Arquivo da categoria: Diário e relatos

Nas veredas das dunas – II

7 Julho (60)

Para quem não viu a primeira parte, ou viu e não lembra, click AQUI

Iniciei esse relato em agosto de 2017 e só agora dei fé que não conclui, ou foi simplesmente por achar que a cidade praia de Galinhos não merecia receber palavras tão críticas de minha parte, ou por receio de meter os pés pelas mãos e não ser compreendido pelos vigilantes internéticos da razão. Bem, foi por algum motivo justo, mas agora, com os miolos uns meses mais velhos e teoricamente mais apaziguadores, vou dar seguimento e darei graças se encontrar na cachola os arquivos sem um tiquinho de mofo. Contar relatos idos não é coisa tão boa assim, até porque as coisas mudam ligeiro e nesse mundão sem freio e sem memória, as pessoas se avexam a esquecer os problemas e tudo fica como foi ou como está. Mas vamos lá!

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Terminei a primeira parte envolvido em um turbilhão de reflexões enquanto observava a paisagem do portinho de Galinhos, mas digo que não me encontrei naquela paisagem e nem senti o pulsar da alma da antiga vilazinha peninsular. Mas deixe quieto! Afonso acelerou o possante e fomos saindo de fininho, porém, desejosos de saborear as famosas tapiocas de Dona Irene, no minúsculo distrito de Galos. O sabor daquela delícia, que tem receita cravada nos compêndios gastronômicos dos deuses, nunca me saiu da memória e nunca haverá de sair. Paramos em frente ao restaurante e encontramos a proprietária com a mesma fisionomia alegre a nos receber. Lucia perguntou se ela ainda lembrava da gente, mas já esperando o não como resposta, pois tantas pessoas passam diariamente naquele recanto que fica complicado puxar a fotografia nos arquivos da mente. Com aquele riso amarelo de quem passou despercebido, olhei em volta, mas também achei que havia algo estranho naquela casa de sabores. O que deveria de ser? Foi aí que Lucia deu a informação que custei a acreditar: – A tapioca não está mais sendo servida! – O que? – Como assim? – Acabou a goma por hoje? – Não, a tapioca saiu definitivamente do cardápio, porque os filhos de D. Irene, que agora administram o restaurante, não querem mais fazer, porque dizem que os clientes só vinham aqui para comer a tapioca e não pediam outros pratos. Portanto, não tem mais tapioca. – Danou-se!

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Procurei lembrar dos fundamentos que aprendi no meu curso de administração, nas ações de marketing que utilizei nos estabelecimentos empresarias em que trabalhei, tentei puxar das teorias dos livros técnicos que li e me arvorei até dos reclames do rapaz que vende o picolé de Caicó, mas não encontrei nada que desse guarida aquela decisão tão extremada. A única coisa que chegou mais perto foi a lembrança do conto de um senhor que vendia cachorro quente na beira da estrada e seus filhos, que conseguiram se formar, conseguiram acabar com um negócio alegando teorias estapafúrdias. – Rapaz, não é possível que tenha acontecido a morte daquela maravilha dos deuses! Para recuperar do susto, pedi uma cerveja para desanuviar as ideias e tomei numa golada só. – Pense numa viagem cheia de surpresas desagradáveis!

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Sem a tapioca de Dona Irene, mas com o bucho forrado por uma peixada, que não recomendo, fui para a beira do rio fotografar a bela paisagem que se amostrava faceira. – Eita lugar bonito e tão incompreendido! Meio sem graça, pegamos o beco de volta enquanto a luz do Sol alumiava a fantástica natureza das dunas e do mar, produzindo cenas de fascinante esplendor. Para aqui, para ali, sobe duna, desce duna, chegamos a Caiçara do Norte, com o astro rei já clareando a barra do outro lado do mundo. Para evitar novas surpresas e visando a segurança e tranquilidade do nosso passeio, preferimos seguir caminho pela RN 120, até a sede do município de Pedra Grande e de lá tomar o rumo de casa, onde chegamos com noite escura e um pouco cansados.

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Não se avexe em tirar conclusões precipitadas diante de tudo que escrevi nesse relato, pois ele é fruto de observações acontecidas há praticamente um ano e em um ano, tudo pode ter mudado, ou voltado a ser o que era. Pode até ser que seja um relato bem crítico, mas é sempre assim quando voltamos a um lugar que um dia nos encantou e não mais encontramos o encanto e nem a poesia ali desenhada. A praia de Galinho é um dos mais concorridos destinos turísticos do Rio Grande do Norte, tem um povo acolhedor, bons restaurantes e pousadas aconchegantes.

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A natureza que envolve a península continua encantadora, apesar da presença das invasoras torres dos geradores eólicos. Mas a invasão do exército eólico não é apenas em Galinhos, a intervenção se dá em praticamente todo litoral norte do RN. Não é o caso aqui de denegrir o progresso que representa o aproveitamento da energia dos ventos, mas bem que ele poderia trazer melhores resultados para as populações envolvidas e não enfeiar tanto a paisagem. Mas aí é outra história.

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– Valeu a viagem a Galinhos? – Valeu e qualquer dia eu volto!

Nelson Mattos Filho

 

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Furacão Irma chega ao topo da escala

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O furacão Irma, que avança sobre o mar do Caribe no sentido da costa dos EUA, está sendo considerado, segundo os cientistas do tempo, o de maior poder de destruição dos últimos anos e chegou a categoria 5, topo da escala Saffir-Simpsonque, que mede a intensidade dos furacões.    O bicho é feio, tenebroso, extremamente violento e produzindo ventos de mais de 251 km/h. É a natureza mais uma vez demostrando sua força diante de meia dúzia de homens sem noção e “donos” de nações, que se acham deuses e arrotam o poderio avassalador de suas bombas, como se nada pudessem intimidá-los. Torcemos que a mãe natureza tenha piedade daqueles que estão no caminho do Irma e que após sua passagem o mundo possa refletir suas ações, coisa difícil de acontecer, mas a gente pede. Nas redes sociais, moradores e visitantes das áreas a serem atingidas pedem clemência em postagem assustadas e aflitivas, como a do casal Mauriane e Luiz, do veleiro Cascalho, que estão nas Ilhas Virgens Britânicas. Desejamos paz, tranquilidade ao casal e que a mãe natureza seja complacente. 

“É esse o cara que tá chegando, sem ser convidado, sem ter visto de entrada, e que tá bagunçando a vida de todos por aqui. É um furacão de categoria 4 e nominado Irma. Ele chega trazendo ventos fortíssimos de mais de 235 quilômetros por hora, que se movimentam de maneira circular, no sentido anti horário e ao redor de um centro chamado olho com quase 50 quilômetros de diâmetro neste caso. Chega trazendo muita chuva e ondas muito grandes. As Ilhas Virgens Britânicas onde estamos devem ser severamente atingidas.
Estamos preparados da melhor maneira na medida do possível.
Nos dobramos a força e a fúria da mãe natureza e rogamos a Deus pelas vidas de todos os que estão no caminho deste monstro. Que possamos acordar sãos e salvos desse pesadelo. Amém!” Luiz e Mauriane

Nas veredas das dunas – I

7 Julho (29)As areias e dunas das praias do Rio Grande do Norte e Ceará e um atrativo para os proprietários de carros 4×4 e buggy e tem roteiros para todos os gostos e gastos. Não que isso seja visto com bons olhos pelos órgãos e ONGs ligados ao meio ambiente e também pelos banhistas, que perdem o sossego e a paz com tantos automóveis circulando sem nenhuma regulamentação adequada, muitas vezes em velocidades alucinantes e dirigidos por motoristas fazendo uso de bebidas alcoólicas. Antes que eu leve uma bordoada é preciso dizer que toda exceção tem uma regra.

7 Julho (38)Carro em beira de praia pode até parecer uma aberração nesses tempos de politicamente correto, onde o correto nem sempre está do lado do politicamente falando, mas é isso o que mais se vê nas praias ensolaradas de um Nordeste arretado de bonito. Que o passeio é maravilhoso, ninguém duvide, e de vez em quando embarco no carro de um amigo para aproveitar o que ainda pode ser feito, porém, embarco como um fiel e atento navegador no quesito segurança total no passeio e no que der para ser feito para não agredir tanto a natureza bela e indefesa. Nem sempre dá, mas a gente tenta!

6 Junho (123)Pois bem, hoje morando na paradisíaca praia de Enxu Queimado, litoral norte potiguar, em um pedaço quase virgem de praia – quase virgem é ótimo -, recebo a visita de alguns amigos e quando eles vêm aboletados em possantes 4×4, tentam nos levar pelas trilhas das dunas, que conheço bem, para um passeio até a Praia de Galinhos, uma das joias do turismo do RN. Tentam, tentam, atanazam e as vezes ganham a parada e lá vamos nós. Foi numa dessas que embarcamos no carro do casal Afonso e Fabiola Melo e pegamos o beco, ou melhor, o areal para a praia peninsular, onde teoricamente não deveria existir tráfego de automóveis, porém, como em tudo nesse nosso Brasil tem um senão, Galinhos tem carro sim, e muito senões para macular as teorias e normas.

7 Julho (34)Conheci Galinhos quando tudo era apenas uma brincadeira de aventureiros em meio a um amontado de cabaninhas de pescadores e uma ou duas ideias de pousadas em estado aconchegantemente bruto. Era show! Para chegar até lá o mais fácil era de carro pela BR 406 até o Pratagil, estacionamento público onde deixávamos o carro e embarcávamos num barco a vela para chegar a praia do outro lado do rio. Hoje ainda é assim, mas os barcos são a motor. De buggy pela beira mar, partindo de Caiçara do Norte, era um viajandão em todos os sentidos e existiam poucos carros fazendo o trajeto. Hoje, a beira mar entre Caiçara e Galinhos é uma via expressa e se vê todo tipo de modelo de carro e não apenas os 4×4 e buggys. É uma farra!

7 Julho (91)Será que estou muito crítico nessa prosa? Acho que sim e acho que não, mas é melhor dar bordo e seguir viagem no possante de Afonso.

7 Julho (40)Saímos de Enxu na manhã de um domingo feliz, com maré no começo da vazante, serpenteamos as dunas da Ponta dos Três Irmãos, um ponto notável e onde começa a Carta Náutica 800, desembocamos na Praia do Serafim, para mim umas das mais belas desse litoral, acionamos a tração total para cruzar as praias de São Bento do Norte até darmos de cara com o Farol de Santo Alberto, motivo de teima histórica entre os moradores de São Bento e Caiçara. Acho que o farol pertence ao Santo Bento, mas os pescadores batem o pé e afirmam com todas as letras que é de Caiçara. A peleja é grande! Do farol tomamos as ruas das cidades, isso mesmo, das cidades, pois são tão pegadas que não se definem. – E por que seguir pelas ruas e não pela beira mar? Porque foram construídos alguns espigões na beira mar, para tentar segurar a força da maré, e estes impedem a circulação de veículos. Cruzamos Caiçara por completo e novamente caímos na faixa de areia e dali para frente acessamos a via expressa. Lembra que falei nela?

7 Julho (49)7 Julho (48)7 Julho (50)7 Julho (52)7 Julho (53)7 Julho (62)Mais ou menos 20 quilômetros separam Caiçara do Norte de Galinhos, pela beira mar e depois de algumas teimas a bordo chegamos ao destino, onde paramos para registrar em fotografia a passagem da nossa trupe. Retrato batido, algumas considerações, alguns pormenores e fomos passear de carro pelas ruas de Galinhos. – De carro? Pois é, de carro! Tentei reviver a nossa primeira visita aquele outrora paraíso, mas não encontrei o fio da meada. O farol está lá, lindo como sempre foi, mas a áurea da cidade já não é a mesma. Pedra de calçamento em vez das escaldantes areias, que nos fazia apressar o passo. Visitantes por todos os lugares. Inúmeras casas. Várias pousadas. Muitos bares e restaurantes espalhados na praia da frente. O portinho desfigurado, porém, os Tele Burros continuam trafegando e tem até estacionamento e associação. – Quer saber? – Perdi o encanto daquela primeira vez, quando o silêncio imperava, a paz era sentida em cada passo que dávamos, o aceno e o aperto de mão era caloroso, tudo era magia, tudo era vento, mar, rio e barco a vela.

7 Julho (54)Paramos o carro em frente ao porto, fiz algumas fotos, tomei uma água, entrei novamente no carro e me recolhi em reflexões, enquanto esperava Lucia que tinha ido tentar reencontrar vestígios do passado.

7 Julho (57)O que fizeram com você Galinhos?

Nelson Mattos Filho

Diário de um sonho real

3 Março (128)

Este pequeno diário é dedicado a todo aquele que tem um sonho e foi escrito como tarefa durante um curso de liderança no Sebrae/RN

Capítulo 1 – Experiência

Sempre fui um sonhador, daqueles que sentam em uma confortável poltrona e fazem das imaginações suas mais fantasiosas histórias, porém, no momento em que a realidade me fazia abrir os olhos, eu me via envolvido por um mundo minuciosamente complexo e objetivo, onde os resultados eram resultantes do meu estado de humor e da missão projetada para minha empresa. Era uma vida de trabalho, resultados, conquistas, derrotas e sempre em busca do mais: mais eficiência, mais lucros, mais crescimento, mais desenvolvimento empresarial e mais e mais. Um belo dia o sonho bateu na porta de minha alma e sentenciou: O seu sonho nunca passará de um sonho, como o sonho de muitos por aí. Você sonha acordado e aqueles que sonham acordado não realizam sonhos. Se quiser viver o sonho, feche os olhos e durma, ao acordar, levante da cama e tome a direção inversa daquela que você caminha todos os dias. Não olhe para trás, não escute a voz da razão e sorria para a vida e os horizontes que se descortinarem em sua frente. Não busque a linha do horizonte, porque nunca irá encontrá-lo. Dormi com o eco daquelas palavras e acordei em um mundo de sonhos, mas sabendo que aquele era o mundo mais real e nessa realidade, vivi onze anos a bordo de um lindo e aconchegante veleiro de oceano, batizado de Avoante.

O que faria diferente?

Não sei, porque a vida é feita de experiências, aprendizados e renascimentos.

Qual capítulo ainda irá escrever?

A continuação da caminhada em busca dos horizontes imaginários, onde vivem os loucos, iluminados de alegria e vida vadia.

Nelson Mattos Filho

Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Votos renovados com o mar – III

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Na página anterior desse relato estávamos com o catamarã Tranquilidade ancorado em frente a Praia de Mutá, uma gostosa baía no canal interno da Ilha de Itaparica, e prontos para degustar umas garrafas de Muvuca, Saruaba, Tribufu e Retada, produtos da cervejaria ED3, de nomes bem abaianados e que levam prazer aos amantes de uma boa loura gelada. Tive o prazer de experimentar algumas garrafas das ditas cervejas logo no início da produção, no veleiro Guma, do casal Davi e Vera Hermida, e essa prova deixou um gosto de quero mais, porém, o tempo passou, mas a vontade não. Quando o comandante Flávio nos convidou para o passeio no Tranquilidade, no início de dezembro de 2016, disse que eu incluísse no roteiro a visita a cervejaria de Mutá, o que fiz mais do que depressa. E lá estávamos nós, desembarcando para a visita.

P_20161208_182654A ED3 teve início com o sonho de três casais, entre eles Almir e Simone, que queriam produzir cerveja para desfrute da família, que não é pequena, e do time dos amigos, que é maior ainda, porém, o que era sonho de bons bebedores, virou um excelente negócio, pois a cerveja logo no primeiro gole deixava no ar o sabor do sucesso. Hoje o maquinário cresceu, o galpão aumentou, mas o que continua o mesmo é o sabor das cervas e a acolhida maravilhosa com que os proprietários recebem os visitantes, com direito a roda de samba, bons papos e tudo mais. O difícil é querer deixar o galpão e voltar para o barco, mas depois que deixamos vazias algumas dezenas de garrafas, foi o que fizemos e ainda trazendo na garupa algumas caixas para festejar num futuro próximo. A direção da cervejaria está em vias de fato para colocar a praia de Mutá no roteiro turístico náutico da Bahia e com certeza os visitantes saíram encantados e bem animados.

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Após uma noite das mais tranquilas, acordamos cedo, levantamos âncora e prosseguimos em nosso roteiro pela Baía de Todos os Santos. Voltamos a Itaparica para reabastecer os tanques com água e rumamos para a praia de Loreto, outro fundeadouro inigualável, por trás da Ilha do Frade, e onde a vida a bordo é mais gostosa. Loreto estava coalhada de veleiros de amigos, que tomara não vejam essa minha declaração, pois ficarei com um débito impagável por não tê-los visitado, contudo, antes de receber a primeira cobrança, peço perdão pela falta grave e prometo não cometer outra, pois todos eles moram em nossos corações.

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O comandante Flávio e Gerana ficaram fascinados por Loreto e no dia seguinte, quando seguimos viagem, disseram que voltariam o mais breve possível, porque nunca imaginaram que ali existisse um lugar tão lindo e com uma natureza tão exuberante. Na verdade quando tracei o roteiro queria mesmo visitar lugares que sempre me acolheram bem, porque era o meu reencontro, depois de cinco meses afastado, com um mar que amo de paixão.

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De Loreto rumamos para a Praia da Viração, vizinho a Ponta de Nossa Senhora, do lado sul da Ilha do Frade. A Viração é de uma lindeza sem igual e para muitos é o Caribe na Bahia, com águas cristalinas, onde se avista a âncora no fundo do mar, e uma faixa de areias brancas emoldurada por uma mata em estado praticamente nativo. Viração é uma APA e como todas, tem regras que regulam sua visitação, porém, ainda se pode ver alguns deslizes da nossa falta de educação ambiental. A praia recentemente recebeu alguns créditos a mais de fama, por ter sido destino de constantes banhos de mar da presidente Dilma, em suas férias na capital baiana. A praia é linda sim, mas pouco frequentada pelos velejadores.

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Da Praia da Viração aproamos o Rio Paraguaçu e fomos jogar âncora em frente ao povoado de São Francisco do Paraguaçu e seu Convento enigmático. Era hora do pôr do sol e abrimos um vinho para comemorar o dia que se ia e festeja a noite que tomava espaço. Entre um gole e outro com o líquido de Baco, fiquei matutando nas várias visitas que fiz aquele rio histórico e nas páginas do Diário que preenchi denunciando o descaso existente em tão belo cenário. Tudo continua na mesma, ou pior, mais maltratado ainda. Durante nossa velejada vespertina não encontramos nenhum veleiro, apesar de sido em período de um longo feriadão. Se o Paraguaçu fosse em um país europeu, americano do norte ou mesmo em alguns países orientais, garanto que seria tratado com toda importância e zelo que merece. Infelizmente tratamos nossas riquezas naturais da mesma forma como tratamos todo o restante de nossas causas, sem o mínimo de interesse em ver os bons resultados. Temos leis para tudo e para todo gosto, mas nenhuma serve além de sua escrita. São feitas apenas com o intuito de acalmar ânimos e nada mais, pois em suas entranhas, propositalmente, faltam princípios.

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O Convento de São Francisco do Paraguaçu, assim como a grande maioria dos monumentos as margens do Rio Paraguaçu, está sob os domínios da lei do patrimônio histórico, acho que seria melhor que não estivesse.

E a noite cobriu o rio!

Nelson Mattos Filho/Velejador

De Salvador a Mangue Seco com o Pinauna

O velejador baiano Sergio Netto, Pinauna, que já nos presentou com excelentes relatos de suas viagens pelos mares do mundo, envia mais um diário de bordo e dessa vez da velejada que fez até a tietana Mangue Seco, onde a Bahia e Sergipe dividem meio a meio o Rio Real.

A RESTINGA MANGUE-SECO – PRAIA DO SACO – ABAIS

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A restinga é este cordão litorâneo na imagem acima,que se estende da costa norte da Bahia para a costa sul de Sergipe, interrompido pela saída dos rios Real e Piauí. O complexo litorâneo inclui a barreira da restinga, as dunas e a laguna interna com o mangue. A laguna é o corpo d”água alongado paralelo à restinga por dentro, e a migração das dunas pelo vento de fora recobre o mangue lamacento, dai o nome Mangue Sêco. Como as águas dos rios tem que sair, elas interrompem a restinga com um canal de maré que tem profundidade suficiente para que se acesse a laguna com um veleiro.

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O mangue na laguna O farol sobre a duna que recobre o mangue

Dito assim é simples, mas o efeito das ondas que atingem a costa modificam continuamente o acesso, transportando a areia ao longo da passagem, criando e removendo barras arenosas, de forma que quem pretenda entrar na laguna deve ir lá por terra, e sair a barra com uma canoa local (bianas com espelho de popa) para verificar onde está o canal de acesso antes de investir com um barco de quilha.

O mapa abaixo é a carta CCDGold de 2015, mostrando na linha branca beirando a costa da Praia do Saco o canal de acesso, que agora em 2016 mudou para o track em preto

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com os pontos brancos de forma que o canal agora passa onde era uma barra emersa no ano passado!

Tomadas estas providências, vela em cima e vamos lá. São 145 milhas a partir do Aratu Iate Clube, no verão sempre no contra-vento e contra-corrente.

Saímos às 15 horas de 25 de dezembro 2016, vento SE 13 nós, no início da vazante, Mila Rainha, Karine, Carlos Kakali e eu. Às 17 h, passamos o farol da Barra, vento E, dai que fomos orçando por cima do Banco Sto. Antonio até às 18:30 h, quando descemos da plataforma continental para o talude; às 19 h fizemos a primeira cambada que nos levou orçando no rumo 50V; o vento rondou um pouco para NE às 21 h e o anemômetro começou a dar sinais de cansaço, descontrolando o piloto automático que estava interfaceado em ‘vane’. Desliga instrumentos e torna a ligar, funcionou. À meia noite estávamos de novo sobre a plataforma continental em frente ao rio Jacuipe, onde a correnteza contra era mais forte, e demos um bordo para fora de 1,5h, no rumo 140V que nos levou às águas profundas, permitindo retornar ao rumo 20-30V até às 9 da manhã do

clip_image008clip_image010dia 26, quando o vento diminuiu de intensidade e rondou ligeiramente para SE, defronte à Praia do Forte. Já estávamos de novo sobre a plataforma, motorando por 3 horas na companhia de barcos de pesca, mas era dia claro e mantivemos o rumo até às 15 h, quando demos outro bordo para fora defronte ao rio Subauma, com vento NE força 4. Neste meio tempo Carlos Kakali embarcou um bonito de 1 kg. Às 17 h do dia 26 perdemos o fundo na sonda e demos o bordo de dentro que nos levou até a entrada de Mangue Seco, com o piloto interfaceado com o fluxgate (‘comp’) porque o anemômetro deixou de registrar a velocidade do vento. O vento cresceu e rondou para E, baixamos a mestra para o primeiro rizo e seguimos em bordo direto, chegando defronte à entrada da barra de Mangue Seco às 3 h da manhã, tudo escuro, lua nova, no turno de Carlos Kakali.

Quando acordei às 3:30 ele disse que estava indo para Aracaju para esperar o dia clarear.

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Enrolamos a genoa e ficamos por ali até que o sol saiu no horizonte. Como era lua quase nova, ela estava pertinho do sol e quando a lua sai no horizonte, em qualquer fase, a maré está sempre vazando, o que com vento E levanta mar na entrada da barra. Descemos a mestra e fomos motorando ver se dava para passar na arrebentação. Dava para ver áreas mais calmas e decidimos investir surfando nas ondas. Karine achava que ‘entraríamos com a ajuda de deus’, mas o bandido resolveu sacanear e no meio de uma surfada o motor de boreste tocou o alarme de temperatura. Sem dar bola pra vontade do carinha, entramos com o motor de bombordo e às 6:30 estávamos ancorados na praia do Saco, em Sergipe. A menor profundidade com 1,2m de maré foi de 3,5m. Ai Mila Rainha providenciou um lauto desjejum com champanhe. O problema do motor foi que folgou a correia da bomba d’água; apertei e funcionou. Removi o anemômetro no painel e apliquei abundante limpa-contato nas conexões, e quando reinstalado, funcionou. Mas Karine já tinha instalado birutas de lã nos estais para ver a direção do vento. Encontramos sobre o convés um parafuso de fixação do pino do batten-car no ponto de apoio da tala, que caiu durante a noite, mas fiz um ATE (armengue técnico emergencial, nomenclatura de Nogueirão) com um parafuso de 10cmx8mm da caixa de sucata.

Aproveitamos a maré vazia para passar debaixo da ponte na entrada de Terra Caída. Nem precisava, ainda sobraram uns 5m acima do tope do mastro para a base da ponte no vão mais alto. Me pareceu que a amplitude da maré aqui é semelhante à de Salvador, uma hora mais tarde. Ancoramos defronte à casa de Gileno e Cássia às 11:30 do dia 27, em 2,5m d’água, que logo começou a subir até 4,5m.

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Eles tem um píer e dá para abastecer de água na maré cheia. Chegaram no dia 28 e nos receberam de maneira fidalga. Esta recepção foi o ponto alto da viagem. Gileno é conhecido em Terra Caída como ‘Catalão’, e Cássia é ‘A Mulher’. Vá lá que ela lhe conta a história. No dia 27 jantamos no Frutos do Mar em Terra Caída, e no dia 28 desembarcamos às 11:30 e ficamos com Gileno, Cássia, e a família dela, inclusive D. Lidôca, a mãe de 90 anos até a noite, quando fomos experimentar os famosos caldinhos do Lene’s Bar. Dia 29 acordamos com um canoeiro batendo no barco: veio trazer pencas de lindas bananas que o Catalão mandou. Carlos diagnosticou e consertou um vazamento no sistema de pressurização de água. Zerei o odômetro parcial que desde o AIC registrou 194 milhas, e às 9:30 zarpamos no final da vazante. Dentro da laguna até Mangue Seco tem muita rede de pesca que exige atenção. Ancoramos às 10:40 em 3,5m de água logo no final do píer de contenção pouco além da pousada Algas Marinhas, junto ao parque onde os buggies pegam os turistas para visitar as dunas. Dormimos ai de 29 para 30. Saímos no buggy azul de Manuel, que também é prático da entrada da barra

clip_image024As dunas migram em muito pouco tempo, e alguns coqueiros e até postes ficam  clip_image026soterrados até o gogó, A areia fina que escapa, junto com a erosão da barranca do rio vai se acumular na Ilha da Sogra, entre a laguna e a restinga. Esta praia da Ilha da Sogra, de areia quartzosa fina e compactada na superfície, com piscinas de água quente, foi a mais encantadora que já vi no mundo todo. Daí esperamos a maré estar à meia enchente e zarpamos após o descanso do almoço, às 14:30.

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O porão de bombordo estava cheio de água salgada, que Carlos diagnosticou como um vazamento possivelmente no retentor da bomba d’água do motor de bombordo. Drenamos e saímos a barra com vento e corrente de enchente na cara, mas sem arrebentar na rota de saída. Às 15h estávamos fora, vela em cima. Observamos um rasgão no segundo painel da mestra, que aguentou bem até o AIC, quando Mila colocou um tampão de reforço. Vento e corrente favoráveis, a volta foi tranquila. Antes de escurecer estávamos além da isóbata de 1000m, saindo mais até 2000m. Durante a noite dois navios passaram próximo, mas foram identificados no AIS , e ao chamá-los ambos confirmaram que nos viam no radar. Às 13h do dia 31 passamos o farol da Barra, e achamos que era esperar muito tempo para assistir a queima de fogos à meia noite. Os Kakali desembarcaram no AIC às 15h, e Mila e eu após limparmos o barco e um jantar de fim de ano a bordo, celebramos a virada do ano ‘comme Il faut’ à meia noite…de Paris.

Na viagem de ida, as 145 milhas programadas cresceram 25% devido aos quatro bordos de contra-vento e à correnteza, tornando-se 181 milhas em 37 h. A volta foi um presente de ano novo, completada em 24h da Ilha da Sogra ao Aratu Iate Clube. Recomendo!

Fiz um registro do track em .gdb com as profundidades do acesso e da laguna que enviei para Cláudio, do veleiro Anni, Gerson, veleiro Tô Indo e Michael da CCD-Gold, e que está disponível para quem se interessar em estudá-lo no MapSource.