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Cartas de Enxu 37

8 Agosto (76)

Enxu Queimado/RN, 25 de abril de 2019

Caro Odilon, as coisas por essa Enxu mais bela estão indo daquele jeito que você viu quando esteve por aqui em 2018, na paz e caminhando em passos lentos, mas caminhando. É uma pena que nosso amigo Chaguinhas ainda não pisou os pés por essas areias de dunas brancas, mas tem nada não, porque um dia ele chega e quando chegar, você vai escutar o barulho daí de São Paulo, porque o coronel tem pareia não. No dia que ele vier, vou pedir para Dona Voreta e os filhos, que moram na rua por trás de minha casa, para colocarem protetores de ouvido. Pense num caboco barulhento!

Brodinho, lembra aquele papo-cabeça que você teve com Lindemberg, filho de Pedrinho, sobre Beethoven, na sombra da varada da nossa cabaninha? Caso você não lembre, vou avivar sua memória: Lindemberg, 4 anos de idade, disse que tinha um cachorro e ele se chamava Beethoven. Você perguntou se ele sabia quem foi Beethoven e ele reafirmou que era o cachorro. Foi aí que você descambou a falar sobre o famoso compositor alemão, um dos principais pilares da música ocidental e autor de nove sinfonias, sendo a Nona a mais famosa, que o consagrou no mundo e mais uma lista de qualidades do gênio alemão, que inclusive perdeu a audição na fase adulta, mas devido a sua fenomenal memória auditiva, conseguia criar as composições em sua mente e executá-las. Berguinho, escutou sua preleção, com aquele ar de quem estava entendendo tudo, e quando você terminou, ele disparou: – Já sei, Beethoven é um cachorro que canta! Naquele dia demos boas gargalhadas e dobramos a dose de cervejas geladas. Pois bem, o “cachorro que canta”, dias depois que você foi embora, saiu para um passeio na mata, foi mordido por uma cobra e bateu a caçuleta.

Eh, amigo, estava aqui pensado em como os interesses mudaram no mundo desde o final do século XX. Até lá éramos um povo entusiasmado com a história e tirávamos lições que norteavam a jornada a ser seguida, mas agora tudo é tão efêmero que dificilmente as preocupações, os interesses, as alegrias, as tristezas duram mais do que longas doze horas. Claro que não estou falando das ideias e fantasias de uma criança e seu “cachorro que canta”, mas sim da deformação que atinge a mente dos adultos. Perdemos o senso e tateamos desgovernados em meio a um oceano tempestuoso, onde a tempestade é criada por nós mesmos. A história que há muito vinha sendo jogada as traças, agora está recebendo toneladas de pás de cal. A história vive apenas de furtivos e festivo interesses de alguns espertalhões.

Brodinho, dia 22 de abril de 2019 marcou a data do 513º aniversário do descobrimento das terras de pindorama, mas a data não mereceu muitas deferências, a não ser, pequenas notinhas em cantinhos de páginas de jornais e míseros segundos nos noticiários televisivos. Se houve festejos, o que deve ter havido, nas paragens da baiana “Costa do Descobrimento”, não dou notícias, mas pelo meu Rio Grande do Norte e principalmente na esquecida e abandonada Praia do Marco, parede e meia com Enxu, lugar que alguns historiadores apostam fichas como sendo o local exato em que Cabral aportou com sua esquadra, não teve nem o pipoco de um traque sequer. E sabe o que é mais engraçado: Os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, divididos pela réplica amarela do Marco de Touros e sua igrejinha povoada de santos e fé, travam verdadeiras batalhas de bastidores para saber qual dos dois merecem estampar em seus pórticos o brasão do reino de Portugal. E sabe o que mais: As escolas da região ainda se avexam a ensinar uma história errônea, até agora sem muitos embasamentos, como sendo a mais pura verdade.

Odilon, alguns amigos que me identificam como navegador, sem saber, eles, que sou apenas um aprendiz de marinheiro, as vezes perguntam o que acho da peleja do Descobrimento, respondo que não aposto uma cerveja gelada nesse assunto, mas até comeria uma posta de peixe frito, para acompanhar a cerveja, em alguma mesa de bate papo onde a peleja fosse posta, pois no mar não tem estrada lógica e Netuno é mestre em desmontar verdades. Porém, tenho apenas uma ressalva nesse moído: Avistar prontamente, do mar, o Monte Pascoal é preciso que o caboco esteja há muitos dias de castigo na “casa do caralho”, pois se não for assim é um grande exercício de paciência. Aí você pergunta: – E o Pico do Cabugi? – Pois é, ele está bem visto e altaneiro a quem se aproxima da costa Norte potiguar, entre Guamaré e Touros, a partir das 20 milhas.

Pois é Odilon Gibertone Leão, entre cachorros que cantam e as estripulias além-mar de Seu Cabral, estou dando notícias daqui e convidando você e Dona Estela para virem armar novamente a rede sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia. Venha, homem de Deus, e venha logo, pois as chuvas caídas por aqui estão dotando a região com uma beleza ímpar. Venha ver a chuva e aproveitar para molhar o corpo com o sal refrescante do mar de Enxu.

Nelson Mattos Filho

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Escritos de um dia de praia

1 Janeiro (7)

Caminhando sobre as areias da praia do Marco, litoral Norte do RN, que muitos jogam fichas e sou até tentado a apostar, que foi lá que os patrícios do Rei acharam as terras de além-mar, reflito o quanto somos indiferentes aos desmandos dos nossos governantes, de outrora, de hoje e pelo visto, de centenas de anos mais para frente. Gostamos mesmo é de um ruidoso “mimimi”, mas na hora “do pega para capar”, é um tal de deixe quieto, de coisa e tal, que sei não, viu!

O Marco, que existe no local, é uma réplica malcuidada, lambuzada na cor amarelo envergonhado e indicada por uma placa há muito precisando ser substituída. O local onde está chantado a réplica é dentro de um velho cemitério e em frente a capelinha, pintada com o mesmo amarelo envergonhado. Ora, em outros tempos os cemitérios eram locais sagrados e respeitados, onde imperava um silêncio sagrado, reflexivo e ensurdecedor. Hoje os cemitérios viraram espaços onde se praticam todo tipo de profanação e o velho espaço sagrado do Marco não foge à regra desdita. Sabe onde foram colocados os fogos para a virada do ano? Em cima de uma tumba! Acredita não? Vá conferir, porque as pistolas ainda estão lá.

A praia é linda e a natureza ainda tenta se manter paradisíaca e selvagem, mas está cansando da luta desigual entre ela e nós, os “sábios”. Toda ação do homem naquele local, denota desleixo e abandono. Nada ali é lógico e nem prestigia um passado que dizem histórico. Quem um dia tentou dar um rumo ao local, e sou testemunha da batalha por ela enfrentada, teve que sair devido a força da insegurança pública. E olhe que pagamos caro pela segurança, porém, ela praticamente inexiste. – Será que não seria o caso de acionar os direitos de defesa do consumidor? Dona Tânia, sei que a senhora anda meio angustiada em ver tanta luta ser desdenhada por aqueles que tinham o dever de juntar fileiras ao seu lado, mas sei que a senhora ainda respira e alimenta os sonhos de ver “o Marco” figurar no olimpo das maravilhas.

Tenho carinho e paixão pela praia do Marco, porque aquele cantinho de litoral me traz boas e felizes recordações, porém, ultimamente, sempre que tenho oportunidade de ir até lá, volto com o coração entristecido, em ver um lugar tão importante para a história brasileira, tão jogado ao léu.

Pulula nas mídias sociais uma mensagem do jornalista Alexandre Garcia, dando como certo que o descobrimento do Brasil ocorreu no Rio Grande do Norte, e completa dizendo que nenhum governante potiguar tem ou teve interesse em bisbilhotar e revirar a história contada nos registros oficiais. Ele diz até que o ex-governador Garibaldi Alves teve medo de trocar pernadas com o baiano apoquentado, Antônio Carlos Magalhães, cabra que gostava de briga. E assim vai a história do descobrimento, com pontos, linhas e traços que jamais se encontram.

Dia desses soube que o Governo do RN e as prefeituras dos dois municípios, que dividem o pedaço em que foi chantado o Marco, resolveram pegar carona nas palavras do jornalista global e pretendem fazer uma grande festa no dia 22 de abril 2018, com direito a palanque, discursos inflamados, shows musicais e apresentação teatral. Uma verdadeira encenação politiqueira. Diz o ditado que o povo gosta de “pão e circo”. Então, assim será! Que tristeza para um Estado praticamente falido e para dois municípios que tentam se equilibrar numa corda bamba financeira. Precisa disso não, autoridades, o que precisa é ação concreta e objetiva. Oba-oba e falácia são totalmente descartáveis e feio, viu!

Como santo de casa não faz milagre, há anos Dona Tânia Maria da Fonseca Teixeira, uma das maiores entusiastas da volta do Marco de Posse, original, ao local onde foi chantado pelos portugueses, em 1501, gasta saliva, tempo e paciência batendo nessa tecla, mas infelizmente só recebeu promessas e apertos de mão. O historiador Lenine Pinto é outro que conta uma história bem diferente da que existe no terreiro da baiana Porto Seguro. Vários estudos coordenados pela UFRN seguiram rumo pelo tema. O historiador maior do RN, Luís da Câmara Cascudo excursionou pela praia. Meia dezena de jornalista potiguares editaram matérias e até este blog está recheado com postagens sobre essa história tão mal contada.

Não sou partidária para que se faça birra e se bata o pé, para que se mude o rumo do descobrimento, ou achamento, sei lá o que foi ocorreu, e nem apostos minhas fichas que tudo começou na praia potiguar, mas advogo que aprofundemos no tema para que erros sejam corrigidos.

Nesse assunto o que não cabe, e nunca caberá, é a desfaçatez do oba-oba.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 19

1 Janeiro (110)

Enxu Queimado/RN, 22 de junho de 2017

Sabe meu amigo Monteiro, fico aqui nessa minha palhocinha entorpecido pela beleza dos coqueirais e com o vai e vem das jangadas e me pego a pensar nas civilizações desse planetinha azul, que a cada dia caminham mais trôpegas. Rapaz, o que danado estão querendo fazer com esse mundo? Os donos do mundo estão virados num traque, mais parece coisa feita de tinhoso. Ei, Monteiro, ainda bem que na sua Barrinha dos Marcos e nessa Enxu mais bela, os passos são outros, né não?

Powpow, hoje decidi que vou virar a página das notícias desalentadoras, mas já sei que será difícil escolher uma página que me dê guarida, pois estão quase todas dominadas de papagaiadas. Até os domínios do gringo sabido que só a peste, Mark Zuckerberg, degringolaram de vez e todo participante se acha o rei da cocada preta em tudo que é assunto. Gosto de uma charge, assinada por Leandro Franco, sobre uma entrevista para agência de emprego: “- Profissão? – Falador de merda no Facebook”. Pense numa profissão concorrida!

Meu amigo, como vão as noites sobre a Barrinha? Tem visto muitas estrelas? E as vaquinhas leiteiras? Ei, diga aí se o bastardo Duarte Coelho adentrasse hoje o Canal de Santa Cruz, para tentar a sorte novamente, como fez em 1535? Monteiro, acho que o portuga do Porto daria meia volta mais ligeiro do que depressa e nem bala pegava. Naquele tempo os índios eram bestas e trocavam terras, e outras coisas, por qualquer apito. Vai se meter a besta com os caciques de hoje! Os caras dão nó em pingo d’água e ainda querem um troquinho para esconder as pontas.

Monteiro, você sabia que tem umas histórias que contam que foi nas terras que cercam Enxu Queimado que esse Brasil foi descoberto? Pois é! O historiador Lenine Pinto bate o prego, vira a ponta e aposta todas as fichas que as Caravelas dos descobridores aportaram ao largo da Praia do Marco/RN e foi lá que uns marujos, que quiseram fazer maruagem com as indiazinhas, desembarcaram e foram literalmente comidos pela tribo inteira. Diz o historiador que o reboliço foi grande, sobrou sopapo para tudo quanto é lado e no final o comandante da flotilha, André Gonçalves, e o cosmógrafo Américo Vespúcio, chantaram um marco cravado com a Ordem de Cristo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas. Esse furdunço aconteceu em 1501 e a data de 07 de agosto foi escolhida para ser comemorado o aniversário de fundação do Rio Grande do Norte. Lucia, ao corrigir essa carta – pois ela lê tudo, inclusive olha aquelas imagens educativas que postam em nosso grupo “secreto” de WhatsApp -, vai dizer que já falei sobre isso várias vezes, mas o que me custa repetir, né não?

O que restou do antigo Marco, que passou a ser conhecido como Marco de Touros, hoje ornamenta um dos velhos salões do abandonado sem causa Forte dos Reis Magos, um ringue em que agora se digladiam egos e pavonices dos “homens de bem”. Sob as areias da Praia do Marco, restou uma réplica malcuidada e fragmentos de um conto mal contado.

Elder, mudando de assunto, hoje vi uma matéria falando que o Sol pode ser uma estrela gêmea do mal. Você já viu uma coisa dessa? Meu amigo, esses cientistas estão cada dia mais amalucados para mostrar serviço. Dizem que uma tal de Nêmesis, deusa grega da vingança, é a irmã gêmea do Astro-rei e que ela anda perdida pelo cosmo em um lugar desconhecido. Os cientistas acreditam que é por causa das maldades de Nêmesis que recebemos tantos bombardeios de asteroides, inclusive o que varreu da face da Terra os dinossauros. Ora, se não fosse ela com certeza seria nós a acabar com os lagartos gigantes. Vou esperar o que vai dizer o meu amigo José Dias do Nascimento Junior, pois o cabra é bom nos assuntos estelares.

Li também que existe uma centena de planetas igualzinho ao nosso e que uns 10 poderiam ter a mesma condição de vida oferecida pela Terra. Taí uma coisa que eu queria ver! Homem, você já pensou dez planetas com as mesmas manias, os mesmos cacoetes, as mesmas marmotas. Tem para onde escapar não, meu irmão, estamos ferrados! É melhor ficar por aqui mesmo, pois já estamos acostumados, a cerveja é gelada, a cachaça é boa e as amizades são arretadas.

Elder Monteiro, powpow, o homem do Baca, estamos com saudades, meu amigo. Saudade dos momentos de pura descontração. Saudade das boas risadas ao ouvir os fuxicos travados entre você e Lucia. Saudade de jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Venha aqui meu amigo, pois essa Enxu é boa que só a Barrinha. Deixo um beijão para Dulcinha, a sereia pernambucana que roubou seu coração.

Um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Todo dia é dia de Índio

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A imagem do recorte da Revista da Semana, datado de 1956, é uma relíquia e conta uma pontinha da viagem de Américo Vespúcio, como encarregado de  relatar tudo o que viu, ouviu e sentiu a bordo da frota comandada pelo navegador André Gonçalves, em 1501, pelas novas terras descobertas por Cabral. A tragédia – para os colonizadores invasores –, se deu em um jogo de sedução – pois é, jogo de sedução –que as índias fizeram com os homens que vinham do mar. A matéria do velho semanário brasileiro conta que o quiprocó se deu no Cabo de São Roque/RN, mas já li o mesmo fuzuê como tendo acontecido na Praia do Marco, também litoral potiguar, onde foi chantado o primeiro marco de posse pelos marujos de André Gonçalves. Pelo menos é assim que conta o historiador Lenine Pinto. Ali ou acolá, o que importa é que as indiazinhas mandaram ver nos trejeitos libidinosos e atraíram a marujada, que há tempos não saboreavam da fruta. Os dois que primeiro chegaram a praia, foram comidos, literalmente, depois de assados numa fogueira. O outro, que foi a procura dos primeiros, e louco de desejo, teve o mesmo fim ali mesmo na praia, e enquanto saboreavam nacos de carnes do infeliz, as índias mostravam os pedaços para os que ficaram embarcados e faziam gestos que, se desembarcassem, teriam o mesmo fim. Vespúcio anotou tudinho em seu caderno e a flotilha seguiu em frente em busca de índios mais amigos. Hoje índio faz isso não, e se fizer, a borracha come no costado, pois desde os tempos do descobrimento que aprendemos a não dar valor, nem vez, ao povo da floreta. Quarta-feira, 19 de abril, foi comemorado o Dia do Índio e com certeza esse almoço antropófago não foi comentado em nenhuma rodada filosófica, pois os filósofos tupiniquins estão ocupados demais em escrever teses mirabolantes para defender certos caciques. Uma nota para encerrar: A Revista da Semana circulou no Brasil entre 1900 a 1962 e foi fundada por Álvaro de Teffé. Isso mesmo, filho do Barão. Fonte da imagem: Eduardo Alexandre Garcia.                 

Que tal uma praia?

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Praia do Marco/RN. Um paraíso brasileiro, descoberto em 1501 e ainda hoje, praticamente, intocado

E agora? Sei lá!

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O descobrimento, ou achamento – fiquem a vontade com a bandeira que desejar levantar –, é um tema instigante e carregado de achismos, paixões, desejos ardentes com a verdade e interpretações diversas. Digo isso, porque todos que falam ou escrevem tratados sobre o assunto sempre se referem as lacunas de informações, incêndios ou outras tangentes para irem de encontro ao que diz o registro oficial. O certo mesmo é que estamos por aqui tomando conta do pedaço entre trancos e barrancos e os índios que se explodam. Não é fácil chegar a um consenso sobre o que realmente aconteceu nos idos anos 1.500 e sempre tem algum historiador dando uma espetada no que é ensinado nas salas de aula. Já fiz algumas postagens sobre o assunto – Na controvérsia da história; Novamente a história; Um tabu histórico – e sobre eles recebi comentários que para mim refletem o emaranhado em que está metida a história do descobrimento. Hoje volto ao tema depois de ler uma entrevista no site da Revista Náutica, em que o pesquisador mineiro Idolo de Carvalho aposta suas fichas que a cidade de Cananéia/SP foi o primeiro povoado brasileiro. A história oficial garante e bate o martelo que a primeira foi São Vicente, também em São Paulo, e fundada pelo português Martim Afonso em 1531. O mineiro Idolo abriu o verbo para creditar a um certo Cosme Fernandes, apelidado de Mestre Bacharel, como o primeiro colonizador dessa terrinha abençoada por Deus e ainda afirma que o Bacharel se estabeleceu por aqui de mala e cuia em 1498 – se aproveitando de tudo e de todos – vindo a bordo de uma expedição secreta e exploratória de Duarte Pacheco. Bem, caminhando por ai a gente se depara com um monte de cidades que se intitulam como sendo a primeira, vários estados reivindicam o chantamento da cruz do descobrimento e os modernos conhecedores da navegação se apressam em assinar e avalizar a rota de Cabral até as areias de Porto Seguro, – e não duvidem se encontrar por ai alguém afirmando que reencarnou um marinheiro da expedição – ,porém, tudo estanca quando chega a fronteira da tal lacuna histórica. Entre lendas, fatos, verdades e conspirações vamos em frente que atrás vem gente e aconselho dar uma lida na entrevista, boa por sinal, que está nas páginas online da Revista Náutica.   

O forte, o farol e o museu

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Você já foi a Bahia? Se não foi precisa ir, mas se já foi, deve conhecer esse monumento inconfundível. Forte de Santo Antônio, localizado na entrada da barra da Baía de Todos os Santos. A mais antiga construção militar do Brasil colônia e o primeiro forte edificado em terras brasileiras no longínquo ano de 1534, quando ainda nem existia a cidade de Salvador. Deixando de lado algumas melhorias básicas requeridas pelo tempo senhor dos destinos, a fortaleza está muito bem conservada. Forte da Barra, como é carinhosamente chamado pelos baianos, é o mais marcante retrato de um povo. Ao redor da bela arquitetura, a Bahia ri, chora, canta, expressa sua fé, dança, caminha, navega e se abre para o mundo.

IMG_0052 Farol da Barra? Sim, é ele mesmo que se espicha para o alto sobre os muros do Forte. Quando estive lá nessa visita, escutei como quem não quer nada uma pessoa perguntar: – Será que ele ainda funciona? Sim, todas as noites a partir das dezoito horas e até o dia clarear. O Farol da Barra, chantado em 1698 é o primeiro farol das Américas. Inicialmente construído em madeira e com lampiões alimentados por óleo de baleia. Em 1839 ganhou um equipamento giratório, luz a querosene e a torre em alvenaria. Em 1890 ganhou novos mecanismos e lente de primeira ordem com 3,5 metros de altura. Em 1937 foi eletrificado e seu alcance luminoso passou a ser de 38 milhas náuticas, para a luz branca, e 34 milhas náuticas, para a luz encarnada. E como funciona bem! Nos dias atuais as luzes dos faróis perdem em alcance para as luzes que brilham sobre os monstruosos arranha-céus, porém, um navegante somente relaxa o coração quando avista os lampejos de um farol.

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Museu Náutico da Bahia. Você que já foi a Bahia conhece? E você baiano, conhece? Em 1998 foi inaugurado nas dependências do Forte de Santo Antônio o Museu Náutico da Bahia, reunindo um valioso acervo da história náutica da terra dos Orixás. Recentemente, depois de vários anos de promessa, fui visitar e me encantei com o que vi. Mas um fato me chamou atenção na hora em que fui comprar a senha de acesso que custa R$ 12,00: Lucia comentou que eu era o editor de um blog e a senhora que vende os ingressos me indagou: – Você é jornalista? Respondi que não, mas quis saber o motivo da pergunta. Ela disse que se eu estivesse ali como jornalista teria que pedir autorização ao 2º Distrito Naval, somente assim poderia entrar. Juro que não entendi!

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O Museu Náutico da Bahia é uma maravilha e vale ser visitado. Com um acervo, ao meu ver ainda pequeno, que reúne peças e equipamentos que fizeram parte da arte da navegação e que deixa muitos saudosistas sonhando acordado. Juro que senti falta de muito mais diante da riqueza náutica do mar dos Tupinambás, mas tudo que está exposto ali tem esmero de detalhes e conservação.  

IMG_0074Peças recolhidas de naufrágios, velhas cartas náuticas, achados arqueológicos, antigas munições, objetos de uso do cotidiano do século XVII, imagens sagradas, tudo isso tendo o mar como pano de fundo e seguindo um excelente padrão de limpeza e organização.

IMG_0082Tem coisas que não deveríamos deixar passar em branco e a história é uma delas. A história é sempre bem vinda, principalmente porque ela amacia arestas, corrige geografias e descarna biografias até chegar ao verdadeiro DNA do personagem histórico. Sou um apaixonado pela matéria, apesar de ter sido um péssimo aluno. Gosto de caminhar em silêncio pelos corredores e salões de um museu tentando ouvir ecos do passado. Adoro adentrar velhas construções para sentir a energia que um dia existiu ali. Quero Espiar por entre frestas em busca de respostas que de tão desbotadas não existem mais. Mas tudo está lá, tão a vista, como a velha frase de um cigano, e acabo em sorrisos. Ai lembro da frase que sempre será pronunciada: Como era estranha a vida dos nossos antepassados.

IMG_0059Demorei para escolher um dia para visitar o forte, demora que levou quase dez anos, mas sempre me prometi que faria. A primeira vez que ouvi falar no museu foi em 2005 quando estava com o Avoante ancorado na Ilha de Campinho, Baía de Camamu. Desde aquele ano, sempre que adentrava a barra de Salvador renovava a promessa da visita. Um dia eu pago. E paguei!