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Votos renovados com o mar – II

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Talvez possa dizer que esses Votos Renovados com o Mar, com o mar da Bahia, seja uma retrospectiva de tudo o que vivi na Baía de Todos os Santos, mas talvez não, porque no mar não tem talvez. No mar não existe sorte e nem azar. Aventura, jamais. Quem sabe destino, porque o mar não é dos valentes e muito menos dos inconsequentes, ele é daqueles que o respeitam, que tem na alma uma rota traçada, que tem no sonho o destino. O mar não se enfrenta, a não ser que se queira perder a luta. O mar se navega e com bem querer navegança, pois só passa por ele quem ele deixar.

Tenho uma paixão com o mar, daquelas que não se conta para não enciumar, pois no reino de Iemanjá segredo é segredo e ai de quem duvidar. Conto tudo por cima e quem sabe alguns floreios, mas se quer saber a verdade, vá você navegar. Experimento de um tudo e não deixo nada faltar, não me acho professor, pois essa é profissão dos encantados de lá. Navego com o coração aberto, alma livre e saio colhendo frutos, alguns doces outros amargos, mas todos são frutos que alimentam meus sonhos e me ensinam que no mar não existem nem flores e nem espinhos, e sim o amor de querer navegar. O mar do Senhor do Bonfim me acalma os sentidos e dita as regras de minha razão. Não consigo definir minha relação com ele, mas sei que é coisa de encanto.

E foi numa tarde faceira de final da primavera de 2016, que soltamos as amarras que prendiam o Tranquilidade ao píer da marina e fomos navegar. Fui até a proa e deixei ser tomado por aquele momento tão delicioso que vivi durante anos. Fechei os olhos e pedi bênçãos, pois é assim que sempre fiz. O mar me altera os sentidos e sou tomado por uma gostosa sensação de alerta, de prioridade, de responsabilidade. O mar me alimenta e faz minha alma sorrir com uma infinita alegria, a alegria de uma vida que alguns dizem de sonho. – Sonho? – Ah sim, o melhor deles, o sonho sonhado e vivido.

O mestre-saveirista olha o vento e segue para onde ele for, o mar é seu caminho e Iemanjá sua rainha, quando ela não deixa ele fica no caís. Não se briga com o mar e nem com os percalços que se apresentam, pois ali estão ensinamentos que muitas vezes valem alegrias, e vida, porém, não se desiste, muda-se o rumo, porque o vento e o mar são sempre mais carinhosos quando seguimos ao lado deles. E foi assim que fizemos ao cruzar a boia da Ribeira, que por sinal está indicando um canal cada vez mais raso, olhamos as condições, checamos os equipamentos e sem muito insistir aproamos a ilha de Itaparica e seu fundeio maravilhoso. Inicialmente queríamos ir a Canavieirinhas, lá no final do canal de Tinharé, região do famoso Morro de São Paulo, mas o piloto automático resolveu reclamar e os lemes estavam muito endurecidos – barco não gosta de ficar parado – e seguir assim durante mais de 50 milhas era uma tarefa árdua demais para quem só queria a sombra e a água fresca oferecida pelo Senhor da Colina Sagrada.

O fundeio de Itaparica continua lindo, maravilhoso e cativante. A paisagem que se descortina ao nosso redor é um bálsamo para aliviar as tensões de um mundo cada vez mais desumano. Podem dizer o que quiserem da Ilha, mas nunca neguem a poesia que está escrita no traçado das linhas de sua paisagem. Brindamos a noite com um bom vinho e uns quitutes da minha chef das chef e dormimos o sono dos justos naquele balanço de entorpecer e que somente um veleiro é capaz de proporcionar. A manhã seguinte levantamos a âncora e seguimos pelo canal interno da ilha, até a Fonte do Tororó, outro fundeadouro imperdível e lindo que só vendo. Um banho de mar para lavar a alma, uns bate-papos gostosos e despreocupados, um almoço fora de série e assim seguimos para a Praia de Mutá, outro fundeadouro maravilhoso e onde iriamos conhecer a Cervejaria ED3, que posso dizer, mesmo sem ter autoridade de conhecimento para tal, que é a melhor cerveja da Bahia.

A Praia de Mutá é um povoado pertencente ao município de Jaguaripe, que em tupi é îagûarype e significa “no rio das onças”. Mutá tem no traçado de suas ruas a origem da velha e boa Bahia, com ruas e becos que desaguam inevitavelmente na praça da igreja ou na rua que a praça leva. A beira mar é uma pequena baía de águas preguiçosas e rasas e nas areias se estendem alguns bares e restaurantes que ultimamente estão até bem educados no quesito altura do som. Tem na produção de mariscos, que por sinal por lá se prepara divinamente, uma excelente parcela de sua renda. É em Mutá o destino final de uma das boas regatas da Bahia, a Regata da Primavera, que a cidade recebe com muito carinho e festança.

– Sim, e a cerveja? – Tenha paciência meu rei, que falarei na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Carnaval num rio encantado – 2ª parte

Rio da Dona (50) O Rio da Dona, onde navegamos e ficamos ancorados durante o Carnaval de 2011, nasce no município de Santo Antônio de Jesus e banha mais dois municípios baianos: Valença e Jaguaripe. Para mim foi uma surpresa boa ter encontrado esse pedaço, ainda, intocado da natureza, tão próximo de uma grande metrópole como é Salvador/BA.

Não que não existam esses santuários ecológicos preservados apenas pela mão renovadora e protetora da natureza, mas por ele estar em estado tão primitivo e com tanta fauna marinha povoando seu caudaloso leito.

Rio da Dona (67) Com tanta vida marinha no Rio da Dona o que menos vimos foi pescadores ou catadores de mariscos. Na verdade avistamos apenas dois durante os quatro dias em que estivemos ancorados em frente uma casa que, por sinal, estava vazia. Um deles foi o Sr. Neneu que mora numa pequenina localidade ribeirinha com apenas 7 casas e o outro foi um catador de Ostras que nos vendeu a produção do dia.

Perguntei ao Sr. Neneu o porquê da ausência de pescadores na região. Ele respondeu assim: “… meu amigo, depois do dinheiro do governo ninguém mais quer ter trabalho pescando…”. Continuar lendo

Carnaval num rio encantado – I

Rio da Dona (10) A vida de velejador cruzeirista é cheia de surpresas, nem sempre boas, mas numa escala de valores as surpresas boas ganham com larga vantagem. Foi pensando assim que quando Davi Hermida e Vera, veleiro Guma, nos chamaram para passar o carnaval num lugar onde poucos velejadores conheciam, onde a animação do carnaval se resumiria na que a gente pudesse produzir, onde não veríamos quase nenhuma civilização a nossa volta, onde haveria muitos peixes, muitas ostras e muita beleza, não pensamos duas vezes. Vamos sim!

Rio da Dona (11) Minha única preocupação foi saber se teria calado suficiente para o Avoante. Davi Hermida, que conhece tudo sobre as águas da Bahia, foi logo respondendo: “… basta seguir pelo meio do rio que você chega…”. Não perguntei mais nada e tratei de levantar as velas.

Junto com o Avoante e o Guma iria à bela escuna Morena, do velejador Sampaio, outro que conhece tudo sobre o mar da Baía de Todos os Santos. Três barcos e uma multidão de seis pessoas. Esse seria nosso carnaval na Bahia, terra do maior carnaval do mundo, mas que a gente estava indo num sentido inverso a festa que já tomava conta das ruas de Salvador. Nosso rumo era o Rio da Dona, um rio muito pouco navegável, desconhecido da grande maioria dos velejadores baianos, preservado pela natureza ainda intocada, coalhado de Robalos, Tainhas, Carapebas e Ostras, e com um calado que nem os nossos cicerones, Davi e Sampaio, conheciam com precisão. “Basta seguir pelo meio e a gente chega!” Assim eu fiz e assim cheguei, depois de alguns sustos com os números do eco-sonda.

Rio da Dona (21) Quando saem mais de um veleiro para um destino, dificilmente se navega junto. Os barcos navegam diferentes, uns são mais rápidos, outros fazem rumos diferentes e assim a flotilha vai se distanciando. Saímos de Itaparica juntos, mas ao longo do percurso o Guma, que é um catamarã, e a Morena, uma bela escuna de 17 metros, que apesar das velas, tem um potente motor de 6 cilindros, logo tomaram à dianteira. O Avoante, como sempre, seguiu atrás, com todas as velas em cima e ainda sendo empurrado pela maré de enchente do canal interno da Ilha de Itaparica.

Nosso rumo era a Foz do Rio Jaguaripe, já no final de Itaparica, e de lá subir por ele até a Foz do Rio da Dona, 2 milhas acima. “Assim que avistar a igreja da cidade de Jaguaripe, entre a esquerda no rio largo. Esse é o Rio da Dona” Essas foram às palavras de Davi quando falou, pela última vez, com a gente pelo celular.

Rio da Dona (34) Entrar num rio desconhecido é um problema e sem nenhum waypoint para servir de orientação, a coisa fica meio aventuresca. Mas não contamos conversa e metemos a cara no rio largo. Lucia desceu e foi conferir o eco-sonda. Conferiu duas, três, quatro, cinco vezes e depois desistiu. “Parece que é fundo, a profundidade não sai de 3 metros” Muito bom! Pensei com meus botões: “Ainda bem que a maré esta enchendo!”

Quase duas horas navegando, pedi a Lucia para conferir novamente a profundidade, pois estava achando a coisa meio estranha. Ela desceu e falou: “… Estamos no meio do rio?” Eu respondi: “Estamos!” Ela replicou: “Pois então estamos navegando no seco. O bicho não esta marcando mais nada e ainda esta aparecendo duas letras, TF”. Eu nem tentei traduzir as letras, até porque naquela altura eu já sabia o que elas queriam dizer. Olhei para os lados, tentando achar uma saída, e depois de dois longos segundos, Lucia gritou lá de baixo: “Voltamos para a profundidade de 3 metros” Ufa! Lucia pegou o celular e ligou para o Davi perguntando onde eles estavam, pois já tínhamos navegado 5 milhas, passados por dezenas de curvas de rio e nada deles aparecerem. Davi, muito tranqüilo falou: “Siga pelo meio do rio que vocês chegam onde estamos”. Mais duas curvas de rio e lá estavam o Guma e a Morena ancorados tranquilamente a espera do Avoante.

Rio da Dona, um lugar fantástico e cercado apenas pela natureza!

Nelson Mattos Filho

Velejador