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Um caso aqui, outro acolá

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Numa rodada de violão a bordo do Avoante, numa noite de lua nova sobre o mar da Ilha de Itaparica, surgiu à história do velejador que tinha em seu barco um motor super econômico que nem ele sabia avaliar o consumo.

Saíram dois amigos navegando cada um em seu veleiro com vento macio e mar de almirante, quando sem ter nem pra que, um deles decidiu ligar o motor. Diz ele que era para dar uma carga nas baterias, mas o outro acha que era para conseguir navegar um pouquinho mais rápido. Fica assim o dito pelo não dito.

Depois de uns quinze minutos em que o motor zoava em meio à noite, o bicho deu um piripaque e parou. Sem entender o que se passava o velejador tocou novamente na chave e escutou apenas um suspiro de reclamação. Ele arregalou os olhos e quando se virou para a esposa ela estava com os olhos mais aboticados do que os dele e já na eminencia de puxar os cabelos.

O velejador respirou fundo para retomar a razão, olhou em volta e correu para a cabina para acionar o rádio VHF e pedir socorro ao amigo que navegava um pouco mais a frente. As primeiras palavras saíram meio atrapalhadas e quase aos berros, mas depois de outra respirada forte as palavras fluíram para ele conseguir explicar a situação: – Amigo, meu motor parou e agora? O outro não contou conversa e deu a solução: – Rapaz, seu barco é a vela, então vá velejar e se acalme! Pois num é que era verdade!

Respirou fundo novamente, enxugou o suor que a essas alturas do campeonato escorria em sua testa e partiu para regular as velas e tentar chegar ao local da ancoragem. Fez tudo certinho, com a calma que o momento exigia, e conseguiu.

O amigo veio até o seu barco e juntos foram tentar achar o motivo do problema. Mexeram daqui, sacudiram de lá, apertaram parafusos, bateram no motor, sopraram mangueiras, ficaram na iminência de virar o motor de cabeça para baixo e entre um aperto e outro o amigo perguntava se tinha combustível. A resposta era sempre a mesma: – Tem e esse motor é super econômico.

Sem mais o que fazer, sem mais onde mexer, o amigo insistiu na pergunta do combustível e foi quando o velejador respondeu que sabia que tinha, pois havia enchido o tanque há oito meses, mas sabia que o motor era econômico e tinha certeza absoluta que ainda havia combustível no tanque.

O amigo deu uma olhada de través para ele e pediu para verificar a afirmação. Amararam um parafuso em um cabinho e quando jogaram dentro do tanque o danado ficou pulando e fazendo barulho por quase dez minutos, anunciado a secura do tanque. O velejador arregalou os olhos novamente e disse: – Mas homi, eu jurava que ainda havia diesel, pois esse motor é super econômico. O outro respondeu: – Eu sei, mas de vez em quando é bom você colocar nem que seja um pouquinho.

Depois da história do combustível o violão voltou a tocar e após duas músicas parou novamente para alguém contar outro caso.

Outro velejador brabo que nem um siri numa lata estava com o veleiro ancorado na Baía de Tínhare/BA, quando na boquinha da noite deitou para dar um cochilo no cockpit enquanto a esposa fazia uma arrumação na cabine.

Com o sono quase ferrado escutou bem longe o barulho do motor de uma escuna se aproximando e em seguida o marulhar de alguma coisa caindo na água. Com os olhos fecha não fecha e o sono tomando conta do seu pensar, escutou a escuna indo embora bem devagar e novamente o marulhar de águas em movimento bem próximo ao veleiro.

Num segundo ele abriu os olhos e ficou atento ao barulho, mas como não escutou mais nada, fechou novamente os olhos e tentou pegar no sono. Uma pulga beliscou seu juízo e ele levantou para dar uma olhada ao redor e nessa hora viu um homem remando um bote inflável se dirigindo para um igarapé. Num lampejo sua vista procurou pelo seu bote e viu o canto mais limpo do mundo. Ele deu um gritou e somente recebeu como resposta uma risada e o grito de: Perdeu!

Brabo como ele é, teve que engolir a brabeza e se contentar com a perda e ter ainda que ouvir a gozação dos amigos que não deixam barato. Até hoje quando alguém pergunta pelo ocorrido, ele insiste em dizer que estava dormindo e que nem viu quando levaram o bote. Mas o interlocutor pergunta de propósito apenas para ver a sua face vermelha da raiva, que depois de quase dez anos ainda não passou.

Tem outra boa sobre inflável que aconteceu durante a reunião de comandantes para a regata Aratu/Maragogipe, mas essa vai ficar para outra página desse diário, porque o moído é grande.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um grito solitário

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A morte de um velejador holandês na madrugada do domingo de Carnaval na Baía de São Marcos, no Maranhão, reacendeu uma luz vermelha sobre o mar brasileiro para os velejadores estrangeiros e gerou centenas de comentários acalorados nos blog náuticos e nas redes sociais, mas que infelizmente não passarão de palavras soltas ao vento e sem nenhum efeito prático para que as autoridades tomem ciência. A violência no Brasil virou uma indecifrável banalidade e dificilmente sairemos de suas garras num futuro próximo.

O velejador de 60 anos dormia ao lado da esposa quando foi surpreendido por três bandidos dentro do barco. Depois de uma rápida discussão o velejador levou um tiro e morreu na hora. Os noticiários anunciaram que os marginais não roubaram nada, o que é uma grande inverdade, pois levaram o maior bem que é a vida de uma pessoa. Ou será que isso não tem mais valor no mundo de hoje?

Até quando iremos conviver pacificamente com cenas como essa? Até quando vamos permitir que a brutalidade e a barbárie nos intimide e aprisione o silêncio do nosso grito de horror? Até quando vamos ficar acovardados diante das promessas vãs das nossas ditas autoridades e aplaudindo a desfaçatez de suas falas mansas cheias de subterfúgios? Até quando?

Sei que minha voz não é nada e muito menos representa um pingo de água em meio ao oceano, mas estou farto dessa violência desenfreada que assola o Brasil de ponta a ponta. Estou cansado da falta de rumo e de pulso dos homens que comandam nossos tribunais com uma leniência descarada e que envergonha a nós. Queria mesmo saber como é que nossos valorosos homens das leis deitam a cabeça no travesseiro e dormem o sono dos justos, sabendo eles das injustiças que cometeram durante o dia nos tribunais.

Precisamos de homens que tratem os marginais, de todas as esferas, como eles merecem ser tratados. Precisamos de respostas rápidas, claras, objetivas e corajosas para podermos ter a paz e a liberdade que a vida merece. Chega de passar a mão na cabeça de bandidos ou cobri-los com o manto utópico da exclusão social, pois eles não sentem nada por suas vítimas a não ser desprezo.

Eles não são excluídos, excluídos somos nós que não podemos caminhar despreocupados e sem medo pelas ruas da cidade. Nem dentro de casa temos mais sossego. Excluíram a nossa paz, roubaram a nossa tranquilidade, aniquilaram nossa liberdade, matam por matar, roubam por roubar e riem da nossa cara de palhaço amedrontado. Isso mesmo, palhaços é o que somos.

“Raiva, muita raiva”. Foram essas as palavras ditas pela esposa do velejador assassinado no Maranhão. São as mesmas palavras pronunciadas por todo aquele que tem um ente próximo tolhido pela besta fera da violência, ou que perde seus bens para um verme desumano e bárbaro. Infelizmente não nos resta outro sentimento a não ser a impotência de não poder fazer nada.

Reclamar a quem? Pedir ajuda a quem? Quem nos protege? Quem zela por nós? Até mesmo aqueles a quem indicamos como nossos representantes nos passam a perna e invariavelmente aparecem em anúncios de procurados pela polícia.

Estamos perdendo a batalha pela dignidade. Somos reféns dos maus, dos lobos, do terror, das serpentes, da peçonha fatal que paralisa a nossa razão de ser feliz. Continuamos sorrindo, mas um riso amarelo, sem graça, sem eira nem beira. Um riso sem sentido. Uma piada sem nexo. Viramos piada da velha piada pronta.

Eles conseguiram inverter a nossa lógica, não pensamos mais no certo, pois o errado vale mais. O crime passou a compensar e agora a história é outra. Na era em que achávamos que havíamos dominado a tecnologia, começamos a retornar as cavernas, a briga de foice, as matanças, a crueldade. Ressurgiram as lutas demoníacas travadas pelas imbecilidades religiosas. Estamos contaminados pelo fel das cabeças ocas. Ovacionamos os que se fazem de inocentes diante das provas expostas. Estamos fritos. Nossos descendentes estão fritos. Só nos resta pedir calma. Calma para tentar caminhar o caminho que nos resta, mesmo que a raiva core a nossa face.

Peço perdão por toda essa revolta, mas não foi a morte do velejador holandês que fez meu sague ferver, mas sim o conjunto da opera tosca que estamos assistindo calados e impassíveis. Ele foi apenas mais uma vítima que vai ficar por isso mesmo e seus algozes muito em breve estarão nas ruas, se já não estiverem, com as bênçãos de um bom padrinho faminto por voto.

Sei que esse grito solitário jamais será ouvido ou levado a sério, como não seria mesmo que todos nós gritássemos juntos, pois é um grito sem força, rouco, um sopro de vento saindo da garganta que não oferece nenhum perigo aos donos dos palácios, aboletados em suas poltronas de egos. Quem somos nós para exigir nada e a violência é problema nosso e cada qual que tente escapar a sua maneira.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Em nome da segurança no mar

4 Abril (96)

Toda embarcação deverá estar dotada com os equipamentos de salvatagem e segurança para a área a qual esteja navegando, pretenda navegar ou esteja apta a navegar. Para isso existe uma convenção internacional e que no Brasil é regulamentada pelas Normas da Autoridade Marítima, as famosas Norman’s. No caso das embarcações de esporte e recreio a Normam 03 é a Lei.

Por incrível que pareça, muitos comandantes ainda se fazem de desentendidos perante os agentes da inspeção naval e tentam aplicar o jeitinho brasileiro sobre as regras, mas os homens da Lei não se fazem de rogados e o que mais se ouve por ai são reclamações infundadas.

Tem até quem se ache invadindo na privacidade quando são abordados por um barco da Capitania dos Portos, fazem cara feia e discorrem discursos ensandecidos diante da plateia formada pelos seus tripulantes, colocando-os contra os inspetores que nada querem, além de confirmar se todos a bordo estão em segurança. Na verdade, se todos cumprissem o que dizem as normas de segurança no mar não teríamos tantos acidentes causados pela falta de prudência.

Ter os equipamentos a bordo, em bom estado de conservação e pronto para serem usados, é o mínimo que um bom comandante deve fazer para proteção dele e de seus tripulantes.

Já escutei dono de barco abrir a boca para dizer a asneira que não sabe o porquê de ter a bordo equipamentos de salvatagem. Nem me dei o trabalho de responder, quanto mais tentar explicar.

Não me canso de observar a movimentação das embarcações, enquanto estou com o Avoante ancorado em algum recantinho do litoral, e sempre fico surpreso com a falta de zelo dos comandantes para com suas tripulações. Tripulações na grande maioria formada por familiares, amigos e afins e por isso mesmo mereciam atenção redobrada.

Dia desses, na Ilha de Itaparica, uma lancha cruzou o fundeadouro em alta velocidade com três crianças sentadas displicentemente no espelho de popa sem nenhuma proteção. A velocidade já denunciava a infração grave. O condutor, que me pareceu ser o pai, pilotava a embarcação enquanto tomava bons goles de cerveja e se distraia num risonho bate papo com um amigo postado ao seu lado. Na minha visão de segurança, bastava uma diminuição brusca da aceleração ou mesmo um desvio mais rápido para que aquelas crianças caíssem no mar e assim à tragédia estivesse formada. Descaso não. Irresponsabilidade!

Já vi comandantes, inclusive amigos, tentando mascarar a exigência dos equipamentos utilizando o recurso de pedir emprestado apenas para o momento da inspeção naval, como se isso fosse à coisa mais normal do mundo. E o pior é que é mesmo e é o que mais se vê por ai.

Outro erro gravíssimo é o comandante ter todos os equipamentos obrigatórios e não saber como utilizá-los. Alguns nem sabem como usar um colete, que muitas vezes ficam guardados em porões de difícil acesso.

Nos parrachos e bancos de areia que fazem a festança do verão nas praias badaladas ao longo do litoral, a situação beira o extremo da insegurança. Pessoas nadam em meio a embarcações em movimento ou com motores em funcionamento. Embarcações fazem aproximação em alta velocidade. Crianças ficam sozinhas próximas aos comandos. Todos pulam na água sem deixar ninguém a bordo para observar e no retorno a praia, alguns ainda caem na água antes que os motores estejam parados ou que a embarcação esteja ancorada. É preciso lembrar que homem ao mar é um momento de terrível apreensão a bordo e poucos têm a experiência do resgate em tempo hábil.

É comum, em dias de festa, principalmente noites de ano novo, o uso de foguetes de sinalização. Foguete de sinalização, no jargão náutico denominado de pirotécnico, somente deve ser utilizado em caso de acidente para chamar atenção das equipes de resgate ou de embarcações que estejam nas proximidades. A utilização fora dessas condições deve ser condenável e é passível de multa, pois coloca em risco a segurança de todos e principalmente de quem realmente esteja em apuros.

Pirotécnicos demoram a apagar e queimam até mesmo dentro da água. O uso indiscriminado e sem o conhecimento necessário representa alto risco de perigo até mesmo para quem esteja em terra, porque é difícil saber onde o bicho vai parar, pois ele sofre influencia direta do vento. Se cair em cima de outro barco na ancoragem é acidente na certa.

A utilização de um barco em dias de verão é um momento de alegria, mas em nenhum instante deve-se abdicar da seriedade que a segurança necessita para a alegria ser completa. O mar exige respeito, atenção e parcimônia. Por isso comandante: Respeite os limites de segurança.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um fim de ano sem respostas

10 Outubro (121)

Mais um ano recolhe as velas para navegar em árvore seca pelos mares da história. Mais um ano que deixa saudades, tristezas, alegrias, descaminhos, que trouxe amigos e que deixou alguns irem pelas estradas tortuosas das palavras, como se a retórica de uma boa amizade não merecesse o silêncio tranquilizador de um abraço. Somos humanos e humano é assim.

Nesse 2014, que prepara o desembarque, a nossa vida a bordo foi marcada pela reflexão, afinal em 2015 completaremos 10 anos morando em uma casquinha de ovo ao sabor das ondas e dos ventos. O que fazer a partir daí? Que rumo tomar? Como decidir? Voltar? Abandonar tudo e retomar os passos sobre as agruras do mundo urbano? E o sonho? E a aposta em um mundo diferente tão cheio de alternativa?

É difícil decidir quando olhamos em volta e avistamos o caos, a vida ameaçada, a paz entregue aos monstros, as ruas enlameadas de crueldade, os bons jogados a própria sorte, a verdade transformada em mentira e a mentira transvestida de verdade. O que fazer em terra? É difícil o retorno depois que se degusta a doçura poética do mar.

Sem decisão vamos tentar seguir em frente, navegando em busca das respostas que o mar ainda não nos deu. Precisamos seguir o rumo traçado lá atrás que deixamos apagar pelo tempo na carta náutica da vida.

“- É preciso prioridade para se fazer ao mar!” Com essa frase Lucia costuma desanuviar o sonho daqueles que chegam até nós com a vontade emparedada pelos medos. Funcionou com a gente e é assim que ela aposta que funcione com outras pessoas.

Prioridade! Prestes a completar 10 anos de mar estamos diante dos segredos embutidos nessa palavra tão especial. Temos que avançar. Temos que seguir em busca das respostas. Temos que dar prioridade à vida, a nossa vida, ao nosso sonho, as nossas apostas. Temos que voltar a traçar o rumo e navegar em busca do nosso eu.

Nós que traçamos tantos rumos; que repassamos tantos segredos; que indicamos tantos waypoits; que apostamos uma vida em busca de outra vida; que aprendemos que nem tudo é o todo. Nós que apostamos no amor como um só; que respiramos o mesmo ar; que sofremos as mesmas tristezas; que sorrimos a mesma alegria; que tentamos irradiar a mesma esperança; que dividimos o mesmo espaço, sem tempo, sem hora, sem dia, de mãos dadas, entre beijos, entre abraços, entre carinhos, em meio ao sol, a lua, as estrelas, ao mar. Nós que um dia decidimos soltar as amarras, não sabemos dar o nó para prender novamente a embarcação sobre os cunhos do caís.

Um dia um amigo velejador escreveu uma frase que mexeu comigo e com muitos colegas mar afora: – Que liberdade é essa que aprisiona a alma? Frase instigante e extremamente carregada de reflexão. Que liberdade é essa? Procuro respostas e não acho, porque é difícil peitar a liberdade sem sair ferido nas entranhas da alma. Juro que não queria ter lido essa frase tão liberta de sentidos. Confesso que durmo com ela martelando em minha mente, me interrogando, exigindo uma resposta e sabendo ela que eu sei, mas que não consigo responder.

Dez anos no mar não são dez dias. Dez anos no mar é uma vida em que nada se parece com nada do que o mundo urbano possa oferecer. O mar encanta e aprisiona a alma sim senhor. Lança seus perfumes e atrai os desvairados. O marulhar das ondas é o verdadeiro canto da sereia a chamar o navegante para o laço do amor. Nada no mar é lógico, tudo é magia, tudo é mistério, tudo é encanto, tudo são gotas de poesia que transformam medo, paz e serenidade em amor. São os segredos da natureza que o homem nunca alcançara. Desse caldeirão escaldante de espumas vem à liberdade que aprisiona, que mistura os sentidos, que inverte a razão, que lança respingos de paixão e prazer no coração do homem.

O Avoante escuta tudo isso e se retrai nas estruturas de suas cavernas. Espera calado a nossa alma acalentar os sentidos. Recolhe-se nos braços do mar em um namoro nunca visto entre amantes. Vislumbra novas rotas, novos horizontes e tenta se lançar pelos mares, nos levando como felizes passageiros de sua alegria. O Avoante é feliz, é bravo, é marinheiro, é forte como os grandes navegantes dos mares. É um veleirinho carinhoso e incrivelmente aconchegante. Ele tudo sabe, tudo escuta, sofre e se alegra. Ele sabe do amor que temos por ele e por isso é tão carinhoso.

Vocês estão vendo o quanto é difícil à decisão? O quanto é difícil depois que entranha na gente o perfume das algas, da maresia, do sal, das sereias, das barbas de Netuno e do manto azul de Iemanjá?

Que venha 2015 e que os deuses dos oceanos continuem nos abençoando!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Feliz Natal!

9 Setembro (60)

O NATAL DOS MEUS SONHOS

Mais um Natal e mais uma vez recolho-me num cantinho do cockpit do Avoante em busca de respostas para as coisas do mundo. Olho em volta e vejo a tranquilidade estampada nas imagens refletidas na água, enquanto alguns veleiros descansam adormecidos na ancoragem.

Como seria bom se todos os habitantes do mundo pudessem experimentar míseros segundos de momentos como esse. O que pensariam os donos da guerra? O que passaria na cabeça dos violadores da vida? O que diriam os traficantes, os estupradores, os assassinos, os sequestradores, os ladrões, os corruptos, os corruptores e todos aqueles que caminham pelo mundo espalhando a sanha cruel do terror e da maldade?

O vento sopra uma brisa gostosa e trás em suas entranhas ecos de um mundo que caminha meio que desnorteado. Até onde chegaremos? Até quando aguentaremos? Em que parada desembarcaremos tanto mal feito? Até quando assistiremos e aplaudiremos tantas promessas vãs de autoridades desgovernadas? Até quando? Nem o tilintar dos sinos do Papai Noel conseguimos ouvir. O mundo não acredita mais no bom velhinho.

Como era bom quando o velhinho barbudo enchia de fantasias o Natal. O treno puxado por renas voadoras e carregado de presentes era um sonho bom que o mundo deixou de alimentar.

Mas o Papai Noel não é o dono da festa, a festa é de um Menino que um dia nasceu em uma manjedoura e que veio ao mundo para iluminar. O Menino virou homem, espalhou algumas verdades pelo mundo e foi morto espetado na cruz por outros homens. O homem não gosta de ouvir verdades!

Como era boa a sincronia que existia entre o Menino e o Papai Noel. Tudo ali era paz, alegria, amor, compressão, beleza e felicidade. A vida agradecia. As pessoas saiam às ruas para festejar e se abraçar. Os sinos dobravam de prazer. O céu das cidades se iluminava. As casas ficavam de portas abertas a espera dos amigos. Mesas se estendiam nas calçadas, nas ruas e todos dançavam e pulavam de alegria ao som de uma boa música.

E a arvore de Natal? E o presépio? E a estrela de Belém? E a Missa do Galo? O que foi feito de tudo isso? Dizem que tudo ainda existe. Será?

Ninguém mais acredita na magia do Papai Noel e quanto ao Menino, a cada ano vai ficando sozinho em seu bercinho de madeira forrado de capim. O Menino, o dono da festa, em muitos lares tem o nome esquecido.

O Natal perdeu o encanto, perdeu a alma, perdeu a alegria e navega sôfrego entre tempestades. Das crianças roubaram a fantasia e dos adultos tomaram o prazer do abraço amigo e inventaram um de tal amigo secreto como se amizade fosse feita se segredos.

O Natal do Menino Jesus e do Papai Noel era outro, era o Natal da bondade, da fartura, da vida, do futuro, do amor, da verdade, da compressão, do afago, do aperto de mão entre desconhecidos, do aceno nas ruas, do Feliz Natal dito em altos brados, da reconciliação, do beijo, da troca de presentes. Era o Natal das ruas, das calçadas, das avenidas, dos becos.

Era o Natal que envolvia as pessoas em um só abraço, em torno de uma causa. Era o Natal das pessoas caminhando nas ruas das cidades a meia noite, despreocupadas, seguindo a estrela que indicava a Missa do Galo. Era o Natal das crianças tropeçando de sono, tentando ficar acordadas para ver o Papai Noel. Era o Natal do presente embaixo da cama, da surpresa, do espanto, da chaminé, do sonho, do encanto. Era Natal!

Olhando do mar em direção à cidade, vejo as sombras de pessoas caminhando assustadas pelas ruas. Escuto roncos de automóveis em fúria. Ouço letras deprimentes de músicas tocadas em alto volume. Vejo crianças destruídas pelas drogas e pelas facilidades. Escuto grito de famílias destroçadas pela violência. Presencio a saúde ser negociada nas esquinas escuras. Vejo a fome transformar homens em lobisomens. Vejo matança, crueldade, roubos. Escuto risos e até alguém afirmando: Isso é da vida! Não, isso não é da vida, isso é do homem.

Como eu gostaria de escrever essa página com palavras diferentes. Como eu gostaria de festejar o Natal como se festejava antigamente. Como gostaria que as crianças e os adultos continuassem acreditando em Papai Noel. Como seria bom se o Menino Jesus espalhasse pelo mundo seu manto de paz e a estrela de Belém trouxesse boas novas, como fez há dois mil anos.

Desejo a todos um Feliz Natal, carregado de amor, compreensão, paz e reflexão.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Causos e surpresas

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Muitas vezes é difícil saber em que pé navega a verdade em uma história que tem o mar como pano de fundo. Isso acontece com pescadores, velhos e novos marinheiros e velejadores. Tudo fica enorme quando a emoção passa a valer mais do que a razão, ainda mais quando existe uma plateia avida a ouvir ou quando se quer apenas dar uma pequena valorizada na narrativa acrescentando algumas estrelas douradas de heroísmo.

Final de Outubro de 2014 estive no Iate Clube do Natal para pegar um veleiro e comandá-lo entre Natal e Salvador. Chegando lá fui convidado para fazer parte de um churrasco em que os tripulantes do veleiro Tranquilidade comemoravam, com um pouco de atraso, as participações nas regatas Recife/Fernando de Noronha e Fernando de Noronha/Natal, edições 2014. Para quem acompanha as páginas desse Diário deve lembrar que falei em como essas travessias foram duras para as embarcações e consequentemente deixando marcar profundas em muitos tripulantes. De norte a sul do país a cantilena é uma só: Foi uma viagem terrível!

Mas tudo passou e hoje todos festejam a vida ao sabor de grandes resenhas digeridas com cervejas, vinhos, outras bebidas e fartas lascas de carnes na brasa. E é nessas horas que tudo se transforma e os olhos dos interlocutores se enchem de espanto. Continuar lendo

A lenda de um velho grupo

4 abril (70)

Apreciava o horizonte enquanto o Avoante navegava faceiro e lentamente sobre um mar espelhado quando lembrei-me de um antigo conto, em que narra à história de um grupo de velejadores que se uniu em torno de uma causa e para nunca mais esquecê-lo, resolvi escrever no Diário.

Era uma vez um pequeno grupo que se reuniu para hastear a bandeira de um sonho: Velejar e dar seguimento a missão escrita nos anais da história de um velho clube náutico. O sonho logo se tornou uma feliz realidade, tanto era a vontade daqueles que formavam o grupo. Do sonho brotaram grandes ideias, grandes encontros, grandes amizades e assim, o mundo do mar foi crescendo e invadindo a alma daquele grupo que se tornou grande. Não grande em tamanho, mas grande em todas as formas de fazer valer o espírito da vela como esporte e lazer.

Horizontes foram sendo desbravados em viagens imaginárias nas rodas de bate papo e rotas foram traçadas na certeza que os deuses dos oceanos acolhem de bom grado todos que sonham com um barquinho singrando os mares.

A partir do primeiro encontro outros se seguiram, movidos pela incrível vontade de estarem unidos, porém, logo foi notado que um dia por semana era pouco. Todos tinham muitas ideias acumuladas e precisavam extravasar para que não ficassem esquecidas pelo tempo.

Estabeleceram que esse novo dia fosse início de semana, coladinho ao Domingo, para poderem discutir os temas que fariam parte do grande encontro do meio da semana e assim foi feito. Mais um dia estava decretado e era gostoso ver a alegria reinante. Brincadeiras, gozações, abraços, discursões, comentários, fofocas, receitas, velejadas, mentiras, barco, barco, barco… . Era assim!

Há! É preciso dizer que tudo isso era regado com uma bela e farta mesa de deliciosas receitas e alguns goles das mais saborosas bebidas. Era o famoso encontro etílico-gastronômico em que todos se esmeravam em trazer um pouco para colaborar na dieta de todos.

E no início da semana? Bem, em respeito às leis da sanidade, o encontro desse dia era apenas a base de café, leite, bolo, cuscuz, tapioca, frios, pães, bolachas, biscoitos, queijos… . Ufa!

Quanto mais o grupo se reunia, mais as regatas iam sendo programadas, passeios náuticos enchendo de alegria os finais de semana e assim o sonho de todos era uma feliz e alegre realidade.

De vez em quando, ou quase sempre, pintava um churrasquinho básico para alegrar as tardes/noites de Sábados, Domingos e feriados. O lema era estar unido em prol da causa, então qualquer motivo era um motivo.

Vieram as festas de confraternizações de fim de ano. Os aniversários do grupo. Os parabéns para os aniversariantes do mês. Tudo era motivo. Tudo era legal. Tudo era festa. Tudo era amizade. Tudo era em prol do sonho e o sonho era real. E assim o grupo crescia, porém, passou a ser observado por olhos injetados de inveja e rancor.

O grupo queria invadir os mares, os lagos, os rios e tudo que tivesse uma pocinha de água. Foi assim que um grupal vislumbrou uma bela lagoa apaixonante e teve uma visão fantástica: Várias velas soltas ao vento cruzando toda aquela extensão de águas. Bingo! Estava formado mais uma flotilha, mais um campeonato, mais um encontro, mais amigos, mais alegria, mais velas, mais barcos e mais combustível para o sonho. Como era gostoso!

Olhos que observavam passaram a observar com mais afinco, porém, nada daquele olhar atingia o coração do grupo que era alegre, jovial, para frente, dinâmico, amigável e extremamente unido. Isso mesmo, unido.

As reuniões navegavam em palestras, comemorações juninas, karaokês, festivais de massas, festivais de vinho, despedidas dos velejadores visitantes, bota fora de amigos, carnavais, luau, pôr do sol, noitadas de violão e mais um sem número de programações que em muitas semanas eram diárias.

Pensou-se em criar uma escolinha de vela, para dar seguimento futuro às boas novas, pois a que havia existido em outros tempos estava abandonada e empoeirada no fundo de uma bacia de egos. A escolinha até ensaiou um retorno às águas e os velhos barquinhos voltaram a navegar cheios de alegria, mas num lampejo repentino, suas velas foram confiscadas pela covardia de algum olho que espreitava e se recolheu ao nada.

Num certo dia de verão, ventos contrários atingiram a embarcação do grupo que ainda tentou manter as velas enfunadas, mas seus membros se sentiram cansados para comandar uma nau tão carregada de sonhos em um mar tão tempestuoso. Diz à lenda que o grupo ainda sobrevive, mas ai a história é outra.

Nelson Mattos Filho/Velejador