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Pronto, falei

janeiro a junho (495)

Tem coisas que por mais que procuremos saber a verdade, mais a verdade se afasta, porque as explicações que surgem não passam de achismos ou mesmo mentiras deslavadas, mesmo aquelas que saem da boca de “grandes” figurões ou técnicos afamados. Somos uma nação viciada na pouca verdade, na falta de ética, na mentira, na canalhice e o pior, baixamos a guarda, a vista e nos ajoelhamos diante de qualquer canalha que por ventura faça um ajuntamento dos nossos vícios e os abone em praça pública. –E a Lei? – Que Lei? – Não temos Lei, nem clara, nem obscura. O que temos é uma Constituição que de tanto ser rasgada, pisoteada, queimada, achincalhada, já não conseguimos juntar os pedaços para saber decifrar, a contento, os artigos. Vivemos num eterno mar de lama! Mar de lama? Vixi, agora que tomei ciência do tema que queria abordar nesse textinho malcriado. Queria falar do óleo. – Do óleo? – Sim, do óleo sem dono, sem origem, sem defensor, sem acusador e que vai se escafeder sem ninguém mais saber e ponto.

Pois bem, desculpe a maledicência do parágrafo aí de cima, mas tem coisas que vão se acumulando em nosso juízo e quando damos por fé, nos danamos a falar coisas sem coisas, temperadas com uma danação de impropérios que até Nosso Senhor sai de perto para não sair lambuzado. Eita, peraí que lá vou eu saindo do rumo novamente, mas agora vai!

Pois bem de novo, quando começaram a surgir as primeiras manchas de óleo pelas praias do Nordeste, um amigo sugeriu que eu escrevesse algo sobre o assunto, mas sinceramente não me vi com autoridade e nem bagagem para falar o que fosse, porque até ali ninguém sabia nada, como não sabem até os dias de hoje. Na verdade, o que se tem até o momento é um festival de desinformação e declarações estapafúrdias.

Assim como o verão da lata, dos contêineres, dos maços de dinheiro nas praias do Rio, que passaram como passam as chuvas, agora teremos o verão do óleo, aliás, tudo indica que a sangria irá estancar até o Sol fazer valer o colorido e a cerveja gelada tomar conta das praias, pois pelo preço que anda o petróleo por aí, não tem quem aguente bancar a sujeira por muito tempo, a não ser que seja para apertar o nó para algum sabido com cara de anjo poder desatar depois.

Aliás, ao meu ver, o óleo serviu para duas coisas: Uma para provar que somos bestas mesmos e a outra para provar aos crentes, descrentes, doutores, doutorandos e pitaqueiros em geral, que as correntes marinhas existem e nem tudo que se sabe das errantes navegações dos portugas é o que se sabe. Aliás, não sabemos nada e quando alguém me pergunta, apenas porque naveguei durante onze anos o litoral nordestino, para lá e para cá até perder a conta, se o Brasil foi descoberto pelo Rio Grande do Norte, respondo: Não boto fé nem aqui e nem nas praias do povo dos orixás, mas quem sabe no espaço que fica entre os canaviais, que nem existiam, das Alagoas e as florestas dos babaçus? – E os pataxós? – Pois é, né? – E o que danado tem a ver alho com bugalho, ou melhor óleo? – Vamos lá, as primeiras manchas surgiram nas praias do tal Consórcio Nordeste, entre Sergipe e Alagoas, subiu subindo labuzando quase tudo, ou melhor, onde as correntes e os alísios mandam e desmandam, somente quando pegaram uma refregazinha do lestão, fizeram o retorno é se bandearam para as bandas do Sul e aí já sabe, né. Chegou nos terreiros do Axé, o povo de lá fala e canta que só vendo e pronto, o sambão atravessou, o acarajé quis azedar, o caruru desandou e o mundo se danou a saber, mas nem Macron, nem Chico, nem Greta, nem ninguém quis melar os pezinhos de piche.

Nossa briosa Marinha de Guerra guarneceu os navios e saíram em busca de dar tiro mar afora, mas não encontraram foi ninguém, a não ser, ouviram falar que uns gregos haviam passeado pelo horizonte e por lá despejaram algo, mas nem algo mais se sabe, pois os cabras não amostraram o calcanhar.

Até os divinos supremos se apropriaram do óleo que ninguém sabe, todos viram, mas ninguém dá conta, meteu o que pode num caldeirão e sem mais por isso e pra que tudo, encobriram a vergonha, danaram-se a jogar merda no ventilador, liberou geral e quem quiser que vá reclamar ao bispo, que por sinal, abençoou a bagaceira e até gostou da catinga. – E os políticos? – Homem, tenha fé em Jesus! – O do Flamengo? – Não, rapaz, se bem que o cabra é bom, mas é no de Nazaré!

Pronto, meu amigo, falei do óleo, mas sinceramente, era melhor ter ficado calado! Mas antes do ponto final, vou lhe dizer que até esse dia 26 de novembro de 2019, a melequeira não deu as caras nessa Enxu mais bela, mas já chegou nas barbas de São Sebastião. – Prumode? – Prumode as correntes e os alísios, viu! 

Ah, a foto aí em cima? Sei lá, achei bonita!

Nelson Mattos Filho

Morre o historiador Lenine Pinto

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O Rio Grande do Norte perdeu na madrugada deste domingo, 23, o historiador Lenine Pinto, 89 anos, vítima de complicações causadas por pneumonia. Lenine, membra da Academia Norte-rio-grandense de Letras, escritor de valiosas obras da historia da Segunda Guerra e das grandes navegações, foi o mais ferrenho defensor da tese de que o Brasil foi descoberto pelo Rio Grande do Norte, mais precisamente na Praia do Marco, localizada na divisa dos municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, onde em 1501 os portugueses, André Gonçalves e Américo Vespúcio, chantaram um marco de posse, conhecido como Marco de Touros. Siga em paz, grande historiador, e torço para que o brilho dos seus estudos continue a iluminar novos horizontes.   

Cartas de Enxu 37

8 Agosto (76)

Enxu Queimado/RN, 25 de abril de 2019

Caro Odilon, as coisas por essa Enxu mais bela estão indo daquele jeito que você viu quando esteve por aqui em 2018, na paz e caminhando em passos lentos, mas caminhando. É uma pena que nosso amigo Chaguinhas ainda não pisou os pés por essas areias de dunas brancas, mas tem nada não, porque um dia ele chega e quando chegar, você vai escutar o barulho daí de São Paulo, porque o coronel tem pareia não. No dia que ele vier, vou pedir para Dona Voreta e os filhos, que moram na rua por trás de minha casa, para colocarem protetores de ouvido. Pense num caboco barulhento!

Brodinho, lembra aquele papo-cabeça que você teve com Lindemberg, filho de Pedrinho, sobre Beethoven, na sombra da varada da nossa cabaninha? Caso você não lembre, vou avivar sua memória: Lindemberg, 4 anos de idade, disse que tinha um cachorro e ele se chamava Beethoven. Você perguntou se ele sabia quem foi Beethoven e ele reafirmou que era o cachorro. Foi aí que você descambou a falar sobre o famoso compositor alemão, um dos principais pilares da música ocidental e autor de nove sinfonias, sendo a Nona a mais famosa, que o consagrou no mundo e mais uma lista de qualidades do gênio alemão, que inclusive perdeu a audição na fase adulta, mas devido a sua fenomenal memória auditiva, conseguia criar as composições em sua mente e executá-las. Berguinho, escutou sua preleção, com aquele ar de quem estava entendendo tudo, e quando você terminou, ele disparou: – Já sei, Beethoven é um cachorro que canta! Naquele dia demos boas gargalhadas e dobramos a dose de cervejas geladas. Pois bem, o “cachorro que canta”, dias depois que você foi embora, saiu para um passeio na mata, foi mordido por uma cobra e bateu a caçuleta.

Eh, amigo, estava aqui pensado em como os interesses mudaram no mundo desde o final do século XX. Até lá éramos um povo entusiasmado com a história e tirávamos lições que norteavam a jornada a ser seguida, mas agora tudo é tão efêmero que dificilmente as preocupações, os interesses, as alegrias, as tristezas duram mais do que longas doze horas. Claro que não estou falando das ideias e fantasias de uma criança e seu “cachorro que canta”, mas sim da deformação que atinge a mente dos adultos. Perdemos o senso e tateamos desgovernados em meio a um oceano tempestuoso, onde a tempestade é criada por nós mesmos. A história que há muito vinha sendo jogada as traças, agora está recebendo toneladas de pás de cal. A história vive apenas de furtivos e festivo interesses de alguns espertalhões.

Brodinho, dia 22 de abril de 2019 marcou a data do 513º aniversário do descobrimento das terras de pindorama, mas a data não mereceu muitas deferências, a não ser, pequenas notinhas em cantinhos de páginas de jornais e míseros segundos nos noticiários televisivos. Se houve festejos, o que deve ter havido, nas paragens da baiana “Costa do Descobrimento”, não dou notícias, mas pelo meu Rio Grande do Norte e principalmente na esquecida e abandonada Praia do Marco, parede e meia com Enxu, lugar que alguns historiadores apostam fichas como sendo o local exato em que Cabral aportou com sua esquadra, não teve nem o pipoco de um traque sequer. E sabe o que é mais engraçado: Os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, divididos pela réplica amarela do Marco de Touros e sua igrejinha povoada de santos e fé, travam verdadeiras batalhas de bastidores para saber qual dos dois merecem estampar em seus pórticos o brasão do reino de Portugal. E sabe o que mais: As escolas da região ainda se avexam a ensinar uma história errônea, até agora sem muitos embasamentos, como sendo a mais pura verdade.

Odilon, alguns amigos que me identificam como navegador, sem saber, eles, que sou apenas um aprendiz de marinheiro, as vezes perguntam o que acho da peleja do Descobrimento, respondo que não aposto uma cerveja gelada nesse assunto, mas até comeria uma posta de peixe frito, para acompanhar a cerveja, em alguma mesa de bate papo onde a peleja fosse posta, pois no mar não tem estrada lógica e Netuno é mestre em desmontar verdades. Porém, tenho apenas uma ressalva nesse moído: Avistar prontamente, do mar, o Monte Pascoal é preciso que o caboco esteja há muitos dias de castigo na “casa do caralho”, pois se não for assim é um grande exercício de paciência. Aí você pergunta: – E o Pico do Cabugi? – Pois é, ele está bem visto e altaneiro a quem se aproxima da costa Norte potiguar, entre Guamaré e Touros, a partir das 20 milhas.

Pois é Odilon Gibertone Leão, entre cachorros que cantam e as estripulias além-mar de Seu Cabral, estou dando notícias daqui e convidando você e Dona Estela para virem armar novamente a rede sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia. Venha, homem de Deus, e venha logo, pois as chuvas caídas por aqui estão dotando a região com uma beleza ímpar. Venha ver a chuva e aproveitar para molhar o corpo com o sal refrescante do mar de Enxu.

Nelson Mattos Filho

Escritos de um dia de praia

1 Janeiro (7)

Caminhando sobre as areias da praia do Marco, litoral Norte do RN, que muitos jogam fichas e sou até tentado a apostar, que foi lá que os patrícios do Rei acharam as terras de além-mar, reflito o quanto somos indiferentes aos desmandos dos nossos governantes, de outrora, de hoje e pelo visto, de centenas de anos mais para frente. Gostamos mesmo é de um ruidoso “mimimi”, mas na hora “do pega para capar”, é um tal de deixe quieto, de coisa e tal, que sei não, viu!

O Marco, que existe no local, é uma réplica malcuidada, lambuzada na cor amarelo envergonhado e indicada por uma placa há muito precisando ser substituída. O local onde está chantado a réplica é dentro de um velho cemitério e em frente a capelinha, pintada com o mesmo amarelo envergonhado. Ora, em outros tempos os cemitérios eram locais sagrados e respeitados, onde imperava um silêncio sagrado, reflexivo e ensurdecedor. Hoje os cemitérios viraram espaços onde se praticam todo tipo de profanação e o velho espaço sagrado do Marco não foge à regra desdita. Sabe onde foram colocados os fogos para a virada do ano? Em cima de uma tumba! Acredita não? Vá conferir, porque as pistolas ainda estão lá.

A praia é linda e a natureza ainda tenta se manter paradisíaca e selvagem, mas está cansando da luta desigual entre ela e nós, os “sábios”. Toda ação do homem naquele local, denota desleixo e abandono. Nada ali é lógico e nem prestigia um passado que dizem histórico. Quem um dia tentou dar um rumo ao local, e sou testemunha da batalha por ela enfrentada, teve que sair devido a força da insegurança pública. E olhe que pagamos caro pela segurança, porém, ela praticamente inexiste. – Será que não seria o caso de acionar os direitos de defesa do consumidor? Dona Tânia, sei que a senhora anda meio angustiada em ver tanta luta ser desdenhada por aqueles que tinham o dever de juntar fileiras ao seu lado, mas sei que a senhora ainda respira e alimenta os sonhos de ver “o Marco” figurar no olimpo das maravilhas.

Tenho carinho e paixão pela praia do Marco, porque aquele cantinho de litoral me traz boas e felizes recordações, porém, ultimamente, sempre que tenho oportunidade de ir até lá, volto com o coração entristecido, em ver um lugar tão importante para a história brasileira, tão jogado ao léu.

Pulula nas mídias sociais uma mensagem do jornalista Alexandre Garcia, dando como certo que o descobrimento do Brasil ocorreu no Rio Grande do Norte, e completa dizendo que nenhum governante potiguar tem ou teve interesse em bisbilhotar e revirar a história contada nos registros oficiais. Ele diz até que o ex-governador Garibaldi Alves teve medo de trocar pernadas com o baiano apoquentado, Antônio Carlos Magalhães, cabra que gostava de briga. E assim vai a história do descobrimento, com pontos, linhas e traços que jamais se encontram.

Dia desses soube que o Governo do RN e as prefeituras dos dois municípios, que dividem o pedaço em que foi chantado o Marco, resolveram pegar carona nas palavras do jornalista global e pretendem fazer uma grande festa no dia 22 de abril 2018, com direito a palanque, discursos inflamados, shows musicais e apresentação teatral. Uma verdadeira encenação politiqueira. Diz o ditado que o povo gosta de “pão e circo”. Então, assim será! Que tristeza para um Estado praticamente falido e para dois municípios que tentam se equilibrar numa corda bamba financeira. Precisa disso não, autoridades, o que precisa é ação concreta e objetiva. Oba-oba e falácia são totalmente descartáveis e feio, viu!

Como santo de casa não faz milagre, há anos Dona Tânia Maria da Fonseca Teixeira, uma das maiores entusiastas da volta do Marco de Posse, original, ao local onde foi chantado pelos portugueses, em 1501, gasta saliva, tempo e paciência batendo nessa tecla, mas infelizmente só recebeu promessas e apertos de mão. O historiador Lenine Pinto é outro que conta uma história bem diferente da que existe no terreiro da baiana Porto Seguro. Vários estudos coordenados pela UFRN seguiram rumo pelo tema. O historiador maior do RN, Luís da Câmara Cascudo excursionou pela praia. Meia dezena de jornalista potiguares editaram matérias e até este blog está recheado com postagens sobre essa história tão mal contada.

Não sou partidária para que se faça birra e se bata o pé, para que se mude o rumo do descobrimento, ou achamento, sei lá o que foi ocorreu, e nem apostos minhas fichas que tudo começou na praia potiguar, mas advogo que aprofundemos no tema para que erros sejam corrigidos.

Nesse assunto o que não cabe, e nunca caberá, é a desfaçatez do oba-oba.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 19

1 Janeiro (110)

Enxu Queimado/RN, 22 de junho de 2017

Sabe meu amigo Monteiro, fico aqui nessa minha palhocinha entorpecido pela beleza dos coqueirais e com o vai e vem das jangadas e me pego a pensar nas civilizações desse planetinha azul, que a cada dia caminham mais trôpegas. Rapaz, o que danado estão querendo fazer com esse mundo? Os donos do mundo estão virados num traque, mais parece coisa feita de tinhoso. Ei, Monteiro, ainda bem que na sua Barrinha dos Marcos e nessa Enxu mais bela, os passos são outros, né não?

Powpow, hoje decidi que vou virar a página das notícias desalentadoras, mas já sei que será difícil escolher uma página que me dê guarida, pois estão quase todas dominadas de papagaiadas. Até os domínios do gringo sabido que só a peste, Mark Zuckerberg, degringolaram de vez e todo participante se acha o rei da cocada preta em tudo que é assunto. Gosto de uma charge, assinada por Leandro Franco, sobre uma entrevista para agência de emprego: “- Profissão? – Falador de merda no Facebook”. Pense numa profissão concorrida!

Meu amigo, como vão as noites sobre a Barrinha? Tem visto muitas estrelas? E as vaquinhas leiteiras? Ei, diga aí se o bastardo Duarte Coelho adentrasse hoje o Canal de Santa Cruz, para tentar a sorte novamente, como fez em 1535? Monteiro, acho que o portuga do Porto daria meia volta mais ligeiro do que depressa e nem bala pegava. Naquele tempo os índios eram bestas e trocavam terras, e outras coisas, por qualquer apito. Vai se meter a besta com os caciques de hoje! Os caras dão nó em pingo d’água e ainda querem um troquinho para esconder as pontas.

Monteiro, você sabia que tem umas histórias que contam que foi nas terras que cercam Enxu Queimado que esse Brasil foi descoberto? Pois é! O historiador Lenine Pinto bate o prego, vira a ponta e aposta todas as fichas que as Caravelas dos descobridores aportaram ao largo da Praia do Marco/RN e foi lá que uns marujos, que quiseram fazer maruagem com as indiazinhas, desembarcaram e foram literalmente comidos pela tribo inteira. Diz o historiador que o reboliço foi grande, sobrou sopapo para tudo quanto é lado e no final o comandante da flotilha, André Gonçalves, e o cosmógrafo Américo Vespúcio, chantaram um marco cravado com a Ordem de Cristo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas. Esse furdunço aconteceu em 1501 e a data de 07 de agosto foi escolhida para ser comemorado o aniversário de fundação do Rio Grande do Norte. Lucia, ao corrigir essa carta – pois ela lê tudo, inclusive olha aquelas imagens educativas que postam em nosso grupo “secreto” de WhatsApp -, vai dizer que já falei sobre isso várias vezes, mas o que me custa repetir, né não?

O que restou do antigo Marco, que passou a ser conhecido como Marco de Touros, hoje ornamenta um dos velhos salões do abandonado sem causa Forte dos Reis Magos, um ringue em que agora se digladiam egos e pavonices dos “homens de bem”. Sob as areias da Praia do Marco, restou uma réplica malcuidada e fragmentos de um conto mal contado.

Elder, mudando de assunto, hoje vi uma matéria falando que o Sol pode ser uma estrela gêmea do mal. Você já viu uma coisa dessa? Meu amigo, esses cientistas estão cada dia mais amalucados para mostrar serviço. Dizem que uma tal de Nêmesis, deusa grega da vingança, é a irmã gêmea do Astro-rei e que ela anda perdida pelo cosmo em um lugar desconhecido. Os cientistas acreditam que é por causa das maldades de Nêmesis que recebemos tantos bombardeios de asteroides, inclusive o que varreu da face da Terra os dinossauros. Ora, se não fosse ela com certeza seria nós a acabar com os lagartos gigantes. Vou esperar o que vai dizer o meu amigo José Dias do Nascimento Junior, pois o cabra é bom nos assuntos estelares.

Li também que existe uma centena de planetas igualzinho ao nosso e que uns 10 poderiam ter a mesma condição de vida oferecida pela Terra. Taí uma coisa que eu queria ver! Homem, você já pensou dez planetas com as mesmas manias, os mesmos cacoetes, as mesmas marmotas. Tem para onde escapar não, meu irmão, estamos ferrados! É melhor ficar por aqui mesmo, pois já estamos acostumados, a cerveja é gelada, a cachaça é boa e as amizades são arretadas.

Elder Monteiro, powpow, o homem do Baca, estamos com saudades, meu amigo. Saudade dos momentos de pura descontração. Saudade das boas risadas ao ouvir os fuxicos travados entre você e Lucia. Saudade de jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Venha aqui meu amigo, pois essa Enxu é boa que só a Barrinha. Deixo um beijão para Dulcinha, a sereia pernambucana que roubou seu coração.

Um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Todo dia é dia de Índio

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A imagem do recorte da Revista da Semana, datado de 1956, é uma relíquia e conta uma pontinha da viagem de Américo Vespúcio, como encarregado de  relatar tudo o que viu, ouviu e sentiu a bordo da frota comandada pelo navegador André Gonçalves, em 1501, pelas novas terras descobertas por Cabral. A tragédia – para os colonizadores invasores –, se deu em um jogo de sedução – pois é, jogo de sedução –que as índias fizeram com os homens que vinham do mar. A matéria do velho semanário brasileiro conta que o quiprocó se deu no Cabo de São Roque/RN, mas já li o mesmo fuzuê como tendo acontecido na Praia do Marco, também litoral potiguar, onde foi chantado o primeiro marco de posse pelos marujos de André Gonçalves. Pelo menos é assim que conta o historiador Lenine Pinto. Ali ou acolá, o que importa é que as indiazinhas mandaram ver nos trejeitos libidinosos e atraíram a marujada, que há tempos não saboreavam da fruta. Os dois que primeiro chegaram a praia, foram comidos, literalmente, depois de assados numa fogueira. O outro, que foi a procura dos primeiros, e louco de desejo, teve o mesmo fim ali mesmo na praia, e enquanto saboreavam nacos de carnes do infeliz, as índias mostravam os pedaços para os que ficaram embarcados e faziam gestos que, se desembarcassem, teriam o mesmo fim. Vespúcio anotou tudinho em seu caderno e a flotilha seguiu em frente em busca de índios mais amigos. Hoje índio faz isso não, e se fizer, a borracha come no costado, pois desde os tempos do descobrimento que aprendemos a não dar valor, nem vez, ao povo da floreta. Quarta-feira, 19 de abril, foi comemorado o Dia do Índio e com certeza esse almoço antropófago não foi comentado em nenhuma rodada filosófica, pois os filósofos tupiniquins estão ocupados demais em escrever teses mirabolantes para defender certos caciques. Uma nota para encerrar: A Revista da Semana circulou no Brasil entre 1900 a 1962 e foi fundada por Álvaro de Teffé. Isso mesmo, filho do Barão. Fonte da imagem: Eduardo Alexandre Garcia.                 

Que tal uma praia?

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Praia do Marco/RN. Um paraíso brasileiro, descoberto em 1501 e ainda hoje, praticamente, intocado