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O desmonte de um paraíso

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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Uma prosa e um dedinho de conversa

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Corriam os preparativos para uma regata nas águas do Rio Potengi quando, numa tarde de Sol de 2015, dois amigos bons de papo se programaram para participar da prova. A flotilha de Snipe voltou a se empolgar e cada treino é uma forma de conseguir mais adeptos. E assim o Snipe vai renascendo no Potengi.

No dia da regata, um dos participantes notou que um barco concorrente estava com as velas folgadas e por isso não conseguia avançar a contento. O observador fez o possível para chegar um pouco mais perto do veleiro quase parado no tempo e percebeu que a bordo estavam aqueles dois amigos, conhecidos proseadores, desses que falam mais do que o homem da cobra. Ele se aproximou, sem ser notado, colou o barco no outro, novamente sem ser notado, e esperou que algum dos tripulantes do outro barco desse uma pausa para respirar. Entre uma palavra e outra ele gritou: – As velas estão folgadas, por isso vocês não estão navegando bem.

Os tripulantes do barco abordado ouviram aquilo, olharam para as velas, se entreolharam e responderam: – Vixi, a gente nem tinha notado. Estávamos aqui numa prosa boa danada que esse detalhezinho passou despercebido. E a regata prosseguiu assim!

O Snipe é a base da fundação do Iate Clube do Natal, mas o tempo e algumas diretrizes alheias a razão fizeram com que a estrutura fosse se deteriorando, esquecida nas sombras empoeiradas de um galpão. Velhos snipistas recolheram as velas e em vez do grito forte de “áaagua” o que se ouve são lamentos e lampejos de saudosismo. De vez em quando, nos palanques festivos diante de autoridades, o Snipe é mencionado com ênfase de grandeza e voz impostada.

Infelizmente a vela não se renovou, mas isso não é culpa apenas dos que timoneiam o Iate Clube do Natal. Na grande maioria dos clubes náuticos brasileiros a vela passou a ser tratada como um esporte sem nenhum futuro pela frente. Os motores passaram a preencher os espaços nos pátios e a roubar a cena na água. Os adeptos dos motores assumiram o comando do timão dos clubes e levaram os velejadores a mendigarem por atenção.

Esporte a vela necessita de doutrina, trabalho, paciência, determinação e disciplina. Ele forma cidadãos com uma sólida base educacional e focados em bons valores comportamentais. Forma também jovens comprometidos com o meio ambiente e com ideais cooperativistas. Um barco a vela é um excelente laboratório para treinar equipes e desenvolver sistemas de liderança. Mas tudo isso está praticamente abandonado nas garagens náuticas ou se acabando ao relento.

Logo no nosso Brasil, onde tanto se reclama da falta de incentivos para a educação, do abandono das escolas, da falta de professores, da educação zero, das cadeiras quebradas, da falta de infraestrutura, do abandono da ética e etc… . Reclamamos, mas quando assumimos o comando de um clube náutico, que poderia contribuir com a educação e mudar o quadro social de gerações futuras, fazemos ouvidos de mercador e viramos as costas. E ainda abrimos a boca para dizer que não temos tradição náutica. Desse jeito não podemos ter nunca!

É preciso dizer que muitos barcos que pertenceram às escolinhas foram doados aos clubes por programas do Governo Federal. A grande maioria ainda está em poder dos clubes, que não sofrem nenhuma forma de fiscalização quanto ao uso e manutenção. Descaso, essa sim é a nossa tradição!

Não se faz educação da noite para o dia como bem quer um curso intensivo qualquer. Educação se faz com perseverança, boa vontade, insistência e determinação. Foi-se o tempo em que nosso país primava pela boa educação e ética nas escolas. Hoje, dizem os entendidos, o que importa é ensinar o aluno a ser competitivo na profissão e para isso qualquer malandragem é bem vinda.

A vela no Brasil teve seu auge de glória e excelentes velejadores. Os clubes brasileiros eram respeitados e equipados com os mais modernos barcos de competição. As escolinhas eram abarrotadas de alunos e os professores verdadeiros mestres. As regatas eram as festas mais importantes para os clubes e os campeões estaduais de cada classe gozavam de reconhecimento nacional.

Quem mudou esse quadro juro que não sei, mas sei que ele cometeu um atentado contra a educação brasileira e foi nacionalmente seguido por seus pares. Os clubes se transformaram em espaços voltados apenas para o interesse do sócio dito “social” e perderam o rumo. Hoje estamos diante de um incrível paradoxo: Em alguns clubes o proprietário de um barco não consegue ser admitido justamente por ser proprietário de um barco. A coisa está feia e vai piorar!

Torço para que os abnegados da flotilha de Snipe de Natal consiga ressurgir das cinzas e que nossos amigos, mesmo proseado, sigam navegando.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Minha Mãe não é uma figura

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“Defina a figura de uma mãe e concorra a brindes.” Li essa frase em um desses folhetos publicitários que emporcalham as calçadas das nossas cidades e sinceramente não entendi o que a “genialidade” daquele anuncio queria dizer. Estava sentado num banco de uma praça central, observando a cidade desfilar em minha frente, enquanto Lucia fazia compras em um armarinho próximo. Adoro viver esses momentos e sentir a pulsação que emana das ruas. Mas aquele folheto me encucou.

Definir a figura de uma Mãe? Definir a figura? Os dicionários dizem assim: Figura e a forma exterior de um corpo, de um ser. Aspecto, aparência, estatura, configuração de pessoa humana: uma bela figura. Personalidade marcante, vulto. Imagem, símbolo, emblema. Mãe não é figura. Mãe é Mãe! Assim mesmo com “M” maiúsculo. Não me queiram mal, mas é assim que vejo.

Não posso definir minha Mãe apenas como uma pessoa amada, corajosa, atenciosa, humilde, amiga, valente, forte, sincera, solidária, acolhedora, festeira, temente a Cristo e a todo seu séquito de santos, porque ela é muito mais do que isso para mim. Minha Mãe é tudo e me desespero somente em imaginar sua falta. Não consigo definir minha Mãe, porque amor de Mãe não se define.

Mamãe, como é gostoso festejar mais um dia sabendo que a Senhora está ai, pronta a me receber de braços abertos e a qualquer hora do dia. Como é gostoso sentir o seu cheiro mesmo estando à milhas de distância de sua presença. Como é bom sentir o contato de sua pele e alisar seus cabelos através da fantástica magia telepática que se faz presente na mente de um filho.

Festejo sim o dia das Mães, mas saiba que o festejo todos os dias de minha vida e em nenhum milésimo de segundo a Senhora é esquecida. Sua imagem me sorri a cada passo que dou e por isso vacilo em alguns quando não a vejo sorrindo. Seu exemplo de vida é uma fortaleza de energia e a cada rasteira que a vida tenta lhe impor, mais a Senhora se agiganta.

Há pouco menos de um ano a visitei em uma UTI de hospital e aquilo para mim foi um choque. Minha alma pedia para que não entrasse, mas a mente bateu pé e entrei. Quanta tristeza! Quanta emoção! Quantas lágrimas tive que segurar em ver a Senhora me olhando e sem falar nada me pedir para retirá-la dali. Saí daquela UTI com o coração dilacerado e ouvindo a alma me sussurrar: Eu pedi para que não entrasse, agora seja forte! A enfermidade passou e a Senhora voltou a usar seus trajes de Rainha. Minha Rainha! Por favor Ceminha, nunca mais me assuste assim.

Claro, essa é minha Mãe, minha Ceminha, a pilastra mestra de minha estrutura. Não tenho como sentir diferente, pois é isso que sinto. Não estou a definindo, mas mesmo que assim fosse, estaria definindo a minha Mãe e ela é diferente da Mãe dos meus irmãos. Cada um sente do seu jeito. Cada um ama de uma forma. Cada um tem seus sentimentos. E sei que todos a idolatram, mas a minha Mãe é a minha Mãe.

Outras pilastras compõe o corpo de um homem, mas nenhuma tão forte e estruturalmente tão bem concretada como a que uma Mãe representa. Olhando para elas parecem frágeis, mas são dotadas do material que compõem as mais duras rochas produzidas na natureza. Não as subestimem

Mas e o panfleto? Pois é, ele ainda continua a me incomodar e acho até que poderia participar daquele concurso. Poderia muito bem escrever apenas a palavra amor e esperar pelo resultado. Mas tenho quase certeza que nem ficaria entre os últimos colocados. Talvez sim, porém, amor nos dias de hoje é um sentimento muito comum e até banal. Os marqueteiros querem coisas novas, palavras novas, sentimentos novos. Não, amor não ganha nada!

Poderia até escrever tudo que escrevi ai em cima, mas acho que ficaria muito longo. Será que os jurados teriam paciência para ler? Hoje as pessoas não gostam de ler mais do que cem caracteres. Não, não vou participar daquela promoção que transforma Mãe em figura. Estou decidido e nem sei onde coloquei o panfleto e nem lembro o nome da loja.

Minha Ceminha, desejo que nesse dia a Senhora tenha todas as alegrias do mundo e vou apenas lhe fazer alguns pedidos, porque sei que serei atendido: Em suas orações peça por todas as Mães do mundo e também por aquelas que já não estão entre nós. Peça também conforto para o coração das Mães daqueles velejadores, que como seu filho, navegam loucos pelos oceanos do mundo.

Um grande beijo minha Ceminha e fique em paz.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Resquícios de um grito

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Texto publicado na coluna Diário do Avoante, no Jornal Tribuna do Norte.

No mês de fevereiro abri uma página desse Diário para soltar um grito solitário e cheio de revolta com toda essa violência que nos apavora e que todo dia apresenta roteiros cada vez mais monstruosos. O meu grito ficou lá – como previ – largado ao vento e seu eco esquecido para sempre. Bem feito. Para que danado um velejador se mete a sair por ai dando grito a torto e a direito? Era melhor que engolisse a raiva em silêncio.

Pois bem, o tempo passou, fevereiro ficou para trás com sua folia de momo, a Terra deu alguns rodopios pelo espaço vazio e a sacana da violência se arma a cada dia de mais coragem e avança a passos largos sobre nossa cabeça, nossa dignidade, nossa alma, nossa fraqueza. Não temos mais nem forças para indignações, pois isso não mais nos pertence. Não temos esse direito.

A besta fera está caminhando à vontade pelo nosso país e recebendo adeptos a cada segundo. Não existe força capaz de frear sua sanha avassaladora. Estamos de mãos atadas esperando a bordoada final e triste daquele que tente se meter a brabo. Não tem perdão. O perdão é concedido apenas aos soldados da besta fera. Os anjinhos. Os meninos bons. Os não fez nada. Os incompreendidos. Os inocentes. Os injustiçados. Os excluídos. Os guris. Os Boys. Adjetivos não faltam para apelidar os soldadinhos das trevas.

Mas o que danado eu tenho haver com isso, se quem tem a prerrogativa de fazer alguma coisa prefere se fechar em copas? O meu grito eu já dei no Carnaval que passou e só me fez ficar rouco, nada mais. Como diz um amigo meu: Nelson, prefiro você falando de mar.

Meu amigo, eu também prefiro e fui para o mar para fugir de toda essa lama que emporcalha as ruas das nossas cidades. Embarquei com a esperança de lavar a alma navegando em busca da lendária Shangri-la da harmonia, da paz, da felicidade, da saúde e sei que encontrei. Mas infelizmente estou sendo impedido de ficar em um lugar tão mágico e oculto. Aos meus ouvidos chega o rosnado da fera através dos sinais desenhados nas nuvens internéticas e me recolho no vazio da tristeza.

Dói escutar o clamor dos verdadeiros injustiçados. Dói ouvir o choro de famílias dilaceradas. Dói ter a certeza absoluta que a justiça é mesmo cega, surda, muda e que a balança faz tempo que não é aferida. Dói escutar minha Mãe dizer: Meu filho, a bandidagem aqui por perto está uma coisa séria e não temos a quem recorrer. Pois é meu amigo, prefiro sim falar do mar e da poesia que ele representa. Mas minhas raízes e meus frutos estão em terra. Queria eu não precisar gritar.

No final de março a comunidade náutica da Bahia foi acordada com mais três casos de assaltos no mar da Ilha de Itaparica. Três barcos estrangeiros foram invadidos e felizmente tudo terminou em alguns objetos roubados. Outro assalto aconteceu em um barco ancorado em frente à sede da Capitania dos Portos da Bahia, em plena capital baiana, e demonstra a ineficiência daqueles que tem por lema proteger o navegante.

Discursos alarmados vindos do mar da Bahia foram ouvidos e nada mais se deu. Críticas e comentários bairristas navegaram nas mídias sócias vindos dos mares do sul, sudeste e até do nordeste, numa clara demonstração de desprezo, inveja e da contaminação da raiva existente entre nós brasileiros. Fui cobrado por alguns colegas por não noticiar os casos na época, mas preferi calar e esperar o maremoto acalmar. Sabia que ainda não era tudo e sei que muito ainda virá, porque a violência está imune ao combate e na verdade não queremos e nem temos forças para acabar com ela. Queremos reclamar e espernear, mas desde que seja apenas diante de um teclado de computador. O resto não é com a gente.

Abril 2015, feriadão de Tiradentes, três veleiros foram roubados na Ilha da Cotia, litoral de Paraty, e deles levaram os botes infláveis com motores de popa. Mais uma vez o mar como pano de fundo para a violência, só que dessa vez não era mais no mar da Bahia, do nordeste ou do norte tão desabonados por alguns navegantes do sul e sudeste há pouco mais de um mês. A violência – para não fugir do jargão policial – pegou geral. Recorrer a quem? Pedir ajuda a quem? Reclamar a quem?

Não existe mais lugar seguro nesse Brasil de todos em que todos têm direitos e poucos têm deveres. Vamos continuar caminhando olhando de lado e duvidando de todos, porque assim dizem que caminhamos para o desenvolvimento e em busca de uma grande justiça social. Não podemos reclamar da violência, porque dizem que o governo está combatendo e a gente é que não quer ver. Na verdade, não podemos nem ter a ousadia de reclamar, porque quem reclama é taxado de ser de direita e ser de direita é pecado mortal.

Sabe de uma coisa: Meu amigo tem toda razão!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um caso aqui, outro acolá

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Numa rodada de violão a bordo do Avoante, numa noite de lua nova sobre o mar da Ilha de Itaparica, surgiu à história do velejador que tinha em seu barco um motor super econômico que nem ele sabia avaliar o consumo.

Saíram dois amigos navegando cada um em seu veleiro com vento macio e mar de almirante, quando sem ter nem pra que, um deles decidiu ligar o motor. Diz ele que era para dar uma carga nas baterias, mas o outro acha que era para conseguir navegar um pouquinho mais rápido. Fica assim o dito pelo não dito.

Depois de uns quinze minutos em que o motor zoava em meio à noite, o bicho deu um piripaque e parou. Sem entender o que se passava o velejador tocou novamente na chave e escutou apenas um suspiro de reclamação. Ele arregalou os olhos e quando se virou para a esposa ela estava com os olhos mais aboticados do que os dele e já na eminencia de puxar os cabelos.

O velejador respirou fundo para retomar a razão, olhou em volta e correu para a cabina para acionar o rádio VHF e pedir socorro ao amigo que navegava um pouco mais a frente. As primeiras palavras saíram meio atrapalhadas e quase aos berros, mas depois de outra respirada forte as palavras fluíram para ele conseguir explicar a situação: – Amigo, meu motor parou e agora? O outro não contou conversa e deu a solução: – Rapaz, seu barco é a vela, então vá velejar e se acalme! Pois num é que era verdade!

Respirou fundo novamente, enxugou o suor que a essas alturas do campeonato escorria em sua testa e partiu para regular as velas e tentar chegar ao local da ancoragem. Fez tudo certinho, com a calma que o momento exigia, e conseguiu.

O amigo veio até o seu barco e juntos foram tentar achar o motivo do problema. Mexeram daqui, sacudiram de lá, apertaram parafusos, bateram no motor, sopraram mangueiras, ficaram na iminência de virar o motor de cabeça para baixo e entre um aperto e outro o amigo perguntava se tinha combustível. A resposta era sempre a mesma: – Tem e esse motor é super econômico.

Sem mais o que fazer, sem mais onde mexer, o amigo insistiu na pergunta do combustível e foi quando o velejador respondeu que sabia que tinha, pois havia enchido o tanque há oito meses, mas sabia que o motor era econômico e tinha certeza absoluta que ainda havia combustível no tanque.

O amigo deu uma olhada de través para ele e pediu para verificar a afirmação. Amararam um parafuso em um cabinho e quando jogaram dentro do tanque o danado ficou pulando e fazendo barulho por quase dez minutos, anunciado a secura do tanque. O velejador arregalou os olhos novamente e disse: – Mas homi, eu jurava que ainda havia diesel, pois esse motor é super econômico. O outro respondeu: – Eu sei, mas de vez em quando é bom você colocar nem que seja um pouquinho.

Depois da história do combustível o violão voltou a tocar e após duas músicas parou novamente para alguém contar outro caso.

Outro velejador brabo que nem um siri numa lata estava com o veleiro ancorado na Baía de Tínhare/BA, quando na boquinha da noite deitou para dar um cochilo no cockpit enquanto a esposa fazia uma arrumação na cabine.

Com o sono quase ferrado escutou bem longe o barulho do motor de uma escuna se aproximando e em seguida o marulhar de alguma coisa caindo na água. Com os olhos fecha não fecha e o sono tomando conta do seu pensar, escutou a escuna indo embora bem devagar e novamente o marulhar de águas em movimento bem próximo ao veleiro.

Num segundo ele abriu os olhos e ficou atento ao barulho, mas como não escutou mais nada, fechou novamente os olhos e tentou pegar no sono. Uma pulga beliscou seu juízo e ele levantou para dar uma olhada ao redor e nessa hora viu um homem remando um bote inflável se dirigindo para um igarapé. Num lampejo sua vista procurou pelo seu bote e viu o canto mais limpo do mundo. Ele deu um gritou e somente recebeu como resposta uma risada e o grito de: Perdeu!

Brabo como ele é, teve que engolir a brabeza e se contentar com a perda e ter ainda que ouvir a gozação dos amigos que não deixam barato. Até hoje quando alguém pergunta pelo ocorrido, ele insiste em dizer que estava dormindo e que nem viu quando levaram o bote. Mas o interlocutor pergunta de propósito apenas para ver a sua face vermelha da raiva, que depois de quase dez anos ainda não passou.

Tem outra boa sobre inflável que aconteceu durante a reunião de comandantes para a regata Aratu/Maragogipe, mas essa vai ficar para outra página desse diário, porque o moído é grande.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um grito solitário

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A morte de um velejador holandês na madrugada do domingo de Carnaval na Baía de São Marcos, no Maranhão, reacendeu uma luz vermelha sobre o mar brasileiro para os velejadores estrangeiros e gerou centenas de comentários acalorados nos blog náuticos e nas redes sociais, mas que infelizmente não passarão de palavras soltas ao vento e sem nenhum efeito prático para que as autoridades tomem ciência. A violência no Brasil virou uma indecifrável banalidade e dificilmente sairemos de suas garras num futuro próximo.

O velejador de 60 anos dormia ao lado da esposa quando foi surpreendido por três bandidos dentro do barco. Depois de uma rápida discussão o velejador levou um tiro e morreu na hora. Os noticiários anunciaram que os marginais não roubaram nada, o que é uma grande inverdade, pois levaram o maior bem que é a vida de uma pessoa. Ou será que isso não tem mais valor no mundo de hoje?

Até quando iremos conviver pacificamente com cenas como essa? Até quando vamos permitir que a brutalidade e a barbárie nos intimide e aprisione o silêncio do nosso grito de horror? Até quando vamos ficar acovardados diante das promessas vãs das nossas ditas autoridades e aplaudindo a desfaçatez de suas falas mansas cheias de subterfúgios? Até quando?

Sei que minha voz não é nada e muito menos representa um pingo de água em meio ao oceano, mas estou farto dessa violência desenfreada que assola o Brasil de ponta a ponta. Estou cansado da falta de rumo e de pulso dos homens que comandam nossos tribunais com uma leniência descarada e que envergonha a nós. Queria mesmo saber como é que nossos valorosos homens das leis deitam a cabeça no travesseiro e dormem o sono dos justos, sabendo eles das injustiças que cometeram durante o dia nos tribunais.

Precisamos de homens que tratem os marginais, de todas as esferas, como eles merecem ser tratados. Precisamos de respostas rápidas, claras, objetivas e corajosas para podermos ter a paz e a liberdade que a vida merece. Chega de passar a mão na cabeça de bandidos ou cobri-los com o manto utópico da exclusão social, pois eles não sentem nada por suas vítimas a não ser desprezo.

Eles não são excluídos, excluídos somos nós que não podemos caminhar despreocupados e sem medo pelas ruas da cidade. Nem dentro de casa temos mais sossego. Excluíram a nossa paz, roubaram a nossa tranquilidade, aniquilaram nossa liberdade, matam por matar, roubam por roubar e riem da nossa cara de palhaço amedrontado. Isso mesmo, palhaços é o que somos.

“Raiva, muita raiva”. Foram essas as palavras ditas pela esposa do velejador assassinado no Maranhão. São as mesmas palavras pronunciadas por todo aquele que tem um ente próximo tolhido pela besta fera da violência, ou que perde seus bens para um verme desumano e bárbaro. Infelizmente não nos resta outro sentimento a não ser a impotência de não poder fazer nada.

Reclamar a quem? Pedir ajuda a quem? Quem nos protege? Quem zela por nós? Até mesmo aqueles a quem indicamos como nossos representantes nos passam a perna e invariavelmente aparecem em anúncios de procurados pela polícia.

Estamos perdendo a batalha pela dignidade. Somos reféns dos maus, dos lobos, do terror, das serpentes, da peçonha fatal que paralisa a nossa razão de ser feliz. Continuamos sorrindo, mas um riso amarelo, sem graça, sem eira nem beira. Um riso sem sentido. Uma piada sem nexo. Viramos piada da velha piada pronta.

Eles conseguiram inverter a nossa lógica, não pensamos mais no certo, pois o errado vale mais. O crime passou a compensar e agora a história é outra. Na era em que achávamos que havíamos dominado a tecnologia, começamos a retornar as cavernas, a briga de foice, as matanças, a crueldade. Ressurgiram as lutas demoníacas travadas pelas imbecilidades religiosas. Estamos contaminados pelo fel das cabeças ocas. Ovacionamos os que se fazem de inocentes diante das provas expostas. Estamos fritos. Nossos descendentes estão fritos. Só nos resta pedir calma. Calma para tentar caminhar o caminho que nos resta, mesmo que a raiva core a nossa face.

Peço perdão por toda essa revolta, mas não foi a morte do velejador holandês que fez meu sague ferver, mas sim o conjunto da opera tosca que estamos assistindo calados e impassíveis. Ele foi apenas mais uma vítima que vai ficar por isso mesmo e seus algozes muito em breve estarão nas ruas, se já não estiverem, com as bênçãos de um bom padrinho faminto por voto.

Sei que esse grito solitário jamais será ouvido ou levado a sério, como não seria mesmo que todos nós gritássemos juntos, pois é um grito sem força, rouco, um sopro de vento saindo da garganta que não oferece nenhum perigo aos donos dos palácios, aboletados em suas poltronas de egos. Quem somos nós para exigir nada e a violência é problema nosso e cada qual que tente escapar a sua maneira.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Em nome da segurança no mar

4 Abril (96)

Toda embarcação deverá estar dotada com os equipamentos de salvatagem e segurança para a área a qual esteja navegando, pretenda navegar ou esteja apta a navegar. Para isso existe uma convenção internacional e que no Brasil é regulamentada pelas Normas da Autoridade Marítima, as famosas Norman’s. No caso das embarcações de esporte e recreio a Normam 03 é a Lei.

Por incrível que pareça, muitos comandantes ainda se fazem de desentendidos perante os agentes da inspeção naval e tentam aplicar o jeitinho brasileiro sobre as regras, mas os homens da Lei não se fazem de rogados e o que mais se ouve por ai são reclamações infundadas.

Tem até quem se ache invadindo na privacidade quando são abordados por um barco da Capitania dos Portos, fazem cara feia e discorrem discursos ensandecidos diante da plateia formada pelos seus tripulantes, colocando-os contra os inspetores que nada querem, além de confirmar se todos a bordo estão em segurança. Na verdade, se todos cumprissem o que dizem as normas de segurança no mar não teríamos tantos acidentes causados pela falta de prudência.

Ter os equipamentos a bordo, em bom estado de conservação e pronto para serem usados, é o mínimo que um bom comandante deve fazer para proteção dele e de seus tripulantes.

Já escutei dono de barco abrir a boca para dizer a asneira que não sabe o porquê de ter a bordo equipamentos de salvatagem. Nem me dei o trabalho de responder, quanto mais tentar explicar.

Não me canso de observar a movimentação das embarcações, enquanto estou com o Avoante ancorado em algum recantinho do litoral, e sempre fico surpreso com a falta de zelo dos comandantes para com suas tripulações. Tripulações na grande maioria formada por familiares, amigos e afins e por isso mesmo mereciam atenção redobrada.

Dia desses, na Ilha de Itaparica, uma lancha cruzou o fundeadouro em alta velocidade com três crianças sentadas displicentemente no espelho de popa sem nenhuma proteção. A velocidade já denunciava a infração grave. O condutor, que me pareceu ser o pai, pilotava a embarcação enquanto tomava bons goles de cerveja e se distraia num risonho bate papo com um amigo postado ao seu lado. Na minha visão de segurança, bastava uma diminuição brusca da aceleração ou mesmo um desvio mais rápido para que aquelas crianças caíssem no mar e assim à tragédia estivesse formada. Descaso não. Irresponsabilidade!

Já vi comandantes, inclusive amigos, tentando mascarar a exigência dos equipamentos utilizando o recurso de pedir emprestado apenas para o momento da inspeção naval, como se isso fosse à coisa mais normal do mundo. E o pior é que é mesmo e é o que mais se vê por ai.

Outro erro gravíssimo é o comandante ter todos os equipamentos obrigatórios e não saber como utilizá-los. Alguns nem sabem como usar um colete, que muitas vezes ficam guardados em porões de difícil acesso.

Nos parrachos e bancos de areia que fazem a festança do verão nas praias badaladas ao longo do litoral, a situação beira o extremo da insegurança. Pessoas nadam em meio a embarcações em movimento ou com motores em funcionamento. Embarcações fazem aproximação em alta velocidade. Crianças ficam sozinhas próximas aos comandos. Todos pulam na água sem deixar ninguém a bordo para observar e no retorno a praia, alguns ainda caem na água antes que os motores estejam parados ou que a embarcação esteja ancorada. É preciso lembrar que homem ao mar é um momento de terrível apreensão a bordo e poucos têm a experiência do resgate em tempo hábil.

É comum, em dias de festa, principalmente noites de ano novo, o uso de foguetes de sinalização. Foguete de sinalização, no jargão náutico denominado de pirotécnico, somente deve ser utilizado em caso de acidente para chamar atenção das equipes de resgate ou de embarcações que estejam nas proximidades. A utilização fora dessas condições deve ser condenável e é passível de multa, pois coloca em risco a segurança de todos e principalmente de quem realmente esteja em apuros.

Pirotécnicos demoram a apagar e queimam até mesmo dentro da água. O uso indiscriminado e sem o conhecimento necessário representa alto risco de perigo até mesmo para quem esteja em terra, porque é difícil saber onde o bicho vai parar, pois ele sofre influencia direta do vento. Se cair em cima de outro barco na ancoragem é acidente na certa.

A utilização de um barco em dias de verão é um momento de alegria, mas em nenhum instante deve-se abdicar da seriedade que a segurança necessita para a alegria ser completa. O mar exige respeito, atenção e parcimônia. Por isso comandante: Respeite os limites de segurança.

Nelson Mattos Filho/Velejador