O desmonte de um paraíso


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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “O desmonte de um paraíso

  1. Imagino uma atuação mais eficaz de Iemanjá.

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  2. Haroldo Quadros

    Nelson,

    Países com litorais bem menores do que o do Brasil têm Guarda Costeira, você saberia dizer se entre as funções desta força está o policiamento ou apenas a de salvar vidas?

    Abs.

    Haroldo.

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    • diariodoavoante

      Haroldo, infelizmente não tenho essa informação para lhe passar. Vou tentar com alguns amigos, que estão ou já navegaram por ai. Grande abraço, Nelson

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  3. Concordo plenamente com você. Hoje não moro mais em Salvador, uma pena, pois sou uma paulista-soteropolitana total. Mas fico triste, muito triste com as notícias daí. Logo que vim pra SP tive a triste notícia da morte do amigo Abel, a bordo com sua família. E desde então tenho observado a decadência dessa região linda por sua natureza exuberante, onde o que está destoando são justamente essa “galerinha” que você referiu. Porém o que mais me tira a esperança é saber que todo esse potencial poderia ser usado para gerar emprego especializado, inclusão e desenvolvimento. Ah… mas tem que ter vontade política? Então vai dar não! Grande abraço

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  4. FALOU E DISSE !!!

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