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Cartas de Enxu 13

10 Outubro (188)

Enxu Queimado/RN, 17 de abril de 2017

Meu caro Pinauna, antes de me avexar em escrevinhar as linhas dessa carta, digo que por aqui está tudo nos conformes, mas ainda muito longe dos dias que passamos sobre as verdades verdadeiras do mar, mas tirando os nove fora e como diria um garotinho que certo dia nos serviu de guia pelas trilhas da serra de Martins, município localizado no alto oeste potiguar, lá na tromba do elefante: “Tá mais bom do que ruim! ”.

E já que falei em Martins e como você é um geólogo bom que só a mulesta e de vez em quando se arvora em fazer rastro pelas estradas do sertão brasileiro, vou dar a dica para na sua próxima viagem, incluir a Princesa Serrana e seus 700 metros de altura em relação ao mar, em seu caderninho. Lá tem frio que só vendo para crer e todos os anos a turma da alta gastronomia monta barracas, fogões e se dana a produzir gostosuras. Dizem que é o maior festival gastronômico de rua do Brasil. Dizem, viu! E tem também umas cavernas boas para o olhar de quem estudou pedras e buracos. Mas vou parar por aqui, pois já fiz propaganda demais da terra alheia e como diz o título, a carta e de Enxu, que fica no beiço da praia e um bocado de légua longe das serras do Oeste.

Pinauna, meu amigo, você pode até ficar matutando sobre o motivo dessa cartinha, mas digo que fique não, pois sempre lembro daquelas prosas boas nas varandas do Aratu Iate Clube, diante de um pôr do sol lindo sem igual, onde de vez quando você chegava com um livro debaixo do braço e perguntava: – Tem esse comandante? Se tiver passe para outro, se não tiver é seu. Rapaz, você me presenteou com cada raridade de fazer inveja a um monte de gente boa. Aquele sobre os Saveiros e aquele outro sobre as embarcações brasileira, foi demais da conta. Pense em dois livros que me renderam um punhado de conhecimento! Sempre que vou à praia, para uma caminhada ou comer um escaldaréu embaixo de uma cabaninha de palha, fico sentado e em silêncio em frente as jangadas e viajo em pensamento pelos oceanos do mundo. Tudo que vejo ao vivo está naqueles livros. As formas, o tabuado, as velas, as ferragens, a entrada do vento, a saída da água, as histórias e os causos contados em sussurros por interlocutores invisíveis. Eita coisa boa que muitos nem imaginam existir! Lembro de uma frase do Teatro Mágico que diz assim: “É simples ser feliz. Difícil é ser tão simples”.

Velejador, as jangadas de Enxu são bonitas, viu! Num tem muitas não, mas o suficiente para encher os olhos de um amante do mar. É gostoso observar suas idas para a lida e a hora da volta do mar. A velinha branca crescendo no horizonte, os cestos carregados, o olhar de cansaço do jangadeiro, a troca de palavras que somente eles entendem, a puxada do barco sobre troncos de coqueiro, a lavagem do convés e a caminhada do homem levando para casa o seu quinhão. Tudo meio mágico, tudo meio rude, tudo muito belo e dotado de muita sabença. Dizem que o povo do mar é encantado. Será verdade comandante? Um dia tentarei descobrir.

E as chuvas, meu amigo? Por aqui está assim meio sei lá e até já li nos jornais que a seca continua firme, forte e tá nem aí para o volume de chuva que São Pedro já mandou. Os homens do tempo dizem que falta pouco menos de 40 dias para as nuvens secarem de vez pelas bandas do Nordeste e se não houver uma reviravolta milagrosa, a chapa vai esquentar. Tomará que São João venha chuvoso e São Pedro assine em baixo, que é para o forró ser animado e tenha milho para a canjica e a pamonha. Por enquanto, chuva para valer é promessa santa e a seca, agouro da turma do quanto pior melhor. Agora me diga como está nas terras do Senhor da Colina Sagrada?

E por falar em chuva: Vi uma matéria num site daqui que uma pesquisadora da UFRN anda escavacando o semiárido potiguar em busca de respostas para a elevada incidência de câncer no pequeno município de Lages Pintada, que apresentou 415,2 casos para uma população de 4.614 habitantes. O estudo aponta para a péssima qualidade da água retirada do açude que abastece parte do lugar, mas também mira nos afloramentos rochosos que cercam a cidade, e na presença de ionizantes naturais que liberam gás radônio, que libera o chumbo para o meio ambiente. A cidade que fica a 135 quilômetros da capital, a mesma distância que separa Enxu Queimado de Natal, convive com a seca, mas é abastecida em parte por uma adutora. Aí você há de perguntar: – E para que beber água do açude? Meu amigo, as coisas das politicagens são como são e não como é para ser. Rapaz, eu nem te disse que em Enxu a água vem de poços artesianos meia boca. Pois é, um dia ia ter água encanada e teve até cano enterrado, mas aí é outra história e nessa prosa cada um que conte um conto.

Pois é eu amigo Sérgio Netto, Pinauna, desculpe lhe avexar com os percalços de minha terra, mas queria enviar notícias e falar um pouquinho do cotidiano da minha vida de praieiro. Mando um abraço para Dona Mila e Lucia manda um beijo para os dois.

Nelson Mattos Filho

Jangada

3 Março (63)

“…Quer sossegada na praia,
Quer nos abismos do mar,
Tu és, ó minha jangada,
A virgem do meu sonhar:
Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?…”

Juvenal Galeno

Dos deuses da culinária

2 Fevereiro (188)

Escaldaréu na linguagem simples e direta do pescador é um pirão do caldo de peixe preparado sobre o piso da jangada e muitas vezes feito com a própria água do mar. Mas não se assuste e nem faça careta, porque nesses tempos modernosos, em que os barcos estão mais equipados, o pirão é feito mesmo na panela, porém, para tudo na vida existe  saudosismo. No último dia 22/02 acordei com desejo de comer um escaldaréu e saí pesquisando com aos amigos pescadores da praia de Enxu Queimado/RN sobre a melhor receita do prato e entre várias indicações vi que, como toda receita, não existe aquela que podemos chamar de original, pois depende dos ingredientes que tiver a bordo e todas me pareceram deliciosas. Lá para as tantas cheguei na casa de Paulino Correia e Lindamar e falei do meu desejo e eles se prontificaram a preparar o prato, mas eu disse que queria que tudo fosse preparado sob as barracas que ficam na beira mar. – E qual o problema? –Vamos preparar lá! Combinamos para o começo da noite e na hora marcada estávamos a postos, com uma garrafa da cachaça alagoana Caraçuipe embaixo do braço. Convidamos alguns amigos, entre eles Seu Neném Correia, Seu Nilo, Dona Tita, Lucinha de Pedrinho, Loura, Dedinha e alguns meninos que estavam zanzando por ali. Lindamar acendeu o fogareiro a carvão, botamos o panelão com peixe no fogo e fomos bater papo até que o cheiro denunciou que a prato estava pronto e fomos tirar a prova dos nove se o bicho estava mesmo bom como merecia. Rapaz, o bicho tava bom não, tava a molesta de saboroso e teve gente que raspou o tacho. De bucho cheio e a cabeça com algumas doses de cachaça a mais, voltamos para casa satisfeitos da vida e com a certeza que o danado do escaldaréu é de se comer lambendo os beiços. Agora vamos a receita: Peixe cortado em postas, incluindo a cabeça e o rabo; cebola, tomate, pimentão, cebolinha, coentro, um pouquinho de colorau, um pouco de óleo e sal a gosto. Ponha tudo na panela e leve a fogo até ferver. Coloque farinha de mandioca em outra panela e vá despejando o caldo quente do peixe em cima, mexendo, até ficar homogêneo. Pronto: Chame os amigos, abra uma cerveja bem gelada, ou uma garrafa de cachaça da boa, mande seu nutricionista procurar coquinho em ovo e coma sem culpa.    

Uma foto por dia

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Catraia

E apois!

Outubro (166)

Tem certas palavras que são verdadeiros tabus e ai daquele que se meter a besta para pronunciá-las diante de um grupo em que estejam presentes alguns membros mais exaltados. Se você acha que estou brincado, experimente chegar em meio a uma reunião de motociclistas e chame os participantes de motoqueiros. Rapaz, no mínimo sua mãe receberá um tratamento “elogioso”, no mínimo. Quer mais: Chame um velejador, mesmo aquele que só navega com o motor no último giro de potência, de lancheiro. Seu menino, você vai receber tantos impropérios que nem imagina. Pois bem, na postagem anterior coloquei a foto do convés de uma jangada em que aparece uma “corda” sobre ele, e inseri a frase, Corda ou cabo? Eis a questão, para instigar os leitores. Os navegantes, principalmente os amadores, se alvoroçaram em cravar o xis na palavra cabo, porque, segundo se aprende em todos os manuais náuticos e nas rodas de bate papo, corda a bordo apenas para quem deseja se enforcar ou para fazer relógio funcionar. Aí estávamos na beira mar da praia de Enxu Queimado/RN, na companhia dos amigos Fernando Luiz e Marta Machado, esperando a largada de uma pequena regata de paquetes, quando Marta apontou para um cabo e perguntou ao mestre da pequena jangadinha qual a função daquele cabo no barco. Ele olhou para ela e respondeu: – Isso não é cabo, é uma corda! Marta sorriu, agradeceu, se virou para mim e Fernando, e disparou: – Quero ver quem será o engraçadinho que vai me corrigir a partir de hoje. Se esse homem que praticamente nasceu no mar, vive no mar, tira o sustento dele e da família do mar, chama de corda é porque é corda e ponto final. Fernando deu um gole na cerveja, sorriu e completou: – É mesmo!!!!

E aí?

Outubro (182)

Corda ou cabo? Eis a questão.

A jangada, o coqueiral e o mar

20160906_115028Isso é Brasil bem brasileiro. País de sol, mar, dunas e praias bonitas. Praias de um nordeste bem Brasil. Isso é Enxu Queimado, litoral do Rio Grande do Norte.