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Sabe de uma coisa?

6 Junho (274)

Na página desse Diário que teve o título, O Grande Mar V, falei da situação de abandono que se encontram os rios brasileiros, que só em lembrar me deixa estarrecido. Escrevi o texto, que segue essa introdução, enquanto o Avoante navegava devagarinho as águas do Rio Paraguaçu e meus olhos procuravam vestígios de algum píer público. Não me queiram mal, porque foram palavras saídas do fundo do coração e que muitos podem até achar que são levianas.

Eu e todo navegante somos culpados, porque ficamos calados e inertes diante do descaso. Fazemos parte, junto às populações envolvidas, dos que seriam beneficiados e não estamos nem ai, pois fazemos de conta que não temos nada com isso. Um píer em boas condições de uso representa melhorias, atrai turismo, investimentos e desenvolvimento. Sem o píer todos perdem. É difícil entender isso? Acho que não!

Navegantes, clubes náuticos e população precisam levantar essa bandeira e partir para a luta. Cobrar ações, apresentar denuncias, mostrar para as pessoas o que elas estão perdendo, o quanto às cidades e povoados estão perdendo.

Sempre falei que o Brasil vive de costa para suas águas. Temos um litoral quase sem fim e dotado de infinita beleza. Do mar, o brasileiro curte apenas as praias e, assim mesmo, em dia de Sol. Dos rios, nem isso, pois nem conseguimos mantê-los limpos e despoluídos.

Temos um dos maiores e mais desejados rio do mundo, o Amazonas, e não sabemos e nem podemos aproveitá-lo livremente para a navegação amadora. Não existe apoio para isso, não existe segurança, não existem roteiros e nem guias náuticos confiáveis. Muito menos o interesse de alguma alma boa para fazer isso acontecer. Hoje navegando no baiano Paraguaçu, fico com esse grito preso na garganta. Quanto desperdício! Quanto descaso com a coisa pública! Quanta falta de visão das autoridades!

A Bahia tem sua história intrinsecamente ligada ao mar e das águas surgiram grandes personagens de sua história, navegando em belos saveiros e canoas de tronco. Tudo isso está sendo jogado no lixo como se não fosse nada. Como se não representasse nada. Parece até que querem apagar a história de um povo. O que é isso gente?

Não se comete uma desfeita sem que se pague um preço por ela. A história é inclemente com os malfeitores e usurpadores dos bens públicos. Como é também com quem se cala, se ajoelha, se acovarda e aplaude o descaso alheio.

O Paraguaçu ainda está vivo, porém, entristecido e com um jeitão de um velho abandonado. Não se abandona um velho a própria sorte, porque isso é um crime irreparável. O que vamos dizer as gerações futuras? Será que vamos deixar apenas que os livros contém como era? Que velhas e desbotadas fotografias denunciem o que deixamos para trás? Culpar a quem se os culpados somos nós mesmos.

Aqueles que têm a felicidade de viajar pelo velho continente, pelos EUA ou algum país que valoriza rios e mares, retornam contando maravilhas do que viram por lá. A França com seus canais sendo navegados por confortáveis embarcações. A Espanha com suas belas marinas e portos modernosos. A Croácia com suas águas cristalinas e apetitosas. Os EUA com sua instigante intracoastal waterway. A Turquia, a Grécia, Portugal, Itália, o Mediterrâneo. Tudo lindo, tudo preservado e acenando para o turista. No Brasil temos tudo isso embaixo de nosso nariz e viramos o rosto, porque não queremos cobrar, não sabemos exigir, não queremos enxergar.

Ficamos boquiabertos diante das manchetes dos jornais, quando estes flagram o descaso, a poluição, a destruição dos rios, a corrupção desvairada e no segundo seguinte, esquecemos tudo, pois ficamos conformamos, achando que sempre foi assim e assim será para o sempre.

Nós navegadores desse Brasil imenso, perdemos tempo em debater os últimos lançamentos da indústria eletrônica. Desperdiçamos sonhos em busca de barcos maiores. Confabulamos em intermináveis, e sem futuro, bate papos sob os palhoções dos clubes. Digladiamo-nos para alcançar o poder dentro das associações náuticas e esquecemos o que realmente precisamos. Será que perdemos o norte, ou será que a navegação pura e simples não é a nossa praia?

É com tristeza que olho hoje para as águas do velho Paraguaçu e vejo nelas o reflexo de todos os rios brasileiros. Todos mal amados e esquecidos. Todos precisando de apenas um afago para sair da lama em que se encontram metidos.

Somos todos culpados! Infelizmente!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Comentando comentários

2 Fevereiro (7)

O texto de hoje foi publicado em junho de 2015 na coluna Diário do Avoante, que assino há 8 anos no jornal potiguar Tribuna do Norte. A coluna é publicada aos domingos e foi de lá que saíram as cinquenta crônicas que compõem o livro Diário do Avoante.

COMENTANDO COMENTÁRIOS

Em um giro pelos sites de mídia social busquei assunto para preencher essa página do Diário, mas me vi perdido navegando entre frases e afirmações que me causaram espanto. Não acho que a vida precise ser levada tão a sério a ponto de não podermos atravessar o passo. Minha decisão pelo mar foi para seguir mais próximo de um mundo que um dia sonhei existir. Hoje sei que ele existe!

Sei que não é fácil tomar a decisão de morar a bordo de um veleiro, porque passei por isso e sei o quanto acabrunhado fiquei ao deparar-me com dilemas e medos, mas nem por isso perdi o rumo do sonho. Poderia muito bem ter desistido na primeira encruzilhada, porém, o desejo de seguir em frente bateu pé e sem olhar para os lados continuei caminhando.

Quase sempre me vejo diante de pessoas que pensam fazer a mesma opção de vida que fizemos, mas basta um dedinho de prosa para ter a certeza que o que elas têm é apenas vontade e o não sonho. Vontade é aquela coisa que dá é passa e sonho é aquilo que fica pulsando em nossa mente por toda a vida e enquanto não realizamos ele vai se tornando uma ferida incurável.

É da natureza humana deixar o sonho para depois ou achar que tudo não passa de utopia. Muitas vezes ele está a um passo da realização, porém, teimamos em fechar os olhos para não enxergá-lo. Somos mestres em inventar desculpar esfarrapadas e pavimentar atalhos coloridos para nossas desistências, achando assim que estamos tomando a decisão mais acertada. Acertada para quem cara pálida?

Numa rodada de bate papo pelos mares internéticos, em que fiquei apenas como um mero observador, alguém escreveu, e outros aprovaram, que morar a bordo de um veleiro era uma coisa desumana e que se ele um dia fizesse essa opção, o faria cercado de muito conforto. De início não entendi o “muito”, mas no decorrer do bate papo vi que do outro lado da tela estava um destruidor de sonhos.

Destruidor de sonhos é aquela pessoa que deixou o tempo passar e quando ele finalmente saiu em busca de realizar o sonho de vida, infelizmente percebeu que ele havia passado. Gastou boa parte da vida equipando o barco para a grande viagem, comprando os últimos lançamentos em eletrônica, se inteirando dos melhores conhecimentos náuticos, aperfeiçoando e refazendo tudo a cada virada de ano e quando se deu conta, não tinha condições físicas e nem saúde para tocar o barco.

Mas não pense que o destruidor de sonho é apenas aquele em que a idade avançou um pouco mais da conta, pois ele se apresenta nas mais variadas formas e idade. Tem aquele chato que fica azucrinando os ouvidos alheios e se gabando que seu veleiro é o que existe de mais moderno no mundo e está equipado com os últimos lançamentos do salão náutico do mundo intergaláctico.

Tem também aquele que sofre da síndrome do Joãozinho e adora jogar um balde de água fria na alegria dos outros com frases assim: O meu é melhor do que o seu! O meu é mais moderno do que o seu! O meu é mais perfeito! Se eu fosse você faria igual a mim! O seu não vai funcionar com perfeição! Se a gente ficar enfurecido e apontar para as partes baixar e perguntar: Você tem um desses? Com certeza ele irá responder: – Não, mas tenho um que dá dois desse! O cabra não perde uma!

Em outro grupo os participantes comentavam sobre um velejador estrangeiro, de 76 anos, que morou boa parte da sua vida a bordo no Brasil e que faleceu no começo de 2015. Esse velejador morava em um veleiro de pouco mais de cinco metros e viveu a vida seguindo os manuais de um bom velejador de cruzeiro, que diz assim em seu artigo único escrito em letras imaginárias: Embarque com a alma focada na simplicidade, perseverança, prazer, alegria e paz.

Infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo, mas ao ler os comentários, contidos no grupo de bate papo, vi com tristeza que sua forma de vida estava sendo passada a limpo de uma forma destorcida, perversa e por pessoas que nem chegaram a conhecê-lo. Alguém o acusou de mendicante, outro de maluco e, como sempre, teve quem o definisse como um grande irresponsável.

Mas é assim mesmo. Quem resolve fugir dos parâmetros estabelecidos pela sociedade, que nem sempre são tão estabelecidos assim, tende a receber estigmas. A vida em um veleiro é bela, rica em simplicidade e incrivelmente desarmada de tendências e modismos. Quem decide por ela tem que saber dosar os sentidos e a razão.

A urbanidade é uma velha feiticeira que sabe iludir suas crias em um mar de emoções. O mar é um velho mágico transvertido de encantos.

Não me acuse de estar fazendo apologia à vida a bordo, mas se quiser pensar assim pode ficar certo que você está certíssimo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – V

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Sinceramente não consigo aceitar o descaso que faz com que as cidades e povoados ribeirinhos do Rio Paraguaçu, e de tantos outros que cortam o nosso país, fiquem sem um píer de embarque e desembarque. Para mim isso é um crime administrativo que está sendo acobertado por aqueles que têm o dever de punir.

O Paraguaçu é uma joia rara para a navegação de esporte, turismo e recreio. A falta do equipamento é no mínimo uma vergonha que precisa ser reparada. Em alguns lugares até que ele existiu em outra época, mas o que sobrou dos escombros está lá, como uma denuncia a céu aberto e as autoridades viram o rosto para não ver.

Dizem que o problema é com a nossa política ambiental, recheada de exigências utópicas que engessam e engavetam ideias e novos projetos. Acredito piamente nessa afirmação, mas alguma coisa tem que ser feita para que se encontre uma saída para o impasse. Por que será que os ambientalistas não caem de pau em cima da construção de novas estradas, ruas e becos? E as comunidades que avançam despreocupadamente sobre os morros e áreas verdes das cidades? Tem alguma coisa fora da ordem!

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São Francisco do Paraguaçu estava lá, entristecido no alto da torre, com seu histórico Convento entregue as agruras do tempo, e depois de uma noite tranquila e silenciosa, desembarcamos para desbravar o lugarejo.

O Convento e a Igreja de São Francisco são dotados de uma beleza arquitetônica de doer na vista por dois motivos: O primeiro é que os prédios são realmente imponentes; O segundo é pelo estado de abandono, apesar de estarem acobertados pelas asas indiferentes do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

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Na visitação ao interior da Igreja é cobrada uma taxa de R$ 5,00, que infelizmente não consegui saber para que serve. Foi dito também que aos sábados é realizada uma missa, porém, não demos conta se ela ocorreu. Para os amantes da arte da fotografia o conjunto arquitetônico é impar e o pôr-do-sol é simplesmente deslumbrante com tantas belas linhas servindo de moldura.

O povoado é pequeno e bem menor do que São Tiago do Iguape. O comercio funciona pela manhã até meio dia e no período da tarde abre somente a partir das 16 horas. Com uma população de dois mil habitantes, São Francisco é uma cidade pacata e segundo os moradores, não existe violência e todos se conhecem. Para quem gosta de festa, o povoado não é um bom lugar, porque não existe a barulheira noturna e nem diurna. O barulho, quando acontece, fica a cargo da ignorância e má educação dos donos dos paredões de som. Para essa raça não existe a palavra respeito e nem lei que os atinja.

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Como aconteceu em São Tiago, os amigos indicaram para que procurássemos os proprietários do restaurante Santo Antônio, Seu José de Souza e Dona Maria José, duas pessoas fantásticas, extremamente atenciosas que nos acolheu com muito carinho. Quando Dona Maria soube que Lucia gostava de cozinhar, se animou toda e o papo rolou solto até umas horas. Era tanta da receita de um lado e do outro que quem estava de longe deve ter ficado com água na boca só de ouvir.

Fomos convidados para almoçar com eles no dia seguinte, mas quem preparou o prato foi Lucia: Moqueca de Fruta Pão, que ela aprendeu com a saudosa Dona Onília, lá das terras de Camamu. Dona Maria gostou tanto que incluiu a iguaria no cardápio do restaurante.

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Como é gostoso momentos assim! São essas coisas que enche a nossa alma de alegria e nos dá a certeza que estamos no caminho da paz e da harmonia. É maravilhoso receber o abraço apertado, o aperto de mão com firmeza, de pessoas que até então nunca tínhamos visto e saber que a partir dali podemos cravar mais uma amizade verdadeira e sem maiores interesses. Foi assim também com o Liu, proprietário do Bar do Liu, na beira do Paraguaçu, que sem nos conhecer se prontificou a olhar o nosso bote inflável na areia e tratando logo de desanuviar qualquer sinal de preocupação de nossa parte: – Pode deixar ai que aqui ninguém mexe em nada!

Deixamos São Francisco do Paraguaçu num domingo pela manhã, aproveitando novamente a maré de vazante, mas levamos uma ponta de saudade daquele lugar onde fizemos boas e sinceras amizades. Não conhecemos muita coisa, além das ruas do povoado e das ruínas do Convento. Soubemos que existem trilhas e cachoeiras na mata que vale o esforço da caminhada. Mas essa parte ficou para a próxima visita.

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Alguém comentou que o fundeio merecia uma dose maior de atenção, mas não pude confirmar a informação. Tivemos três dias de muita paz e tranquilidade com o Avoante despreocupado na ancoragem. Agora posso dizer com muita certeza: A Baía do Iguape é encantadora e o nosso Brasil é lindo sim senhor!

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – IV

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A Baía do Iguape é um mundo de água cercado por um vasto manguezal. Em suas margens se debruçam o município de Maragojipe e os povoados de Nagé, São Francisco do Paraguaçu, São Tiago do Iguape e outras povoações menores, além de pequenas ilhas, entre elas a do Francês, que divide o rio ao meio, e do Coelho, que tem um fundeadouro maravilhoso. A baía é rica em várias espécies de peixes, moluscos e mariscos, entre eles se destaca o camarão.

Iguape é uma RESEX – Reserva Extrativista Federal, com 10.082,45 hectares, ligada ao ICMbio. Grande parcela da população vem de origem quilombola e sobrevive da pesca artesanal, cultura do fumo e agricultura familiar.

A navegação no Rio Paraguaçu não oferece grandes perigos, mas é indicado estudar bem a carta náutica e seguir com atenção os waypoints demarcados. O problema maior são as redes de pesca que não são poucas, mas nada que um bom comandante não resolva. Continuar lendo

O grande mar – III

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A primeira vez que desejamos navegar até São Tiago do Iguape foi em 2009, mas naquele ano as chuvas, os ventos e o frio nos fizeram retornar de São Francisco do Paraguaçu, cinco milhas náuticas antes, e deixamos a oportunidade passar adiante, porém, o desejo nunca passou.

No começo de 2015 o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros falou assim: – Nelson, você escreve maravilhas sobre a Baía de Todos os Santos, mais até do que muitos baianos. Você precisa escrever sobre a Baía do Iguape e todas as cidades banhadas por ela, pois ali está a verdadeira história da Bahia. Confesso que fiquei lisonjeado com as palavras do amigo, mas fiquei corado quando ele me colocou acima de “muitos baianos”. Deve ter sido piada!

Ele me fez retornar até 2009, o desejo aflorou novamente e dessa vez, com força total. Vou a Iguape, faça sol ou faça chuva!

Com as fogueiras sendo armadas em frente às casas nas ruas da Ribeira, soltamos as amarras que prendiam o Avoante ao píer do Angra dos Veleiros e debaixo de uma chuva forte subi as velas e aproei a Ilha de Itaparica, onde comemoramos o São João. De lá, tomamos o rumo de Salinas da Margarida para festejar o outro santo junino, o poderoso São Pedro. Os dois santos forrozeiros mandaram ver nas chuvas e estas castigaram Salvador e as cidades do Recôncavo Baiano durante todo o período festivo. Entre uma chuva e outra fomos ficando em Salinas, curtindo a velha e boa preguiça que sempre bate na gente nos dias de chuva e frio.

Numa manhã nublada, quando já descambava para seis dias de ancoragem em Salinas, suspendi a âncora, icei as velas e aproei a foz do Paraguaçu. Pronto, estava novamente no rumo de Iguape e onde os amigos diziam ter camarão em banda de lata.

A ideia inicial era ancorar em algum lugar ao longo do rio, mas a velejada estava tão boa, com o Avoante navegando na estonteante velocidade de média de 2 nós, que as ideias foram mudando, os locais planejados foram ficando para trás e quando o sol se preparou para ir embora, numa curva do rio, surgiu as torres da Igreja e logo estávamos jogando âncora em frente ao povoado, com a noite tomando forma em meio ao lusco-fusco. Foi uma noite tranquila e de belos sonhos.

Quando o dia amanheceu e botei a cabeça para fora do barco, me deparei com a canoa Carolina de onde o pescador gritava: – Gringo, camarão? Olhei para os lados e como não havia outro barco na ancoragem, deduzi que o gringo era eu mesmo. – Quero, pode chegar!

Foi ai que conheci Seu Lito, um pescador boa praça e que nos adotou como amigos logo de cara. Compramos o camarão, mas como não tínhamos gelo, ele se ofereceu para levar para sua casa e guardar no freezer. Beleza! Ele ensinou o endereço e combinamos que pegaríamos no dia seguinte.

Como a maré estava baixa, esperamos ela subir para poder desembarcar. Como assim? O desembarque é o ponto franco em Iguape e em todas as cidades que margeiam o Paraguaçu, porque a lama espessa que se deposita no fundo torna o desembarque um tremendo desconforto.

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Infelizmente a visão dos administradores não permite que eles enxerguem o apoio a navegação como um bem maior para incentivar o turismo e o desenvolvimento das cidades. No passado existia sim um píer para embarque e desembarque, mas o que restou dele virou escombros abandonados que enfeiam a paisagem.

A maré subiu e desembarcamos. Precisávamos comprar gás de cozinha e água mineral, o que foi resolvido na primeira mercearia em que Lucia parou e bem próximo ao porto. Em seguida saímos em busca de Dona Calú e Seu Jarinho, proprietários de um pequeno comércio de bar e mercearia. Eles foram recomendados por alguns velejadores baianos que outrora estiveram por lá. Seu Lito nos informou que há muitos anos não ancora por ali veleiros com bandeira brasileira e por isso ele achou que éramos gringos.

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Como Dona Calu e Seu Jarinho são mais conhecidos no povoado do que farinha, não foi difícil achá-los. Do primeiro interlocutor já recebemos as coordenadas: – No primeiro pé de amendoeira que encontrarem na praça a mercearia deles é na frente. E era mesmo! O casal é uma simpatia e logo que fizemos as apresentações viramos amigos de longas datas. Eita povo bom!

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É esse carinho espontâneo e a simplicidade que me encanta.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – II

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A igrejinha está lá, imperiosa e debruçada sobre as margens do rio como um marco de imponência. A primeira construção, obra dos jesuítas, data de 1555 e por ai se vão 460 anos. Devido a sua importância recebeu em 1608, sanção canônica de Matriz. Se o resultado da obra nos dias de hoje é de deslumbramento, fico imaginando como terá sido a reação dos índios e fieis quando se deparam com aquele monumento sagrado em meio à paisagem cercada de mata e água. Claro que, pela ousadia do desbravamento e costumes da época, ao barro foram acrescidos muito sangue e suor, mas dizem que para tudo tem o outro lado da moeda. Mas não é o homem um eterno senhor da razão quando quer justificar crueldades?

A igreja foi construída nas terras de Antônio Lopes Ulhoa, senhor do engenho São Domingos e Cavalheiro da Ordem de São Tiago de Compostela, e por trás dela foi se formando um pequeno povoado que chegou a ter grande importância para a economia baiana. Em 1783, com a expulsão dos jesuítas do Brasil, por ordem do Marques de Pombal, a igrejinha foi arruinada para ser reerguida logo depois, mas a vida no povoado seguiu em frente.

Entre o abandono da primeira igrejinha e o surgimento da segunda, o povoado foi perdendo sua força e hoje não passa de um pequeno distrito do município de Cachoeira, com pouco mais de 3 mil habitantes, que sobrevivem principalmente da pesca artesanal e das aposentadorias do INSS.

O comércio e pequeno, talvez possa dizer que seja mínimo, onde podemos encontrar o básico. Um posto de saúde, escola pública, correio, delegacia, uma praça e um povo acolhedor e atencioso com o visitante. As ruas e vielas seguem um desenho muito parecido com a velha Itaparica, onde todas terminam na praça. Esse é o cenário dos dias atuais e que não deve fugir muito do que era vislumbrado há mais de 400. Mas sinceramente, achei fantástico.

Nos tempos áureos, ou de políticas governamentais comprometidas com o bem de tudo e de todos, existia um pequeno navio de passageiros que fazia a linha passando por lá, depois de navegar outras cidades do Recôncavo, e retornava a capital num vai e vem gostoso. Os tempos eram outros, a vida mais simples e acho até que o povo era mais feliz.

A velha Matriz sobreviveu às agruras do tempo, porém, em 2013 recebeu a visita dos amigos do alheio que profanaram suas dependências e afanaram sete imagens do séquito de santos que compunham seu altar. Restou solitária a imagem do padroeiro São Tiago, que devido ao peso e tamanho não pôde ser levada. Era noite de festa na cidadezinha e ninguém se deu conta de uma caminhonete sorrateira estacionada numa viela escura. O crime deve ter sido encomendado e abençoado por algum filho da peste e até hoje resta o disse me disse e a saudade dolorosa das imagens dos santinhos.

A Matriz continua precisando de atenção e acho até que ela seja tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Pela Lei do tombamento, os prédios que merecem tal reconhecimento são aqueles de grande valor histórico, artístico e cultural. Só não entendo o porquê de a Lei ser tão conivente com o estado de ruinas, alguns vergonhosos, em que se encontram a grande maioria dos prédios tombados. Mas deixa ver.

Bem, antes de sair da linha, estava falando sobre São Tiago do Iguape, uma encantadora cidadezinha na margem do Rio Paraguaçu, onde ancorei o Avoante depois de navegar 36 milhas partindo de Salvador. Iguape na língua tupi quer dizer: Lugar existente no seio d’água. Navegar até lá representou uma das grandes alegrias que tive em todos esses anos de morador de veleiro.

Ancoragem tranquila, silenciosa e deliciosamente abençoada pela beleza arquitetônica da velha Matriz, que não cansei de admirar e fotografar. Cheguei ao ponto de acordar e levantar no meio da madrugada, já que o Avoante estava ancorado em frente, para retratar a sombra da igreja refletida no espelho da água.

Sinceramente não consigo entender as causas que levaram importantes cidades do passado a ficarem estupidamente abandonadas à própria sorte. Os livros de história se esmeram em relatar os fatos, mas as peças não se encaixam em minha cabeça de vento. Qual o padrão que seguimos? Padrão europeu? Ou será o americano? Será ideológico? Sei lá! Fazemos tudo tão confuso que aposto um doce como ninguém sabe realmente responder.

Vivemos sempre na fase do entre, sem aprender com os erros do passado para um dia tentar desanuviar o futuro. Dizem que somos assim mesmo e assim brincamos de ser feliz. Dizem até que somos o país do futuro. Pense num futuro distante!

Ah! O nome da Igreja? Matriz de São Tiago do Iguape. Uma lindeza que só vendo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – I

6 Junho (129)

O slogan é ufanista sim senhor, mas dificilmente encontraremos algum nativo, por mais cético que ele seja, para assinar embaixo de uma contestação: Bahia, terra mãe do Brasil! E quem sou eu para dizer o contrário.

Sempre que adentro as históricas águas do Rio Paraguaçu, me vejo diante de um cenário deslumbrante, entrecortado por alguns clarões que demonstram a sanha dos desmandos produzidos pelos caras pálidas. Queria mesmo saber se na língua tupi existe uma palavrinha para substituir a expressão “besta quadrada”. Se existir, deve ser um baita palavrão, pois o povo índio é bom em resumir palavras abreviando os pormenores.

O Paraguaçu – grande mar na linguagem tupi – é uma imensa estante de uma biblioteca a céu aberto, recheada de livros imaginários, mas que narram em poemas uma história fascinante.

Nesses dez anos morando a bordo do Avoante, em que a Bahia foi o meu porto mais constante – tanto que ainda não consegui atravessar sua fronteira navegável, porque ainda não conheço tudo o que desejei conhecer – naveguei umas poucas vezes as águas do velho rio e sempre fui tomado por uma professoral entidade saída dos arquivos recônditos da história, que me faz ver com tristeza os rumos maledicentes que as coisas tomaram.

Contam a boca pequena que a área de mata que cerca a rio Paraguaçu já disputou pareia com a floresta amazônica. Se a afirmação é verdade eu não sei, mas um dia alguém escreveu sobre isso e olhando em minha volta, do cockpit do Avoante, não duvido mesmo. É muita mata ainda em estado bruto!

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Algumas traquinagens foram cometidas no passado e o presente nos mostra que os traquinos continuam em franca atividade. As margens do Paraguaçu ainda conservam muito da sua beleza, talvez até mais do que os defensores do progresso a todo custo desejassem que fosse, porém, por trás dos montes e longe dos olhos dos navegantes, a desfaçatez do homem paira sobre a poeira de uma devastação galopante. Continuar lendo