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Cartas de Enxu 42

3 Março (7)

Enxu Queimado/RN, 04 de junho de 2019

Bebete, ontem, terceiro dia do mês de junho, tivemos a grata alegria de receber em nossa cabaninha de praia os irmãos Flávio e Jorge Rezende, dois cabras arretados que só vendo e que prezamos a amizade desde os tempos de menino pelas ruas de um bairro delineado pelas belezas inebriantes e cheias de mistérios dos morros do Tirol, em Natal. Foi um dia dedicado as boas lembranças de um tempo que já se foi, mas que continuará eternamente materializado nos maravilhosos arquivos da saudade.

Como seria gostoso se pudéssemos voltar no tempo, pelo menos por um dia, para vivenciarmos momentos felizes ao lado daqueles que, entre uma brincadeira e outra, juramos amizades e assinamos tratados de jamais nos separarmos. Infelizmente a vida não tem replay e o que um dia se foi, se foi para sempre e só nos resta o abraço apertado e o calor do reencontro diante de rostos amadurecidos e feições azeitadas pelas tatuagens da vida.

Bebete, diante da deliciosa moqueca de peixe, servida na panela de barro, que é uma obra prima das receitas de Lucia, Flávio fez uma pergunta que deixou no ar uma resposta que não veio, ou não quis vir para não quebrar o encanto do reencontro e muito menos espalhar fragmentos de tristezas em um momento tão sem igual. Perguntei sobre pessoas, estradas e sobre as variantes do destino e antes de responder ele perguntou assim: – Béris – como ele carinhosamente me chama -, vamos tentar recapitular. – Em que momento da vida caímos no vácuo em que as amizades tomam caminhos distintos? Pois é, minha irmã, não lembramos. Só sei que os deuses que desenham e abençoam as amizades, mais uma vez mexeram os pauzinhos e estamos festejando. No meu entender não existe resposta para a pergunta de Flávio, porque amizades verdadeiras nunca se acabam e assim como as estradas, em algum momento elas voltam e se cruzar, quando não, mostram placas indicativas de onde tal estrada se encontra.

Pois é, Bebete, hoje retomo o caminho ao lado de queridos amigos, mas sem saber até que ponto caminharemos juntos, porque sabemos que inevitavelmente um dia estaremos diante de nova encruzilhada e não tem jeito, pois jamais conseguiremos caminhar com os passos do outro. Ontem estávamos sob a sombra de nossa varandinha, revendo o passado e vislumbrando embasbacados o horizonte que delineia o presente. Tomamos banho de mar como se ainda fossemos três crianças do bairro do Tirol. Tiramos onda um com o outro, rimos dos causos, dos apelidos, lembramos dos cheiros, e até recordei as brigas que tive com Hermann, Fobica e outros. Juro que eu não era brigão, mas também não levava desaforo para casa, mesmo que para isso tivesse que levar uns bofetes, e levei um bocado.

Mas minha irmã, vou deixar as recordações de lado para dizer que Jorginho e Flávio adoraram Enxu Queimado e não tem como ser diferente, porque isso aqui é lindo demais da conta. Eles vieram pagar a promessa que fizeram de me visitar e pagaram com gosto. Flavio agora é um retratista bom que só a bexiga e não pensou duas vezes quando Jorge fez o convite para virem até aqui. Sinceramente, acho que o filme que ele usa na máquina Cannon Rebel T6, deve ter uma danação de poses, pois o cabra não deu sossego ao botão do click. Quando não era ele, era Jorge e eu já estava com pena daquele botãozinho de click, que no final já estava rouco. Bete, eles sabem que um dia foi pouco e esticaram enquanto puderam. Quando chegou na metade da noite da Lua nova, e com duas pizzas no bucho, pegaram o caminho que leva até São Miguel do Gostoso, desapareceram nas sombras e o “retratista da alma” ainda nos presenteou com uns escritos que fez carregar os olhos de água.

Minha irmã, agora me diga, se num é bom rever amigos? Claro que é! Vez em quando, nas Cartas de Enxu, convido um para vir aqui, mas vou logo adiantando que amigo em minha casa não precisa de convite. Alguns já vieram, outros prometeram e tem aqueles que estão pelas veredas dos caminhos e ainda não deram respostas, ou não leram a Carta, mas sei que algum dia darão as caras e aí vai ser festa.

E por falar em vir aqui: Elizabeth Lopes Mattos Jordão, quando será que você e Amaro darão o ar da graça por essa Enxu mais bela? Sei que sua Maracajaú e a super pousada Ponta dos Anéis, não deixam vocês sossegados, mas sei também que vez por outra saem batendo pernas pelos recantos do mundo e numa dessas quem sabe vocês botam os mocotós para caminharem pelas praias mais ao Norte. Venha minha irmã, venha ver coisa bonita e se encantar com esse povoado praieiro. Venha que Lucia promete preparar uma moqueca de bicuda da melhor cepa atlântica.

Venha e venha logo, pois já vou armar a rede na varanda para você tirar um sono com o frescor dos alísios que sopram sobre as dunas.

Beijo.

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 35

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Enxu Queimado/RN, 12 de março de 2019

Olá, filhota, espero que essa cartinha chegue até você e a encontre em paz e com aquele sorriso lindo que me derrete de paixão. Bem que poderia ficar horas e horas ajuntando letras nesse teclado confidente, falando do amor que sinto e derramando loas e loas sobre a beleza que estonteia os olhos e enche de alegria o coração de um pai que está a milhas e milhas de distância. Mas não vou não, porque quero falar do cotidiano da vida vivida nessa vilazinha praieira que me acolhe e me dá carinho. Como você é linda e maravilhosa, Filha! Benza Deus!

Filha, o Carnaval por aqui foi bom, tranquilo e na paz que merece a festa de Momo, se bem que as músicas deixam a desejar, mas fazer o que se a batida é mesma de Norte a Sul. Andei lendo e vendo os moídos da sua Salvador amada e vi que a coisa por aí foi bem animada. Gosto de dizer que é preciso viver a Bahia para falar sobre ela. Eita terra boa e abençoada. Também, com todos os Santos no comando e um exército de Orixás dando proteção, não tem quem se atreva a meter água no azeite!

Aqui teve uns buchichos na beira mar, onde se apresentaram umas bandas tipo xerox. Digo assim, porque entrava uma, saía outra e o repertório era o mesmo. Não fomos nem um dia dar uma bisbilhotada no fuzuê, até porque a pizzaria estava funcionando a todo vapor e quando a labuta terminava, abríamos uma cervejinha gelada e cadê a coragem de sair. Tomara que Momo me desculpe por essa, mas foi assim. Papai gostava de dizer que ninguém podia perder um Carnaval, pois não recuperava mais nunca. Pense num homem arretado e que gostava de festa!

Filhota, as chuvas por aqui estão bem chovidas e a pequena floresta do quintal está rindo à toa e verdinha que só vendo. Tem acerola, pinha, graviola, pitanga, seriguela, laranja, coco, fruta-pão, caju, mamão – doce que faz inveja a açúcar –, berinjela, cajá, cajá-manga, banana e até uns pés de pimenta, para temperar moqueca e espantar mau-olhado. Tá pensando! Estou até pensando em virar exportador! Margareeeeth!

Loura Linda, diga aí se você já ouviu falar na palavra “serigóia”. Pois é, estava hoje na varanda e escutei alguém xingar outro de “serigóia” e me avexei a pesquisar no doutor Google para saber o que danado é isso, e no que cheguei mais perto foi da “sericóia”, que é a Saracura-três-potes, uma espécie de ave que vive em áreas alagadas do pantanal mato-grossense e também México e Argentina. Fiquei matutando como danado chegou essa sericóia por aqui e não sosseguei enquanto a danada não voltou. Pois num é que a pessoa tinha as pernas longas e era magra que só uma sericóia! Sei não, viu! Pedrinho de Lucinha certa vez me disse que no fundo do mar tem toda espécie de criatura igualmente em terra. Perguntei: – Pedrinho, e tem gente? – Tem veio, eu num mergulho lá! – Eh, tem mesmo! Qualquer dia vou perguntar se tem sericóia e parece que estou vendo a resposta!

Por aqui apelido é que não falta e tem cada um que nem nos melhores dicionários do mundo se consegue a tradução. Meu amigo Zé Mago, que agora ganhou mais um apelido, que depois eu conto esse moído, é quem mais bota apelido no povo. O cabra é bom de ajuntar letras e basta olhar para uma pessoa que o apelido já vem na ponta da língua. Dia desse chamei Zé Mago para um bate papo na mesa que tenho embaixo do pé de nim e pedi que destrinchasse os apelidos de Enxu. Foram tantos que enchi três folhas de caderno e só não enchi mais porque Zé recentemente teve um AVC e segundo ele, a doença fez a cabeça esquecer de uma ruma. Tem um, que foi goleiro do time, que tem dezenove apelidos e quando Zé irradiava o jogo, dizia tudinho numa tacada só.

Amandinha, Enxu Queimado é uma graça de se viver e um paraíso de encantos. É difícil encontrar um recantinho no litoral brasileiro mais gostoso do que esse. Tem suas necessidades, suas mazelas como em todo lugar, mas no final da conta o que sobra é uma riqueza enorme de grande. Só em ter paz e as pessoas poderem andar despreocupadamente a qualquer hora do dia ou da noite, já é uma riqueza que não tem preço. – Quer ver eu criar ciumeira e dar o que falar? – Gostoso fica aqui bem pertinho, mas nem de longe tem a gostosura que tem Enxu!

Amanda Isabella Palma Mattos, a Loura linda de Nelsinho, venha aqui filhota. Venha conhecer um lugar que dificilmente as pessoas deixam de se apaixonar. Venha ver as belezas encantadoras das dunas e do coqueiral que declama poesias ao vento. Venha sentir o frescor dos alísios do Nordeste que por aqui declaram amores ao mar. Venha se banhar em um mar de águas mágicas e caminhar em um infinito de praias de areias branquinhas e livres de poluição. Venha ver as jangadas em seus belos bailados. Venha ver a Lua mais bela. Venha filhota, venha viver um mundo que só tem em Enxu.

Beijo, Filha e não demore!

Nelson Mattos Filho

Feira de arte e cultura em Enxu Queimado

20190311_180511O grupo Mulheres Conquistando Autonomia, da Praia de Enxu Queimado/Pedra Grande, realizará no próximo final de semana, 15 e 16/03, a 1ª Feira de Arte e Cultura da Praia de Enxu Queimad0 – FECAPE. Evento que tem como meta divulgar a cultura e os sabores de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Uma excelente oportunidade de conhecer um pedacinho do paraíso!

 

Escritos de uma segunda de Carnaval

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O Carnaval já vai alto pelas dunas e coqueirais de Enxu Queimado e pelo eco das músicas – músicas? – que invadem o povoado, poderíamos até dizer que é mais um Carnaval que se vai sem deixar saudades, mas aí seria demais, porque cada geração tem suas músicas preferidas, porém, nem todas tiveram a alegria de ter vivido os tempos dourados dos geniais compositores e letristas. Mas tem nada não, enquanto os gênios ficam esquecidos, sem querer, vamos cantarolando uma tal de Tu Tá na Gaiola, com “versos” que dizem assim: “…Ei, tu tá na gaiola….Cheiro de maconha boa….Várias piranha jogando….Ei, tu tá na gaiola….Vem sentando na piroca….Ei, tu tá na gaiola….Vai descendo a buc….tá na gaiola…”. Enquanto o tal Mc Kevin, emplaca sua loa de violação, as novinhas e os defensores dos direitos da mulherada, fazem coreografias em frente aos palcos e paredões Brasil afora! – E depois? – Ora, depois é outro dia!

Eita que esse mundão tá virado num traque e o Mc Kevin é apenas um tiquinho de nadica de nada em meio ao fogaréu da fuleragem e sua “música” foi feita apenas para um verão e ponto final e quem achou ruim, é porque nem advinha o que virá amanhã. Deus é mais, ou menos, já nem sei mais!

E por falar em fogaréu, os meninos das ciências do tempo anunciam que o mundo está bem pertinho de pegar fogo. Eles apostam que lá pras bandas de 2100 – bem pertinho, viu! – o Sol vai torrar o juízo de quase 50% da população do “planetinha azul”. Dizem que será uma onda de calor tão monstruosa que nem o “tinhoso” jamais imaginou. – Sabe em quem eles põem a culpa? – Pois é, em nós mesmo, mas nos acusam de uma forma tão relativista que a sentença entra por um ouvido e sai ligeiro pelo outro. Tomara que Santo Antão do ventilador ponha as barbas de molho e bote as ideias para funcionar, senão, os nossos netinhos tão ferrados, ou melhor, torrados. Mas vou logo avisando, viu Seu Sol: – Já deixei de usar os famigerados canudinhos, não jogo lixo na rua, não poluo os oceanos, nem os rios, gosto de cerveja gelada e de umas cachacinhas para esquentar o pé da orelha. “….tu tá na gaiola…” Homi, vai pra lá! Pense numa bixiga insistente!

E por falar nas coisas do tempo, pois num é que São Pedro resolveu abrir as torneiras do Céu durante o Carnaval. O Céu está bonito que só vendo e a chuva tem dado o ar da graça todos os dias. A mata da caatinga que cerca essa Enxu mais bela está uma boniteza sem igual. As borboletas fazem a festa em meios as flores do mato e a bicharada tem andado com riso de orelha a orelha. E os barreiros? Eita que tão de água de ponta a ponta. É tanta água que não chega um carro por aqui que não venha pintado de marrom. Já ontem mesmo, o amigo Lutero convidou para tomar leite no curral, diretamente do peito da vaca, mas foi logo avisando que a estrada estava difícil. Deixei quieto e guardei o convite para usar mais na frente. Tem tempo, tem tempo!

Mudando o ar da graça, nesses dias de reinado de momo tenho navegado pouco pelos portais de notícias e mais pelas estripulias das trincheiras das redes sociais, para saber os moídos dos pierrôs e colombinas e tenho comprovado que esses personagens não são mais os mesmos e nem deveriam ser, pois caíram no alçapão da gaiola e perderam o passo do frevo e das velhas marchinhas. Aliás, sempre que passo a vista pelas manchetes da grande mídia, me apego no mesmo mantra de mané luiz, que dá até uma dor de tanta falta de criatividade jornalística. Será que os velhos mananciais do jornalismo também entraram na onda da gaiola? Os caras estão batendo na mesma tecla e nem se dão por conta. Não tem ninguém pensando diferente e todos estão agindo que nem cartomante, tentando adivinhar o futuro pelas cartas, ou melhor, por colunas mais ideológicas impossível. Quer saber: Com toda milacria, as redes sociais estão mil anos à frente das redações e prontinhas para jogar a pá de cal sobre a carniça. – Quer apostar? – Aposte não, pois quem apostou perdeu a última eleição!

Pensa que esqueci do Mc Kevin, esqueci não, e nem posso, seus sucessos comandam os paredões. Se não gostou da Gaiola, que tal Sobe balão e Desce B…..? Isso mesmo, Desce B…..! E ele “canta” assim: “…No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta/No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta…”.

Mas tudo bem, o Carnaval está no terceiro dia e hoje em Enxu Queimado é dia do bloco As Putas de Segunda, mas antes que você fique imaginando o reboliço, digo que é um dos blocos mais tradicionais do lugar, onde donzelos se vestem de donzelas e saem pelas ruas espalhando alegria, paz e amor. – E a música? – Bem, a música não é preciso puxar muito pelo juízo para apostar no estilo do Mc Kevin!

E lá vem as Putas! “…tu tá na gaiola…/…e não para não novinha…”

Nelson Mattos Filho

Elementos em fúria e velhas recordações

imageA força das ondas nas Ilhas Canárias, arquipélago que é uma das joias do turismo espanhol, foi de fazer tremer o coração daqueles que moram em residências ou edifícios praticamente debruçados sobre o mar. Com o mar não se brinca, assim diz o ditado, e o que aconteceu na costa de Tacoronte, em Tenerife, dia 18/11, foi mais um exemplo que felizmente trouxe apenas danos materiais e desassossego. Ao assistir o vídeo da fúria dos elementos, lembrei de um caso acontecido na Praia do Marco, litoral do Rio Grande do Norte, nos idos anos 90. Naquele tempo eu era um dos poucos veranistas da praia e da varanda fiquei observando um dos vizinhos, durante todo o dia, construir uma barricada com sacos de areia diante de sua casa. Para mim, pitaqueiro dos bons, aquele serviço era em vão e no finalzinho da tarde levei uma latinha de cerveja gelada para ele, que aceitou de pronto, e ao sentar sobre a areia falei: Rapaz, acho que esse serviço não terá sucesso, pois você deveria estirar essa barricada um pouco mais para os lados, senão, o mar entrará por lá e vai acabar destruindo a casa. Ele deu um gole na cerveja, olhou para mim e antes de levantar para ir embora, disparou: – Amigo, obrigado pela cerveja, mas você não entende de nada. Passar bem! Fiquei ali na areia mais um pouco, apreciando o pôr do sol, e voltei para casa. Pela manhã o trabalho do vizinho recomeçou e nem prestei mais atenção. Logo após o almoço, armei a rede na varanda e fiquei escutando o mar de ressaca roncar lá fora. Em dado momento um barulho surdo irrompeu o mundo e ao levantar a vista, notei que a varanda do vizinho não estava mais lá e o vi sobre a areia com os olhos arregalados. Fui até ele para prestar solidariedade e ele perguntou: – Como você sabia? Respondi: – Como assim se eu não sei de nada? Nunca mais ele falou comigo.    

12ª Regata dos Pescadores de Enxu Queimado

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A praia de Enxu Queimado-Pedra Grande/RN está em festa neste final de semana, 11 e 12 de agosto 2018, com a 12ª Regata dos Pescadores, em homenagem aos pais. A Regata, – uma idealização de Pedrinho e Lucinha, um casal ímpar – depois do Ano Novo e Carnaval, é o maior evento do paraíso praia de Enxu. São dois dias de comemorações com torneio de futebol de praia, campeonato de sinuca, shows musicais, barraca de leilão e outras atrações. A prova no mar, uma competição imperdível, que tem apoio da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte e da Prefeitura Municipal de Pedra Grande, acontece na manhã do domingo, quando falta areia na praia para acomodar tantos torcedores e observadores. Se você, leitor, está pelas paragens maravilhosas do Rio Grande do Norte,  pegue a estrada e venha viver um final de semana sem igual.  Venha, que o povoado de Enxu Queimado lhe receberá de braços abertos!

Cartas de Enxu 29

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de julho de 2018

Mas Governador, porque danado você não veio a Enxu Queimado, homem de Deus? Se foi pelo motivo alegado, na entrevista a um blogueiro da região do Mato Grande, acho que foi fraqueza de sua parte. Onde já se viu um governador se intimidar com protestos, ainda mais protestos que impedem a passagem da mais alta autoridade de um Estado em viagem oficial para cumprir compromissos? Sei não viu! Se eram baderneiros, como você falou, mandasse a polícia desobstruir a via. Se eram moradores, reclamando melhorias prometidas e nunca realizadas, fizesse valer o bom diálogo democrático e desse por resolvido a peleja, mas não pisar no lugar, dando meia volta enquanto estava a mais de 60 quilômetros de distância, foi surreal. Será que o senhor estava de olho no regabofe da fama em São Miguel do Gostoso, para onde se dirigiu após decidir não vir aqui?

Mas tudo bem, ou tudo mal, sei lá, aquele 4 de julho era mesmo dedicado a São Tomé, o israelita, aquele que só acreditava vendo, e sendo assim: Eu não estava acreditando que o Governador do Rio Grande do Norte não viria a Enxu inaugurar uma obra tão importante para a população, tão significativa em termos de ganho para a saúde pública. Obra que esse pequeno povoado praieiro esperava há mais de 40 anos e que deve ter custado uma bagatela do orçamento do Estado. Pois é, o senhor não veio e água encanada de boa qualidade foi liberado sem o tradicional “batismo” oficial. Dizem que quem não é batizado vira pagão. Será que o senhor vai permitir que a água encanada de Enxu Queimado, liberada em 04 de julho de 2018, siga pela história com essa mácula? Água pagã? Faça isso não governador Robinson Farias, deixe de birra e venha cumprir sua obrigação.

Dizem que certa vez o presidente Juscelino recebeu uma sonora vaia ao chegar a uma cerimônia oficial, mas não perdeu a pose e nem sua condição de líder popular, que sabia decifrar a linguagem do povo, ao declarar: “feliz é a nação que pode vaiar seu presidente”. Bastou dizer isso para os aplausos comerem no centro. Governador, tem um ditado que diz que “triste é o poder que não pode”. Não o poder de fazer e meter os pés pelas mãos em atos escusos, mas o poder do bem fazer, de proporcionar melhorias, de caminhar de cabeça erguida em meio a população sem ser apontado por algum dedo acusador, de ter a alegria de prestar contas de seus atos e esses estarem limpos e transparentes. Pois é Governador, o presidente Juscelino Kubitschek, com maestria, mudou o rumo de um momento delicado, pois tinha absoluta certeza do poder que tinha. Não que a história do mito de Diamantina não tivesse fases obscuras, mas ele entrou para a história de cabeça erguida e desfazendo obstáculos.

Claro que o senhor lembra do episódio com o deputado Ulisses Guimarães, oposicionista e líder do MDB em plena ditadura militar, quando caminhava com o grupo de campanha pelo centro de Salvador/BA e deu de cara com uma barreira formada por soldados armados de fuzis e segurando cachorros. Sem aliviar os passos, Ulisses disparou: “Respeitem o presidente da oposição”. Sendo assim, empurrou o cano de um fuzil para o lado, abriu caminho e seguiu em frente com o grupo que o acompanhava.

Pois é, governador Robinson, fico aqui pensando na sua não vinda a Enxu Queimado com medo de enfrentar manifestantes, que nem eram tantos assim. O que terá passado por sua cabeça? Será mesmo que o senhor achava que a população dessa praia linda e maravilhosa iria rechaçar sua vinda, ainda mais sendo para dar vida a um sonho antigo? Os meninos que estavam na “barreira” têm suas magoas, mas não são meninos maus a ponto de pretender agredir um governador. No máximo o senhor levaria uma sonora vaia e quem sabe uma chuva de ovos, porém, isso faz parte do enredo dos regimes democráticos. Dizem, que não ouvi, que uma de suas promessas de campanha por aqui, foi que traria a água e faria o asfalto na estrada que liga Enxu a Pedra Grande, sede do município. A promessa da água está cumprida, mesmo sendo uma água pagã, mas o asfalto foi esquecido e é justamente aí que o bicho pegou, porque a estrada, que o senhor não viu porque desistiu de vir, está em estado lastimável, para não dizer outra coisa. Aliás, não viu a estrada e também não viu as belezas da região, não viu o maravilhoso parque eólico, a fábrica de torres, não viu a beira mar que precisa de ações urgentes, pois Netuno ameaça invadir com seus exércitos, não visitou uma comunidade alegre e em paz. Em paz sim, pois neste paraíso ainda não chegou a tal violência que assombra seu governo. Não sentou na beira mar, sobre uma jangada, para bater um papo descontraído com essa gente feliz. E o pior, não sentiu o sabor de uma suculenta posta do peixe serra, acompanhado de uma cerveja gelada. Eita que é bom demais, homi!

Venha governador Robinson Faria. Venha sem medo e inaugure a obra por seu governo construída. Se o povo tiver de cara feia, desça do carro, abra um sorriso e chame os meninos para uma conversa de pé de ouvido, que garanto que serás bem-sucedido.

Nelson Mattos Filho