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Sabigati – Parte III

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O poeta um dia cantou loas ao vento dizendo assim: “…Vamos chamar o vento/Vamos chamar o vento…”. Ninguém cantou o mar como Caymmi. As letras e melodias do Obá de Xangô, falam de uma Bahia encantada em lendas, da culinária, das ladeiras, das sereias de Itapoã, do suor do pescador, das morenas, cheiros, dos saveiros. Falam do mar, dos encantos mágicos, inebriantes, misteriosos e apaixonantes, o mar da Bahia e foi para ele que aproamos o Sabigati II, quando deixamos Maceió no início da manhã ensolarada do dia 18 de fevereiro de 2019, mês que recebe as bênçãos de Iemanjá.

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“…Vento que dá na vela/Vela que leva o barco/Barco que leva a gente….”, foi nessa entoada do “baianinho maneiro” que seguimos cortando as águas das Alagoas, cruzamos a foz do rio que vai bater no meio do mar e desaguamos na indecifrável beleza do mar sergipano. Desde quando enveredei nos traçados da navegação passei a escutar comentários sobre a força das águas do Velho Chico ao adentrar nas paragens de Netuno. Eram história que fascinavam a cabeça deste inveterado sonhador, que dormia idealizando como e quando seria a primeira vez. Quando ela chegou, trouxe a tristeza da fragilidade angustiante e agoniante do rio cantado em verso e prosa. Vieram outras e outras tantas se sucederam e naquele 18 de fevereiro lá estava eu novamente diante do São Francisco, tirando fino em sua foz tão inofensiva. Dizem que o Velho Chico é a salvação do Nordeste, mas ninguém diz quem irá salvá-lo.

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Diante das sombras da noite seguimos nosso rumo e nem de longe avistamos a cidade de Aracaju, porque do São Francisco sempre traço uma reta, por fora das plataformas de petróleo, para novamente aterrar quase vinte e quatro horas depois no través do farol do Itariri, lugar de peixe franco e a vontade, mas aí já estava na Bahia e foi daí que entoei Caymmi e sua bela canção, …vamos chamar o vento…, mas nesse dia ele não apareceu. Cantarolando seguimos navegando com a força dos motores e tentando planejar a nossa chegada na Ilha de Itaparica, onde deixaríamos o Sabigati. – Tentando? – Isso mesmo, tentando, pois para que a pressa meu rei, se a cidade está bem ali!

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Espreguiçando, levantei da poltrona da cabine e fui conferir a navegação e fiquei sabendo que chegaríamos a Itaparica no meio da madrugada. Argumentei que deveríamos diminuir a marcha para chegar pela manhã, mas fui voto vencido e ainda ouvi Lucia dizer assim: – E qual o problema de chegar de madrugada se já chegamos tantas vezes e você conhece aquele fundeio de olho fechado? – Eh! Então vamos! E fomos contando aviões. – Contando aviões? – Isso mesmo, porque chegando em Salvador, à noite, nem precisamos se preocupar em procurar os lampejos do Farol de Itapoã, porque ele fica nas imediações do aeroporto e como o tráfego aéreo por ali é muito grande, é um tal de descer e subir avião que duvido o caboco não se perder na conta.

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Deixamos o Itapoã para trás e nos metemos na aproximação da entrada da barra, que a noite, devido o clarão da cidade, é literalmente uma barra. Alguém haverá de perguntar se não utilizo a facilidade da carta digital do GPS. Claro que sim, mas quando o assunto é segurança na navegação, nada melhor do que o olho do marinheiro e disso eu nunca abri mão. E assim, com os olhos bem atentos, cruzei o canal entre o Banco de Santo Antônio e Praia da Barra e a meia noite recebi os acenos, pelos lampejos do Farol da Barra, que havíamos adentrado a Baía de Todos os Santos.

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Como sempre fiz, olhei para o alto da Colina Sagrada, agradeci ao Senhor do Bonfim, pedi licença para navegar em suas águas e que Ele nos guiasse até o ancoradouro em frente a marina de Itaparica. Foi com as graças e proteção que jogamos âncora às 3 horas da madrugada, desligamos os motores, olhei para Lucia, Pedrinho e Pedro Filho, agradeci, dormi e sonhei com um violeiro cantando assim: “…Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar/Quem ouve desde menino/Aprende a acreditar/Que o vento sopra o destino/Pelos caminhos do mar/O pescador que conhece as histórias do lugar morre de medo e vontade de encontrar/Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar…”

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Quando o Sol acendeu os primeiros raios, tomamos café, recolhemos a âncora e atracamos o Sabigati II no píer da marina de Itaparica, seu novo porto seguro.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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O que é Prolam?

1907475_661575017309217_4939847334748399202_nO texto abaixo foi escrito pelo maranhense Sérgio Marques e publicado em seu facebook, em março de 2015, e hoje posto aqui pela leveza da explicação. Sérgio é construtor naval, proprietário do estaleiro Bate Vento, fabricante das velas Bate Vento e maravilhoso fazedor e cultivador de amizades. O tema abordado é recorrente no meio dos clubes náuticos ou roda de bate papo de velejadores e não conheço pessoa mais indicada para discutí-lo sem paixão se não o Sérgio Marques, que aliás é fabricante de velas de PROLAM. 

Comunidade de vela do Ceará pergunta que material é Prolam:
Enviaram esta questão para o nosso site da Bate Vento, resolvemos compartilhar.
O nome PROLAM surgiu justamente da dificuldade de se encontrar o dacron (poliéster) de qualidade e preço acessível no Brasil. Algumas velerias divulgaram o uso alternativo de um tecido, a favor de uma LONA nacional; PRÓ LAMinados de lonas leves em polietileno já usados em algumas canoas. Daí o PROLAM. Então com essa nomenclatura ou esse nome, ninguém vai achar no comercio, é alcunha do(s) mestre veleiro para o material …
Mas uma marca de lona polietileno ficou comercialmente famosa e conhecida que é a LONA LEVE , é por este nome que deve se procurar nas casas de lonas aí em Fortaleza..
Mas, advirto que não basta a lona, o sucesso do uso deste material sobretudo em multicascos, está na forma do corte obedecendo o sentido dos fios mais resistentes do laminado de acordo os esforços da vela. Também está no balanceamento do mesmo, conforme o regime dos ventos da região, por exemplo a vela que a Bate Vento faz para Angra ou Brasília é distinta daquela que fazemos para o Ceará. Diferentemente do “dacron” que é fornecido em várias gramaturas, 6oz; 7 oz. 8 oz, 9 oz, etc…. a lona leve é encontrada em apenas uma gramatura (num único peso).
Conforme for, nas áreas determinadas vão três camadas, duas camadas e uma camada em cada painel. Para isso precisa-se ter um conhecimento da técnica de corte de velas, de uma colagem especial das camadas e costura zig zag três pontinhos. Isto é possível com um o corte da vela perfeito (preciso) em tri radial, executado por um competente mestre veleiro. Anexo uma foto de um BV26 com velas Bate Vento, com este corte, técnica e material.