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Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 24

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2018

Lourdinha, fico aqui na maciota dos balanços da rede e de olhos vidrados no sacolejo delirante das palhas dos coqueirais, que a vida passa e nem vejo. Mas fique com inveja não, pois esse aparente desestresse é coisa de minha cabeça de vento, pois o que mais tem sob o teto dessa minha cabaninha de praia é trabalho, porque se assim não fosse, como danado você iria comer aquelas saltenhas deliciosas, os nhoques, os quiches, as pizzas, tudo feito com o mais refinado carinho do mundo, pelas mãos abençoadas de Lucia. Ceminha diz assim: – Tudo que Lucia faz eu acho bom! Pois se é bom mesmo, eu vou dizer o que, num é não?

Amiga, quando será que você vai dar o ar da graça por aqui? Se adiante e venha logo, para ver que nesse Rio Grande do Norte ainda tem uns lugarzinhos gostosos que nem os descritos nos livros que falam do paraíso. Claro que não tem aquela maça apetitosa e nem o casalzinho que deu início ao falatório do pecado, mas tem peixe que só vendo e prosa tão boa, que faz a gente esquecer as maldades do mundo. Para animar sua vontade, e sabendo que você aprecia história dos povos, vou contar um tiquinho sobre o lugar que estou vivendo.

O município de Pedra Grande, do qual faz parte Enxu Queimado, tem a minha idade, aliás, dizem que 1962 foi o ano que nasceu as lendas. – Se foi não sei, mas já que dizem, vou por aí cheio de pretensões. Mas amiga, se inteirar sobre a história dos municípios brasileiros, e nem sei se mundo afora é igual, é uma aventura desgastante e que nos deixa com aquela velha cara de sei lá. É tanta desinformação, tanto disse me disse, tanto chafurdo, tanto foi não foi, que no fim das contas é como se quer que seja e ponto final. Bem, o conto é que o povoamento daqui teve início em 1919, pela insistência do agricultor João Victor, que cercou umas terrinhas para montar um sítio em homenagem a São João. Vendo a fazendinha criar marra e querendo marcar terreno, vieram da localidade de Canto de Baixo, que pertencia ao município de Touros, os trabalhadores rurais Manoel Felix de Morais, Januário Pedro da Silva, Manoel Gabi, Januário Lucas e Manuel Pulu, daí se foi o tempo, o povoamento cresceu e de um pulo virou distrito de São Bento do Norte, até que em 1962, o governador Aluízio Alves, meu padrinho, fez correr os papeis e numa canetada só criou o município de Pedra Grande.

Aí você haverá de perguntar: – E de onde saiu o nome? Respondo, mas antes preciso dizer que pesquei a maioria das informações, aqui contidas, no blog Pedra Grande, assinado por Jota Maria, que não conheço e nem sabia que existisse o blog. Tentei me inteirar no site da prefeitura local, mas não existe nada sobre o assunto. Pois bem, Jota diz que antigamente existia uma grande pedra nos arredores do povoado e os moradores começaram a chamá-la de Pedra Grande e assim ficou, pois a voz do povo é a voz de Deus e não se fala mais nisso. O moído é bom, né não? E tem mais e o mais nos arremete de encontro a umas Naus e Caravelas que andaram errantes pelos mares de Netuno, mas aí é conto longo e que deixarei para outra carta, para não apoquentar seu juízo.

Lourdinha, o município cinquentão, bem novinho por sinal, tem, segundo o censo de 2010, polução de 3.521 habitantes e densidade demográfica de quase 16 habitantes por quilômetros quadrados, mas o que me chama atenção é que no gráfico do Índice de Desenvolvimento Humano, ele está no nível 0,559, baixíssimo para um município que ostenta, se você não sabia, um enorme parque de energia dos ventos e este está dentro da área que engloba, talvez, o maior parque eólico brasileiro. Viva o paquistanês Mahbub ul Haq, que acreditou e fez o mundo ver que o desenvolvimento não se mede apenas pelos avanços econômicos, mas também pelas melhorias do bem-estar humano. – Sabe o que me deixa abismado, amiga? – E que em pleno século XXI os administradores públicos não aprenderam, ou não querem aprender, uma lição tão simples.

Lourdes Gonçalves Oliveira, minha amiga pesquisadora e letrada, que tal debater esses assuntos sob a sombra da minha varandinha, debruçada diante do coqueiral e comendo peixe frito acompanhado de uma deliciosa tapioca com coco? Por aqui tem muita coisa para ser oferecida nos reclames turísticos do RN, apesar de muito se encontrar invisível ou camuflado entre os desejos dos homens. Venha aqui mulher de Deus! Traga seu caderninho de anotações para recheá-lo de causos e quem sabe consiga garimpar provérbios sertanejos e praieiros para um novo livro.

Lucia manda um beijo e promete ensinar-lhe a preparar os nhoques.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 23

3 Março (65)

Enxu Queimado/RN, 14 de abril de 2018

Caro amigo Gerson, como vão as coisas nessa sua Bahia resguardada por Orixás e pelo venerado Senhor do Bonfim? Depois conte um pouco, até para matar minhas saudades, das suas peripécias pelas águas abençoadas de uma baía tão lindamente apaixonante. Por aqui as coisas estão indo como tem que ir e vou contar-lhe um pouquinho dessa vidinha de praieiro, que escolhi viver um tempo.

Pois é meu amigo, nesses tempos modernosos, onde as redes sociais emparedam tudo e a todos, tem sido uma graça observar o cotidiano dessa vilazinha de pescadores que adoro. Claro que os padrões estão bem distantes dos que encontrei há quase trinta anos e tenho visto alguns momentos de esquecimento com as raízes, mas as gerações são assim mesmo e a vida caminha para frente sem parar e o que seria de nós se ainda vivêssemos os costumes dos antepassados! Tem quem ache que tudo deveria voltar ao passado e tem momentos que comungo desse sonho, mas tudo é sonho, né não? Mas que seria bom, seria! Pelo menos viveríamos mais livres e sem esse medo destrambelhado que a tudo corrói.

Meu amigo, e por falar em medo, as notícias que circulam por aí é que o meu Rio Grande do Norte está entre os três Estados mais violentos do Brasil e está figurando entre as cidades mais violentas do mundo. – Será mesmo verdade? Hoje em dia é difícil acreditar nos números que se infestam por aí transvestidos de seriedade e passeiam como se verdadeiros fossem. Porém, digo que essa prainha que tem nome de casa de maribondo queimada e dotada de um conjunto de dunas espetacular, sem falar na gostosura do banho de mar, a vida é bem tranquila e não tem nem aparência com o restante das paragens do “mapa do elefante”. Sim, escuta-se o eco dos traumas em que vive o abandonado e mal-amado Rio Grande do Norte, mas o vírus do mal ainda não vingou por aqui e tomara que os deuses que a tudo protegem, não se descuidem tão cedo desse pedacinho do paraíso.

E por falar em vírus, e como no paraíso nem tudo é perfeito, pois se assim fosse, Adão e Eva não haviam comido aquela maça deliciosa, o mosquito da dengue tem azucrinado os ouvidos do povo, porém, tem voado silencioso pelas oiças dos administradores públicos. Aliás, eles, os mosquitos, e eles, os administradores, sempre agem assim quando o assunto requer para eles uma posição firme. Os mosquitos, porque não querem perder o alimento diário e os administradores, porque são descarados mesmo e tão nem aí para lamurias e sofrimento alheio. Sofrimento para eles e só quando abrem as urnas e o “apurado” não corresponde aos desejos. Pois bem, o general dos mosquitos antes de chegar mandou recado e como ninguém entendeu, ou se fez de desentendido, o danadinho armou o reinado e ordenou aos seus guerreiros para atacar. Ordem dada, ordem cumprida, e assim, a perigosa doença se alastra aos quatro ventos. Mas, Gerson, não pense que é só aqui não, viu, porque o descaso com a saúde pública é escrachado em todo esse torrão chamado Brasil e há quem diga que a culpa é da população que se descuida perigosamente da limpeza dos seus domínios. Digo que também é verdade e basta caminhar despreocupadamente por entre becos e coqueirais, que flagraremos a verdade nua e crua. Mas se não existe uma cobrança firme por conta das autoridades, e está passa a mão abonadora sobre a cabeça de quem não tem limites e nem zelo com a limpeza, a zorra descamba e quando é chegada a hora de recolocar o barco no rumo, a tempestade assopra de lá para cá, e seja o que Deus quiser!

Rapaz, agora que dei por fé que devo estar apoquentado seu juízo de velejador, com esse papo maledicente, ainda mais você, acostumado com os recantos saudáveis da Baía de Todos os Santos, em que a vida caminha lenta. – Tem ido ao Suarez? – Eita lugar bonito da mulesta! Meu amigo, por aqui também tem uns lugarzinhos apaixonantes e que você precisa vir conhecer, para riscar aquelas rotas que só você sabe fazer. Vixi como ia ser bom ver a praia do Marco, Enxu Queimado, Ponta de Tourinho, Serafim e outras tantas por aqui, figurando nas cartas náuticas digitalizadas. Mas vou logo avisando que são todas praias de mar aberto, porém, convidativas para uma boa ancoragem, apreciando um peixe frito acompanhado de tapioca com coco. Você deve estar se perguntando: – E a cachaça? – Tem, e tem da boa!

Pois é, meu caro e bom amigo, Gerson Silva, ou melhor, Gerson do Tô Indo, velejador cabra da peste, não se avexe com meus escrito, pois eles são apenas para lhe dar notícias e contar um tiquinho da vida desse lugar que me acolhe tão carinhosamente. Lucia manda um beijo para Lili, outro para você, e manda recado para que venham aqui o quanto mais breve. Sabe de uma coisa, para apressar a vinda, vou já ali na mercearia de Evilma comprar um quilo de goma para esperar vocês com uma maravilhosa tapioca dos deuses.

Grande abraço, com as graças da Lua Nova.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 17

1 Janeiro (59)

Enxu Queimado/RN, 05 de junho de 2017

Sabe meu amigo Hugo, como seria bom se o cotidiano da vida fosse regido pelos alísios que fazem bailar as palhas dos coqueirais de uma beira de praia. Talvez todo esse desajustamento que rege atualmente a humanidade, não tivesse vez para criar raízes tão desumanas e cruéis. Aonde chegaremos eu não sei, e duvido muito que algum sociólogo de plantão tenha as respostas, mas que estamos navegando em meio a um terrível maremoto, isso eu sei. No silêncio da varanda de minha palhocinha fico imaginando o porquê de tanta maldade e de tantos discursos abonativos com os possuídos de ideias e ideais desencaminhadores. Mas calma aí, quem danado sou eu para julgar ideias e ideais de alguém, né não? Aprendi navegando sobre as ondas do mar que não se julga sonhos de ninguém a não ser que se queira tolher a esperança, a liberdade e a felicidade do outro. Como é gostoso sonhar, ainda mais quando o sonho nos leva a boas novas. Eu sonho com um mundo onde a paz, a união, o amor e o entendimento entre os povos não seja apenas palavras de conforto para a alma, mas sim o alicerce que norteará futuras gerações.

Meu amigo, desculpe por abrir essa carta com tão carregada de aflição, mas tudo são frutos desse mar de lama e incerteza que nos chega através de um jornalismo que a cada dia está mais focado nos assuntos do terrorismo fácil. Certa vez, em conversa com um blogueiro, perguntei o motivo de tantas postagens com gosto de sangue em seu blog e ele respondeu, o que para ele é obvio: “- Nelson, é o que dá ibope! ”. Rapaz, até parece que o jornalismo esqueceu o jornalismo, e o pior, muitos jornalistas ficam tiririca com os blogueiros, acusando-os de não serem profissionais do ramo. Ora, se eles que são não agem como fossem, imagina quem não é e a age como sendo!

Sabe Hugo, juro que essa carta não se destina a reclamar da vida, mas sim para mandar notícias desse lugarzinho em que vivo, porém, é difícil não enveredar pelas bandas das reclamações, pois parece que os homens das coisas públicas não fazem outra coisa senão chafurdar com o bom andamento do cotidiano da gente. Pois num é que estamos – momento em escrevo estas linhas – há mais de 22 horas sem energia! Rapaz, dizem por aí, mas eu ainda não vi os escritos para falar com certeza, que a falta de energia não pode durar mais de 2 horas sob pena da concessionária de energia pagar umas multinhas pelo desserviço. O problema aqui foi a irresponsabilidade de um motorista que meteu o pé mais fundo do que devia, numa estrada piçarrada, e se danou em cima de um poste, partindo a estrutura em três pedaços. Ei, a turma por aqui conta isso dando risadas, como se o feito fosse uma glória para a irresponsabilidade. Pois seu menino, dizem que o motorista saiu ileso, mas deixou para trás, ou seria para frente?, uma noite, uma madrugada e já vamos caminhando para mais da metade do dia sem nem sinal de energia, sem funcionar as escolas, posto de saúde e comércio. Sabe o que mais me invoca? A moça do telemarketing da companhia energética não cansa, e não se manca, de afirmar que está sendo providenciado. Rapaz, para trocar um poste e remendar um fiozinho de nada! Eita nós, viu! O que não entra em minha cabeça é que estamos no meio de um dos maiores parques eólico do país, com uma infraestrutura fantástica de equipamentos de manutenção e montagem de torres e postes, apoiado por um enorme séquito de engenheiros e técnicos, e nada. Ponto para a incompetência! Pois é meu amigo, a vida por aqui é mansa, mas tem suas verdades.

Sim rapaz, dia primeiro de junho acabou o período do defeso da lagosta, foi aberta a temporada de pesca e já tem lagosta a bambam por aqui, pois o mar daqui é uma das boas fontes do crustáceo. Os pescadores apostam que a pesca vai ser boa, mas os donos dos ranchos – barracões que recebem o produto – não estão botando muita fé, mas não me pergunte o motivo, pois tenho visto barcos chegando bem carregados. Nesse fim de semana comi algumas lagostas e aprovei o sabor e o tamanho. Sou favorável ao período de defeso e isso está sendo provado pelo tamanho da lagosta pescada. Em anos recentes pegavam muita lagosta miúda, que inclusive é proibido, e o Ibama tinha um bocado de trabalho para botar ordem no terreiro. Hoje a coisa tem andado em brancas nuvens e por enquanto os dois lados, pescador e fiscalização, estão em paz.

Ei, Lucia está a cada dia mais esmerada nas saltenhas, aqueles salgadinhos deliciosos de origens boliviana e argentina. Ela aprendeu aprendido e agora bota banca de excelência no feitio do produto. Eu sou suspeito em afirmar, mas quem prova, aprova e pede mais. Tem de carne, frango, calabresa, bacalhau, ricota com espinafre e agora anunciou que vai fazer de lagosta. Vixi! Essa semana um amigo trouxe, para ela fazer um teste, uns quilos de ubarana que dizem ter a carne muito boa para fabricação de hamburguês e recheio de salgados. Acho que vem novidade por aí!

Pois meu amigo Hugo Vidal, velejador arretado de valente e conhecedor como ninguém das tardes baianas de Itapuã, por enquanto é isso, mas tem muita novidade por essa Enxu mais bela. Você precisa vir aqui para ver como é a vida de um praieiro e traga minha amiga Catarina, que prometo armar a melhor e mais bonita rede na varanda. Hoje o vento amanheceu soprador e vindo do quadrante Sul. A Lua está linda e crescente e o mar com uma cor esmeralda e convidativo.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Divergências

3 Março (7)

Enquanto olho a noite e as sombras que se esparramam pelo pequeno povoado que me abriga tão carinhosamente, minha mente vaguei despreocupadamente pelas boas lembranças do que foi nossa vida a bordo de um veleiro de oceano e após uma lufada de vento, passo a escutar sussurros das muitas perguntas que me fazem sobre o período que vivemos a bordo e me atenho em uma delas: “Como pode uma pessoa morar tantos anos a bordo de um veleiro e de repente voltar a morar em terra firme? ”. Depois de muito matutar e varrer a mente em busca de palavras para satisfazer uma pergunta tão inquietante, continuei sem respostas, mas a consciência continuou em um moído surdo e insistente, até que fechei os olhos e adormeci com o suave balanço da rede.

Sonhei com crianças correndo na vastidão de um campo sem flores. Sonhei com o planetinha azul sendo derretido pelo fogo da discórdia. Sonhei com a desagregação dos povos. Sonhei com uma cruz cravejada de hipocrisia. Sonhei com abastados de mãos estendidas em busca de mais. Sonhei com o vazio, com a dor, com o grito, com o feio e com a beleza mais feia do que nunca. Sonhei com frases desconexas e com o riso de deboches dos governantes diante de uma multidão de aplausos. Sonhei com a desgraça das drogas consumindo famílias, mas recebendo a benevolência da cegueira moderna. Sonhei com o terror e suas vítimas inocentes estraçalhadas nas calçadas. Sonhei com a fome, com a sede, com as doenças desalmadas, formando uma trinca de um jogo vitorioso dos poderosos. Sonhei com as guerras combinadas entre quatro paredes pelos combatentes opositores e todas elas longe do território deles. Sonhei com as religiões e a desfaçatez de suas verdades. Sonhei muitos sonhos, mas não sonhei pesadelos, porque ao abrir os olhos, enxerguei no escuro da noite que aqueles sonhos se pareciam incrivelmente reais. Mas eram sonhos.

“Como pode uma pessoa morar…” Novamente a pergunta estava lá a me perseguir e lembrei das palavras de um amigo, quando anunciei que estava voltado para a vida urbana: “Seja bem vindo ao caos, meu amigo”. Foram onze anos e cinco meses sobre as ondas do mar e sendo regido por deuses fascinantes e maravilhosamente imprevisíveis, onde vivi o melhor dos mundos. Fui para o mar por livre e espontânea vontade e sem carregar sobre os ombros nenhum trauma ou interesse, a não ser o interesse da busca da paz, do conhecimento e da reflexão. Não é justo fazer comparações entre o mar e a terra, porque são tantas as desavenças que dificilmente casaríamos alguma. No mar nunca tive sonhos como os que sonhei em minha rede da varanda, mas talvez seja pelo motivo de que estivesse olhando as cidades por um ângulo mais humano e belo, porque sempre achei que as cidades vistas do mar são mais aconchegantes e humanas. O caos a que se referiu meu amigo é escrachado diante de nossos olhos e nenhum tapume colocado na paisagem das cidades pode mascará-lo.

– Sim, mas porque a volta? Hoje morando em uma pequena localidade praieira já fiz essa pergunta inúmeras vezes e talvez por isso que a pergunta do leitor tenha me deixado encabulado, pois também interroguei vários conhecidos que desembarcaram e nunca a resposta satisfez minhas curiosidades. Hoje, refletindo tudo o que vivi a bordo do Avoante e o cenário encontrado nas ruas das cidades, posso dizer que não existem respostas, porém, precisava desembarcar e amadurecer as verdades que aprendi sobre as ondas, como também aprumar o rumo dos arquivos de assuntos pessoais que foram sendo jogados aqui e ali e estavam navegando em mares desencontrados e tenebroso.

Pode até ser que os “encantos” da vida urbana me entorpeça a razão e adormeça os extintos e as afeições que adquiri no reino de Netuno, porém, jamais perderei o norte verdadeiro e nem esquecerei o som do canto da Rainha do manto azul. Quem um dia foi ao mar jamais esquecerá, pois são ensinamentos para toda a vida e que serão repassados as minhas gerações futuras como elos de uma grande e interminável corrente. Acredito na máxima de que todos os habitantes do planeta deveriam passar uma temporada em um veleiro, pois assim teríamos humanos mais humanos e comprometido com a ideia de um mundo em que a paz, a ética e o companheirismo sejam parte inerentes da vida.

Não enxergo meu retorno como uma regressão e sim, como mais um período de um feliz aprendizado que busco em cada momento da vida. O retorno foi um bem maior e dele buscarei retirar o mais doce dos frutos, mesmo que não seja aguado com o néctar das águas salgadas, onde as verdades e os homens são mais verdadeiros. Saudade tenho sim, mas não daquela que faz doer, porque é uma saudade forjada em alegrias, maravilhosas lembranças e isso já basta para o sorriso da alma.

– E quando se dará a volta? Taí mais uma pergunta enigmática, mas por enquanto, ficarei regando minhas plantas.

Nelson Mattos Filho 

Cartas de Enxu 09

10 Outubro (5)

Enxu Queimado/RN, 04 de março de 2017

Sabe meu amigo Maracatu, dia desses o comandante Érico, um lobo do mar arrochado que só vendo, me escreveu em resposta a Carta 06 e lembrou uma frase de um grande amigo dele ao qual reclamava pelo seu silêncio: “O meu silêncio não é importante pois por mais que dure não abalará nossa amizade”. A frase foi proferida em meados dos anos 60 e o autor, pelos contorcionismos que a vida dá, hoje em dia é sogro de uma das minhas lindas sobrinhas. Linda sim, pois lá em casa só tem gente bonita. Num é não Dr. Wilson Cleto? Pois bem meu amigo paraioca, faz tempo que não nos falamos, mas a amizade é a mesma, viu?

Rapaz, você sabe que aquela nossa ida ao circo aqui em Enxu, na companhia de Mara, Orion e Neca, para assistir a incrível mulher que vira cachorro, ainda dá ibope na mesa da cervejada? Pedrinho ainda lembra, depois de sei lá quanto tempo, da sua cara de espanto quando a dançarina Érica surgiu no picadeiro com um cachorrinho embaixo do braço e, sob o rufar dos tambores, fez a plateia silenciosa vir abaixo em gargalhadas. Bons tempos!

Mudando de assunto, pois assunto não falta, tenho acompanhado pelo Facebook suas pedaladas pelas serras cariocas e as vezes me sinto cansado só em olhar o retrato da ladeira que você diz que subiu. Rapaz, o que me encasqueta é que nas imagens você só aparece com uma latinha numa mão e segurando a magrela com a outra. Tu pega carona ou sobe pegando morcego em algum caminhão? Homi, conta essa história direito! Sim, me dê notícias daquelas deliciosas pancetas servidas pelo mestre Breves? Rapaz, aquilo é bom demais! E com cerveja gelada! Vixi!!! Nunca mais esqueci. Aliás, já fez um ano e uns tantinhos e o sabor daquele “Jesus te chama” não me sai da boca. Um dia eu volto, não prometo, mas volto!

Catu, como foi o Carnaval pelas bandas do canal do Bracuhy? Por aqui foi um show arretado de tranquilo e sem nenhum azedume dessa violência toda que varre esse país destituído de dignidade. Rapaz, na segunda-feira de Carnaval, organizamos um bloco, convidamos meio mundo de gente, ensaiamos os passos, aguamos a cabeça com umas “marditas” e na hora do frevo arrochar o nó: Cadê a orquestra? Mas homi, não é que a banda atravessou a partitura e escafedeu-se! Resultado: Já que estávamos esperando mesmo e lá vinha o bloco As Putas de Segunda, olhamos uns para os outros, brindamos e fomos atrás marcando o passo. Pense numa brincadeira boa!

Ei pedaleiro, você está vendo como estou comportado e ainda não lhe chamei por aquele apelido que Lucia te batizou? Se preocupe não que treinei os dedos para não passar nem triscando pelas teclas que juntam as letras do apelido. Onde danado já se viu apelidar um amigo com aquele nome esquisito? Só Lucia mesmo! E você ainda lembra onde se deu o batizado? Se você soubesse que iria ser assim não tinha chamado para comer aquele acarajé no Pelourinho, né não? Também, você pegou pesado com a cearense. Bem feito! Mas quem tem culpa no cartório é a Cláudia Bohn, que deu com a língua nos dentes, e a Mara, que em vez de desmentir, acendeu um cigarro e sorriu. E você bem sabe como Lucia é. Sobrou pra tu, maracatu!

Meu amigo, dia desses li uma postagem da Guta do Fausto – ou será Fausto de Guta? –, em que ela estava toda jururu com o rumo a tomar depois que retornaram da volta ao mundo e lembrei da sua entrevista com o Marçal Ceccon, velejador indo e voltando, onde ele falou dos detalhes entristecidos para desembarcar de vez do Rapunzel e do rumo que a vida tomou no sítio em que ele e a Eneida foram morar. Confesso que li aquela entrevista centenas de vezes, até ouvi os duendes de bordo cochicharem baixinho pelos cantos que eu estava próximo de desembarcar. Fiz até uma crônica sobre a entrevista e qualquer dia lhe mostrarei. Mas o que eu quero dizer é que, o Marçal, para desanuviar o pensamento do Rapunzel, se meteu a reformar um velho jipe e isso o estava ajudando a traçar novos rumos e descobrir novos e felizes horizontes.

Meu amigo Hélio Viana, hoje faz oito meses que deixei o Avoante para trás e juro que todos os dias acordo como se ainda estivesse a bordo e até sonho com a caminha de proa aconchegante e as vezes sufocante demais, mas sigo em frente de cabeça erguida e sempre de olho nos ventos e horizontes, que a cada dia se transformam. Não tenho um jipe a reformar, mas uma cabaninha de praia alegre e bonita que estava precisando de um trato. No quintal plantei umas plantinhas que águo diariamente, o que para mim é o momento de pensar na vida e criar o mote dos meus escritos. Sabe o que eu digo a Guta? Que ela não se avexe!

Catu, dê um beijão na Mara. Hoje por aqui o Céu está nublado, a Lua quarto crescente e o vento é Leste/Sueste

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 01

Agosto (11)

Antes de começar a escrevinhar a primeira das Cartas vou dizer que não será preciso você se benzer três vezes e nem se arvorar de um crucifixo para ler, pois o enxu aqui não se refere ao Orixá Exú e sim, a praia de Enxu Queimado, um pedacinho delicioso do litoral norte do Rio Grande do Norte, onde a vida ainda insiste em caminhar sobre um cotidiano bucólico, apesar da presença ameaçadora de gigantescos totens eólicos, que mais parecem mamulengos transformadores de belíssimas paisagens em cenários devastados de filmes futuristas, em que personagens disputam o reinado da brutalidade.

Após onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante, um veleirinho arretado de bom, e escrevendo o cotidiano da vida sobre o mar nos textos Vida Bordo, que ultrapassou o número quinhentos – cinquenta deles publicados no livro Diário do Avoante, lançado em 2013, – decidimos passar uma temporada em terra firme e escolhemos a praia potiguar para seguir no novo rumo. Essa mudança se deu em junho de 2016, porém, não havia criado coragem para escrever sobre ela, porque não tem sido fácil digerir essa mudança e nesse primeiro momento, tenho andando meio assustado com o que tenho presenciado nas ruas das cidades. Na verdade, os primeiros dois meses foram de tratamento de choque, pois viramos prisioneiros forçados numa Natal sem dono, sem Lei, sem alma, sem essência e sem esperança.

– Oh Natal, cidade cascudiana de Poti, povoado que acolheu com fervor o codinome dos Reis Magos – comunicadores das boas novas. Pedaço de terra defendido com arcos, flechas e tacapes pela nação Tupi. Noiva do Sol. Cidade trampolim da vitória de uma guerra absurda e desumana. Vilarejo entre o rio e o mar e abençoado por Nossa Senhora da Apresentação. O que fizeram como você Natal? Quem a descaminhou pelas brisas errantes? Logo você Natal, que tanto se orgulhou dos alísios que a acariciam. Hoje você é uma cidade retraída, cabisbaixa, esmaecida, amedrontada, desiludida e desapartada do seu maravilhoso sorriso largo. Seus abraços já não são os mesmos, pois existe um que de desconfiança entre você e o abraçado. Suas ruas já não nos acolhem com alegria. Em qual das suas esquinas ficou para trás a musa e poética linda baby? Oh Natal, você não merecia tanta desfeita e tanto abandono!

Pois bem, Cartas de Enxu não é para desabonar cidades e muito menos relatar as tristezas da vida, mas sim, deixar algo escrito, mesmo que em linhas desalinhavadas, da riqueza de costumes e valores de um pequeno povoado, e suas vizinhanças, encravado entre o mar e o sertão. Um lugar de gente alegre, extremamente acolhedora e que, mesmo diante das adversidades, consegue olhar para o mundo com um olhar de inocência. Uma prainha que há mais de 25 anos flechou meu coração e passei a amar. É nessa prainha praieira que me instalei depois de desembarcar de uma vida de sonhos e será da varandinha da minha choupaninha, cercada de coqueiros, que olharei para o mundo e talvez passe batido em temas que desassossega o país e o resto do planeta, pois as coisas por aqui ainda caminham lenta e com os pés na areia. O cotidiano por aqui ainda segue os princípios do mar, apesar dos ventos terem trazidos boas novas nas pás de um progresso meio atrapalhado. É na poeira avermelhada das ruas e becos de Enxu, que buscarei a vitamina para azeitar meus escritos e quem sabe, deixar material para quem um dia quiser pesquisar o passado olhado da varandinha de uma casinha de praia.

A Terra é um vulcão em permanente estado de erupção e nada melhor do que a gostosura de uma rede armada, diante do frescor de uma sombra macia, para servir de camarote de observação. É com o passar dos dias bucólicos nessa prainha ainda nativa, que conserva as origens de sua colônia de pescadores, que olharei as lavas fumegantes do vulcão. Será através de uma lente desnuda dos malabarismos das modernosas ferramentas de edição que me transportarei pelos caminhos dos escrevinhadores. Posso até cometer os costumeiros erros crassos, que sempre cometi nas crônicas Vida a Bordo, mas seguirei.

Aliás, sobre a palavra crasso, que passou a estar presente em minha mente, não tenho muito o que falar, a não ser relembrar: – Certo dia um leitor, ao encontrar-se comigo em um evento, puxou-me pelo braço e disse como se segredasse um pecado: – Gosto de sua escrita e é a primeira coisa que leio ao abrir a Tribuna do Norte, aos domingos. Gosto muito, mas você é muito crasso! Sorri, agradeci, apertei sua mão e sai matutando. – O que danado é isso? Socorri-me aos universitários que estavam na mesa e ao chegar em casa tratei de conferir no pai dos burros. E lá estava: “Crasso: Grosso, denso, espesso, rude. Falha, erro grave”.

Pois é, escrever não é fácil.

Nelson Mattos Filho