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Cartas de Enxu 51

8 Agosto (6)

Enxu Queimado/RN, 21 de setembro de 2019

Waltão, como vão as coisas com você e com os seus, meu amigo? Por aqui tudo indo e vindo, porém, mais indo do que vindo e não me pergunte os motivos, porque por mais que observe e tente decifrar os teoremas, mais perdido fico. Como disse um amigo: “Nelson, as coisas são o que são e quando não são, não são, entende?” Rapaz, preferi responder que entendia, pois vai que ele resolvesse explicar!

Amigo, nunca esqueci aquele dia, do ano 2000, quando saímos da Praia do Marco, onde eu tinha uma cabaninha de praia e juntamos aquela turma boa de velejadores, e viemos a Enxu Queimado, eu, Lucia, você e Baleia, tomar um café da manhã, no bar de Dona Tita, regado a cerveja, aliás, mais cerveja e menos café. Naquele tempo a fartura de lagosta por essas bandas ainda era coisa de fazer valer uma boa matéria jornalística e você sabendo disso incentivou a vinda – como desculpa para a cerveja – para bater uns retratos e registrar no bloquinho de anotações algumas informações. Pois saiba que aqueles meninos que carregavam dois carros de mão carregados, até a borda, de lagosta, e que tremeram nas bases e afrouxaram o intestino quando você pediu que eles parassem um pouco, porque você queria bater uma foto, aqueles meninos hoje são adultos, pais de família e ainda lembram do cheiro do “material pastoso” que escorreu por entre as pernas deles. Eles pensaram que você era fiscal do IBAMA. Vez em quando, em conversas de varandas, damos boas risadas lembrando daquele episódio. Mas Waltão, para mim o mais engraçado foi sua tentativa de aprender a subir em um pé de coqueiro. Sei não, viu! Pense num caboco desajeitado e ainda bem que você desistiu antes de receber a segunda lição, pois eu já estava imaginando a cena quando fosse para você descer.

Jornalista, sob a sombra dessa cabaninha de praia fico ouvindo os moídos do mundo, apesar da cacofonia que ecoa das trincheiras da grande rede e que as mídias tracionais teimam em comer corda, e não tenho como refestelar os miolos do juízo. Pense numa bandalheira desenfreada e sem direção lógica! Está todo mundo tão amalucado com a tal mídia social, que ninguém quer mais saber a verdade de nada, basta postar, ou ler o que os “influenciadores” publicam, apertar a tecla de encaminhar e pronto, a “verdade” está confirmada e prontinha para fazer estrago na vida do alheio por intermináveis dois dias até cair no ralo do assunto antigo e sem mais interesse. Waltão, quanto a isso, o navegador Amyr Klink falou assim, em uma entrevista sobre a comemoração dos 35 anos da travessia do Atlântico em um barco a remo: “…Se fosse hoje, eu estaria no Instagram uma boa parte do tempo, nas mídias sociais, provavelmente eu teria uns 2 ou 3 milhões de seguidores e, em uma semana, nenhum. Eu não ia ter mais nada pra falar porque todo mundo já acompanhou o que aconteceu. Então eu teria tido milhões de caras torrando minha vida a bordo na última semana e na primeira semana de volta ao Brasil eu não teria mais nada para contar…”. É assim, amigo!

Rapaz, por falar em mídias sociais, faz dias que escuto os ruídos que hoje, 21/09, é o dia reservado a Limpeza Mundial e sinceramente ainda não consegui entender o que danado isso quer dizer, pois o planetinha azul nunca esteve tão sujo, em todos os sentidos da palavra. Pois bem, acordei neste sábado de Limpeza Mundial, disposto a pegar uma pá, uma vassoura, alguns sacos para juntar lixo e sair em busca da turma que estava imbuída da tal limpeza. Já na cama apurei os ouvidos na tentativa de escurar o ciscado das vassouras e o arrastado das pás, e nada. Levantei, abri a janela, e nem sinal dos voluntários. Pensei com meus botões: Deve ser mais tarde! Tomei café, acompanhado de umas bolachas molhadas no leite, salteadas com queijo, e fui na calçada procurar saber onde estavam todos, e mais uma vez não consegui resposta. Foi aí que passou Dona Leonete, ativista de causas sociais, e perguntei de pronto: Amiga, a Limpeza Mundial já começou por aqui? Ela deu uma risada e respondeu: – Já teve! Olhei para um lado, para o outro e repliquei: E foi? Waltão, você acredita que mundo afora foi diferente daqui? Eu mesmo é que não acredito, pois se quisessem mesmo limpar o planeta, bastava incentivar que cada um limpasse a sua casa e chamasse o vizinho para conferir. Vizinho é bicho fuxiqueiro!

Pois é Walter Garcia, jornalista e velejador arretado, diante do coqueiral e do mar que me acena, fico escutando as loas e matutando nas batalhas travadas sobre as paragens desse planetinha metido a besta e muitas vezes prefiro fechar os olhos, os ouvidos e me calar, pois assim a vida se torna mais salutar. Mas como gosto de ver, ouvir e falar pelos cotovelos, vou seguindo feito balanço de rede: Meio lá, meio cá!

Velejador, que tal voltar a pisar os pés nas areias dessa prainha paraíso? Venha, homem, mas não garanto que terá outros carros de mão com a fartura de lagosta como naquele ano de virada de século. O que foi já era e o que já era, já era mesmo. Entendeu? Se não entendeu, venha que explicarei aqui!

Lucia manda um cheiro!

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 46

janeiro a junho (233)

Enxu Queimado/RN, 05 de agosto de 2019

“ Seja bem-vindo ao caos, comandante! ”

Zé, meu amigo, nunca esqueci suas palavras quando lhe informei que estava deixando o mar, habitat que vivi, a bordo do veleiro Avoante, por onze anos e uns meses de lambuja, para retornar ao cotidiano das cidades. Naquele dia suas palavras soaram como uma sentença e até imaginei que seria assim, mas sinceramente, não sabia que a extensão do caos fosse tão grande. Está feia a coisa, meu amigo, e tem horas que a vontade é de largar tudo novamente, mergulhar de cabeça nas águas de Iemanjá e sair por aí cortando as ondas dos oceanos.

Comandante, confesso que fazia uma ruma de tempo que não caminhava pelas paragens inebriantes do Blogueio Maldade, mas juro que não foi por falta de tempo, pois desde que tenho sentado praça nos meandros dessa Enxu mais bela que o tempo não me falta, mesmo envolvido que estou em produzir e servir a melhor pizza do universo, sempre me sobra umas horazinhas para cultivar ramos de flores de ócio. Pois bem, essa semana acertei na tecla do eu e o maldade e lavei a alma com sua verve arretada de boa. Aliás, sob a sombra dessa minha cabaninha de praia, de frente para o coqueiral, tenho lido muita coisa boa e até já perdi as contas dos personagens que saíram das páginas para dar um passeio comigo sobre a imensidão de praia que por aqui se estende.

Mauro, vou te contar um segredo, a personagem que mais desejei que o passeio não terminasse nunca foi uma tal de Pilar, maranhense arretada da cidade de Codó, filha de uma mãe de santo do terecô, uma doidivana dos sete costados e que um dia se tornou a líder espiritual mais poderosa do país. É difícil esquece as estripulias de Pilar, figura saída das ideias do escritor PJ Pereira, no livro A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, e mais difícil ainda não se apaixonar por essa mulher que descabela os mistérios da fé.

Zé Mauro, adoro os livros, mas tenho uma verdadeira paixão por crônicas, principalmente aquelas escritas nos recantinhos das páginas dos periódicos e digo mais, aposto todas as fichas que nos dias de hoje não existe um jornal brasileiro tão bem servido de bons cronistas como o potiguar Tribuna do Norte. Os cabocos que aportaram por lá ultimamente são conhecedores do riscado e deixam a gente com as bilocas dos olhos aboticados e o juízo tremendo de felicidade. Rapaz, Seu Henrique botou para reiar na escalação do time e não tem timeco espanhol que consiga trocar passes e nem passar do meio de campo. Veja aí a escalação: O meio de campo é comandado por Seu Woden; na cabeça de área quem manda é Seu Vicente que não dá mole para ninguém; na zaga central tem o danado do Cassiano; na ponta direita, avançando pelo meio tem um magro chamado Alex e na ponta esquerda o titular indo e voltado é o menino Rubinho. – Centro avante? – Tem não, pois tudinho sabe fazer gol, e só gol de voleio! Sabe, Zé, tempos atrás fui convocado para o time da Tribuna, mas só consegui vaga como reserva de gandula.

Ei, amigo, você viu que lá em riba falei que minhas pizzas eram as melhores do universo? Pois é, as danadas são boas sim, mas não sabia que era tanto até que um menino passou caminhando com o pai e afirmou: “- Pai, a pizza daqui é a melhor do universo”. Pois bem, como criança não mente, fiquei todo faceiro com a nota recebida. E por falar em universo, dia desse ouvi dizer que ele tinha 90 bilhões de anos-luz de extensão e na mesma hora minha cachola se danou a fazer contas e quando viu que não tinha capacidade para um numeral tão avantajado, deu um pânico. Isso mesmo, pânico e depois eu explico o prumode, mais antes vou tentar refazer essa conta, em um papel de pão, que deve ser assim: Se 1 ano-luz tem nove vírgula tantos trilhões de quilômetros e, segundo o caboco que estava anunciando a novidade, o universo tem 90 bilhões de anos-luz de tamanho, o resultado da conta é 873 trilhões. Vixe, vou é parar por aqui pois já estou vendo estrelas.

Tá bom, Zé, vou falar no pânico. Dia desses Lucia disse a uma amiga que havia ligado várias vezes e ela não atendia o telefone. Ela respondeu que o celular estava em pânico. – Em pânico? – Quem danado fez medo a esse aparelho? – Não, minha filha, o bicho caiu no chão e espatifou-se!

José Mauro Nogueira, que tal vir dar um passeio nesse paraíso praia para trocar as relíquias da morte e usar sem moderação a pedra da ressureição? Aqui é um dos poucos lugares sagrados guardados a sete chaves pelos bons feiticeiros e por todos os anjos do Céu. Aqui a vida caminha lenta, mas tem todos os desejos que você procura para aposentar de vez a capa da invisibilidade.

Antes de colocar o ponto final e antes que você fique a matutar nos escritos até aqui, vou em busca dos versos do jornalista Alex Medeiros, quando ele diz assim: “Meus escritos são momentos/de alegrias ou de desertos/nada mais que sentimentos/algo bem maior do que versos”.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 45

1 Janeiro (70)

Enxu Queimado/RN, 28 de julho de 2019

Pois é, Torpedinho, a vida não está fácil pelas “terras de pindorama” e até pensamos que estaríamos prestes a ver alguma luz que indicasse novos rumos a serem seguidos, mas tudo indica que continuaremos navegando feito marujos desnorteados. Será herança dos nossos descobridores? É bem capaz, viu! Aliás, como estão as coisas pelas terras dos maracatus? Aqui vai indo e quase do mesmo modo que você viu no comecinho desse julho que já se encaminha para os finalmentes. Porém, até nos mais bucólicos povoados desse país de temperaturas moderadas, a vida segue deixando rastros e impressões digitais nos escaninhos da história dos povos.

Amigo, o mar de Netuno – ou seria de Iemanjá? – tem andado meio amuado por essas bandas daqui, mas nada diferente do que tem acontecido a partir do litoral sudeste e subindo para os lados de cá. Os alarmentos, mas nem por isso mais responsáveis por suas ações, apostam que os reclames da natureza são consequências dos nossos atos, porém, nem os meninos das ciências se entendem sobre a razão e vez por outra estão batendo cabeça nos compêndios. Dia desse vi um professor da USP dizer, entre risos e bocas, que em meio as causas ambientais, principalmente ao mal falado aquecimento global, existe muita farinha falsificada no angu. Acreditar em quem? Vai saber!

Certa feita, ouvi um caçador de estrelas e planetas dizer que o eixo da Terra deu uma leve escorregada para o lado, mas não me pergunte para que lado, pois ele não disse e até tentei fofocar sobre o escorrego, mas ele calou-se diante das cartas, fez cara de paisagem estelar e recolheu as fichas da mesa. Deitando em minha rede, armada sob a varandinha, fico matutando, entre um cochilo e outro, será que esse reboliço de mar tem relação com esse moído. Rapaz, sei não, mas se continuar assim não vai demorar muito para o Sul virar Norte, Nordeste virar Sudeste, Centro-Oeste continuar Centro-Oeste, e assim, ninguém vai poder falar de ninguém.

Ei, Cleidson – é estranho chamá-lo assim, mas vou enfrentar a estranheza -, por falar em reboliço de mar, por essa região tem acontecido uns fenômenos arretados e que têm feito a alegria dos pescadores e das páginas nas mídias sociais. No final de junho, na praia de Galinhos, bem aliiii mais para o Norte, as redes de arrastão tiraram do mar uma ruma danada de Garabebeu, peixe que passa longe das receitas dos amostrados. Neste dia 25/07, na mesma praia de Galinhos, mais um lance de rede, e mais outros, acertaram bem de cheio em uma colônia de Corvinas, que segundo a conversa dos pescadores, rendeu mais de 25 toneladas. Foi peixe, amigo, foi peixe! JÁ no mar dessa Enxu mais bela, os barcos estão chegando carregados de Bonito, outro peixe que passa distante das receitas dos chefs, mas que é uma delícia quando preparado pela mão azeitada do povo do mar. É a vida sendo levada adiante pela natureza, que nos mostra a todo instante que nem tanto, nem tão pouco, pois o que ela quer dar, ela dá e nem adianta a gente espernear e nem querer se meter a adivinhações.

Pernambucano, por falar em natureza, quando você dará uns bordos por aqui naquele seu catamarã bala. Vi que você já está alistado na raia da próxima Refeno, Regata Recife/Fernando de Noronha, e fiquei imaginando que, na volta da ilha maravilha, você pudesse dar uma voltinha por essas quebradas. Rapaz, olha só as belezas que tem por aqui: Praia do Marco; Enxu Queimado; Ponta dos Três Irmãos; Serafim; Caiçara do Norte; Galinhos, Guamaré; Diogo Lopes e mais um monte de enseadinhas arretadas e que merecem registros. Digo mais, quem navegou boa parte do litoral nordestino, mas passou vexado por alguns desses lugares que falei, foi o Pedalinho, cabra arroxado e vivedor, que está mostrando ao povo da vela de cruzeiro, que o litoral brasileiro é muito mais bonito, fantástico, maravilhoso e navegável do que dizem por aí. Grande Pedalinho, que não conheci pessoalmente, mas tem toda minha admiração e reconhecimento.

Torpedinho, deixa eu lhe contar uma tristeza: No começo da semana, estava eu pintado o cercado de madeira do chalé que estamos terminando e que você bem conhece – Aliás, o ar-condicionado já está instalado -, quando passou um garoto, na companhia do pai, e ele vinha desembrulhando um bombom. Após colocar o doce na boca, seguiu segurando a pequena embalagem na mão, e o pai, que deveria ensinar, gritou: Sacuda esse papel na rua, seu p….! A criança, acho eu, para não levar uns puxões de orelha ou receber mais impropérios, soltou o papel sobre o chão. Sentenciei em meus pensamentos: – Pronto, nasceu mais um sugismundo!

Cleidson Nunes, advogado e velejador como poucos, a varanda dessa nossa cabaninha de praia está com saudade da sua prosa arretada e multifacetada que nos deu muitas alegrias durante os breves dois dias em que esteve por aqui. Você prometeu que iria volta, portanto cumpra a promessa ligeiro, viu! Para apressar seu passo, vou pedir que traga um bolo de rolo, iguaria que tem a marca, as cores, o sabor e a alegria da cultura da sua terra. Mas se não pedir muito, traga também uma cachacinha dos bons alambiques pernambucanos, que garanto a pareia do peixe frito, ou para variar, umas lagostas no bafo.

Abraços,

Nelson Mattos Filho

O Caminho de Volta

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Ao ler o texto, O Caminho de Volta, da jornalista e publicitária Téta Barbosa, me vi nele. Em janeiro de 2005 iniciamos o caminho de volta ao embarcar em um veleiro de oceano para viver por onze anos e cinco meses e desde que desembarcamos, passamos a morar em uma pequena comunidade praia no litoral do Rio Grande do Norte para viver uma vida que muitos admiram e sonham, mas que pouquíssimos se propõem a dar ao menos um passo em busca da realização. As pessoas dizem: vocês moram longe; venham mais para perto; saiam dessa vida off; vocês são malucos e mais uma serie de interrogações, mas não fazem ao menos uma simples reflexão da vida deles, nem se perguntam para onde estão caminhando.

Já estou voltando. Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta.

Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda. Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras.

Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe!

Mas, com quase 40 eu estava chegando lá.

Onde mesmo?

No que ninguém conseguiu responder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra FIM. Antes dela, avistei a placa de RETORNO e nela mesmo dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo.) É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo.

E num é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram 4 vezes em quatro anos) agora vêm pra cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta e eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove a internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está melhor que o Facebook , o Twitter e o Orkut juntos.

Aqui se chama ALDEIA e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama.

No São João, assamos milho na fogueira. Nos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas vou trabalhar contando as horas para voltar.

Aí eu lembro da placa RETORNO e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: RETORNO – ÚLTIMA CHANCE DE VOCÊ SALVAR SUA VIDA!

Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “compre um e leve dois”.

Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta.

 

Téta Barbosa

Assim seja!

20181006_134317~2Para estes dias de polarização exacerbada, crenças cegas e desvairadas, palavrório desmedido transformando em escombros relações familiares e jogando pelo esgoto laços de amizades que se acreditavam indestrutíveis, fui na estante para tirar a poeira e me deliciar com a conversa civilizada, reflexiva, respeitosa e rica em ensinamentos entre dois pensadores, um ateu convicto e um padre católico. Leandro Karnal e Fábio de Melo, em Crer ou não Crer, nos mostra a dimensão de um mundo sem o ranço covarde e repugnante das indiferenças.  

Cartas de Enxu 32

2 Fevereiro (24)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2018

Caro amigo, Nadier, como vão as coisas nas águas dessa Bahia velha de guerras? Tenho saudades das “grandes navegações” que empreendi na Baía de Todos os Santos, sob o olhar observador do Senhor que faz morada no alto da Colina Sagrada. Eita tempos bons e prazerosos, que um dia qualquer reviverei. Lembro com carinho cada detalhe, cada ancoragem cercada de amigos, cada bordo, cada abraço, dos bate papos e dos brindes levantados em nome da boa amizade. O mar é uma festa e o da Bahia é um eterno carnaval.

Amigo, por aqui a vida é boa, mas confesso que nem chega perto dos costados de um veleiro. É um disse me disse, um quiproquó desenfreado e ainda tem um bocado de gente para colocar palha na fogueira. Se a gente não abrir o olho, perde o bordo e aí você já sabe o nó que dá para retomar o rumo. Sabe do que tenho mais saudade? Da falta de uma âncora para ser puxada quando as coisas ao nosso redor não estão confortáveis. Ei, Pajé, é bom demais levantar âncora para ir um pouquinho mais para frente, ou para trás, num é não? Mas tudo bem, a vida tem dessas coisas e assim tem que ser levada.

Doutor, sabe aquelas hérnias de disco que me tiraram o sossego as vésperas de uma das regatas Aratu/Maragogipe? Pois bem, vez em quando elas mostram serviço, porém, basta pensar naqueles remédios que você pediu para Lucia buscar em seu carro, que as bichinhas declinam. Pense num remédio bom da peste! Só não gostei de ter ficado naquela festança sem poder tomar umazinha sequer. Naquele dia voltei para o barco antes de Armandinho empunhar a guitarra baiana e botar fogo na fascinante baía de Aratu, pois se ficasse ali, com certeza sua recomendação para não beber seria jogada para o alto.

Amigo, por falar em remédio, você já ouviu falar em banha da cascavel? Rapaz, hoje embaixo da árvore que fica em frente à casa de Pedrinho, chegou um amigo com uma ferida feia na perna, e depois que cada um dos presentes indicou um remédio do mato, cada um mais estranho do que outro, Deiminho disparou: Para curar essa ferida não tem melhor do que a “banha da cascavel”! Doutor, o “remédio” parece que funciona mesmo, porque todos que ali estavam confirmaram e ainda contaram vários casos de gente que ficou curado. O que mais me chamou atenção, foi quando falaram que um litro custa em torno de R$ 200,00 e que tem uns paulistas que compram de ruma. Tais vendo? Anote aí nos seus arquivos de receituário, pois vai que resolve para alguma bronca incurável!

Doutor, o povo do interior desse Brasil arretado de bom tem sabença, viu! O que existe de garrafada obrando milagres por aí, é um negócio danado. Tem um senhor que vem por aqui a cada mês, vendendo umas garrafinhas de óleo de copaíba, que é milagre puro. O bicho serve para tudo e mais um bocado. Diz ele que serve até para curar dor de amor perdido! Se resolve mesmo eu não sei, mas tem um bocado de gente que compra e usa na testa, nos olhos, no coração e onde a dor se apresentar. Tem uns que usam até como forma de prevenção. Fazer o que, num é!

Dia desses vi alguém receitando fígado de urubu para curar quem envereda no mundo da cachaça. Me arrepio só em pensar em comer uma desgraceira dessa, mas com dizem: para quem quer ficar curado, tudo vale! Mas digo que ainda não vi nenhum papudinho ficar curado. Tem nego que come a iguaria como tira-gosto e até pede mais. Vareite!

Pois bem, doutor Nadier, eu mesmo gosto de uns chazinhos para espantar alguns males, mas vou mesmo é nos saquinhos de camomila, boldo, erva doce e mais alguns. Se resolvem eu não sei, mas me sinto bem confortável e ainda tiro onda de chique.

Meu amigo, velejador e ortopedista, Roberto Nadier Barbosa, essa cartinha é para relembrar dos meus tempos de mar e contar um pouco das coisas dessa vilazinha de pescadores em que estou vivendo. Dizem que saudade é bom, porque dá e passa, mas é bom sentir e o melhor é ter a alegria de relatar. Quando você dará o ar da graça por aqui? Venha homem de Deus! Venha e traga sua amada, para sentir a brisa desses alísios nordestinos, que por aqui é franco. Venha sentar sob a sombra de nossa cabaninha de praia, saboreando um peixinho fresco frito no mais puro dendê de sua Bahia. Mas quando vir avise, pois Lucia quando sabe que vem alguém daí, passa logo a lista de encomenda. Não se avexe que não é muita coisa e tudo é encontrado na Feira de São Joaquim ou Sete Portas, lugares que vende do bom e do melhor.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 27

10 Outubro (151)

Enxu Queimado/RN, 24 de junho de 2018

Sabe, Lucrécio, o tempo bem que poderia, de vez em quando, dá um retornê em vez ficar ligado direto no alavantú, pois seria bom demais. Na verdade, o “bom demais” é um desejo, até porque acho que tiraria um pouco do encanto dos momentos de ouro que um dia vivemos na infância e adolescência, fases mágicas da vida e que a mocidade de hoje tem feito de tudo para pular essas casas. – O que você acha?

Estava eu aqui curtindo as estrelas da noite, que nessa Enxu mais bela fazem um espetáculo à parte, quando recebo mensagem de minha irmã Bebete falando da saudade dos ensaios das quadrilhas de Dona Iaponira e Zé Carvalho, o casal baluarte daquele pedacinho do céu, formado pelas ruas Almirante Teotônio de Carvalho, Conselheiro Brito Guerra e Hemetério Fernandes. Claro que aquele céu se estendia por outras ruas, mas essas três formavam uma trinca quase perfeita. – Quase? – Sim, quase, pois a perfeição não é coisa do nosso mundinho metido a besta. Rapaz, as quadrilhas de D. Iaponira fizeram história e duvido que algum daqueles felizes brincantes tenha esquecido. Pois bem, bateu saudade em Bebete, que estava no forte apache de Ceminha, e mais do que depressa ela tratou desencadear o turbilhão através das ondas ligeiras do “zapzap”. E num é que conseguiu! Eita tempo bom da mulesta!

Queço, era ela falando e minha cabeça de vento se danando em vasculhar nos arquivos da memória em busca das velhas e vivas imagens, os sons, os cheiros, as cores, os sorrisos, as alegrias, os choros, os sabores e mais uma danação de coisas que espero jamais se desbotem. E você sabe o que pedi a ela, já que estava no pedaço? Pedi que tirasse um retrato da Rua Teotônio de Carvalho naquele momento e ela o fez, com receio mas fez! – Receio? – Sim, meu amigo, receio, pois os tempos de hoje, naquele outrora céu, já não permitem que fiquemos marcando bobeira no meio da rua. E ainda vem “zé bonitinho” abrir a boca para declarar que está tudo normal. Pense num caba de peia!

Pois é meu amigo, o retrato veio e veio também, além da saudade, o silêncio, a tristeza e a melancolia que realçavam em cada pedacinho da imagem. O que fizeram daquele nosso céu? Quem deletou a alegria que pairava sobre aquele pedacinho de paraíso? Por onde andam o Cego, Trimegisto, Barriga, Curumim, Sarará, Jorge Pilha, Gambéu, Berís, Bolinha, Ci, Beta, as Jacks, Lila, Paulinho, Juninho, Seu Murilo, Ana, Maninho, Tiana, Mingo, Tutu, Ieié, personagens da turma menor? Esqueci alguém? Claro que sim, pois se assim não fosse, não era assim! E os maiores, Maninha, Dodora, Zé Filho, Ricardo, Nanã, Bebete, Rose, o Bárbaro, Fernandinho, Jussara, Raíssa e mais os que me faltam na memória? Lucrécio, no retrato não tem fogueira, não tem bandeirinhas, não tem balão, não tem fogos, não tem sanfoneiro, não tem milho assado, não tem pamonha, canjica, bolo pé de moleque, bolo de milho, de carimã, de macaxeira, não tem nem fumaça, meu amigo! Cadê Dona Iaponira? Porque será que ela não veio lá do Céu de Nosso Senhor para botar fogo na festança? É triste, Queço, mas o tempo é cruel, deixa marcas e o pior, não tem anarriê, se muito um balancê.

Mas meu amigo, não fique triste por causa das minhas saudades, pois as saudades daqueles dias levarei com alegria ao longo de minha caminhada. Aqui acolá largarei umas pedrinhas, que é para não perder o rumo da volta. – Volta? Sim, homi, volta aos arquivos! – Ei, Nelsinho, está cartinha não é de Enxu, porque danado você tá falando tanto das bandas do Tirol? – Eita, num é mesmo! Vou mudar o rumo da prosa, porém, tem um negócio que sempre me encasquetou: Quem foi o Almirante Teotônio de Carvalho? Alguém dá de conta? Será que o homem era almirante de Marinha ou de marujada? – Pronto, agora mudo o rumo!

Lucrécio, não sei como andam as coisas pela sua praia da Pipa, mas por aqui vai tudo bem e até bem demais. Tem umas faltinhas aqui, ali, porém, nada que desagrade um observador do cotidiano da vida. Meu amigo, só em ter a bendita paz já vale um mundo, e aqui tem, viu! Claro que não é aquela paz que tanto sonhamos, mas é paz. Para você ver, o “delegado” Marcelo passa prá lá, passa prá cá e volta para o quartel feliz da vida, pois aqui a tal da violência desenfreada que assola o Brasil, ainda não deu as caras. Tem uns gaiatinhos que se metem a besta, mas não passam de bestas e tudo se resolve com um aceno de mão ou com um olhar travante por parte do delegado.

Meu querido amigo, Lucrécio Siminea de Araújo, ouvi dizer que você continua nas ondas do surf e digo que aqui também tem uns surfistas. Não temos aquelas ondas de campeonato, mas dá para matar a tara da garotada. – Ei e o futebol? – Você era bom de bola e todos gostavam de jogar no seu time. – Você ainda dá uma botinadas na pelota? A turma aqui bate um bolão e tem gente que se quisesse teria futuro em time profissional. Mas o tempo voa, a bola sai pela lateral e se perde no vazio da vida.

Lucrécio, poderia muito bem falar dos festejos juninos daqui e até da Copa, porém, vou deixar para comentar com outro amigo, pois já ocupei demais seu tempo.

Ei, venha aqui homem de Deus, precisamos emendar os bigodes nos bate papos, pois faz tempo que a gente não se vê e adoro sua alegria contagiante.

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho