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A lei da caveira

05 maio (55)Quando o Estado não faz a sua parte o cotidiano das cidades é tolhido da sua dignidade. Os casos são inumeráveis e se espalham por cada recanto dos mais frágeis redutos habitacionais do país, sem um mínimo esforço prático para uma possível resolução, o que se escuta é só falácias e promessas politiqueiras, como se mais nada no mundo tivesse outra razão. Matam-se 60 ali, morrem outros 30 acolá, famílias são dizimadas pela covardia daqueles se acham impunes – e são – a lei, que aqui vai escrita em letra minúscula mesmo, pois é assim que ela se mostra, e nem olhar para o vizinho podemos mais, pois qualquer olhar é sinal de desagravo. A violência, o mal que domina o mundo, não tem mais rédeas e nem motivo para não se apresentar a cada dia mais desumana e cruel, e nós, cidadãos “livres” e sonhadores com uma simples vida em paz, ficamos reféns do caos. Temos o direito apenas de expressar uma leve cara de espanto e nada mais. Reclamar? A quem? Chorar? Depende do que! A imagem que abre essa postagem é linda sim, mas o terror foi decretado na terra do Pau Brasil e seus tentáculos já adentram os mares, rios, lagos e lagoas. Mais uma vez fomos invadidos por desbravadores bárbaros e sem lei. Como aconteceu com as velhas tribos indígenas, vamos ser maltratados até que passemos a rezar na cartilha da cruz construída com armas e sem direito nem a um pedaço de terra, no máximo, uma reserva num descampado qualquer. E os piratas estão de volta, aliás, há muito eles navegam serelepes nas águas amazônicas sem nenhum medo de algum dia serem rechaçados. Nas hostes do Porto de Santos, e adjacências, os barbas negras também hastearam a bandeira da caveira. Na belíssima baía de Angra os Reis já se escuta o tilintar de suas espadas e agora retornaram ferozmente as águas históricas da Bahia, pena que não existem mais os tupinambás para colocar ordem na casa. Ainda bem que em fevereiro tem Carnaval!         

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O desmonte de um paraíso

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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Resquícios de um grito

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Texto publicado na coluna Diário do Avoante, no Jornal Tribuna do Norte.

No mês de fevereiro abri uma página desse Diário para soltar um grito solitário e cheio de revolta com toda essa violência que nos apavora e que todo dia apresenta roteiros cada vez mais monstruosos. O meu grito ficou lá – como previ – largado ao vento e seu eco esquecido para sempre. Bem feito. Para que danado um velejador se mete a sair por ai dando grito a torto e a direito? Era melhor que engolisse a raiva em silêncio.

Pois bem, o tempo passou, fevereiro ficou para trás com sua folia de momo, a Terra deu alguns rodopios pelo espaço vazio e a sacana da violência se arma a cada dia de mais coragem e avança a passos largos sobre nossa cabeça, nossa dignidade, nossa alma, nossa fraqueza. Não temos mais nem forças para indignações, pois isso não mais nos pertence. Não temos esse direito.

A besta fera está caminhando à vontade pelo nosso país e recebendo adeptos a cada segundo. Não existe força capaz de frear sua sanha avassaladora. Estamos de mãos atadas esperando a bordoada final e triste daquele que tente se meter a brabo. Não tem perdão. O perdão é concedido apenas aos soldados da besta fera. Os anjinhos. Os meninos bons. Os não fez nada. Os incompreendidos. Os inocentes. Os injustiçados. Os excluídos. Os guris. Os Boys. Adjetivos não faltam para apelidar os soldadinhos das trevas.

Mas o que danado eu tenho haver com isso, se quem tem a prerrogativa de fazer alguma coisa prefere se fechar em copas? O meu grito eu já dei no Carnaval que passou e só me fez ficar rouco, nada mais. Como diz um amigo meu: Nelson, prefiro você falando de mar.

Meu amigo, eu também prefiro e fui para o mar para fugir de toda essa lama que emporcalha as ruas das nossas cidades. Embarquei com a esperança de lavar a alma navegando em busca da lendária Shangri-la da harmonia, da paz, da felicidade, da saúde e sei que encontrei. Mas infelizmente estou sendo impedido de ficar em um lugar tão mágico e oculto. Aos meus ouvidos chega o rosnado da fera através dos sinais desenhados nas nuvens internéticas e me recolho no vazio da tristeza.

Dói escutar o clamor dos verdadeiros injustiçados. Dói ouvir o choro de famílias dilaceradas. Dói ter a certeza absoluta que a justiça é mesmo cega, surda, muda e que a balança faz tempo que não é aferida. Dói escutar minha Mãe dizer: Meu filho, a bandidagem aqui por perto está uma coisa séria e não temos a quem recorrer. Pois é meu amigo, prefiro sim falar do mar e da poesia que ele representa. Mas minhas raízes e meus frutos estão em terra. Queria eu não precisar gritar.

No final de março a comunidade náutica da Bahia foi acordada com mais três casos de assaltos no mar da Ilha de Itaparica. Três barcos estrangeiros foram invadidos e felizmente tudo terminou em alguns objetos roubados. Outro assalto aconteceu em um barco ancorado em frente à sede da Capitania dos Portos da Bahia, em plena capital baiana, e demonstra a ineficiência daqueles que tem por lema proteger o navegante.

Discursos alarmados vindos do mar da Bahia foram ouvidos e nada mais se deu. Críticas e comentários bairristas navegaram nas mídias sócias vindos dos mares do sul, sudeste e até do nordeste, numa clara demonstração de desprezo, inveja e da contaminação da raiva existente entre nós brasileiros. Fui cobrado por alguns colegas por não noticiar os casos na época, mas preferi calar e esperar o maremoto acalmar. Sabia que ainda não era tudo e sei que muito ainda virá, porque a violência está imune ao combate e na verdade não queremos e nem temos forças para acabar com ela. Queremos reclamar e espernear, mas desde que seja apenas diante de um teclado de computador. O resto não é com a gente.

Abril 2015, feriadão de Tiradentes, três veleiros foram roubados na Ilha da Cotia, litoral de Paraty, e deles levaram os botes infláveis com motores de popa. Mais uma vez o mar como pano de fundo para a violência, só que dessa vez não era mais no mar da Bahia, do nordeste ou do norte tão desabonados por alguns navegantes do sul e sudeste há pouco mais de um mês. A violência – para não fugir do jargão policial – pegou geral. Recorrer a quem? Pedir ajuda a quem? Reclamar a quem?

Não existe mais lugar seguro nesse Brasil de todos em que todos têm direitos e poucos têm deveres. Vamos continuar caminhando olhando de lado e duvidando de todos, porque assim dizem que caminhamos para o desenvolvimento e em busca de uma grande justiça social. Não podemos reclamar da violência, porque dizem que o governo está combatendo e a gente é que não quer ver. Na verdade, não podemos nem ter a ousadia de reclamar, porque quem reclama é taxado de ser de direita e ser de direita é pecado mortal.

Sabe de uma coisa: Meu amigo tem toda razão!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um grito solitário

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A morte de um velejador holandês na madrugada do domingo de Carnaval na Baía de São Marcos, no Maranhão, reacendeu uma luz vermelha sobre o mar brasileiro para os velejadores estrangeiros e gerou centenas de comentários acalorados nos blog náuticos e nas redes sociais, mas que infelizmente não passarão de palavras soltas ao vento e sem nenhum efeito prático para que as autoridades tomem ciência. A violência no Brasil virou uma indecifrável banalidade e dificilmente sairemos de suas garras num futuro próximo.

O velejador de 60 anos dormia ao lado da esposa quando foi surpreendido por três bandidos dentro do barco. Depois de uma rápida discussão o velejador levou um tiro e morreu na hora. Os noticiários anunciaram que os marginais não roubaram nada, o que é uma grande inverdade, pois levaram o maior bem que é a vida de uma pessoa. Ou será que isso não tem mais valor no mundo de hoje?

Até quando iremos conviver pacificamente com cenas como essa? Até quando vamos permitir que a brutalidade e a barbárie nos intimide e aprisione o silêncio do nosso grito de horror? Até quando vamos ficar acovardados diante das promessas vãs das nossas ditas autoridades e aplaudindo a desfaçatez de suas falas mansas cheias de subterfúgios? Até quando?

Sei que minha voz não é nada e muito menos representa um pingo de água em meio ao oceano, mas estou farto dessa violência desenfreada que assola o Brasil de ponta a ponta. Estou cansado da falta de rumo e de pulso dos homens que comandam nossos tribunais com uma leniência descarada e que envergonha a nós. Queria mesmo saber como é que nossos valorosos homens das leis deitam a cabeça no travesseiro e dormem o sono dos justos, sabendo eles das injustiças que cometeram durante o dia nos tribunais.

Precisamos de homens que tratem os marginais, de todas as esferas, como eles merecem ser tratados. Precisamos de respostas rápidas, claras, objetivas e corajosas para podermos ter a paz e a liberdade que a vida merece. Chega de passar a mão na cabeça de bandidos ou cobri-los com o manto utópico da exclusão social, pois eles não sentem nada por suas vítimas a não ser desprezo.

Eles não são excluídos, excluídos somos nós que não podemos caminhar despreocupados e sem medo pelas ruas da cidade. Nem dentro de casa temos mais sossego. Excluíram a nossa paz, roubaram a nossa tranquilidade, aniquilaram nossa liberdade, matam por matar, roubam por roubar e riem da nossa cara de palhaço amedrontado. Isso mesmo, palhaços é o que somos.

“Raiva, muita raiva”. Foram essas as palavras ditas pela esposa do velejador assassinado no Maranhão. São as mesmas palavras pronunciadas por todo aquele que tem um ente próximo tolhido pela besta fera da violência, ou que perde seus bens para um verme desumano e bárbaro. Infelizmente não nos resta outro sentimento a não ser a impotência de não poder fazer nada.

Reclamar a quem? Pedir ajuda a quem? Quem nos protege? Quem zela por nós? Até mesmo aqueles a quem indicamos como nossos representantes nos passam a perna e invariavelmente aparecem em anúncios de procurados pela polícia.

Estamos perdendo a batalha pela dignidade. Somos reféns dos maus, dos lobos, do terror, das serpentes, da peçonha fatal que paralisa a nossa razão de ser feliz. Continuamos sorrindo, mas um riso amarelo, sem graça, sem eira nem beira. Um riso sem sentido. Uma piada sem nexo. Viramos piada da velha piada pronta.

Eles conseguiram inverter a nossa lógica, não pensamos mais no certo, pois o errado vale mais. O crime passou a compensar e agora a história é outra. Na era em que achávamos que havíamos dominado a tecnologia, começamos a retornar as cavernas, a briga de foice, as matanças, a crueldade. Ressurgiram as lutas demoníacas travadas pelas imbecilidades religiosas. Estamos contaminados pelo fel das cabeças ocas. Ovacionamos os que se fazem de inocentes diante das provas expostas. Estamos fritos. Nossos descendentes estão fritos. Só nos resta pedir calma. Calma para tentar caminhar o caminho que nos resta, mesmo que a raiva core a nossa face.

Peço perdão por toda essa revolta, mas não foi a morte do velejador holandês que fez meu sague ferver, mas sim o conjunto da opera tosca que estamos assistindo calados e impassíveis. Ele foi apenas mais uma vítima que vai ficar por isso mesmo e seus algozes muito em breve estarão nas ruas, se já não estiverem, com as bênçãos de um bom padrinho faminto por voto.

Sei que esse grito solitário jamais será ouvido ou levado a sério, como não seria mesmo que todos nós gritássemos juntos, pois é um grito sem força, rouco, um sopro de vento saindo da garganta que não oferece nenhum perigo aos donos dos palácios, aboletados em suas poltronas de egos. Quem somos nós para exigir nada e a violência é problema nosso e cada qual que tente escapar a sua maneira.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A face obscura do sim

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O cockpit do Avoante é a caixa de ressonância onde me recolho para escutar os dramas que envolvem as cidades. É neste mundinho tão pequeno, com pouco mais de três metros quadrados, que me vejo atordoado com os ecos trazidos pelos ventos que chegam muitas vezes acompanhados de amedrontosas nuvens negras. Embasbacado, observo que nós humanos nos consumimos feito vermes em meio à podridão que se espalha por todos os lados com a leniência de nossa vã consciência que é sempre tendenciosa em favor dos desmandos.

Aplaudimos, abençoamos e engolimos as migalhas atiradas por governantes que sabem muito bem que temos paixão em viver a vida de pombos. Voamos em cima do milho jogado nas calçadas da vida sem nem saber se é ração ou veneno. Mesmo assim, se for uma coisa ou outra, somos obedientes e baixamos a cabeça, tanto para agradecer o alimento, quanto para desculpar a armadilha cruel. E o pior de tudo é que o nosso cabedal de desculpas é depositado em um arquivo sem fim e sem regras, pois o que vale mesmo é desculpar, lavar as mãos e partir para outra.

Se a cidade chora é chegada a hora de armar o circo. Se a cidade sente fome e chegada a hora de espalhar o pão. Se a cidade reclama e chegada a hora de mostrar o que ninguém consegue enxergar. Se a cidade adoece é chegada a hora de remediar. Se a cidade acalmou, tudo volta a ser como antes até que os pombos voltem a se alvoroçar.

Uma leve brisa de través faz o Avoante se mexer na ancoragem para mudar o cenário da paisagem. Mesmo assim continua chegando ecos do desespero vivido nas entranhas da cidade e que já alonga seus tentáculos sobre os mares. Ecos da violência que a cada dia retrocede no tempo e nos leva a viver o tempo das barbáries.

Para esse mau não existe remédio, nem pão, nem circo, mas existem ainda os louros da desculpa, em que se debruçam filósofos, psicólogos, analistas, palpiteiros, psicanalistas, juízes, promotores, religiosos, políticos e uma infindável comitiva de entendidos e muito bem pagos. Todos convergem para o foco da causa, mas divergem dos efeitos do antidoto para aplacar o vírus, pois o soro passará inevitavelmente nas suas próprias veias.

Do meu cantinho no cockpit tento enxergar o rosto de algum cristão, ou ateu, que ainda arregale os olhos para a crueldade da violência desmedida que assola as ruas, invade lares e não distingue mais ninguém. Os atos estão cada vez mais bárbaros e dotados de uma crueldade que nem os vermes ousariam ter.

Não existe mais o espanto natural do ser humano. Não existe mais a revolta natural daqueles acometidos pelo furor do mau. A mente calejou e agora tudo que vier é normal e entra apenas para a área dos números onde não somos nada. Fomos expulsos do mundo dos sentimentos e caímos no lamaçal sem alma do quadrado das estatísticas. Deixamos de ser humanos e continuamos aplaudindo, dando vivas e defendendo nossos reis e rainhas em seus castelos emporcalhados.

Um novo balanço, dessa vez provocada por uma marola, e mais uma vez o Avoante rodopia sobre a ancoragem. Será que meu veleirinho tenta me mostrar novos ares para me forçar a olhar com mais serenidade para a cidade? Não sei, mas um grito agudo me aflige a alma e me faz navegar no vazio da razão.

O vento faz chegar até mim palavras soltas, fragmentos de frases, buxixos vindos dos becos e me recordo do início do livro Tocaia Grande, do baiano Jorge Amado de todos, e lá está escrito assim: “Digo não quando todos dizem sim em coro uníssono. Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de História por infame e degradante; quero descer ao renegado começo, sentir a consistência do barro amassado com lama e sangue, capaz de enfrentar e superar a violência, a ambição, a mesquinhez, as leis do homem civilizado. Quero contar do amor impuro, quando ainda não se erguera um altar para a virtude. Digo não quando todos dizem sim, não tenho outro compromisso”.

Tocaia Grande é uma obra viva, atual e incrivelmente moderna para o momento em que estamos vivendo. É difícil a cidade dizer não, principalmente nos seus bolsões de miséria, e por mais que sejamos massacrados pelos desmandos que gera o caos, continuamos dizendo sim, pois é nisso que apostam aqueles disfarçados de bons moços.

A violência está ai, sem disfarce, sem mascara, sem subterfúgio, sem freio, sem controle, sem fronteiras, multifacetada, se renovando a cada segundo e assumindo sem medo que é a dona da razão. A barbaridade impera sobre nossas cabeças, mas infelizmente vamos continuar dizendo sim.

Vida de pombo? Acho que nem para isso servimos.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Até quando vamos tolerar o intolerável?

11 Novembro (34)

Essa é Itaparica, lugar em que a natureza caprichou nos detalhes e os engenheiros do passado cuidaram de não perder a linha. Sou fã do ajuntamento dos traços entre a natureza e o homem, que fazem da ilha baiana um marco de beleza histórica. Itaparica é maior, muito maior do que a sanha daqueles que tentam macular a sua imagem. Essa semana, depois de um longo período de tranquilidade, o fundeadouro foi sacudido pelo reflexo da violência desenfreada e sem controle que assola o nosso país de ponta a ponta. Violência assistida de braços cruzados por governantes abobalhados e inábeis que veem no populismo barato a senha para continuar se dando bem na vida e ainda conseguem eleitores para saudá-los de punho, olhos e ouvidos fechados. Até quando vamos tolerar isso tudo eu não sei, mas já passamos do tempo e agora vamos somente pagando a conta com traumas e medos, enquanto eles, governantes, riem da nossa cara de besta. Aviso aos navegantes: O silêncio assusta mais.    

O que estão fazendo com a Bahia?

A coisa continua feia nas águas baianas, mas uma vez Itaparica é palco de violência contra velejadores. No ano passado um velejador foi morto a bordo de um catamarã, quando ancorado em frente a Marina de Itaparica. Assaltos são constantes por toda a cidade de Itaparica e efetivamente nada é feito para inibir os bandidos. Ontem mais um caso aterrorizou os velejadores quando um casal de franceses, que retornava da pizzaria, foi assaltado e o homem recebeu várias cutiladas de faca. O bandido fugiu, já sabendo da sua impunidade, e o velejador foi hospitalizado em estado grave. Estão querendo acabar com a Bahia e parece que vão conseguir.