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O catamarã de velocidade – III

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Digo que não é fácil levantar âncora quando o clima e os amigos conspiram para que fiquemos mais um pouco. Na Barrinha dos Marcos/PE foi assim, um ajuntamento de fatores e carinho a nos prender, mas tínhamos que seguir viagem, porque o destino final de nossa velejada estava umas tantas milhas mais ao sul.

Assim que o dia amanheceu preparamos o Tranquilidade e atracamos próximo ao píer da futura marina Angra da Ilha, de propriedade do velejador pernambucano Cleidson Nunes, mais conhecido por Torpedinho, e de mais dois sócios. A marina ainda está em construção, porém, já podemos notar que será um empreendimento da melhor valia para o mundo náutico de Pernambuco e do mundo. A Barrinha é um porto dos mais abrigados e dotado de belezas paisagísticas de encantar. Atracamos na marina para reabastecer os tanques de água do Tranquilidade e receber o amigo Elder Monteiro que voltou a bordo para nos desejar boa viajem e ainda trouxe de presente ovos de galinha caipira e pata, produção da fazenda Belo Horizonte. Segundo Elder, o ovo da pata é tido pelo sertanejo como alimento afrodisíaco. Pelo sim, pelo não, teve tripulante que comeu de boca cheia.

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Abastecido com água e ovos, antes do meio dia, levantamos as velas e tomamos o rumo do mar com uma grande alteração em nossa programação de paradas. Inicialmente, depois da Barrinha, pretendíamos parar na praia de Carneiros, litoral sul de Pernambuco, e depois em Barra de São Miguel/AL, porém, o castigo que vínhamos tomando do mar desde Natal/RN fez com que parte da tripulação começasse a sentir saudade da caminha gostosa de casa. Sendo assim, ao sair do raso canal de acesso ao canal de Santa Cruz, aproamos o Tranquilidade para a sereia Maceió, terra de menestréis, vastos canaviais e mar de águas cristalinas.

A partir de Itamaracá a velejada passou a ser em mar de almirante e vento soprando na medida de nossa vontade. Assim fomos deixando para trás os batuques do frevo e do maracatu e em menos de 20 horas ancoramos em frente a Federação Alagoana de Vela e Motor, clube que recebe o navegador de braços e coração aberto.

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Nossa parada em Maceió foi mais por necessidade do que estratégica. Tivemos um pequeno vazamento em uma bomba pressurizada e perdemos mais da metade da água dos reservatórios. Necessitávamos também repor a despensa e Lucia vinha tendo sintomas de infecção urinária e nada melhor do que uma cidade grande para resolver essas pelejas. Resolvemos o problema da bomba e reabastecemos águas e diesel com a ajuda do Carlinhos, caiqueiro que está sempre alerta e a disposição do navegante que ancora em Maceió. Levei Lucia no hospital da Unimed-Maceio, que por sinal tem excelente atendimento, e depois de alguns exames foi liberada sem maiores recomendações, porque a medicação que ela estava tomando a bordo se mostrou eficiente para curar a infecção.

Já ouvi muito velejador reclamar do fundeio em Maceió e muitos nem chegaram a ir até lá. Dizem que o local de ancoragem é sujo, perigoso e a proximidade com os barcos de pesca na ancoragem gera um clima de insegurança a bordo. Sinceramente nunca me senti intimidado em minhas passagens por Maceió. Sim, a praia por detrás do proto não é limpa e em algumas épocas a sujeira acumulada na areia é de enojar, mas abdicar de parar ali é querer perder uma das melhores e calorosas recepções de uma navegada. A turma da Federação é mestre em receber bem o visitante e a cidade é de uma beleza ímpar.

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Até recentemente existia uma favela vizinho a Federação, mas essa foi retirada e dizem que em breve sugira no local uma praça e um novo mercado de peixes. A coisa ainda caminha a passos lentos e capenga, mas tudo indica que existe vontade política para a revitalização completa daquele pedaço de orla. Também ouvi comentários que o Porto cresce os olhos no local e sinaliza uma expansão, o que traria dificuldades a Federação Alagoana de Vela e Motor e consequentemente a navegação amadora. De uma coisa eu sei, mas não ouvi ninguém falar: A capital alagoana precisa urgentemente de uma marina pública para dinamizar e acelerar o turismo no estado. A falta de um píer de atracação é uma lástima para um estado que tem no mar seu maior tesouro.

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O novo farol de Maceió, localizado sobre o molhe do Porto, foi ficando para trás e o Tranquilidade foi ganhando velocidade em direção ao mar da Bahia. Seriam 260 milhas náuticas de uma velejada que prometia ser um sucesso. Mar de almirante e vento brando que empurrava nosso veleiro na maior maciota. Durante a madrugada cruzamos a divisa entre Alagoas e Sergipe, demarcada pela foz do Rio São Francisco, e em menos de 24 horas deixamos para trás também a cidade de Aracaju, que passamos sem nem avistar, pois navegávamos a mais de 20 milhas da costa para fugir do rugi rugi do movimento das plataformas de petróleo daquela região.

Pensei com meus botões: Esse é um mar de peixe!

Nelson Mattos Filho/Velejador

O catamarã de velocidade – II

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Antes reiniciar essa prosa é preciso dizer por que batizei de “O catamarã de velocidade” essa série de crônicas: O nome é uma referencia ao nosso companheiro de tripulação Myltson Assunção, pois é assim que ele chama o Tranquilidade. Myltson é um regateiro apaixonado, saudosista e em qualquer barco que embarca ele vê velocidade, porém, ver é uma coisa e ter é outra. Claro que o Tranquilidade não é um barco lento, mas também não é um regateiro puro sangue. Ele é sim um catamarã super confortável e navegava maravilhosamente bem em mar aberto. Durante a nossa velejada eu escutei tanto essa expressão que resolvi nominar assim o relato da velejada.

Bem, como tudo foi explicado, vamos continuar nossa labuta com o mar, mas antes de seguir em frente vou lembrar que terminei a página passada comendo paçoca, arroz de leite, feijão verde, batata doce e regando a goela com uma cachacinha da boa.

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Ancorado na praia do Jacaré, lugar na Paraíba onde se festeja o pôr do sol, ao som de um sax, me ative nos sites meteorológicos para destrinchar os segredos do tempo, porque até ali a coisa estava bem esquisita. Dei uma olhada em vários sites e todos prometiam que o mar e o vento seriam os mesmos que havíamos pegado até então. Se é assim, tá bom!

No dia seguinte acordamos cedo, ligamos os motores, novamente abdicamos das velas e pegamos o beco em direção ao oceano. Em frente ao porto de Cabedelo tive a certeza que tudo seria igual ou pior do que tinha sido, porque o vento no raiar do sol já beirava a casa dos 22 nós de velocidade. Ao entrar no canal que leva barra afora, as ondas estouravam na proa e lavavam tudo por cima do barco. Pensei com meus botões: – Vai começar tudo outra vez!

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Para ser sincero: a coisa foi muito pior, porque de Cabedelo até próximo ao través da ilha de Itamaracá navegamos em um mar amalucado, com ondas entre 2,5 e 4 metros de altura e incrivelmente desencontradas. Mas não era um mar em que eu não estivesse acostumado a navegar nessa região, apenas estava esquecido, pois navegar na maciez do mar da Bahia deixa a gente assim meio sei lá. Porém, o BV 43 é um barco valente e tirou de letra os amuos de Netuno, até que o rei dos oceanos resolveu sossegar e nos deixou navegar com um tiquinho de paz até a barra sul da ilha da ciranda de Lia. Resultado, saímos de Cabedelo as cinco da matina e jogamos ancora na Barrinha dos Marcos as 19 horas e 30 minutos. Quatorze horas e meia para vencer pouco mais de 40 milhas entre os dois pontos. Achou muito? Eu também! Mas foi assim e aquele mar estava endiabrado.

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Bem, o ditado diz que depois da tempestade vem à bonança. Quem escreveu essa máxima eu não sei, mas sempre é assim. A Barrinha dos Marcos, no canal de Santa Cruz/PE é um lugar arretado de gostoso e um fundeadouro fantástico. É lá que mora um grande amigo, o navegador, fazendeiro e fazedor de bons amigos Elder Monteiro e sua amada Dulcinha. O casal quando soube que iríamos aportar por ali preparou uma recepção que dificilmente esqueceremos.

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Depois de jogar ancora, numa operação cheia de pra que isso, desembarcamos e embarcamos no possante branco do Elder para ir jantar na fazenda Belo Horizonte, onde Dulcinha esperava com uma mesa farta, como toda mesa de fazenda. O cardápio foi assim: Ensopado de caranguejo na entrada; arroz de pato e galo torrado como prato principal e para a sobremesa foi servido doce de leite de lamber os beiços. Foi uma noitada maravilhosa! Quando o sono começou a pesar sobre os olhos, pegamos a estrada e voltamos ao Tranquilidade que descansava preguiçosamente nas águas históricas do canal de Santa Cruz.

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Na manhã seguinte Elder colocou a lancha na água e foi nos ciceronear pelas belezas da região. Fomos a Coroa do Avião, saborear agulhinhas fritas, camarão e cerveja gelada. Apreciamos a beleza da arquitetura do Forte Orange, avistamos o casario de Vila Velha, onde Duarte Coelho mandou e desmandou, aceleramos a lancha próximo aos manguezais bem preservados da Ilha e desaguamos na praça de alimentação de Igarassu para saborear uma deliciosa e imperdível caldeirada, servida nos pitorescos restaurantes do lugar.

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Voltamos a bordo do Tranquilidade no finzinho da tarde para descansar o sono dos justos e preparar o ambiente de bordo para receber nossos anfitriões nas terras pernambucanas. Lucia preparou costela de porco ao molho agridoce, acompanhada de risoto de jerimum. Claro que vou dizer que o jantar foi delicioso. Mais uma noitada sensacional de bons papos e boas amizades.

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A madrugada foi de chuva fina, vento brando e sonhos. A Barrinha é o lugar!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um passeio em família

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Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

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A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

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Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

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No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

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A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

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No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.

 

No Avoante é assim!

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Curso de vela? E o que danado faz essa garrafa de cachaça e essa latinha de cerveja em meio a um dia de aula diante de uma paisagem espetaculosa? Será que fazem parte do currículo? Pois é, taí uma boa pergunta! Mas não se avexe que tenho uma boa resposta, ou pelo menos vou tentar. Esse dois ai são os amigos Diego e Felipe, que se mandaram das paragens do planalto central e embarcaram no Avoante para desanuviar o juízo dos dias de lida  em uma cidade mandatária, que a cada dia nos deixa com cara de espanto. Diego queria aprender os segredos da vela de cruzeiro para muito em breve cruzar os mares do mundo. Felipe pretendia apenas passear e conhecer os segredos guardados a céu abertos pelos santos e orixás que povoam a Baía de Todos os Santos, pois daqui uns dias seu veleiro, que está sendo construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento, estará bossando pelas águas da Bahia. Juntamos o útil ao agradável e montamos esse curso/charter que foi um sucesso e recheado de boas energias e uns centímetros a mais na circunferência abdominal de cada um.

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Para variar, mais uma vez Lucia caprichou na gastronomia e preparou um cardápio, desde o café da manhã com tapiocas, bolos quentinhos, peixe frito e outras guloseimas, que encantou nossos tripulantes. E nos almoços e jantares não faltaram as deliciosas moquecas baianas e as tradicionais massas.´

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Claro que o Felipe, que embarcou para curtir a vida, adorou o que viu do mar da Bahia, mas o Diego, aproveitou cada minuto do aprendizado e desembarcou dando aula de rotas e marcações e já  tentando enxergar um veleiro para adquirir e realizar o sonho. – E as cervejas e a cachaça? – Claro que tínhamos que brindar tudo isso!

O grande mar – I

6 Junho (129)

O slogan é ufanista sim senhor, mas dificilmente encontraremos algum nativo, por mais cético que ele seja, para assinar embaixo de uma contestação: Bahia, terra mãe do Brasil! E quem sou eu para dizer o contrário.

Sempre que adentro as históricas águas do Rio Paraguaçu, me vejo diante de um cenário deslumbrante, entrecortado por alguns clarões que demonstram a sanha dos desmandos produzidos pelos caras pálidas. Queria mesmo saber se na língua tupi existe uma palavrinha para substituir a expressão “besta quadrada”. Se existir, deve ser um baita palavrão, pois o povo índio é bom em resumir palavras abreviando os pormenores.

O Paraguaçu – grande mar na linguagem tupi – é uma imensa estante de uma biblioteca a céu aberto, recheada de livros imaginários, mas que narram em poemas uma história fascinante.

Nesses dez anos morando a bordo do Avoante, em que a Bahia foi o meu porto mais constante – tanto que ainda não consegui atravessar sua fronteira navegável, porque ainda não conheço tudo o que desejei conhecer – naveguei umas poucas vezes as águas do velho rio e sempre fui tomado por uma professoral entidade saída dos arquivos recônditos da história, que me faz ver com tristeza os rumos maledicentes que as coisas tomaram.

Contam a boca pequena que a área de mata que cerca a rio Paraguaçu já disputou pareia com a floresta amazônica. Se a afirmação é verdade eu não sei, mas um dia alguém escreveu sobre isso e olhando em minha volta, do cockpit do Avoante, não duvido mesmo. É muita mata ainda em estado bruto!

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Algumas traquinagens foram cometidas no passado e o presente nos mostra que os traquinos continuam em franca atividade. As margens do Paraguaçu ainda conservam muito da sua beleza, talvez até mais do que os defensores do progresso a todo custo desejassem que fosse, porém, por trás dos montes e longe dos olhos dos navegantes, a desfaçatez do homem paira sobre a poeira de uma devastação galopante. Continuar lendo

São Tiago do Iguape, um lugar imperdível

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Vamos lá: No dia 03 de Julho, na postagem “E nem choveu”, prometi contar qual foi o nosso destino depois que deixamos Salinas da Margarida e adentramos as águas históricas do velho Rio Paraguaçu. A imagem do Avoante ancorado em frente a uma igreja emoldurada por uma paisagem encantadora atiçou a curiosidade de muita gente. Confesso que desde que vi essa imagem em fotografias e roteiros náuticos da Bahia, fiquei tentado a navegar até lá, porém, por algum motivo alheio a razão, sempre deixei passar em branco a oportunidade, mas nunca abandonei a vontade. Dia desses o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros me pediu para escrever um pouco sobre a Baía do Iguape e pronto, a vontade aflorou de vez.

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São Tiago do Iguape, povoado pertencente ao município de Cachoeira e situado as margens da Baía do Iguape. Um lugar lindo e uma ancoragem mais do que perfeita para os amantes da vela de cruzeiro. Chegar até lá navegando é muito fácil e o canal, apesar de mais estreito do que grande parte do Rio Paraguaçu, oferece boa profundidade. Alguns waypoints precisam ser seguidos a risca, mas nada que ofereça maiores dificuldades e todas as coordenadas podem ser conseguidas em apenas um bate papo entre velejadores. Escrevi cinco textos sobre essa velejada que lavou a minha alma, mas por enquanto não posso publicá-los, porque foram escritos para a coluna dominical Diário do Avoante, que assino há mais de oito anos no jornal potiguar Tribuna do Norte, e a primeira parte sairá no próximo Domingo, 12/07. Na medida em que os textos forem sendo publicados prometo postá-los aqui.

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Porém, não vou deixá-los com o doce na mão sem poder degustá-lo. Enquanto domingo não vem, contarei algumas passagens da nossa estadia e mostrarei algumas imagens desse povoado que nos deixou encantados e com planos de retornar muito em breve.

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São Tiago do Iguape foi fundada em 1555 com a construção da primeira igrejinha construída pelos jesuítas. Os 460 anos de sua história contam um passado de prosperidade e declínio, como muitas cidades erguidas naquela época. A igrejinha virou Matriz, os jesuítas foram expulsos do Brasil, a economia vacilou e mudou de rumo, e a importante cidade do passado perdeu o prumo e o que era doce se acabou.

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O pequeno povoado, que se estende por trás da Matriz, vive da pesca artesanal, do dinheiro das aposentadorias e de pequenos comércios, como o de Dona Calú e Seu Jarinho. O casal nos foi indicado por velejadores baianos que outrora navegaram até Iguape. Calú e Jarinho são duas simpatias e fáceis da gente de apegar. Foi dito também que o lugar era rico em camarão e no dia seguinte a nossa chegada, recebemos a visita do Seu Lito, proprietário da canoa Carolina, outra simpatia e sempre pronto a ajudar o navegante, que nos ofereceu o crustáceo pego na hora. Fizemos a festa! Um fato engraçado foi que ele achou que éramos gringos, pois, segundo ele, há muito tempo não chega veleiro brasileiro em Iguape, somente estrangeiros. – Gringo, camarão!

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Passamos três dias com o Avoante ancorado em frente a Iguape e o desejo era de ficar mais um bom pedaço, mas tínhamos que seguir viagem. O desembarque não é dos melhores, mas isso a gente releva com a maior boa vontade. Com maré baixa e como o fundo é de lama, o desembarque é muito desconfortável, porém, para não sujar os pezinhos, basta esperar a bordo, lendo um bom livro ou escarafunchando alguma manutenção de rotina, até que a maré cheia traga o conforto de um desembarque em grande estilo. Vou falar mais sobre o lugar, peço apenas que você tenha um pouquinho de paciência.

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São Tiago do Iguape, um destino imperdível e um fundeadouro abençoado.

O desmonte de um paraíso

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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador