviu, pois  desembestou rumo a Maceió e lá pela meia noite estava tudo no visual.  Uma e meia da manhã  de segunda-feira o barco estava fundeado e  dormimos ali mesmo.
Recapitulemos pois os trechos e as tripulações: NTL-JPS (Cláudio  Almeida); JPS-REC (Luiz Dantas e o marinheiro bu..ta); REC-Tamandaré  (Alfredão e Evelin); Tamandaré-Maragogi,idem; Maragogi-Maceió(Zezé).Zezé, meu companheiro no trecho Maragogi-Maceió e também navegamos  juntos na regata dos 500 anos. Aí é outra história.

Érico Amorim

Nas veredas das dunas – II

7 Julho (60)

Para quem não viu a primeira parte, ou viu e não lembra, click AQUI

Iniciei esse relato em agosto de 2017 e só agora dei fé que não conclui, ou foi simplesmente por achar que a cidade praia de Galinhos não merecia receber palavras tão críticas de minha parte, ou por receio de meter os pés pelas mãos e não ser compreendido pelos vigilantes internéticos da razão. Bem, foi por algum motivo justo, mas agora, com os miolos uns meses mais velhos e teoricamente mais apaziguadores, vou dar seguimento e darei graças se encontrar na cachola os arquivos sem um tiquinho de mofo. Contar relatos idos não é coisa tão boa assim, até porque as coisas mudam ligeiro e nesse mundão sem freio e sem memória, as pessoas se avexam a esquecer os problemas e tudo fica como foi ou como está. Mas vamos lá!

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Terminei a primeira parte envolvido em um turbilhão de reflexões enquanto observava a paisagem do portinho de Galinhos, mas digo que não me encontrei naquela paisagem e nem senti o pulsar da alma da antiga vilazinha peninsular. Mas deixe quieto! Afonso acelerou o possante e fomos saindo de fininho, porém, desejosos de saborear as famosas tapiocas de Dona Irene, no minúsculo distrito de Galos. O sabor daquela delícia, que tem receita cravada nos compêndios gastronômicos dos deuses, nunca me saiu da memória e nunca haverá de sair. Paramos em frente ao restaurante e encontramos a proprietária com a mesma fisionomia alegre a nos receber. Lucia perguntou se ela ainda lembrava da gente, mas já esperando o não como resposta, pois tantas pessoas passam diariamente naquele recanto que fica complicado puxar a fotografia nos arquivos da mente. Com aquele riso amarelo de quem passou despercebido, olhei em volta, mas também achei que havia algo estranho naquela casa de sabores. O que deveria de ser? Foi aí que Lucia deu a informação que custei a acreditar: – A tapioca não está mais sendo servida! – O que? – Como assim? – Acabou a goma por hoje? – Não, a tapioca saiu definitivamente do cardápio, porque os filhos de D. Irene, que agora administram o restaurante, não querem mais fazer, porque dizem que os clientes só vinham aqui para comer a tapioca e não pediam outros pratos. Portanto, não tem mais tapioca. – Danou-se!

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Procurei lembrar dos fundamentos que aprendi no meu curso de administração, nas ações de marketing que utilizei nos estabelecimentos empresarias em que trabalhei, tentei puxar das teorias dos livros técnicos que li e me arvorei até dos reclames do rapaz que vende o picolé de Caicó, mas não encontrei nada que desse guarida aquela decisão tão extremada. A única coisa que chegou mais perto foi a lembrança do conto de um senhor que vendia cachorro quente na beira da estrada e seus filhos, que conseguiram se formar, conseguiram acabar com um negócio alegando teorias estapafúrdias. – Rapaz, não é possível que tenha acontecido a morte daquela maravilha dos deuses! Para recuperar do susto, pedi uma cerveja para desanuviar as ideias e tomei numa golada só. – Pense numa viagem cheia de surpresas desagradáveis!

7 Julho (76)

Sem a tapioca de Dona Irene, mas com o bucho forrado por uma peixada, que não recomendo, fui para a beira do rio fotografar a bela paisagem que se amostrava faceira. – Eita lugar bonito e tão incompreendido! Meio sem graça, pegamos o beco de volta enquanto a luz do Sol alumiava a fantástica natureza das dunas e do mar, produzindo cenas de fascinante esplendor. Para aqui, para ali, sobe duna, desce duna, chegamos a Caiçara do Norte, com o astro rei já clareando a barra do outro lado do mundo. Para evitar novas surpresas e visando a segurança e tranquilidade do nosso passeio, preferimos seguir caminho pela RN 120, até a sede do município de Pedra Grande e de lá tomar o rumo de casa, onde chegamos com noite escura e um pouco cansados.

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Não se avexe em tirar conclusões precipitadas diante de tudo que escrevi nesse relato, pois ele é fruto de observações acontecidas há praticamente um ano e em um ano, tudo pode ter mudado, ou voltado a ser o que era. Pode até ser que seja um relato bem crítico, mas é sempre assim quando voltamos a um lugar que um dia nos encantou e não mais encontramos o encanto e nem a poesia ali desenhada. A praia de Galinho é um dos mais concorridos destinos turísticos do Rio Grande do Norte, tem um povo acolhedor, bons restaurantes e pousadas aconchegantes.

7 Julho (82)

A natureza que envolve a península continua encantadora, apesar da presença das invasoras torres dos geradores eólicos. Mas a invasão do exército eólico não é apenas em Galinhos, a intervenção se dá em praticamente todo litoral norte do RN. Não é o caso aqui de denegrir o progresso que representa o aproveitamento da energia dos ventos, mas bem que ele poderia trazer melhores resultados para as populações envolvidas e não enfeiar tanto a paisagem. Mas aí é outra história.

7 Julho (92)

– Valeu a viagem a Galinhos? – Valeu e qualquer dia eu volto!

Nelson Mattos Filho

 

Furacão Irma chega ao topo da escala

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O furacão Irma, que avança sobre o mar do Caribe no sentido da costa dos EUA, está sendo considerado, segundo os cientistas do tempo, o de maior poder de destruição dos últimos anos e chegou a categoria 5, topo da escala Saffir-Simpsonque, que mede a intensidade dos furacões.    O bicho é feio, tenebroso, extremamente violento e produzindo ventos de mais de 251 km/h. É a natureza mais uma vez demostrando sua força diante de meia dúzia de homens sem noção e “donos” de nações, que se acham deuses e arrotam o poderio avassalador de suas bombas, como se nada pudessem intimidá-los. Torcemos que a mãe natureza tenha piedade daqueles que estão no caminho do Irma e que após sua passagem o mundo possa refletir suas ações, coisa difícil de acontecer, mas a gente pede. Nas redes sociais, moradores e visitantes das áreas a serem atingidas pedem clemência em postagem assustadas e aflitivas, como a do casal Mauriane e Luiz, do veleiro Cascalho, que estão nas Ilhas Virgens Britânicas. Desejamos paz, tranquilidade ao casal e que a mãe natureza seja complacente. 

“É esse o cara que tá chegando, sem ser convidado, sem ter visto de entrada, e que tá bagunçando a vida de todos por aqui. É um furacão de categoria 4 e nominado Irma. Ele chega trazendo ventos fortíssimos de mais de 235 quilômetros por hora, que se movimentam de maneira circular, no sentido anti horário e ao redor de um centro chamado olho com quase 50 quilômetros de diâmetro neste caso. Chega trazendo muita chuva e ondas muito grandes. As Ilhas Virgens Britânicas onde estamos devem ser severamente atingidas.
Estamos preparados da melhor maneira na medida do possível.
Nos dobramos a força e a fúria da mãe natureza e rogamos a Deus pelas vidas de todos os que estão no caminho deste monstro. Que possamos acordar sãos e salvos desse pesadelo. Amém!” Luiz e Mauriane