Cartas de Enxu 35


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Enxu Queimado/RN, 12 de março de 2019

Olá, filhota, espero que essa cartinha chegue até você e a encontre em paz e com aquele sorriso lindo que me derrete de paixão. Bem que poderia ficar horas e horas ajuntando letras nesse teclado confidente, falando do amor que sinto e derramando loas e loas sobre a beleza que estonteia os olhos e enche de alegria o coração de um pai que está a milhas e milhas de distância. Mas não vou não, porque quero falar do cotidiano da vida vivida nessa vilazinha praieira que me acolhe e me dá carinho. Como você é linda e maravilhosa, Filha! Benza Deus!

Filha, o Carnaval por aqui foi bom, tranquilo e na paz que merece a festa de Momo, se bem que as músicas deixam a desejar, mas fazer o que se a batida é mesma de Norte a Sul. Andei lendo e vendo os moídos da sua Salvador amada e vi que a coisa por aí foi bem animada. Gosto de dizer que é preciso viver a Bahia para falar sobre ela. Eita terra boa e abençoada. Também, com todos os Santos no comando e um exército de Orixás dando proteção, não tem quem se atreva a meter água no azeite!

Aqui teve uns buchichos na beira mar, onde se apresentaram umas bandas tipo xerox. Digo assim, porque entrava uma, saía outra e o repertório era o mesmo. Não fomos nem um dia dar uma bisbilhotada no fuzuê, até porque a pizzaria estava funcionando a todo vapor e quando a labuta terminava, abríamos uma cervejinha gelada e cadê a coragem de sair. Tomara que Momo me desculpe por essa, mas foi assim. Papai gostava de dizer que ninguém podia perder um Carnaval, pois não recuperava mais nunca. Pense num homem arretado e que gostava de festa!

Filhota, as chuvas por aqui estão bem chovidas e a pequena floresta do quintal está rindo à toa e verdinha que só vendo. Tem acerola, pinha, graviola, pitanga, seriguela, laranja, coco, fruta-pão, caju, mamão – doce que faz inveja a açúcar –, berinjela, cajá, cajá-manga, banana e até uns pés de pimenta, para temperar moqueca e espantar mau-olhado. Tá pensando! Estou até pensando em virar exportador! Margareeeeth!

Loura Linda, diga aí se você já ouviu falar na palavra “serigóia”. Pois é, estava hoje na varanda e escutei alguém xingar outro de “serigóia” e me avexei a pesquisar no doutor Google para saber o que danado é isso, e no que cheguei mais perto foi da “sericóia”, que é a Saracura-três-potes, uma espécie de ave que vive em áreas alagadas do pantanal mato-grossense e também México e Argentina. Fiquei matutando como danado chegou essa sericóia por aqui e não sosseguei enquanto a danada não voltou. Pois num é que a pessoa tinha as pernas longas e era magra que só uma sericóia! Sei não, viu! Pedrinho de Lucinha certa vez me disse que no fundo do mar tem toda espécie de criatura igualmente em terra. Perguntei: – Pedrinho, e tem gente? – Tem veio, eu num mergulho lá! – Eh, tem mesmo! Qualquer dia vou perguntar se tem sericóia e parece que estou vendo a resposta!

Por aqui apelido é que não falta e tem cada um que nem nos melhores dicionários do mundo se consegue a tradução. Meu amigo Zé Mago, que agora ganhou mais um apelido, que depois eu conto esse moído, é quem mais bota apelido no povo. O cabra é bom de ajuntar letras e basta olhar para uma pessoa que o apelido já vem na ponta da língua. Dia desse chamei Zé Mago para um bate papo na mesa que tenho embaixo do pé de nim e pedi que destrinchasse os apelidos de Enxu. Foram tantos que enchi três folhas de caderno e só não enchi mais porque Zé recentemente teve um AVC e segundo ele, a doença fez a cabeça esquecer de uma ruma. Tem um, que foi goleiro do time, que tem dezenove apelidos e quando Zé irradiava o jogo, dizia tudinho numa tacada só.

Amandinha, Enxu Queimado é uma graça de se viver e um paraíso de encantos. É difícil encontrar um recantinho no litoral brasileiro mais gostoso do que esse. Tem suas necessidades, suas mazelas como em todo lugar, mas no final da conta o que sobra é uma riqueza enorme de grande. Só em ter paz e as pessoas poderem andar despreocupadamente a qualquer hora do dia ou da noite, já é uma riqueza que não tem preço. – Quer ver eu criar ciumeira e dar o que falar? – Gostoso fica aqui bem pertinho, mas nem de longe tem a gostosura que tem Enxu!

Amanda Isabella Palma Mattos, a Loura linda de Nelsinho, venha aqui filhota. Venha conhecer um lugar que dificilmente as pessoas deixam de se apaixonar. Venha ver as belezas encantadoras das dunas e do coqueiral que declama poesias ao vento. Venha sentir o frescor dos alísios do Nordeste que por aqui declaram amores ao mar. Venha se banhar em um mar de águas mágicas e caminhar em um infinito de praias de areias branquinhas e livres de poluição. Venha ver as jangadas em seus belos bailados. Venha ver a Lua mais bela. Venha filhota, venha viver um mundo que só tem em Enxu.

Beijo, Filha e não demore!

Nelson Mattos Filho

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2 Respostas para “Cartas de Enxu 35

  1. Juliana de Oliveira ventura

    Parabéns!! Por elogiar nosso cantinho de viver..

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    • diariodoavoante

      Juliana, não é só um elogio, é uma declaração de amor a um cantinho que, desde o primeiro momento em que colocamos os pés nessas areias macias, nos adotou e sempre nos encheu de carinho. Obrigado pelo comentário, Nelson

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