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Assim seja!

20181006_134317~2Para estes dias de polarização exacerbada, crenças cegas e desvairadas, palavrório desmedido transformando em escombros relações familiares e jogando pelo esgoto laços de amizades que se acreditavam indestrutíveis, fui na estante para tirar a poeira e me deliciar com a conversa civilizada, reflexiva, respeitosa e rica em ensinamentos entre dois pensadores, um ateu convicto e um padre católico. Leandro Karnal e Fábio de Melo, em Crer ou não Crer, nos mostra a dimensão de um mundo sem o ranço covarde e repugnante das indiferenças.  

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Cartas de Enxu 32

2 Fevereiro (24)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2018

Caro amigo, Nadier, como vão as coisas nas águas dessa Bahia velha de guerras? Tenho saudades das “grandes navegações” que empreendi na Baía de Todos os Santos, sob o olhar observador do Senhor que faz morada no alto da Colina Sagrada. Eita tempos bons e prazerosos, que um dia qualquer reviverei. Lembro com carinho cada detalhe, cada ancoragem cercada de amigos, cada bordo, cada abraço, dos bate papos e dos brindes levantados em nome da boa amizade. O mar é uma festa e o da Bahia é um eterno carnaval.

Amigo, por aqui a vida é boa, mas confesso que nem chega perto dos costados de um veleiro. É um disse me disse, um quiproquó desenfreado e ainda tem um bocado de gente para colocar palha na fogueira. Se a gente não abrir o olho, perde o bordo e aí você já sabe o nó que dá para retomar o rumo. Sabe do que tenho mais saudade? Da falta de uma âncora para ser puxada quando as coisas ao nosso redor não estão confortáveis. Ei, Pajé, é bom demais levantar âncora para ir um pouquinho mais para frente, ou para trás, num é não? Mas tudo bem, a vida tem dessas coisas e assim tem que ser levada.

Doutor, sabe aquelas hérnias de disco que me tiraram o sossego as vésperas de uma das regatas Aratu/Maragogipe? Pois bem, vez em quando elas mostram serviço, porém, basta pensar naqueles remédios que você pediu para Lucia buscar em seu carro, que as bichinhas declinam. Pense num remédio bom da peste! Só não gostei de ter ficado naquela festança sem poder tomar umazinha sequer. Naquele dia voltei para o barco antes de Armandinho empunhar a guitarra baiana e botar fogo na fascinante baía de Aratu, pois se ficasse ali, com certeza sua recomendação para não beber seria jogada para o alto.

Amigo, por falar em remédio, você já ouviu falar em banha da cascavel? Rapaz, hoje embaixo da árvore que fica em frente à casa de Pedrinho, chegou um amigo com uma ferida feia na perna, e depois que cada um dos presentes indicou um remédio do mato, cada um mais estranho do que outro, Deiminho disparou: Para curar essa ferida não tem melhor do que a “banha da cascavel”! Doutor, o “remédio” parece que funciona mesmo, porque todos que ali estavam confirmaram e ainda contaram vários casos de gente que ficou curado. O que mais me chamou atenção, foi quando falaram que um litro custa em torno de R$ 200,00 e que tem uns paulistas que compram de ruma. Tais vendo? Anote aí nos seus arquivos de receituário, pois vai que resolve para alguma bronca incurável!

Doutor, o povo do interior desse Brasil arretado de bom tem sabença, viu! O que existe de garrafada obrando milagres por aí, é um negócio danado. Tem um senhor que vem por aqui a cada mês, vendendo umas garrafinhas de óleo de copaíba, que é milagre puro. O bicho serve para tudo e mais um bocado. Diz ele que serve até para curar dor de amor perdido! Se resolve mesmo eu não sei, mas tem um bocado de gente que compra e usa na testa, nos olhos, no coração e onde a dor se apresentar. Tem uns que usam até como forma de prevenção. Fazer o que, num é!

Dia desses vi alguém receitando fígado de urubu para curar quem envereda no mundo da cachaça. Me arrepio só em pensar em comer uma desgraceira dessa, mas com dizem: para quem quer ficar curado, tudo vale! Mas digo que ainda não vi nenhum papudinho ficar curado. Tem nego que come a iguaria como tira-gosto e até pede mais. Vareite!

Pois bem, doutor Nadier, eu mesmo gosto de uns chazinhos para espantar alguns males, mas vou mesmo é nos saquinhos de camomila, boldo, erva doce e mais alguns. Se resolvem eu não sei, mas me sinto bem confortável e ainda tiro onda de chique.

Meu amigo, velejador e ortopedista, Roberto Nadier Barbosa, essa cartinha é para relembrar dos meus tempos de mar e contar um pouco das coisas dessa vilazinha de pescadores em que estou vivendo. Dizem que saudade é bom, porque dá e passa, mas é bom sentir e o melhor é ter a alegria de relatar. Quando você dará o ar da graça por aqui? Venha homem de Deus! Venha e traga sua amada, para sentir a brisa desses alísios nordestinos, que por aqui é franco. Venha sentar sob a sombra de nossa cabaninha de praia, saboreando um peixinho fresco frito no mais puro dendê de sua Bahia. Mas quando vir avise, pois Lucia quando sabe que vem alguém daí, passa logo a lista de encomenda. Não se avexe que não é muita coisa e tudo é encontrado na Feira de São Joaquim ou Sete Portas, lugares que vende do bom e do melhor.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 27

10 Outubro (151)

Enxu Queimado/RN, 24 de junho de 2018

Sabe, Lucrécio, o tempo bem que poderia, de vez em quando, dá um retornê em vez ficar ligado direto no alavantú, pois seria bom demais. Na verdade, o “bom demais” é um desejo, até porque acho que tiraria um pouco do encanto dos momentos de ouro que um dia vivemos na infância e adolescência, fases mágicas da vida e que a mocidade de hoje tem feito de tudo para pular essas casas. – O que você acha?

Estava eu aqui curtindo as estrelas da noite, que nessa Enxu mais bela fazem um espetáculo à parte, quando recebo mensagem de minha irmã Bebete falando da saudade dos ensaios das quadrilhas de Dona Iaponira e Zé Carvalho, o casal baluarte daquele pedacinho do céu, formado pelas ruas Almirante Teotônio de Carvalho, Conselheiro Brito Guerra e Hemetério Fernandes. Claro que aquele céu se estendia por outras ruas, mas essas três formavam uma trinca quase perfeita. – Quase? – Sim, quase, pois a perfeição não é coisa do nosso mundinho metido a besta. Rapaz, as quadrilhas de D. Iaponira fizeram história e duvido que algum daqueles felizes brincantes tenha esquecido. Pois bem, bateu saudade em Bebete, que estava no forte apache de Ceminha, e mais do que depressa ela tratou desencadear o turbilhão através das ondas ligeiras do “zapzap”. E num é que conseguiu! Eita tempo bom da mulesta!

Queço, era ela falando e minha cabeça de vento se danando em vasculhar nos arquivos da memória em busca das velhas e vivas imagens, os sons, os cheiros, as cores, os sorrisos, as alegrias, os choros, os sabores e mais uma danação de coisas que espero jamais se desbotem. E você sabe o que pedi a ela, já que estava no pedaço? Pedi que tirasse um retrato da Rua Teotônio de Carvalho naquele momento e ela o fez, com receio mas fez! – Receio? – Sim, meu amigo, receio, pois os tempos de hoje, naquele outrora céu, já não permitem que fiquemos marcando bobeira no meio da rua. E ainda vem “zé bonitinho” abrir a boca para declarar que está tudo normal. Pense num caba de peia!

Pois é meu amigo, o retrato veio e veio também, além da saudade, o silêncio, a tristeza e a melancolia que realçavam em cada pedacinho da imagem. O que fizeram daquele nosso céu? Quem deletou a alegria que pairava sobre aquele pedacinho de paraíso? Por onde andam o Cego, Trimegisto, Barriga, Curumim, Sarará, Jorge Pilha, Gambéu, Berís, Bolinha, Ci, Beta, as Jacks, Lila, Paulinho, Juninho, Seu Murilo, Ana, Maninho, Tiana, Mingo, Tutu, Ieié, personagens da turma menor? Esqueci alguém? Claro que sim, pois se assim não fosse, não era assim! E os maiores, Maninha, Dodora, Zé Filho, Ricardo, Nanã, Bebete, Rose, o Bárbaro, Fernandinho, Jussara, Raíssa e mais os que me faltam na memória? Lucrécio, no retrato não tem fogueira, não tem bandeirinhas, não tem balão, não tem fogos, não tem sanfoneiro, não tem milho assado, não tem pamonha, canjica, bolo pé de moleque, bolo de milho, de carimã, de macaxeira, não tem nem fumaça, meu amigo! Cadê Dona Iaponira? Porque será que ela não veio lá do Céu de Nosso Senhor para botar fogo na festança? É triste, Queço, mas o tempo é cruel, deixa marcas e o pior, não tem anarriê, se muito um balancê.

Mas meu amigo, não fique triste por causa das minhas saudades, pois as saudades daqueles dias levarei com alegria ao longo de minha caminhada. Aqui acolá largarei umas pedrinhas, que é para não perder o rumo da volta. – Volta? Sim, homi, volta aos arquivos! – Ei, Nelsinho, está cartinha não é de Enxu, porque danado você tá falando tanto das bandas do Tirol? – Eita, num é mesmo! Vou mudar o rumo da prosa, porém, tem um negócio que sempre me encasquetou: Quem foi o Almirante Teotônio de Carvalho? Alguém dá de conta? Será que o homem era almirante de Marinha ou de marujada? – Pronto, agora mudo o rumo!

Lucrécio, não sei como andam as coisas pela sua praia da Pipa, mas por aqui vai tudo bem e até bem demais. Tem umas faltinhas aqui, ali, porém, nada que desagrade um observador do cotidiano da vida. Meu amigo, só em ter a bendita paz já vale um mundo, e aqui tem, viu! Claro que não é aquela paz que tanto sonhamos, mas é paz. Para você ver, o “delegado” Marcelo passa prá lá, passa prá cá e volta para o quartel feliz da vida, pois aqui a tal da violência desenfreada que assola o Brasil, ainda não deu as caras. Tem uns gaiatinhos que se metem a besta, mas não passam de bestas e tudo se resolve com um aceno de mão ou com um olhar travante por parte do delegado.

Meu querido amigo, Lucrécio Siminea de Araújo, ouvi dizer que você continua nas ondas do surf e digo que aqui também tem uns surfistas. Não temos aquelas ondas de campeonato, mas dá para matar a tara da garotada. – Ei e o futebol? – Você era bom de bola e todos gostavam de jogar no seu time. – Você ainda dá uma botinadas na pelota? A turma aqui bate um bolão e tem gente que se quisesse teria futuro em time profissional. Mas o tempo voa, a bola sai pela lateral e se perde no vazio da vida.

Lucrécio, poderia muito bem falar dos festejos juninos daqui e até da Copa, porém, vou deixar para comentar com outro amigo, pois já ocupei demais seu tempo.

Ei, venha aqui homem de Deus, precisamos emendar os bigodes nos bate papos, pois faz tempo que a gente não se vê e adoro sua alegria contagiante.

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho

Agradecimento

IMG-20180624-WA0004_1Pois num é que a Carta de Enxu 12, escrita em 25 de março de 2017, foi parar nas mãos do destinatário e o mesmo sapecou os escritos na coluna de WM, no jornal Tribuna do Norte. Pois foi e está lá bem bonitinha neste  domingo, 24/06. E para agradece a deferência, me avexei assim no “imeio” de Seu Woden: Caro jornalista, você não sabe como foi bom para a alma, e para curar a ressaca brava das fartas doses de Papary, tomadas na beira da fogueira em homenagem a Seu João, ver a Carta de Enxu 12 fazendo fita na coluna do WM. Obrigado pelas palavras iniciais e fico aqui na esperança de um dia vê-lo sob as sombras da cabaninha de praia que tomo conta.

Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 24

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2018

Lourdinha, fico aqui na maciota dos balanços da rede e de olhos vidrados no sacolejo delirante das palhas dos coqueirais, que a vida passa e nem vejo. Mas fique com inveja não, pois esse aparente desestresse é coisa de minha cabeça de vento, pois o que mais tem sob o teto dessa minha cabaninha de praia é trabalho, porque se assim não fosse, como danado você iria comer aquelas saltenhas deliciosas, os nhoques, os quiches, as pizzas, tudo feito com o mais refinado carinho do mundo, pelas mãos abençoadas de Lucia. Ceminha diz assim: – Tudo que Lucia faz eu acho bom! Pois se é bom mesmo, eu vou dizer o que, num é não?

Amiga, quando será que você vai dar o ar da graça por aqui? Se adiante e venha logo, para ver que nesse Rio Grande do Norte ainda tem uns lugarzinhos gostosos que nem os descritos nos livros que falam do paraíso. Claro que não tem aquela maça apetitosa e nem o casalzinho que deu início ao falatório do pecado, mas tem peixe que só vendo e prosa tão boa, que faz a gente esquecer as maldades do mundo. Para animar sua vontade, e sabendo que você aprecia história dos povos, vou contar um tiquinho sobre o lugar que estou vivendo.

O município de Pedra Grande, do qual faz parte Enxu Queimado, tem a minha idade, aliás, dizem que 1962 foi o ano que nasceu as lendas. – Se foi não sei, mas já que dizem, vou por aí cheio de pretensões. Mas amiga, se inteirar sobre a história dos municípios brasileiros, e nem sei se mundo afora é igual, é uma aventura desgastante e que nos deixa com aquela velha cara de sei lá. É tanta desinformação, tanto disse me disse, tanto chafurdo, tanto foi não foi, que no fim das contas é como se quer que seja e ponto final. Bem, o conto é que o povoamento daqui teve início em 1919, pela insistência do agricultor João Victor, que cercou umas terrinhas para montar um sítio em homenagem a São João. Vendo a fazendinha criar marra e querendo marcar terreno, vieram da localidade de Canto de Baixo, que pertencia ao município de Touros, os trabalhadores rurais Manoel Felix de Morais, Januário Pedro da Silva, Manoel Gabi, Januário Lucas e Manuel Pulu, daí se foi o tempo, o povoamento cresceu e de um pulo virou distrito de São Bento do Norte, até que em 1962, o governador Aluízio Alves, meu padrinho, fez correr os papeis e numa canetada só criou o município de Pedra Grande.

Aí você haverá de perguntar: – E de onde saiu o nome? Respondo, mas antes preciso dizer que pesquei a maioria das informações, aqui contidas, no blog Pedra Grande, assinado por Jota Maria, que não conheço e nem sabia que existisse o blog. Tentei me inteirar no site da prefeitura local, mas não existe nada sobre o assunto. Pois bem, Jota diz que antigamente existia uma grande pedra nos arredores do povoado e os moradores começaram a chamá-la de Pedra Grande e assim ficou, pois a voz do povo é a voz de Deus e não se fala mais nisso. O moído é bom, né não? E tem mais e o mais nos arremete de encontro a umas Naus e Caravelas que andaram errantes pelos mares de Netuno, mas aí é conto longo e que deixarei para outra carta, para não apoquentar seu juízo.

Lourdinha, o município cinquentão, bem novinho por sinal, tem, segundo o censo de 2010, polução de 3.521 habitantes e densidade demográfica de quase 16 habitantes por quilômetros quadrados, mas o que me chama atenção é que no gráfico do Índice de Desenvolvimento Humano, ele está no nível 0,559, baixíssimo para um município que ostenta, se você não sabia, um enorme parque de energia dos ventos e este está dentro da área que engloba, talvez, o maior parque eólico brasileiro. Viva o paquistanês Mahbub ul Haq, que acreditou e fez o mundo ver que o desenvolvimento não se mede apenas pelos avanços econômicos, mas também pelas melhorias do bem-estar humano. – Sabe o que me deixa abismado, amiga? – E que em pleno século XXI os administradores públicos não aprenderam, ou não querem aprender, uma lição tão simples.

Lourdes Gonçalves Oliveira, minha amiga pesquisadora e letrada, que tal debater esses assuntos sob a sombra da minha varandinha, debruçada diante do coqueiral e comendo peixe frito acompanhado de uma deliciosa tapioca com coco? Por aqui tem muita coisa para ser oferecida nos reclames turísticos do RN, apesar de muito se encontrar invisível ou camuflado entre os desejos dos homens. Venha aqui mulher de Deus! Traga seu caderninho de anotações para recheá-lo de causos e quem sabe consiga garimpar provérbios sertanejos e praieiros para um novo livro.

Lucia manda um beijo e promete ensinar-lhe a preparar os nhoques.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 23

3 Março (65)

Enxu Queimado/RN, 14 de abril de 2018

Caro amigo Gerson, como vão as coisas nessa sua Bahia resguardada por Orixás e pelo venerado Senhor do Bonfim? Depois conte um pouco, até para matar minhas saudades, das suas peripécias pelas águas abençoadas de uma baía tão lindamente apaixonante. Por aqui as coisas estão indo como tem que ir e vou contar-lhe um pouquinho dessa vidinha de praieiro, que escolhi viver um tempo.

Pois é meu amigo, nesses tempos modernosos, onde as redes sociais emparedam tudo e a todos, tem sido uma graça observar o cotidiano dessa vilazinha de pescadores que adoro. Claro que os padrões estão bem distantes dos que encontrei há quase trinta anos e tenho visto alguns momentos de esquecimento com as raízes, mas as gerações são assim mesmo e a vida caminha para frente sem parar e o que seria de nós se ainda vivêssemos os costumes dos antepassados! Tem quem ache que tudo deveria voltar ao passado e tem momentos que comungo desse sonho, mas tudo é sonho, né não? Mas que seria bom, seria! Pelo menos viveríamos mais livres e sem esse medo destrambelhado que a tudo corrói.

Meu amigo, e por falar em medo, as notícias que circulam por aí é que o meu Rio Grande do Norte está entre os três Estados mais violentos do Brasil e está figurando entre as cidades mais violentas do mundo. – Será mesmo verdade? Hoje em dia é difícil acreditar nos números que se infestam por aí transvestidos de seriedade e passeiam como se verdadeiros fossem. Porém, digo que essa prainha que tem nome de casa de maribondo queimada e dotada de um conjunto de dunas espetacular, sem falar na gostosura do banho de mar, a vida é bem tranquila e não tem nem aparência com o restante das paragens do “mapa do elefante”. Sim, escuta-se o eco dos traumas em que vive o abandonado e mal-amado Rio Grande do Norte, mas o vírus do mal ainda não vingou por aqui e tomara que os deuses que a tudo protegem, não se descuidem tão cedo desse pedacinho do paraíso.

E por falar em vírus, e como no paraíso nem tudo é perfeito, pois se assim fosse, Adão e Eva não haviam comido aquela maça deliciosa, o mosquito da dengue tem azucrinado os ouvidos do povo, porém, tem voado silencioso pelas oiças dos administradores públicos. Aliás, eles, os mosquitos, e eles, os administradores, sempre agem assim quando o assunto requer para eles uma posição firme. Os mosquitos, porque não querem perder o alimento diário e os administradores, porque são descarados mesmo e tão nem aí para lamurias e sofrimento alheio. Sofrimento para eles e só quando abrem as urnas e o “apurado” não corresponde aos desejos. Pois bem, o general dos mosquitos antes de chegar mandou recado e como ninguém entendeu, ou se fez de desentendido, o danadinho armou o reinado e ordenou aos seus guerreiros para atacar. Ordem dada, ordem cumprida, e assim, a perigosa doença se alastra aos quatro ventos. Mas, Gerson, não pense que é só aqui não, viu, porque o descaso com a saúde pública é escrachado em todo esse torrão chamado Brasil e há quem diga que a culpa é da população que se descuida perigosamente da limpeza dos seus domínios. Digo que também é verdade e basta caminhar despreocupadamente por entre becos e coqueirais, que flagraremos a verdade nua e crua. Mas se não existe uma cobrança firme por conta das autoridades, e está passa a mão abonadora sobre a cabeça de quem não tem limites e nem zelo com a limpeza, a zorra descamba e quando é chegada a hora de recolocar o barco no rumo, a tempestade assopra de lá para cá, e seja o que Deus quiser!

Rapaz, agora que dei por fé que devo estar apoquentado seu juízo de velejador, com esse papo maledicente, ainda mais você, acostumado com os recantos saudáveis da Baía de Todos os Santos, em que a vida caminha lenta. – Tem ido ao Suarez? – Eita lugar bonito da mulesta! Meu amigo, por aqui também tem uns lugarzinhos apaixonantes e que você precisa vir conhecer, para riscar aquelas rotas que só você sabe fazer. Vixi como ia ser bom ver a praia do Marco, Enxu Queimado, Ponta de Tourinho, Serafim e outras tantas por aqui, figurando nas cartas náuticas digitalizadas. Mas vou logo avisando que são todas praias de mar aberto, porém, convidativas para uma boa ancoragem, apreciando um peixe frito acompanhado de tapioca com coco. Você deve estar se perguntando: – E a cachaça? – Tem, e tem da boa!

Pois é, meu caro e bom amigo, Gerson Silva, ou melhor, Gerson do Tô Indo, velejador cabra da peste, não se avexe com meus escrito, pois eles são apenas para lhe dar notícias e contar um tiquinho da vida desse lugar que me acolhe tão carinhosamente. Lucia manda um beijo para Lili, outro para você, e manda recado para que venham aqui o quanto mais breve. Sabe de uma coisa, para apressar a vinda, vou já ali na mercearia de Evilma comprar um quilo de goma para esperar vocês com uma maravilhosa tapioca dos deuses.

Grande abraço, com as graças da Lua Nova.

Nelson Mattos Filho