Arquivo da tag: pedra grande

Nas veredas das dunas – II

7 Julho (60)

Para quem não viu a primeira parte, ou viu e não lembra, click AQUI

Iniciei esse relato em agosto de 2017 e só agora dei fé que não conclui, ou foi simplesmente por achar que a cidade praia de Galinhos não merecia receber palavras tão críticas de minha parte, ou por receio de meter os pés pelas mãos e não ser compreendido pelos vigilantes internéticos da razão. Bem, foi por algum motivo justo, mas agora, com os miolos uns meses mais velhos e teoricamente mais apaziguadores, vou dar seguimento e darei graças se encontrar na cachola os arquivos sem um tiquinho de mofo. Contar relatos idos não é coisa tão boa assim, até porque as coisas mudam ligeiro e nesse mundão sem freio e sem memória, as pessoas se avexam a esquecer os problemas e tudo fica como foi ou como está. Mas vamos lá!

7 Julho (64)7 Julho (68)7 Julho (71)

Terminei a primeira parte envolvido em um turbilhão de reflexões enquanto observava a paisagem do portinho de Galinhos, mas digo que não me encontrei naquela paisagem e nem senti o pulsar da alma da antiga vilazinha peninsular. Mas deixe quieto! Afonso acelerou o possante e fomos saindo de fininho, porém, desejosos de saborear as famosas tapiocas de Dona Irene, no minúsculo distrito de Galos. O sabor daquela delícia, que tem receita cravada nos compêndios gastronômicos dos deuses, nunca me saiu da memória e nunca haverá de sair. Paramos em frente ao restaurante e encontramos a proprietária com a mesma fisionomia alegre a nos receber. Lucia perguntou se ela ainda lembrava da gente, mas já esperando o não como resposta, pois tantas pessoas passam diariamente naquele recanto que fica complicado puxar a fotografia nos arquivos da mente. Com aquele riso amarelo de quem passou despercebido, olhei em volta, mas também achei que havia algo estranho naquela casa de sabores. O que deveria de ser? Foi aí que Lucia deu a informação que custei a acreditar: – A tapioca não está mais sendo servida! – O que? – Como assim? – Acabou a goma por hoje? – Não, a tapioca saiu definitivamente do cardápio, porque os filhos de D. Irene, que agora administram o restaurante, não querem mais fazer, porque dizem que os clientes só vinham aqui para comer a tapioca e não pediam outros pratos. Portanto, não tem mais tapioca. – Danou-se!

7 Julho (75)7 Julho (79)7 Julho (80)

Procurei lembrar dos fundamentos que aprendi no meu curso de administração, nas ações de marketing que utilizei nos estabelecimentos empresarias em que trabalhei, tentei puxar das teorias dos livros técnicos que li e me arvorei até dos reclames do rapaz que vende o picolé de Caicó, mas não encontrei nada que desse guarida aquela decisão tão extremada. A única coisa que chegou mais perto foi a lembrança do conto de um senhor que vendia cachorro quente na beira da estrada e seus filhos, que conseguiram se formar, conseguiram acabar com um negócio alegando teorias estapafúrdias. – Rapaz, não é possível que tenha acontecido a morte daquela maravilha dos deuses! Para recuperar do susto, pedi uma cerveja para desanuviar as ideias e tomei numa golada só. – Pense numa viagem cheia de surpresas desagradáveis!

7 Julho (76)

Sem a tapioca de Dona Irene, mas com o bucho forrado por uma peixada, que não recomendo, fui para a beira do rio fotografar a bela paisagem que se amostrava faceira. – Eita lugar bonito e tão incompreendido! Meio sem graça, pegamos o beco de volta enquanto a luz do Sol alumiava a fantástica natureza das dunas e do mar, produzindo cenas de fascinante esplendor. Para aqui, para ali, sobe duna, desce duna, chegamos a Caiçara do Norte, com o astro rei já clareando a barra do outro lado do mundo. Para evitar novas surpresas e visando a segurança e tranquilidade do nosso passeio, preferimos seguir caminho pela RN 120, até a sede do município de Pedra Grande e de lá tomar o rumo de casa, onde chegamos com noite escura e um pouco cansados.

7 Julho (84)7 Julho (90)7 Julho (91)

Não se avexe em tirar conclusões precipitadas diante de tudo que escrevi nesse relato, pois ele é fruto de observações acontecidas há praticamente um ano e em um ano, tudo pode ter mudado, ou voltado a ser o que era. Pode até ser que seja um relato bem crítico, mas é sempre assim quando voltamos a um lugar que um dia nos encantou e não mais encontramos o encanto e nem a poesia ali desenhada. A praia de Galinho é um dos mais concorridos destinos turísticos do Rio Grande do Norte, tem um povo acolhedor, bons restaurantes e pousadas aconchegantes.

7 Julho (82)

A natureza que envolve a península continua encantadora, apesar da presença das invasoras torres dos geradores eólicos. Mas a invasão do exército eólico não é apenas em Galinhos, a intervenção se dá em praticamente todo litoral norte do RN. Não é o caso aqui de denegrir o progresso que representa o aproveitamento da energia dos ventos, mas bem que ele poderia trazer melhores resultados para as populações envolvidas e não enfeiar tanto a paisagem. Mas aí é outra história.

7 Julho (92)

– Valeu a viagem a Galinhos? – Valeu e qualquer dia eu volto!

Nelson Mattos Filho

 

Anúncios

Cartas de Enxu 22

IMG_0090

Enxu Queimado/RN, 30 de março de 2018

Tia, tenho sim saudades do mar, mas aprendi com ele que nem sempre podemos navegá-lo e aprendi muito mais, aprendi que o recolhimento das velas e os bordos, muitos deles negativos, é a melhor maneira de seguir em frente em busca dos infinitos horizontes onde moram os sonhos. Vivi o sonho do mar onde pouquíssimos vivem, mas não me julgo melhor, nem pior, do que ninguém, apenas tenho a alegria de ter ao meu lado a pessoa que luta a cada segundo para me ver feliz e para ela, sonho se busca e se vive, por isso nunca pesou ou mediu regras para realizarmos juntos. Se existem coisas que devemos deixar para trás, deixemos sem medo. Se existem barreiras a ultrapassar, ultrapassemos. Se existem pontos negativos, transformemos em positivos. Se existe a alegria, sejamos alegres. Se existe a tristeza, faremos tudo para transformá-la em felicidade. Se existe a saudade, curtamos a saudade, porque ela é como o tempero das panelas da casa de mãe: Será maravilhosamente lembrado até o fim dos nossos dias.

Tenho saudade do mar, mas o mar está bem ali, bem diante dessa cabaninha de praia que me serve de abrigo e basta levantar a vista para render-lhe homenagens e respeito. Sempre respeitei o mar e depois que ele me acolheu tão bem, durante onze maravilhosos anos, jamais deixarei de reverenciá-lo. Por isso essa saudade desvairada que as vezes bate atravessada, porém, apaziguadora dos sentidos e que acalma a razão.

Minha tia, e por falar em saudade, estou com saudade daquela prainha que conheci há 29 anos, encravada entre dunas e matas da caatinga, mas eram tempos dourados de um Rio Grande do Norte inocente onde tudo era mágico e a vida era bem mais amena. Olhando preguiçosamente, enquanto deitado na rede macia estirada na varanda, ainda consigo respirar a paz e a tranquilidade reinante entre os coqueirais, porém, ao longe já escuto os tambores de uma guerra sem sentido, sem freio e sem lógica. Uma guerra desumana e sem comando. Uma guerra onde os exércitos do bem estão reféns do caos e fogem acovardados pelo medo. Uma guerra que se aproxima perigosamente desse pequeno pedaço do paraíso, que de tão pacato se tornará prisioneiro sem ao mínimo esboçar reação.

Naqueles anos noventa, Enxu Queimado era uma alegre colônia de pescadores onde todos se conheciam pelo nome e suas ruas e becos eram forradas de uma fria e gostoso camada de areia branquinha. Quatro ou cinco ruas formavam o traçado da vila e os chiqueiros dos porcos delimitavam a fronteira Norte. Hoje não, hoje as fronteiras são demarcadas pelos totens dos geradores de energia eólica, as ruas vivem um frenético e perigoso tráfego de veículos e o pulsar do progresso ameaça explodir a todo custo, sem ao menos ter dado aviso prévio, e se deu, não se fez ouvir.

Tia, Enxu vive hoje entre a cruz e a espada e sem identidade. Vive como diz o poeta, “sem lenço e sem documento”. Os antigos ainda apostam na pesca, mesmo sem os resultados do passado, e os novos vislumbram um emprego que lhes dê ares mais tranquilos e a certeza do salário no final do mês. O parque eólico da Serveng veio a calhar para a geração mais nova, porém, é um emprego com dias contados e tudo que é contado, um dia chega ao fim e a consequência é a insegurança e o mal-estar coletivo. Enxu Queimado está assim, vivendo eternamente de um progresso que nunca chega e festejando as promessas que nunca são pagas.

E por falar em promessa, prometeram de novo a construção da estrada asfaltada ligando Enxu a sede do município, isso depois de um protesto dos moradores, que resolveram fechar o acesso com pedras e pneus queimados. O moído foi grande e rendeu um bocado de teima entre os defensores de uns e os acusadores de outros. Teve visita “técnica”, pose para fotos, apertos de mãos, tapinha nas costas e no final, ficou tudo para quando Deus der bom tempo e todos saíram satisfeitos e com fé no coração.

Mas Tia Cecília, o mês de março por aqui começou agitado com um swell sacudindo o mar e trazendo novidade e preocupação aos moradores. O bicho foi pesado e foi dito nas folhas de notícias que o tal fenômeno foi um dos mais poderosos dos últimos 20 anos. Aliás, o swell endiabrado sacudiu o litoral do Nordeste de cabo a rabo e ainda sobrou umas lapadas em quem não pensava levar. Juro que nunca vi o mar de Enxu tão brabo. Registrei em retratos boa parte do fenômeno e guardo na memória passagens engraçadas, inclusive frases, para contar depois nas rodas de bate papos.

Maria Cecília Lopes Mattos, minha querida Tia Cecília, minha segunda Mãe e dona de boa parcela do meu coração, esta cartinha cheia de saudades e reminiscências é para contar um pouco do pouco do que vivo nessa vilazinha de pescadores tão aconchegante e feliz. Desculpe por algumas palavras mais carregadas de ressentimentos, mas faz parte do que vi e ouvi.

E quer saber? Tomara que o progresso adormeça um pouco mais e deixe a estrada aprisionada no sonho, porque assim, a paz e a tranquilidade continuarão a reinar por longos anos nesse paraíso praia.

Nelson Mattos Filho

Escritos de um dia de praia

1 Janeiro (7)

Caminhando sobre as areias da praia do Marco, litoral Norte do RN, que muitos jogam fichas e sou até tentado a apostar, que foi lá que os patrícios do Rei acharam as terras de além-mar, reflito o quanto somos indiferentes aos desmandos dos nossos governantes, de outrora, de hoje e pelo visto, de centenas de anos mais para frente. Gostamos mesmo é de um ruidoso “mimimi”, mas na hora “do pega para capar”, é um tal de deixe quieto, de coisa e tal, que sei não, viu!

O Marco, que existe no local, é uma réplica malcuidada, lambuzada na cor amarelo envergonhado e indicada por uma placa há muito precisando ser substituída. O local onde está chantado a réplica é dentro de um velho cemitério e em frente a capelinha, pintada com o mesmo amarelo envergonhado. Ora, em outros tempos os cemitérios eram locais sagrados e respeitados, onde imperava um silêncio sagrado, reflexivo e ensurdecedor. Hoje os cemitérios viraram espaços onde se praticam todo tipo de profanação e o velho espaço sagrado do Marco não foge à regra desdita. Sabe onde foram colocados os fogos para a virada do ano? Em cima de uma tumba! Acredita não? Vá conferir, porque as pistolas ainda estão lá.

A praia é linda e a natureza ainda tenta se manter paradisíaca e selvagem, mas está cansando da luta desigual entre ela e nós, os “sábios”. Toda ação do homem naquele local, denota desleixo e abandono. Nada ali é lógico e nem prestigia um passado que dizem histórico. Quem um dia tentou dar um rumo ao local, e sou testemunha da batalha por ela enfrentada, teve que sair devido a força da insegurança pública. E olhe que pagamos caro pela segurança, porém, ela praticamente inexiste. – Será que não seria o caso de acionar os direitos de defesa do consumidor? Dona Tânia, sei que a senhora anda meio angustiada em ver tanta luta ser desdenhada por aqueles que tinham o dever de juntar fileiras ao seu lado, mas sei que a senhora ainda respira e alimenta os sonhos de ver “o Marco” figurar no olimpo das maravilhas.

Tenho carinho e paixão pela praia do Marco, porque aquele cantinho de litoral me traz boas e felizes recordações, porém, ultimamente, sempre que tenho oportunidade de ir até lá, volto com o coração entristecido, em ver um lugar tão importante para a história brasileira, tão jogado ao léu.

Pulula nas mídias sociais uma mensagem do jornalista Alexandre Garcia, dando como certo que o descobrimento do Brasil ocorreu no Rio Grande do Norte, e completa dizendo que nenhum governante potiguar tem ou teve interesse em bisbilhotar e revirar a história contada nos registros oficiais. Ele diz até que o ex-governador Garibaldi Alves teve medo de trocar pernadas com o baiano apoquentado, Antônio Carlos Magalhães, cabra que gostava de briga. E assim vai a história do descobrimento, com pontos, linhas e traços que jamais se encontram.

Dia desses soube que o Governo do RN e as prefeituras dos dois municípios, que dividem o pedaço em que foi chantado o Marco, resolveram pegar carona nas palavras do jornalista global e pretendem fazer uma grande festa no dia 22 de abril 2018, com direito a palanque, discursos inflamados, shows musicais e apresentação teatral. Uma verdadeira encenação politiqueira. Diz o ditado que o povo gosta de “pão e circo”. Então, assim será! Que tristeza para um Estado praticamente falido e para dois municípios que tentam se equilibrar numa corda bamba financeira. Precisa disso não, autoridades, o que precisa é ação concreta e objetiva. Oba-oba e falácia são totalmente descartáveis e feio, viu!

Como santo de casa não faz milagre, há anos Dona Tânia Maria da Fonseca Teixeira, uma das maiores entusiastas da volta do Marco de Posse, original, ao local onde foi chantado pelos portugueses, em 1501, gasta saliva, tempo e paciência batendo nessa tecla, mas infelizmente só recebeu promessas e apertos de mão. O historiador Lenine Pinto é outro que conta uma história bem diferente da que existe no terreiro da baiana Porto Seguro. Vários estudos coordenados pela UFRN seguiram rumo pelo tema. O historiador maior do RN, Luís da Câmara Cascudo excursionou pela praia. Meia dezena de jornalista potiguares editaram matérias e até este blog está recheado com postagens sobre essa história tão mal contada.

Não sou partidária para que se faça birra e se bata o pé, para que se mude o rumo do descobrimento, ou achamento, sei lá o que foi ocorreu, e nem apostos minhas fichas que tudo começou na praia potiguar, mas advogo que aprofundemos no tema para que erros sejam corrigidos.

Nesse assunto o que não cabe, e nunca caberá, é a desfaçatez do oba-oba.

Nelson Mattos Filho

Magias da natureza

IMG_0412

“Umbuzeiro é a árvore sagrada do sertão”

frase do livro Os Sertões

Nas veredas das dunas – I

7 Julho (29)As areias e dunas das praias do Rio Grande do Norte e Ceará e um atrativo para os proprietários de carros 4×4 e buggy e tem roteiros para todos os gostos e gastos. Não que isso seja visto com bons olhos pelos órgãos e ONGs ligados ao meio ambiente e também pelos banhistas, que perdem o sossego e a paz com tantos automóveis circulando sem nenhuma regulamentação adequada, muitas vezes em velocidades alucinantes e dirigidos por motoristas fazendo uso de bebidas alcoólicas. Antes que eu leve uma bordoada é preciso dizer que toda exceção tem uma regra.

7 Julho (38)Carro em beira de praia pode até parecer uma aberração nesses tempos de politicamente correto, onde o correto nem sempre está do lado do politicamente falando, mas é isso o que mais se vê nas praias ensolaradas de um Nordeste arretado de bonito. Que o passeio é maravilhoso, ninguém duvide, e de vez em quando embarco no carro de um amigo para aproveitar o que ainda pode ser feito, porém, embarco como um fiel e atento navegador no quesito segurança total no passeio e no que der para ser feito para não agredir tanto a natureza bela e indefesa. Nem sempre dá, mas a gente tenta!

6 Junho (123)Pois bem, hoje morando na paradisíaca praia de Enxu Queimado, litoral norte potiguar, em um pedaço quase virgem de praia – quase virgem é ótimo -, recebo a visita de alguns amigos e quando eles vêm aboletados em possantes 4×4, tentam nos levar pelas trilhas das dunas, que conheço bem, para um passeio até a Praia de Galinhos, uma das joias do turismo do RN. Tentam, tentam, atanazam e as vezes ganham a parada e lá vamos nós. Foi numa dessas que embarcamos no carro do casal Afonso e Fabiola Melo e pegamos o beco, ou melhor, o areal para a praia peninsular, onde teoricamente não deveria existir tráfego de automóveis, porém, como em tudo nesse nosso Brasil tem um senão, Galinhos tem carro sim, e muito senões para macular as teorias e normas.

7 Julho (34)Conheci Galinhos quando tudo era apenas uma brincadeira de aventureiros em meio a um amontado de cabaninhas de pescadores e uma ou duas ideias de pousadas em estado aconchegantemente bruto. Era show! Para chegar até lá o mais fácil era de carro pela BR 406 até o Pratagil, estacionamento público onde deixávamos o carro e embarcávamos num barco a vela para chegar a praia do outro lado do rio. Hoje ainda é assim, mas os barcos são a motor. De buggy pela beira mar, partindo de Caiçara do Norte, era um viajandão em todos os sentidos e existiam poucos carros fazendo o trajeto. Hoje, a beira mar entre Caiçara e Galinhos é uma via expressa e se vê todo tipo de modelo de carro e não apenas os 4×4 e buggys. É uma farra!

7 Julho (91)Será que estou muito crítico nessa prosa? Acho que sim e acho que não, mas é melhor dar bordo e seguir viagem no possante de Afonso.

7 Julho (40)Saímos de Enxu na manhã de um domingo feliz, com maré no começo da vazante, serpenteamos as dunas da Ponta dos Três Irmãos, um ponto notável e onde começa a Carta Náutica 800, desembocamos na Praia do Serafim, para mim umas das mais belas desse litoral, acionamos a tração total para cruzar as praias de São Bento do Norte até darmos de cara com o Farol de Santo Alberto, motivo de teima histórica entre os moradores de São Bento e Caiçara. Acho que o farol pertence ao Santo Bento, mas os pescadores batem o pé e afirmam com todas as letras que é de Caiçara. A peleja é grande! Do farol tomamos as ruas das cidades, isso mesmo, das cidades, pois são tão pegadas que não se definem. – E por que seguir pelas ruas e não pela beira mar? Porque foram construídos alguns espigões na beira mar, para tentar segurar a força da maré, e estes impedem a circulação de veículos. Cruzamos Caiçara por completo e novamente caímos na faixa de areia e dali para frente acessamos a via expressa. Lembra que falei nela?

7 Julho (49)7 Julho (48)7 Julho (50)7 Julho (52)7 Julho (53)7 Julho (62)Mais ou menos 20 quilômetros separam Caiçara do Norte de Galinhos, pela beira mar e depois de algumas teimas a bordo chegamos ao destino, onde paramos para registrar em fotografia a passagem da nossa trupe. Retrato batido, algumas considerações, alguns pormenores e fomos passear de carro pelas ruas de Galinhos. – De carro? Pois é, de carro! Tentei reviver a nossa primeira visita aquele outrora paraíso, mas não encontrei o fio da meada. O farol está lá, lindo como sempre foi, mas a áurea da cidade já não é a mesma. Pedra de calçamento em vez das escaldantes areias, que nos fazia apressar o passo. Visitantes por todos os lugares. Inúmeras casas. Várias pousadas. Muitos bares e restaurantes espalhados na praia da frente. O portinho desfigurado, porém, os Tele Burros continuam trafegando e tem até estacionamento e associação. – Quer saber? – Perdi o encanto daquela primeira vez, quando o silêncio imperava, a paz era sentida em cada passo que dávamos, o aceno e o aperto de mão era caloroso, tudo era magia, tudo era vento, mar, rio e barco a vela.

7 Julho (54)Paramos o carro em frente ao porto, fiz algumas fotos, tomei uma água, entrei novamente no carro e me recolhi em reflexões, enquanto esperava Lucia que tinha ido tentar reencontrar vestígios do passado.

7 Julho (57)O que fizeram com você Galinhos?

Nelson Mattos Filho

Convite e agradecimento

18193724_1387492927980433_6395781896972259496_n

Tem coisas que nos deixa envaidecidos, até mesmo quando a vaidade não se faz presente em nossas vidas, porém, é aquele envaidecimento de quem caminha na estrada da ética, das boas causas, do comprometimento, traça rumos em busca do panteão onde são forjadas as amizades e recebe por isso o reconhecimento. Conheci a praia de Enxu Queimado, distrito do município de Pedra Grande/RN, há mais de 26 anos, e digo que foi amor a primeira visita e faço questão de divulgar esse amor por todos os lugares por onde andei e naveguei, vibrando com suas histórias, com o progresso que chega a passos lentos, mas é um progresso salutar, porque mantém Pedra Grande, e seu paraíso praia, com aquela áurea de lugares mágicos, onde a paz e a tranquilidade reinam absolutos por entre belos coqueirais. Hoje sou Enxu Queimado/Pedra Grande de corpo e alma, pois foi lá que passei a morar, depois que deixei o meu Avoante nas águas do Senhor Bonfim e voltei para o mundo urbano. Foi com surpresa, alegria e emoção que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, amiga/irmã que há 26 anos, com um sorriso de criança, nos deu as boas vindas em Enxu Queimado, que eu seria um dos homenageados pela Câmara Municipal de Pedra Grande, com o título de Cidadão Pedragrandense, durante solenidade neste sábado, 06 de maio de 2017, nos festejos em comemoração dos 55 anos de Emancipação Política do Município. Muito obrigado vereadora Lucia de Pedrinho! Muito obrigado vereador Pedro Henrique de Souza Silva, presidente da Câmara Municipal! Muito obrigado Pedra Grande! Esse título será para sempre honrado.        

Cartas de Enxu 08

1 Janeiro (15)

Enxu Queimado/RN, 13 de fevereiro de 2017

Tem coisas que custo a entender, ainda mais quando me deparo com manchetes de jornais e revistas que mais confundem do que tentam informar. E o que acho mais danado é que hoje em dia o leitor nem se dá ao trabalho de ler o primeiro parágrafo do corpo matéria, que geralmente traça o rumo da informação, e prefere espalhar aos quatro ventos whatsappianos uma desgraceira, que na grande maioria das vezes não passa de nadica de nada.

Pois é meu amigo Milito, essa semana vi uma manchete, em um jornal da capital dos Magos, que dizia que a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, a maior do Rio Grande do Norte, começaria a captar água do desafamado volume morto, porém, os técnicos afirmavam que o tal volume não era tão desabonado assim e que nem tudo é o que se fala. Na hora lembrei das inúmeras manchetes apocalípticas sobre o volume morto do paulistano Cantareira, onde nenhum repórter e nem ninguém queriam saber o que diziam os técnicos e pegue pau na moleira de quem estava autoridade para distribuir as gotinhas de água. Agora eu lhe pergunto meu amigo: – Será que o volume morto de lá é mais morto do que o de cá, ou será que nem uma coisa nem outra? Mas tudo bem, se não souber a resposta – como também não sei – fique quieto e se dê por respondido, porque nesse meio de mês, de um fevereiro carnavalesco, São Pedro resolver abrir um tiquinho as torneiras do Céu e deixou cair água nas cabeceiras dos rios que abastecem as barragens potiguares e o morto parece que abriu os olhos novamente. Só tomara que o santo da chuva dê um longo cochilo e esqueça as torneiras ligadas.

Agora mudando os punhos da rede para outro armador, para poder observar, pela posição dos geradores eólicos do parque da Serveng energia, a direção de onde está vindo o vento, lembrei que li algo sobre o potencial energético dos campos eólicos brasileiros e até gostei das informações. Na matéria estava escrito que subimos uma posição no ranking mundial e passamos do décimo para o nono degrau e agora estamos na frente dos italianos. Meu amigo, dizem que no quesito pizzaria há muito ultrapassamos os seus conterrâneos, pois aqui em cada recantinho de pé de serra tem pizza a torto e a direito e em sabores que vai de galinha caipira a x-tudo, basta o cliente querer. Se continuar nessa pisadinha de ganhar tudo dos italianos em breve nem o macarrão será deles, basta ver o tamanho da fábrica do Vitarella nas terras do maracatu.

Sim “Melito” – como chama o comandante Flávio Alcides – me dê notícias do português Luiz. Será que tem pescado muita sardinha? Rapaz, ainda não esqueci daquele churrasco de peixe que você tanta comenta. Qualquer dia, quando Pedrinho chegar por aqui com uns cestos sortidos e carregados de escamudos, farei uma churrascada como a que você falou. Claro que você e Dona Zoraide serão convidados. Me aguarde!

Eita que já ia esquecendo do assunto do vento. Pois é, nosso país, mesmo caminhando em chão de brasa de fogo, está com mais de 10 mil Megawatt de energia eólica instalada e em breve outros tantos se somarão, pois o governo promete lançar novos leilões em 2017 e já tem empresa com consultas de projetos pré-aprovadas para os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, região que tem vento para dar, vender e emprestar. Só aí serão gerados, além da energia de Éolo, mais de 680 empregos diretos. E assim a banda vai tocando!

E por falar em banda: Me diga como está sua preparação para o Carnaval? Tenho escudo que em Natal vai ter folia, não aquela folia que teve lá por cima das dunas de Pium, mas folia de Mono de verdade, com direito ao frevo de Morais Moreira, Elba Ramalho e uma trupe de gente boa. Uns reclamam da gastança, outros dizem vivas, mas o que seria da alegria se não existisse o circo, né não? Eu adoro Carnaval, pois assim vou seguindo na linha que meu pai traçou. Rapaz, Nelson Mattos era um trombonista arretado da molesta! E Ceminha, a essas alturas do campeonato já estava com as fantasias da família e dos amigos prontas. Pense num povo festeiro!

Nas ruas entre a Redinha e Ponta Negra, soube que vai ter bandinha para todo gosto e mania, tem até uma tal de Cadê Xoxó, Xoxó taí? Essa deve ser das boas e se me der na telha vou dar uns pulos no meio de Xoxó. Aqui por Enxu vai ter folia, mas os baticuns ainda estão meio que inibidos e os trompetes tocando baixo, mas que vai ter, vai. Só tomara que em todo lugar os festejos de Momo sejam nos braços da paz que tanto necessitamos.

Meu caro amigo Hélio Milito, por enquanto é o que lembro para escrever essa prosa, mas digo ainda que não esqueci do seu convite para dar uns bordos no Blue Jeans. Um dia darei o ar da graça e quando for levo umas cervas geladas para aplacar o calor e ajustar as velas com mais precisão.

Até mais!

Nelson Mattos Filho