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Cartas de Enxu 02

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Pois é, nessa minha varandinha refrescada pelos alísios do nordeste a vida vai passando entre prosas e vento e de repente me dou conta que nunca mais me ative a escrever as cartas que havia prometido escrever. Coisas para contar tenho muitas, porque vida de praieiro é uma resenha, o problema é concatenar as ideias e se livrar do chamado chamegoso de uma rede macia de quatro mocotós. – Rede de quatro mocotós? – Sim, porque rede se vende por mocotó. Dois mocotós é rede para uma pessoa e de quatro, é aquela rede larga, para se fazer o que der na telha, e até dormir. E apois!

E por falar em alísios, os ventos por essas bandas de Enxu Queimado estão mais avexados do que tainha de açude e o coqueiral está num bailado que só vendo. É bonito ver a alegria das palhas sendo sacudidas pelas lufadas de um vendaval ligeiro e a poeira tomar conta do mundo, como se um Saci tivesse riscado o barro do chão com suas gaitadas presepentas. São os ventos de agosto, que se estendem por setembro e descambam para outubro, até baixar o facho lá pelo meado de novembro. É o preparo da natureza para sacudir a poeira de um inverno sem graça e sem chuva e entregar tudo colorido e brilhando para o comando do senhor verão das cores e bocas. – E a primavera? – Rapaz dizem que aqui tem disso não, mas tem, pois tem flores e rosas desafiando a secura das juremas pretas e basta uns pinguinhos de chuva para a caatinga fazer bonito. E por falar em caatinga, pois num é que o bonde do progresso está passando por cima de tudo sem nem dá bola para o tal do meio ambiente. É triste, mas não tem a quem reclamar não, pois nem bispado tem por aqui e o padre só de vez em quando. Eita nordeste velho incompreendido! A sorte é que o povo é forte que nem touro brabo e teve forró está tudo certo.

– E ainda tem forró? – Tem, mas está arrastando os pés, pois um tal de levada do batidão aputanhado, alinhado a um monstrengo chamado paredão, está dominando tudo e a paisagem está entre o não e o sim da descaracterização. Quem tiver ouvido que escute e quem não achar bom, que escute também, pois o filho da peste, dono das bocas de som da mala do possante, é aporrinhado com reclamante e escreveu não leu, o caboco reclamador leva tapa nas orelhas. Dizem que tem até Cabo-Delegado levando tapa olho por aí. Por aqui o paredão tem cantado fino, pois o delegado se arvorou com uma ordem do Dr. Juiz e tem cumprido o riscado bem na risca, mesmo assim, de vez em quando aparece um gaiato querendo bagunçar a ordem. Ora veja, respeite a polícia e a caneta do juiz, cabra safado!

Eita que dá saudade do mar a bordo de um veleirinho, pois no reinado de iemanjá a coisa é mais respeitadora e o povo das águas escreve ética com “E” maiúsculo. Mas a vida é assim mesmo e de vez em vez é preciso dar uns bordos e ficar com a cara no vento para ficar mais animado. A verdade é que eu já estava desacostumado com os moídos urbanos e tudo é novidade, mas daqui a pouco entro nos conformes e tudo fica tinindo.

E por falar em conformes, num é que a vida lá fora anda cheia de novidade que nem de longe se adivinhava! Nas ondas da internet vejo que os cientistas se danaram a colorir um dinossauro e se esmeraram tanto que o bicho ficou todinho um papagaio, todinho vírgula. O bichano milenar é um tal de Psitacosauro que andou boçando por aí e se escafedeu ninguém sabe como, mas segundo conta a lenda, foi devido um meteoro. Pegaram a ossada, colocaram a imagem em um programa de computador e saiu na impressora um dinossauro com cara de papagaio, com chifre, e colorido que só penoso falante. Será que o bichinho também era presepeiro? – E a tartaruga? – Essa história também veio nas “nuvens” e eu pesquei na rede. Dizem que um “tartarugo” tarado lá das ilhas Galápagos conseguiu tirar a espécie da mira da extinção. A tartaruga, da espécie Chelonoidis Hoodensis, batizado por Diego e hoje com 110 anos de vida, teve mais de 800 filhotes. Pense num cabra, ou melhor, tartaruga arrochada! Diego ainda nada por Galápagos e se alguma tartaruguinha der mole ele, creu! Danou-se!

E a Lua? Eita que nessa rede cai coisa viu! Os homens dos estudos apostam que a Lua surgiu de um choque planetário e da mesma bagaceira surgiu a Terra, porém, os menos que afirmam isso se avexam em dizer que tudo somente será fácil de ser assinado embaixo lá pelos anos 2040. Ah bom! Nesse caso, vamos relaxar e admirar a Lua cheia que já é tempo.

E a tartaruga em? Cento e dez anos de muito amor pela espécie. Tá vendo só como tem assunto embaixo dessa varandinha?

Nelson Mattos Filho

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La Niña e seus amuos

mapservQue ventania louca é essa Senhor?” Essa é a pergunta diariamente feita por minha Mãe nos últimos dias, mas ela mesmo trata de responder, pois sendo moradora de Natal/RN desde criancinha, sabe que agosto é mês de ventos fortes e acelerados. Porém, nos tratados dos estudiosos das ciências do tempo, esses ventos que sacodem a poeira de agosto são mais do que natural, contudo, a potência da força depende das estripulias da Menina e nesse 2016 ela acordou cheia de pirraça e, segundo o climatologista Luiz Carlos Molion, no site Notícias Agrícolas,  dessa vez ela só sossegará o facho em 2019. Molion diz ainda que “La Niña deve seguir o padrão próximo ao ocorrido entre os anos 1999 a 2001 quando o fenômeno se estabeleceu após um forte El Niño de 1997 a 1998”. Vamos nessa! – Mas quem é a Menina? – É a irmã do El Niño, que os pescadores que vivem nos pés das cordilheiras andinas chamam de La Niña. – Então se é irmã apronta as mesmas artes? – Não, pois os sexos são opostos e como diz o livro: “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”. – Entendeu? – Não? – Então vou me socorrer com o Cptec/Inpe para tentar desfazer suas rugas de interrogação.

O termo La Niña (“a menina”, em espanhol) surgiu pois o fenômeno se caracteriza por ser oposto ao El Niño. Pode ser chamado também de episódio frio, ou ainda El Viejo (“o velho”, em espanhol). Algumas pessoas chamam o La Niña de anti-El Niño, porém como El Niño se refere ao menino Jesus, anti-El Niño seria então o Diabo e portanto, esse termo é pouco utilizado. O termo mais utilizado hoje é: La Niña

Anomalia de temperatura da superfície do mar em dezembro de 1988. Plotados somente as anomalias negativas menores que -1ºC. Dados cedidos gentilmente pelo Dr. John Janowiak – CPC/NCEP/NWS/NOAA-EUA.
Para entender sobre La Niña, vamos retornar ao nosso “modelinho” descrito no item sobre El Niño. Imagine a situação normal que ocorre no Pacífico Equatorial, que seria o exemplo da piscina com o ventilador ligado, o que faria com que as águas da piscina fossem empurradas para o lado oposto ao ventilador, onde há então acúmulo de águas. Voltando para o Oceano Pacífico, sabemos que o ventilador faz o papel dos ventos alísios e que o acúmulo de águas se dá no Pacífico Equatorial Ocidental, onde as águas estão mais quentes. Há também aquele mecanismo que citei anteriormente, o qual é chamado de ressurgência, que faz com que as águas das camadas inferiores do Oceano, junto à costa oeste da América do Sul aflorem, trazendo nutrientes e que por isso, é uma das regiões mais piscosas do mundo. Até aqui tudo bem, esse é o mecanismo de circulação que observamos no Pacífico Equatorial em anos normais, ou seja, sem a presença do El Niño ou La Niña.
Pois bem. Agora, ao invés de desligar o ventilador, vamos ligá-lo com potência maior, ou seja, fazer com que ele produza ventos mais intensos. O que vai acontecer?
Vamos tentar imaginar ? Com os ventos mais intensos, maior quantidade de água vai se acumular no lado oposto ao ventilador na piscina. Com isso, o desnível entre um lado e outro da piscina também vai aumentar. Vamos retornar ao Oceano Pacífico. Com os ventos alísios (que seriam os ventos do ventilador) mais intensos, mais águas irão ficar “represadas” no Pacífico Equatorial Oeste e o desnível entre o Pacífico Ocidental e Oriental irá aumentar. Com os ventos mais intensos a ressurgência também irá aumentar no Pacífico Equatorial Oriental, e portanto virão mais nutrientes das profundezas para a superfície do Oceano, ou seja, aumenta a chamada ressurgência no lado Leste do Pacífico Equatorial. Por outro lado, devido a maior intensidade dos ventos alísios as águas mais quentes irão ficar represadas mais a oeste do que o normal e portanto novamente teríamos aquela velha história: águas mais quentes geram evaporação e consequentemente movimentos ascendentes, que por sua vez geram nuvens de chuva e que geram a célula de Walker, que em anos de La Niña fica mais alongada que o normal. A região com grande quantidade de chuvas é do nordeste do Oceano Índico à oeste do Oceano Pacífico passando pela Indonésia, e a região com movimentos descendentes da célula de Walker é no Pacífico Equatorial Central e Oriental. É importante ressaltar que tais movimentos descendentes da célula de Walker no Pacífico Equatorial Oriental ficam mais intensos que o normal o que inibe, e muito, a formação de nuvens de chuva.
Em geral, episódios La Niñas também têm freqüência de 2 a 7 anos, todavia tem ocorrido em menor quantidade que o El Niño durante as últimas décadas. Além do mais, os episódios La Niña têm períodos de aproximadamente 9 a 12 meses, e somente alguns episódios persistem por mais que 2 anos. Outro ponto interessante é que os valores das anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) em anos de La Niña têm desvios menores que em anos de El Niño, ou seja, enquanto observam-se anomalias de até 4, 5ºC acima da média em alguns anos de El Niño, em anos de La Niña as maiores anomalias observadas não chegam a 4ºC abaixo da média.
Episódios recentes do La Niña ocorreram nos anos de 1988/89 (que foi um dos mais intensos), em 1995/96 e em 1998/99. “

Fontes: Cptec/Inpe e Notícias Agrícolas

Uma viagem para poucos – I

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No mundo da navegação algumas rotas são cercadas de mitos, lendas, histórias, mistérios e algumas pitadas de criativas narrativas. O mar, por si só, sempre foi uma grande fonte de interrogação para o homem e por mais que a ciência tente desvendar os segredos submersos e invada os oceanos com novas tecnologias, os deuses marinhos sempre se mostram soberanos e imunes às novidades dos humanos. A natureza é dotada de infinita grandeza.

Na semana de 11 a 18 de Agosto de 2014 fomos convidados a fazer parte da tripulação do veleiro Argos III na travessia entre Fortaleza/CE e Cabedelo/PB, um trecho de pouco mais de 340 milhas náuticas, mas dependendo de alguns meses do ano, como Julho, Agosto e Setembro, a medida do percurso pode se transformar em uma incógnita de tamanho e alguns respingos salgados de sofrimento. No nosso caso, mês de Agosto, o pior deles. Convite aceito de pronto!

O Argos III é um catamarã de 30 pés, pouco mais de 9 metros, novinho em folha e construído em São Luiz do Maranhão. A travessia de Fortaleza a Cabedelo seria a segunda perna de sua viagem inaugural e participar do começo da história de um barco deixa a gente cheio de vontade. Continuar lendo