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Cartas de Enxu 30

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Enxu Queimado/RN, 20 de agosto de 2018

Papai, dizem por aí que os dias festivo são cavilações comerciais para alavancar venda e tem até quem passe por eles, como se nada de mais estivesse acontecendo e ainda declaram em alto e bom som, que são dias como outro qualquer e não tem do que comemorar. Claro que quem pensa assim está com razão, porque cada um pensa como quer, mas dizer que os dias normais não merecem comemoração, aí não sei não, viu! Só em ter tido a graça de ter vivido mais um dia já é motivo de comemoração, pelo menos é assim que vejo a vida.

Pois bem, Papai, hoje para mim não é um dia normal, pois não comungo da ideia dos que assim acham, e nem acho que só temos uma data especifica para homenagear pai, mãe, avós, filhos, família ou amigos, porque são pessoas tão especiais que merecem homenagens todos os dias, principalmente aqueles que já partiram para a casinha branca do Céu.

Pai, sei que o senhor se lembra, mas não me custa repetir e repetirei quantas vezes for preciso, que um dia lhe escrevi uma cartinha confessando que durmo e acordo pensando naqueles últimos momentos que estive ao seu lado, dando tudo de mim para vencer a corrida de barreiras que se transformou as ruas e avenidas do bairro do Alecrim. O senhor tentando dizer alguma coisa e eu, na loucura de vencer a batalha, sem saber decifrar suas palavras. Talvez nem houvessem palavras, talvez nem existissem sons, talvez tudo não passasse da esperança da vitória que eu apostava a todo custo, mas seu olhar falava, como sempre falou, e naquele momento, justamente naquele momento tão crucial, tão aflitivo, tão pedinte, os últimos momentos de seu olhar, onde eu tinha por dever e obrigação escutar, não consegui ouvir. Me perdoa Pai! Quem sabe uma noite dessas, entre as fases de sono REM e NREM, o senhor venha sussurrar em meu ouvido!

Mas, Papai, não se aflija com os meus mais desejosos desejos, pois esta missiva é para falar das coisas desse paraíso praia que me acolhe carinhosamente sob a sobra de uma cabaninha de praia. Sei que o senhor sabe de tudo que acontece em meu redor, mas me deixe contar, pois vá lá que alguma coisa passou despercebido.

Os dias por aqui caminham na maciez dos ventos e das correntes marinhas. Os festejos do Dia dos Pais foi uma festança na beira mar, com direito a regata de paquete e umas bandas que tocam as mesmas músicas, parecendo um disco enganchado. Só não entendo porque não contratam somente uma banda e pedem para tocar o repertório de frente para trás e de trás para frente, pois seria bem mais divertido e mais barato. Mas tudo bem, a festa foi animada, sem confusão e no final salvaram-se todos.

Papai, os ventos de agosto estão de fazer inveja a qualquer Saci Pererê. Fico só na saudade das lembranças dos meus dias a bordo do Avoante, quando passava horas estudando rotas e roteiros para aproveitar o vento da vez. Os de agosto eram os ventos que rendiam mais estudos e era quando o Avoante mostrava toda sua valentia e destreza, pois ele adorava deixar esteiras sobre as águas frias de fins de inverno e eu amava a brincadeira. Por aqui o coqueiral tem comido tocha e quem quiser que se meta a besta em caminhar sob a sombra das palhas, pois vez por outra o vendaval faz um coco despencar no vazio para se espatifar no chão com um barulho surdo. Thumm!

O peixe da vez agora é o serra e os cestos tem chegado aos barracões cada vez mais abarrotados. A lagosta, que está com a pesca liberada até final de novembro, este ano por aqui está igualmente a orelha de freira, todos sabem que existe, mas poucos tem visto. Quando aparece umas lagostinhas, os preços estão que nem os salários dos STF, lá nas nuvens. O povoado está arrumadinho, mas bem que poderia estar melhor, mas como no mundo da política as coisas caminham lento, lento vamos andando até onde as pernas deixarem. A água chegou, mais não chegou e muito pelo contrário. O reservatório foi recuperado, cada casa tem seu registro, as bombas foram acionadas, o bem da vida jorrou uns dias pelos canos e de um dia para a noite, a fonte secou e não tem uma alma viva para contar a justeza do motivo. Onde a falta de informação é uma verdade, a verdade não se faz presente!

Papai, agora que me avexei que essa carta era para lhe homenagear, mas fiquei de teretetê contando os moídos, que me dei conta que o papel está findando e a homenagem não saiu. Mas é assim mesmo, num é meu Pai? As vezes a gente quer contar tudo de uma vez que esquece do principal. A saudade é imensa, o nó na garganta nunca sara, as lágrimas vez por outra lavam os olhos, o coração se aperta e quer sair pela boca, as pernas amolecem, os joelhos dobram, porém, as lembranças e os ensinamentos brilham mais forte e indicam o caminho a seguir.

Sim, meu Pai, já ia esquecendo de dizer que Ceminha está cada dia mais linda, apaixonante, amada e tenho a mais pura certeza que o senhor tem cochichado nos ouvidos do Nosso Senhor e da Virgem Maria, para mantê-la sob dobrada proteção. E Nanã! Eita que Nanã é valente, viu Pai!

Beijo

Nelson Mattos Filho

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12ª Regata dos Pescadores de Enxu Queimado

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A praia de Enxu Queimado-Pedra Grande/RN está em festa neste final de semana, 11 e 12 de agosto 2018, com a 12ª Regata dos Pescadores, em homenagem aos pais. A Regata, – uma idealização de Pedrinho e Lucinha, um casal ímpar – depois do Ano Novo e Carnaval, é o maior evento do paraíso praia de Enxu. São dois dias de comemorações com torneio de futebol de praia, campeonato de sinuca, shows musicais, barraca de leilão e outras atrações. A prova no mar, uma competição imperdível, que tem apoio da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte e da Prefeitura Municipal de Pedra Grande, acontece na manhã do domingo, quando falta areia na praia para acomodar tantos torcedores e observadores. Se você, leitor, está pelas paragens maravilhosas do Rio Grande do Norte,  pegue a estrada e venha viver um final de semana sem igual.  Venha, que o povoado de Enxu Queimado lhe receberá de braços abertos!

Cartas de Enxu 18

10 Outubro (187)

Enxu Queimado/RN, 11 de junho de 2017

Sabe meu amigo Davi, sinceramente não sei como iremos seguir nessa caminhada pelas estradas enuviadas desse Brasil sem rumo e sem comando. A coisa está descambando para a esculhambação geral e irrestrita, e ai de nós se tentarmos dar um basta. Mas não se avexe que não vou entupir sua paciência com toda essa mácula que nos absorve, porque hoje é domingo e domingo é dia de alegria.

Meu amigo, por aqui a pesca da lagosta já vai alta e a turma já encheu um bocado de caixas de isopor com esse crustáceo que é um néctar nas receitas mais afamadas, mas digo que prefiro degustá-los da maneira que aprendi quando por aqui cheguei, há mais de 27 anos, torrada na água do mar e, quando avermelha, levando o caldeirão para a calçada, abrindo umas cervas geladas e está feita a mesa. Meu amigo, tem pareia não! Mais do que isso é coisa dos livros de segredos.

Quanto a produção da lagosta em Enxu, vou confessar uma coisa: Já alcancei tempos melhores, onde via pescadores, por essa época, tomando banho de cerveja e tirando o excesso com água mineral. Eram tempos de fartura no mar e nem de longe se ouvia falar nesse tal de defeso, que sou totalmente a favor. Era raro chegar um barco com menos de 200 quilos de lagosta em seus porões e era bonito ver a festa na beira da praia, porém, não tinha um padrão de tamanho e nesse meio vinha muita lagosta miúda, ainda em fase de crescimento, que hoje é combatido pelo Ibama. Os homens dos estudos dizem que a captura indiscriminada foi a causa da inevitável queda na produção, mas vai botar isso na cabeça do pescador! Esse é o nó. Neste 2017, quando chega um barco com 100 quilos de lagosta é um fato a ser comemorado com louvor ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo com essa pindaíba toda, aos poucos, os números vão aumentando e assim a vida vai navegando.

Pezão, como “Mini” o chama tão carinhosamente, pois num é que ela aprendeu a fazer de mesmo a tal da saltenha! Dia desses, Paulinho Correia, irmão de Pedrinho, trouxe para ela dois quilos de peixe ubarana, dizendo que uma vez chegou uma professora por aqui para ensinar as mulheres a fazer hambúrguer e pastel com a carne desse peixe. Como ele soube que Lucia estava fazendo um tipo de salgado, ele lembrou que poderia servir. E num é que serviu! Rapaz, o negócio fica bom que só a peste. O problema é que Paulinho trouxe os quilinhos, dizendo que de onde havia saído aquele tinha bastante e ele seria o responsável para trazer, e agora nada. Lucia fez a propaganda das saltenhas de ubarana, as encomendas chegaram e agora temos que bater meio mundo em busca dos peixes. Ela até já aprendeu a tratar o peixe e a retirar a carne, que tem que ser com muito esmero, para não escapulir nenhuma espinha. A ubarana é um peixe espinhento, mas tem uma carne maravilhosa, que bem preparada fica do cara lamber os beiços e pedir mais.

Meu amigo, estou torcendo para você vir aqui com sua Vera, porque sei que vai adorar esse pedacinho de paraíso. Aqui tem tudo o que você gosta. Tem cerveja gelada, peixe a vontade, umas lagostinhas para variar, sombra, água fresca e muita gente pronta a sentar embaixo de um alpendre para jogar conversa fora. E se quiser navegar de jangada, tem também. Dou por visto você aqui emendando os bigodes numa conversa com essa turma do mar. Vixi!

Sim rapaz, me dê notícias do povo da vela dessa Bahia arretada. Ouvi falar de umas traquinagens praticadas pela turma do mal que tem deixado o grupo de velejadores assustado. Por aqui os pentelhos andaram recolhendo uns celulares, mas parece que deram um freio quando a polícia entrou em ação. Meu amigo, dessa malfeitoria da bandidagem ninguém escapa tão cedo, pois o ensinamento vem das bandas do planalto central. Se quem manda pode fazer, porque quem obedece não pode fazer também, né não? Ainda mais agora que foi ensinado que prova não é bem uma prova e, ou, muito pelo contrário e quem provar pode muito bem ficar desaprovado, basta o juiz querer. Sim, tem mais um negócio que eu não sabia: Que um juiz pode ser atrapalhado na hora de anunciar sua sentença, para ver as fotos da netinha linda. Coisa de avô, né não! Isso é muito lindo! Porém, eu não vou falar muito sobre isso, pois a caboco prometeu cortar a cabeça do falador. Deus é mais!

Pezão, voltando a falar de jangada, você precisa ver as ideias do pescador para fabricar os equipamentos de bordo. Só lembro dos saveiros e seus maravilhosos mestres. As roldanas para subir a vela, os cunhos, o caneco de jogar água para encher os poros do pano, os esticadores, os furos para posicionar o mastro num contravento, través ou empopada. Meu amigo, é tudo de uma simplicidade e rusticidade que me deixa babando. Por que danado temos que inventar tanta complicação em nossos veleiros modernosos? Agora vou pisar nos seus calos: Ainda não vi por aqui nenhuma jangada catamarã. Veja bem, não precisa responder, viu?

Davi Hermida, meu amigo, meu professor das águas baianas e conhecedor como poucos do mar abençoado pelos Orixás, deixo um grande beijo para Dona Veroca e fico por aqui aguardando a visita. Mas venha, viu!

Nelson Mattos Filho

Histórias de um viageiro – III

imageA história que aqui segue é boa e conta um pouco de uma rica e enigmática região do Brasil, em que o sim e o não são apenas detalhes. Ela foi encaminhada pelo velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, depois que o instiguei na Carta de Enxu 13. É o relato de uma viagem entre Bahia, Maranhão e Piauí, e mergulha no tema que serviu durante anos como fonte dos estudos e serviços profissionais do geólogo Sérgio Netto. Para acompanhar do começo e não ficar perdido na historia, basta clicar nos links PARTE 1 e PARTE 2.

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1. Molhe em Luis Correa olhando para oeste, e 2. o assoreamento que o distributário Igaraçu fez em dez anos onde deveria ser o porto a sotavento do molhe.

clip_image002[8]clip_image002[10]clip_image002[12]3. O mangue sendo recoberto pela frente deltaica: o delta do Parnaíba prograda para o lado, para oeste! 4. Olhando pela proa da voadeira de dentro de um canal distributário, se vê a frente deltáica avançando do mar para dentro! 5. e é retrabalhada pelo vento.

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6.Baia de Tutóia e o pro-delta. Veja na linha do horizonte à direita a frente deltáica avançando por fora! 7.Revoada de guarás vermelhos sobre o mangue branco num canal distributário.

Atravessando o rio Parnaíba chegamos na cidade de Parnaíba, 170 mil habitantes, a 2ª do Piaui. Nos instalamos na Pousada dos Ventos por duas noites. No dia 8 de março de 2008 saímos numa Mitsubishi L200 da Clip (clipecoturismo.com.br) para rodar no litoral do Piaui. A propósito, o Aurélio não registra Parnaíba, mas o Caldas Aulete diz que é uma faca comprida, tipo faca de açougueiro.

clip_image001Esta tartaruga comeu um saco plástico pensando que era uma água viva. Pronto, chegamos na civilização.

A leste do rio Parnaíba você já está no mundo civilizado, e apesar de ter gado solto na estrada; da para ir sem grandes problemas no seu próprio carro tanto para o Ceará (Jericoacoara, Fortaleza) pela PI-210, quanto para Pernambuco e Bahia pela BR-343. Em Parnaíba a Clip tem barcos e carros apropriados para lhe mostrar o delta. Ela me havia reservado dois lugares num ônibus leito diurno para Teresina, onde eu pretendia visitar Aurimar, um colega de república no tempo de solteiro em Maceió. Disquei 102 e pedi o telefone. A última vez que eu havia visto Aurimar tinha sido em Florianópolis, em 1980, quando os filhos dele eram crianças de 3 a 4 anos.

Eu havia mandado um e-mail para Aurimar e não tinha resposta. Liguei de Parnaíba e atendeu uma criança de uns 3 a 4 anos; quando eu perguntei por Aurimar, ele chamou Vôo… e a ligação caiu. Tentei mais duas vezes sem sucesso. Daí Mila achou que não tínhamos o que fazer em Teresina.

– Vinte e oito anos, ele nem se lembra mais da sua cara!

– Você está enganada, nós éramos amigos.

Cartas de Enxu 13

10 Outubro (188)

Enxu Queimado/RN, 17 de abril de 2017

Meu caro Pinauna, antes de me avexar em escrevinhar as linhas dessa carta, digo que por aqui está tudo nos conformes, mas ainda muito longe dos dias que passamos sobre as verdades verdadeiras do mar, mas tirando os nove fora e como diria um garotinho que certo dia nos serviu de guia pelas trilhas da serra de Martins, município localizado no alto oeste potiguar, lá na tromba do elefante: “Tá mais bom do que ruim! ”.

E já que falei em Martins e como você é um geólogo bom que só a mulesta e de vez em quando se arvora em fazer rastro pelas estradas do sertão brasileiro, vou dar a dica para na sua próxima viagem, incluir a Princesa Serrana e seus 700 metros de altura em relação ao mar, em seu caderninho. Lá tem frio que só vendo para crer e todos os anos a turma da alta gastronomia monta barracas, fogões e se dana a produzir gostosuras. Dizem que é o maior festival gastronômico de rua do Brasil. Dizem, viu! E tem também umas cavernas boas para o olhar de quem estudou pedras e buracos. Mas vou parar por aqui, pois já fiz propaganda demais da terra alheia e como diz o título, a carta e de Enxu, que fica no beiço da praia e um bocado de légua longe das serras do Oeste.

Pinauna, meu amigo, você pode até ficar matutando sobre o motivo dessa cartinha, mas digo que fique não, pois sempre lembro daquelas prosas boas nas varandas do Aratu Iate Clube, diante de um pôr do sol lindo sem igual, onde de vez quando você chegava com um livro debaixo do braço e perguntava: – Tem esse comandante? Se tiver passe para outro, se não tiver é seu. Rapaz, você me presenteou com cada raridade de fazer inveja a um monte de gente boa. Aquele sobre os Saveiros e aquele outro sobre as embarcações brasileira, foi demais da conta. Pense em dois livros que me renderam um punhado de conhecimento! Sempre que vou à praia, para uma caminhada ou comer um escaldaréu embaixo de uma cabaninha de palha, fico sentado e em silêncio em frente as jangadas e viajo em pensamento pelos oceanos do mundo. Tudo que vejo ao vivo está naqueles livros. As formas, o tabuado, as velas, as ferragens, a entrada do vento, a saída da água, as histórias e os causos contados em sussurros por interlocutores invisíveis. Eita coisa boa que muitos nem imaginam existir! Lembro de uma frase do Teatro Mágico que diz assim: “É simples ser feliz. Difícil é ser tão simples”.

Velejador, as jangadas de Enxu são bonitas, viu! Num tem muitas não, mas o suficiente para encher os olhos de um amante do mar. É gostoso observar suas idas para a lida e a hora da volta do mar. A velinha branca crescendo no horizonte, os cestos carregados, o olhar de cansaço do jangadeiro, a troca de palavras que somente eles entendem, a puxada do barco sobre troncos de coqueiro, a lavagem do convés e a caminhada do homem levando para casa o seu quinhão. Tudo meio mágico, tudo meio rude, tudo muito belo e dotado de muita sabença. Dizem que o povo do mar é encantado. Será verdade comandante? Um dia tentarei descobrir.

E as chuvas, meu amigo? Por aqui está assim meio sei lá e até já li nos jornais que a seca continua firme, forte e tá nem aí para o volume de chuva que São Pedro já mandou. Os homens do tempo dizem que falta pouco menos de 40 dias para as nuvens secarem de vez pelas bandas do Nordeste e se não houver uma reviravolta milagrosa, a chapa vai esquentar. Tomará que São João venha chuvoso e São Pedro assine em baixo, que é para o forró ser animado e tenha milho para a canjica e a pamonha. Por enquanto, chuva para valer é promessa santa e a seca, agouro da turma do quanto pior melhor. Agora me diga como está nas terras do Senhor da Colina Sagrada?

E por falar em chuva: Vi uma matéria num site daqui que uma pesquisadora da UFRN anda escavacando o semiárido potiguar em busca de respostas para a elevada incidência de câncer no pequeno município de Lages Pintada, que apresentou 415,2 casos para uma população de 4.614 habitantes. O estudo aponta para a péssima qualidade da água retirada do açude que abastece parte do lugar, mas também mira nos afloramentos rochosos que cercam a cidade, e na presença de ionizantes naturais que liberam gás radônio, que libera o chumbo para o meio ambiente. A cidade que fica a 135 quilômetros da capital, a mesma distância que separa Enxu Queimado de Natal, convive com a seca, mas é abastecida em parte por uma adutora. Aí você há de perguntar: – E para que beber água do açude? Meu amigo, as coisas das politicagens são como são e não como é para ser. Rapaz, eu nem te disse que em Enxu a água vem de poços artesianos meia boca. Pois é, um dia ia ter água encanada e teve até cano enterrado, mas aí é outra história e nessa prosa cada um que conte um conto.

Pois é eu amigo Sérgio Netto, Pinauna, desculpe lhe avexar com os percalços de minha terra, mas queria enviar notícias e falar um pouquinho do cotidiano da minha vida de praieiro. Mando um abraço para Dona Mila e Lucia manda um beijo para os dois.

Nelson Mattos Filho

Jangada

3 Março (63)

“…Quer sossegada na praia,
Quer nos abismos do mar,
Tu és, ó minha jangada,
A virgem do meu sonhar:
Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?…”

Juvenal Galeno

Dos deuses da culinária

2 Fevereiro (188)

Escaldaréu na linguagem simples e direta do pescador é um pirão do caldo de peixe preparado sobre o piso da jangada e muitas vezes feito com a própria água do mar. Mas não se assuste e nem faça careta, porque nesses tempos modernosos, em que os barcos estão mais equipados, o pirão é feito mesmo na panela, porém, para tudo na vida existe  saudosismo. No último dia 22/02 acordei com desejo de comer um escaldaréu e saí pesquisando com aos amigos pescadores da praia de Enxu Queimado/RN sobre a melhor receita do prato e entre várias indicações vi que, como toda receita, não existe aquela que podemos chamar de original, pois depende dos ingredientes que tiver a bordo e todas me pareceram deliciosas. Lá para as tantas cheguei na casa de Paulino Correia e Lindamar e falei do meu desejo e eles se prontificaram a preparar o prato, mas eu disse que queria que tudo fosse preparado sob as barracas que ficam na beira mar. – E qual o problema? –Vamos preparar lá! Combinamos para o começo da noite e na hora marcada estávamos a postos, com uma garrafa da cachaça alagoana Caraçuipe embaixo do braço. Convidamos alguns amigos, entre eles Seu Neném Correia, Seu Nilo, Dona Tita, Lucinha de Pedrinho, Loura, Dedinha e alguns meninos que estavam zanzando por ali. Lindamar acendeu o fogareiro a carvão, botamos o panelão com peixe no fogo e fomos bater papo até que o cheiro denunciou que a prato estava pronto e fomos tirar a prova dos nove se o bicho estava mesmo bom como merecia. Rapaz, o bicho tava bom não, tava a molesta de saboroso e teve gente que raspou o tacho. De bucho cheio e a cabeça com algumas doses de cachaça a mais, voltamos para casa satisfeitos da vida e com a certeza que o danado do escaldaréu é de se comer lambendo os beiços. Agora vamos a receita: Peixe cortado em postas, incluindo a cabeça e o rabo; cebola, tomate, pimentão, cebolinha, coentro, um pouquinho de colorau, um pouco de óleo e sal a gosto. Ponha tudo na panela e leve a fogo até ferver. Coloque farinha de mandioca em outra panela e vá despejando o caldo quente do peixe em cima, mexendo, até ficar homogêneo. Pronto: Chame os amigos, abra uma cerveja bem gelada, ou uma garrafa de cachaça da boa, mande seu nutricionista procurar coquinho em ovo e coma sem culpa.