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A história esquecida em meio ao cal

06 junho (72)06 junho (74)

Sou bairrista sim, e adoro bater pernas pelos recantos desse Brasil mais belo impossível, porém, em muitas dessas caminhadas fico frente a frente com os desmandos e desmazelos de um país terrivelmente carregado de normas e leis, em que algumas, de tão esdruxulas ou escrachadamente burocratizadas, não conseguem sair do papel. E vou logo alertando aos que em tudo despejam ideologias de cartilhas baratas: – Antes de mirar no momento presente,  olhe de banda e reflita o que se deu no passado longínquo e recente, viu! – Sim, e o que isso tem a ver com a capelinha e a placa “profanada” do retrato aí em cima? – Digo! A igrejinha, que infelizmente não consegui saber qual santo homenageia, está fincada numa minúscula comunidade na beira da estrada, BA 880, que liga o famoso município de Santo Amaro da Purificação/BA, terra de Dona Canô, ao distrito de São Tiago do Iguape, uma joia encravada nas margens do Rio Paraguaçu e pertencente ao município de Cachoeira/BA. Pois bem, a capelinha, pelo que consegui tatear por entre a tinta maledicente que encobre a placa, foi construída no início do século passado, reerguida em 1918, após um incêndio, e reconstruída em 1920 por um tal Bel. José Augusto… (não consigo identificar o sobrenome). Fotografei a capelinha em junho de 2016 e juro pelo santo homenageado, que nem sei se a construção ainda está de pé, neste 2018, pois naquele tempo a estrutura pedia encarecidamente que aparecesse outro Bel. José Augusto, para lhe proporcionar uma sobre vida. – E o IPHAN, aquele órgão “tão bem intencionado” com as coisas do patrimônio cultural, material e artístico das terras de Pindorama? – E os movimentos culturais? – E as políticas públicas? – O que? – IPHAN, movimentos, políticas públicas? – Homi, tenha fé em Jesus! E assim, com placas borradas com mão de cal, vai sendo rabiscada a história desse povo varonil. Um dia a gente toma jeito!  

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Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Peixe conservado ao Sol

IMG_20160726_001357Quem anda ou já andou pelas localidades pesqueiras no litoral mundo afora já se deparou com peixes e frutos do mar salgados e secando expostos ao Sol, criando uma cena que encanta pela beleza e rusticidade. A conservação de alimentos é um problema desde que o homem se entendeu de gente e quando se trata dos seres do mar, o problema se torna ainda mais desafiante. Claro, com o advento da refrigeração a conservação dos alimentos deixou de ser problema, mas em muitas culturas a conservação ainda se dá pelos métodos tradicionais e, posso até afirmar, em muitos países já existe o incentivo da volta as origens. A técnica de secagem ao Sol é de uma simplicidade encantadora, porém, demanda tempo, planejamento e conhecimento para decifrar os sinais emitidos pela natureza, coisas que os pescadores e habitantes das vilas pesqueiras do litoral entendem como ninguém. Recentemente estivemos no distrito de São Tiago do Iguape, município de Cachoeira/BA, para Lucia aprender o processo de defumar o camarão, ingrediente que dá o sabor inconfundível ao verdadeiro acarajé da Bahia, visita que relatei no post “De volta a São Tiago do Iguape”. Foi uma visita proveitosa em todos os sentidos, pois revivemos a primeira visita que fizemos a São Tiago, a bordo do Avoante, abraçamos pessoas da nossa mais alta estima e conhecemos, além da defumação do camarão, um pouco do processo baiano de conservar peixes ao Sol, que em nada difere do método utilizado em outras partes do Brasil e do mundo e que tem na China e o Sudeste Asiático os  maiores produtores e consumidores. O processo é simples e se baseia em técnicas rudimentares em que o peixe e tratado, retirando as vísceras, salgado, colocado em um secador feito em cipó, ou sobre uma lona, estendido ao chão, exposto aos sol e ao vento, até perder a umidade. O cheiro e o sabor ficam bem mais acentuados, mas nem por isso o pescado perde em qualidade. Pelo que se observa nos rumos tomados pelos mais afamados chefs de cozinha, já existe uma tendência ao retorno as origens da gastronomia. A boa mesa quando retorna aos seus fundamentos fica saborosamente mais charmosa, espalha no ar um odor apaixonante e nos faz sonhar com épocas mais humanas e tranquilas, em que a mesa da vovó era o território sagrado dos deuses. Por falar nisso: – Retirando o bacalhau da lista, você já saboreou algum prato preparado com peixe secado ao Sol? Fonte de pesquisa: mytaste.com.br    

De volta a São Tiago do Iguape

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Vai completar um ano que estivemos em São Tiago do Iguape pelo primeira vez, foi no começo de julho de 2015, e nesse, 17/06/2016, retornamos ao pequeno distrito, que pertence ao município de Cachoeira/BA, para Lucia aprender os segredos para produzir o famoso camarão defumado, iguaria que dá ao acarajé e ao abará um toque de sabor mais do que especial. Antes de entrar na seara da culinária, vou comentar um pouco do que vi um ano depois. Para começo de conversa dessa vez não fomos de barco e sim de carro pelas estradas da vida. Para chegar lá é fácil e nem é preciso pedir ajuda aos duendes do google maps. Partindo de Salvador, pela BR 324, em direção a Feira de Santana, segue por mais ou menos 45 quilômetros até encontrar a indicação para o município de Santo Amaro da Purificação. De Santo Amaro segue pela estrada para Cachoeira e 1 quilômetro após o posto da Polícia Rodoviária Estadual, vira a esquerda – ao lado de duas palmeiras – e depois é só seguir em frente. A estrada termina em São Francisco do Paraguaçu, porém, São Tiago do Iguape fica 6 quilômetros antes.

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Achei a cidadezinha de Iguape bem mais bucólica do que há um ano, talvez porque naquele tempo estivesse se preparando para a sua festa maior em homenagem ao padroeiro. Como dessa vez cheguei com mais de quinze dias de antecedência, a tranquilidade reinava na praça. Enquanto Lucia entrava na aula de defumação com a professora Dona Calú, eu peguei a máquina fotográfica e fui dar uma caminhada até a beira do mar, pois é nele que eu me acho.

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Revi a bela igreja, fotografei canoas, apontei a lente para o rio, conversei com alguns pescadores que chegavam da lida e notei a existência de um pequeno canteiro de obras que soube se tratar da construção de um píer público para embarque e desembarque.

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Será verdade ou será mais uma obra para azeitar as eleições municipais que se aproximam?

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De volta a mercearia de Dona Calú e Seu Jarinho me aboletei numa cadeira e fui prosear com os locais, numa prosa boa, divertida e regada com cerveja gelada e acompanhamento de camarão defumado e amendoim cozido. Entre uma conversa e outra Seu Jarinho disse assim: “…aqui tinham muitos barcos a pano que navegavam até Água de Menino, levando e trazendo mercadoria, mas a chegada do motor nos barcos,  em vez de contribuir acabou com tudo”. Disse ainda que o pai era proprietário do Saveiro Macapá, doou a embarcação para o mestre, esse para o filho e anos depois, em péssimo estado, o Macapá encalhou em um banco de areia e foi abandonado para o sempre. Hoje a frota de Iguape se resume a poucas canoas de tronco, outras de fibra e todas movidas a motor. Uma pena, mas é assim!

20160617_122920Enquanto o bate papo corria solto lá fora, Lucia dava seguimento aos seus estudos e o quando o vento batia, chegava até nós o cheiro do camarão sendo envolvido pela fumaça. Mais conversa, mais causos, mais risos e assim a aula terminou, o almoço foi servido – moqueca de siri – e podemos provar o resultado dos ensinos. A aluna foi aprovada com nota máxima. Pense num camarão defumado que ficou bom!

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Muitos baianos, e não baianos, hão de dizer que essa conversa de camarão defumado em acarajé é balela e tem até quem afirme que o bom mesmo é o camarão cozido. É difícil se chegar a uma unanimidade em matéria de acarajé, ainda mais em um Estado que tem um tabuleiro em cada esquina e onde cada freguês é fiel a sua baiana de preferência. Eu já bati meia Salvador em busca do melhor acarajé e confesso que gostei de quase todos. Alguns vem recheados com camarão cozido, outros com o defumado e para mim o mais saboroso é o segundo, além de ser o tradicional.

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Em 2015 Lucia fez um curso de acarajé e abará, no Senac do Pelourinho, e faz as iguarias para baiano nenhum botar defeito, mas faltava aprender a defumar o camarão, o que não tem muitos segredos, porque ela quer fazer em Natal/RN e lá não vende esse tipo de camarão, ou se vende nunca encontramos. Sabendo ela que os que eram defumados em Iguape eram os mais deliciosos, se prometeu que aprenderia a fazer e pediu ajuda a Dona Calu que se prontificou a ensinar.

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Pronto, agora o tabuleiro de Lucia está completo, em breve vamos tirar a prova dos nove e para quem não tiver a alegria de provar, postarei a fotos aqui para deixar muita gente com água na boca. Me aguarde!     

O grande mar – IV

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A Baía do Iguape é um mundo de água cercado por um vasto manguezal. Em suas margens se debruçam o município de Maragojipe e os povoados de Nagé, São Francisco do Paraguaçu, São Tiago do Iguape e outras povoações menores, além de pequenas ilhas, entre elas a do Francês, que divide o rio ao meio, e do Coelho, que tem um fundeadouro maravilhoso. A baía é rica em várias espécies de peixes, moluscos e mariscos, entre eles se destaca o camarão.

Iguape é uma RESEX – Reserva Extrativista Federal, com 10.082,45 hectares, ligada ao ICMbio. Grande parcela da população vem de origem quilombola e sobrevive da pesca artesanal, cultura do fumo e agricultura familiar.

A navegação no Rio Paraguaçu não oferece grandes perigos, mas é indicado estudar bem a carta náutica e seguir com atenção os waypoints demarcados. O problema maior são as redes de pesca que não são poucas, mas nada que um bom comandante não resolva. Continuar lendo

O grande mar – III

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A primeira vez que desejamos navegar até São Tiago do Iguape foi em 2009, mas naquele ano as chuvas, os ventos e o frio nos fizeram retornar de São Francisco do Paraguaçu, cinco milhas náuticas antes, e deixamos a oportunidade passar adiante, porém, o desejo nunca passou.

No começo de 2015 o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros falou assim: – Nelson, você escreve maravilhas sobre a Baía de Todos os Santos, mais até do que muitos baianos. Você precisa escrever sobre a Baía do Iguape e todas as cidades banhadas por ela, pois ali está a verdadeira história da Bahia. Confesso que fiquei lisonjeado com as palavras do amigo, mas fiquei corado quando ele me colocou acima de “muitos baianos”. Deve ter sido piada!

Ele me fez retornar até 2009, o desejo aflorou novamente e dessa vez, com força total. Vou a Iguape, faça sol ou faça chuva!

Com as fogueiras sendo armadas em frente às casas nas ruas da Ribeira, soltamos as amarras que prendiam o Avoante ao píer do Angra dos Veleiros e debaixo de uma chuva forte subi as velas e aproei a Ilha de Itaparica, onde comemoramos o São João. De lá, tomamos o rumo de Salinas da Margarida para festejar o outro santo junino, o poderoso São Pedro. Os dois santos forrozeiros mandaram ver nas chuvas e estas castigaram Salvador e as cidades do Recôncavo Baiano durante todo o período festivo. Entre uma chuva e outra fomos ficando em Salinas, curtindo a velha e boa preguiça que sempre bate na gente nos dias de chuva e frio.

Numa manhã nublada, quando já descambava para seis dias de ancoragem em Salinas, suspendi a âncora, icei as velas e aproei a foz do Paraguaçu. Pronto, estava novamente no rumo de Iguape e onde os amigos diziam ter camarão em banda de lata.

A ideia inicial era ancorar em algum lugar ao longo do rio, mas a velejada estava tão boa, com o Avoante navegando na estonteante velocidade de média de 2 nós, que as ideias foram mudando, os locais planejados foram ficando para trás e quando o sol se preparou para ir embora, numa curva do rio, surgiu as torres da Igreja e logo estávamos jogando âncora em frente ao povoado, com a noite tomando forma em meio ao lusco-fusco. Foi uma noite tranquila e de belos sonhos.

Quando o dia amanheceu e botei a cabeça para fora do barco, me deparei com a canoa Carolina de onde o pescador gritava: – Gringo, camarão? Olhei para os lados e como não havia outro barco na ancoragem, deduzi que o gringo era eu mesmo. – Quero, pode chegar!

Foi ai que conheci Seu Lito, um pescador boa praça e que nos adotou como amigos logo de cara. Compramos o camarão, mas como não tínhamos gelo, ele se ofereceu para levar para sua casa e guardar no freezer. Beleza! Ele ensinou o endereço e combinamos que pegaríamos no dia seguinte.

Como a maré estava baixa, esperamos ela subir para poder desembarcar. Como assim? O desembarque é o ponto franco em Iguape e em todas as cidades que margeiam o Paraguaçu, porque a lama espessa que se deposita no fundo torna o desembarque um tremendo desconforto.

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Infelizmente a visão dos administradores não permite que eles enxerguem o apoio a navegação como um bem maior para incentivar o turismo e o desenvolvimento das cidades. No passado existia sim um píer para embarque e desembarque, mas o que restou dele virou escombros abandonados que enfeiam a paisagem.

A maré subiu e desembarcamos. Precisávamos comprar gás de cozinha e água mineral, o que foi resolvido na primeira mercearia em que Lucia parou e bem próximo ao porto. Em seguida saímos em busca de Dona Calú e Seu Jarinho, proprietários de um pequeno comércio de bar e mercearia. Eles foram recomendados por alguns velejadores baianos que outrora estiveram por lá. Seu Lito nos informou que há muitos anos não ancora por ali veleiros com bandeira brasileira e por isso ele achou que éramos gringos.

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Como Dona Calu e Seu Jarinho são mais conhecidos no povoado do que farinha, não foi difícil achá-los. Do primeiro interlocutor já recebemos as coordenadas: – No primeiro pé de amendoeira que encontrarem na praça a mercearia deles é na frente. E era mesmo! O casal é uma simpatia e logo que fizemos as apresentações viramos amigos de longas datas. Eita povo bom!

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É esse carinho espontâneo e a simplicidade que me encanta.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – II

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A igrejinha está lá, imperiosa e debruçada sobre as margens do rio como um marco de imponência. A primeira construção, obra dos jesuítas, data de 1555 e por ai se vão 460 anos. Devido a sua importância recebeu em 1608, sanção canônica de Matriz. Se o resultado da obra nos dias de hoje é de deslumbramento, fico imaginando como terá sido a reação dos índios e fieis quando se deparam com aquele monumento sagrado em meio à paisagem cercada de mata e água. Claro que, pela ousadia do desbravamento e costumes da época, ao barro foram acrescidos muito sangue e suor, mas dizem que para tudo tem o outro lado da moeda. Mas não é o homem um eterno senhor da razão quando quer justificar crueldades?

A igreja foi construída nas terras de Antônio Lopes Ulhoa, senhor do engenho São Domingos e Cavalheiro da Ordem de São Tiago de Compostela, e por trás dela foi se formando um pequeno povoado que chegou a ter grande importância para a economia baiana. Em 1783, com a expulsão dos jesuítas do Brasil, por ordem do Marques de Pombal, a igrejinha foi arruinada para ser reerguida logo depois, mas a vida no povoado seguiu em frente.

Entre o abandono da primeira igrejinha e o surgimento da segunda, o povoado foi perdendo sua força e hoje não passa de um pequeno distrito do município de Cachoeira, com pouco mais de 3 mil habitantes, que sobrevivem principalmente da pesca artesanal e das aposentadorias do INSS.

O comércio e pequeno, talvez possa dizer que seja mínimo, onde podemos encontrar o básico. Um posto de saúde, escola pública, correio, delegacia, uma praça e um povo acolhedor e atencioso com o visitante. As ruas e vielas seguem um desenho muito parecido com a velha Itaparica, onde todas terminam na praça. Esse é o cenário dos dias atuais e que não deve fugir muito do que era vislumbrado há mais de 400. Mas sinceramente, achei fantástico.

Nos tempos áureos, ou de políticas governamentais comprometidas com o bem de tudo e de todos, existia um pequeno navio de passageiros que fazia a linha passando por lá, depois de navegar outras cidades do Recôncavo, e retornava a capital num vai e vem gostoso. Os tempos eram outros, a vida mais simples e acho até que o povo era mais feliz.

A velha Matriz sobreviveu às agruras do tempo, porém, em 2013 recebeu a visita dos amigos do alheio que profanaram suas dependências e afanaram sete imagens do séquito de santos que compunham seu altar. Restou solitária a imagem do padroeiro São Tiago, que devido ao peso e tamanho não pôde ser levada. Era noite de festa na cidadezinha e ninguém se deu conta de uma caminhonete sorrateira estacionada numa viela escura. O crime deve ter sido encomendado e abençoado por algum filho da peste e até hoje resta o disse me disse e a saudade dolorosa das imagens dos santinhos.

A Matriz continua precisando de atenção e acho até que ela seja tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Pela Lei do tombamento, os prédios que merecem tal reconhecimento são aqueles de grande valor histórico, artístico e cultural. Só não entendo o porquê de a Lei ser tão conivente com o estado de ruinas, alguns vergonhosos, em que se encontram a grande maioria dos prédios tombados. Mas deixa ver.

Bem, antes de sair da linha, estava falando sobre São Tiago do Iguape, uma encantadora cidadezinha na margem do Rio Paraguaçu, onde ancorei o Avoante depois de navegar 36 milhas partindo de Salvador. Iguape na língua tupi quer dizer: Lugar existente no seio d’água. Navegar até lá representou uma das grandes alegrias que tive em todos esses anos de morador de veleiro.

Ancoragem tranquila, silenciosa e deliciosamente abençoada pela beleza arquitetônica da velha Matriz, que não cansei de admirar e fotografar. Cheguei ao ponto de acordar e levantar no meio da madrugada, já que o Avoante estava ancorado em frente, para retratar a sombra da igreja refletida no espelho da água.

Sinceramente não consigo entender as causas que levaram importantes cidades do passado a ficarem estupidamente abandonadas à própria sorte. Os livros de história se esmeram em relatar os fatos, mas as peças não se encaixam em minha cabeça de vento. Qual o padrão que seguimos? Padrão europeu? Ou será o americano? Será ideológico? Sei lá! Fazemos tudo tão confuso que aposto um doce como ninguém sabe realmente responder.

Vivemos sempre na fase do entre, sem aprender com os erros do passado para um dia tentar desanuviar o futuro. Dizem que somos assim mesmo e assim brincamos de ser feliz. Dizem até que somos o país do futuro. Pense num futuro distante!

Ah! O nome da Igreja? Matriz de São Tiago do Iguape. Uma lindeza que só vendo.

Nelson Mattos Filho/Velejador