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Sabigati – Parte I

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Quem um dia molhou os pés nas águas do mar, do mar não esquece jamais. Foi assim, que após três anos de ter desembarcado do Avoante, o mar me chamou e mandou tomar ciência, porque os deuses dos oceanos jamais perdem aqueles que lhes devem respeito e honra. O mar me chamou e atendi seu chamado!

Moro hoje em uma cabaninha de praia, de frente para um lindo coqueiral que é a alma de um lugar, e da minha varandinha visualizo por entre a floresta de coqueiros um pedacinho de um ser maravilhoso, mágico, deslumbrante, inebriante, enigmático e que tive a alegria de conviver intimamente por longos dias, meses e anos. Ele sabe meus segredos, conhece de cor e salteado minhas dúvidas, acolheu meus lamentos, guiou minhas incertezas, me fez mais humano e com suas verdades me mostrou um mundo que dificilmente, algum dia, conseguirei palavras para descrever. Mar, uma palavra tão doce que me revira os sentidos e basta saber que ele está ali, a poucos metros de mim, que minha alma alivia.

Era um sábado qualquer de janeiro de 2019 e estávamos na varanda da cabaninha quando toca o telefone. – Nelson, aqui é o Kauli. – Pois não! – Você pode levar um barco de Natal para Salvador? É que o Glauco, do Maranhão indicou você. Sem pestanejar, olhei para o pedacinho de mar em minha frente, e ele se fez de desentendido como se não fosse com ele, e pensei: – O que você está aprontando?

– Para quando seria essa viagem? – Para fevereiro! – E que barco é? – Um catamarã BV36. Novamente olhei para o mar e ele estava com aquela cara de menino levado e sorrindo pelo canto da boca e respondi: – Posso! – Ok, Nelson, vou falar com a pessoa que quer me comprar o barco e depois te ligo! – Ok, fico no aguardo, mas por favor: Kauli de onde? – Kauli Seadi. – Beleza, campeão!

Ao desligar o telefone, fiquei alguns segundos viajando naquela proposta, matutando em minha pronta resposta afirmativa e travando diálogo com a consciência. – Danou-se, parece que fiquei maluco, pois nem combinei com minha comandante que sempre tem a palavra final e se ela disser não? – Aí você não vai, Nelson, simples assim! – Eh!

Lucia que estava com os ouvidos antenados na conversa, foi logo perguntando: – Quem era, amor? – Kauli! – Que Kauli, homem? – Kauli Seadi, ora! – Agora danou-se, desembuche! – Bem ele está vendendo um barco e indicaram meu nome para fazer o delivery de Natal a Salvador. – Quando isso? – Em fevereiro, mas ele ainda vai confirmar tudo, apenas queria saber se eu poderia fazer o serviço. – E escutei você dizer que poderia, não foi? – Foi! – Ok, precisamos mesmo tirar umas férias! – Mas não é férias, é trabalho! – Está bem, então precisávamos mesmo de um descanso! – Descanso? – Sim, descanso! – Eh, deixa assim!

Janeiro passou rápido, fevereiro chegou me deixando um ano mais velho e como presente, recebi a ligação que tudo estava confirmado e só faltava conhecer o barco, saber alguns detalhes, levantar as velas e cravar o rumo para a Bahia. Mas não era só isso, faltava conhecer o Kauli e o novo proprietário do barco, Dr. Silvio Marques, um baiano arretado de bom, de coração maior do que o mundo e que falou assim quando nos apresentamos: – Nelson e Lucia, o barco é de vocês e podem convidar para a viagem quem vocês desejarem, porque sei que sempre tem algum amigo disposto a dar uma velejada. – Ops! Olhei pra Lucia e perguntei: – Quem será que desejaria fazer uma viagem dessa? – Vamos ver!

É sempre assim, todo mundo quer velejar e todo velejador tem um sonho de uma viagem mais longa, mas na hora do vamos ver, aparece cada desculpa esfarrapada que dá vontade de rir. Na época do Avoante eu tinha até um caderninho com as desculpas que surgiam e eram bem criativas. Dessa vez não foi diferente e dos onze convites feitos, apenas o comandante Érico Amorim, que nunca diz não, nem deixou eu terminar o convite, aceitou de pronto. Eita comandante arretado! Porém, Pedrinho, parceiro desde as minhas primeiras velejadas, ouviu a história da viagem e disse: – Eu vou nessa, veio, e posso levar Pedro Filho? – Meu amigo, Dr. Silvio disse que o barco era meu e se é meu é seu e vamos nessa!

Tripulação pronta, eu, Lucia, Érico, Pedrinho e Pedro Filho. Sinceramente, nunca naveguei um barco com uma tripulação tão afinada. Não era preciso delegar nada e muito menos corrigir, porque todos ali sabiam exatamente o que fazer, como fazer e para que fazer. Foram quatro dias de puro deleite em um mar tão macio que parecia festejar nossa passagem e o Sabigati II, um BV36, confortabilíssimo, navegava sereno e feliz.

Primeira perna: Natal a Maceió, metade do caminho e estávamos de volta ao mar.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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1ª Travessia do Recôncavo

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O velejador Haroldo Quadros, manda fotos e notícias diretamente das águas históricas do Rio Paraguaçu, contando como foi a I Travessia do Recôncavo, uma velejada festiva organizada pela Trimar Eventos Náuticos, com apoio do Aratu Iate Clube e que aconteceu neste sábado, 18/03, véspera de São José.

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Mais de 50 barcos atravessaram a Baía de Todos os Santos e adentraram o velho e apaixonante Paraguaçu, até o povoado de São Francisco do Paraguaçu, famoso pela bela construção do Convento Santo Antônio, tão cruelmente esquecido por quem de direito prometeu cuidar bem. Na chegada, a flotilha foi recebida pela banda Estaka Zero que botou fogo na galera. A noite será servido jantar de confraternização, nas dependências do Convento, e em seguida a premiação com muita música, pois baiano não deixa essas coisas passar em branco. Valeu comandante Haroldo, por mais essa.

Registros e lembranças de uma velejada

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VIAGEM NO VELEIRO COMPAGNA

DIÁRIO DE BORDO

No final de outubro de 2015 embarcamos no veleiro Compagna, um Delta 36, a convite do comandante Braz, para levá-lo de Salvador a Paraty. Foi uma viagem maravilhosa em que registrei dia a dia em um diário.

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1º dia – 24/10

Saída do Aratu Iate Clube às 8horas e 40 minutos no rumo de Camamu/BA. A bordo os proprietários Braz e Cris, eu e Lucia. Vento ESE e mar de almirante. Velejada tranquila, porém, Braz e Cris tiveram leve desconforto com o fatídico enjoo, mas nada que tirasse o sossego de nossa velejada. Afinal de contas era o primeiro contato deles com o mar aberto e era de se esperar que o enjoo desse o ar da graça. Um peixe se encantou com a isca artificial e teve que ser embarcado. Chegamos à barra de Camamu com maré de enchente e às 21h20minutos jogamos âncora em frente à casa da saudosa Dona Onília Ventura, na Ilha de Campinho.

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2º dia – 25/10

Acordamos cedo, tomamos café e desembarcamos para rever e abraçar Aurora, uma das pilastras da Ilha de Campinho e, para mim, a melhor referência da Baía de Camamu. Em seguida fomos de botinho até a Ilha de Goio, onde passamos bons momentos entre banhos de mar e bate papo com o proprietário do único restaurante da pequena ilha, mais conhecido como Sr. Goio, que é uma figura. Retornamos ao Compagna para almoçar uma moqueca, preparada por Lucia com o peixe que pescamos. No fim da tarde eu e Lucia desembarcamos para despedir de Aurora e retornamos ao Compagna para o sono dos justos. Continuar lendo

Notícias do mar – II

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Depois de passar por Camamu, Ilhéus e Abrolhos, atracamos hoje o veleiro Compagna no Iate Clube do Espírito Santo. Até aqui os ventos e o mar foram maravilhosos com a gente e nem uma pauleira que nos pegou de surpresa na segunda noite em que dormimos fundeados em Abrolhos, como também a proibição sem nenhum sentindo para o desembarque na ilha Santa Bárbara, conseguiu tirar o brilho de nossa navegada. Amanhã vamos ganhar novamente o mar no rumo do Rio de Janeiro e tomara que o tempo continue a nos acariciar.   

Uma vidinha assim…

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Depois de uma velejada maravilhosa entre Salvador/BA e Morro de São Paulo, com vento leste, mar de contra-almirante, peixe na linha –  depois na frigideira – e pôr do sol, ancoramos na noite de ontem, 24/09, em frente a Gamboa do Morro. Não foi uma ancoragem das melhores, porque com a Lua cheia, o vento leste entrou forte e o fundeio foi bem balançado, mas não impediu que festejássemos a velejada com alguns goles de vinho sob o brilho prateada da Lua.

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O dia amanheceu e fomos despertados pela sinfonia de um quarteto de Bem-te-vis, que se equilibrava entre os estais e biruta do Avoante. A vida a bordo de um veleiro é assim mesmo: Cheia de encantos!

O Pirajá

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E lá vem ele! Isso que aparece na imagem é o famoso Pirajá, aquele ventão instantâneo que sopra forte sob nuvens ameaçadoras apelidadas cientificamente de Cumulus Nimbus (CB). O Pirajá é arroz de festa nos mares dos trópicos e quando o bicho chega sempre trás junto raios, relâmpagos e trovões, mas quando a gente começa a sentir medo ele escapole para atormentar outras almas. Esse que aparece na imagem registrei em 2006 enquanto dava uns bordos entre Salvador/BA e Maceió/AL. Nesse dia o danado estava com a molesta no couro e soltando impropérios para todos os lados. Molhou, roncou, soprou, sacudiu o Avoante e se foi como se nada tivesse acontecido. Pois é, esse é o Pirajá!

De Angra dos Reis até Ilhéus

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Essa é mais uma boa história de velejada enviada pelo amigo Danilo Fadul (Veleiro Farnangaio) para a nossa seção Conte Sua História. Faz tempo que Danilo mandou o texto, mas ele havia mergulhado na bacia das almas do meu computador e somente agora consegui resgatá-lo, espero que Danilo me perdoe. A história e bem educativa para quem pretende subir a Costa Leste do litoral brasileiro no verão e foi escrita em uma linguagem simples e prazerosa.

DE ANGRA DOS REIS ATÉ ILHÉUS

Danilo Fadul

Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014.

Durante o dia, fiquei com o eletricista (Mike – “máique”) e o mecânico da Yanmar, Lao, fazendo alguns ajustes no alternador e correias que Fernando havia solicitado. Aproveitei para mergulhar e verificar o fundo do barco. Uma tartaruga “bôba” insistiu em ficar me observando.

Fernando chegou no começo da tarde e aproveitamos para fazer compras e abastecer o barco com óleo e água.

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21/02/2014 13h00 Vista da baia de Angra com o “Waterproof” no centro.

Barco: Lagoon 380 com 2 motores Yanmar 30 Hp.

Todos os equipamentos da Raymarine: Chartplotter GPS C80 integrado a radar Tridata;

Ecosonda, Speedômetro e Termômetro de água ST60;

Piloto automático ST6001; Pode seguir rumo ou direção do vento.

Wind ST60 também integrado.

Cartas náuticas de toda a rota incluídas no CHARTPLOTTER.

Tripulantes: Fernando, proprietário do barco e eu, Danilo.

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Saímos de Angra por volta das 17h00, 23° 0.895´S – 44° 18.029´O, como eu nunca havia velejado naquela região, Fernando aproveitou para dar uma entrada no Saco do Céu. Realmente é uma região belíssima (23° 6.453´S – 44° 12.646´O).

Ao escurecer, já estávamos no caminho da ponta da Restinga da Marambaia. As 20h00 passamos pela ponta e Fernando foi descansar. Combinamos turnos de 3 horas. A noite estava fria para os padrões da Bahia. Talvez 19°. Tive que colocar um agasalho. Cruzamos com alguns navios pequenos e rebocadores, mas nenhum na rota direta. Entreguei o timão às 23h00 e retomei às 2h00 do sábado.

Sábado, 22 de fevereiro de 2014.

Nesse ponto já tínhamos as Cagarras no través de bombordo e todo o Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Zona Sul. Esse trecho, até o amanhecer, foi mais carregado. Muitos navios e, pelo menos, duas plataformas ancoradas fora da baia de Guanabara. Passei há umas 9 milhas da costa, mas mesmo assim tive que fazer alguns ajustes na rota. Quando o dia clareou, o último navio já estava a sota de nosso rumo.

No través, a praia de Itacoatiara e as ilhas Mãe e Filha de Maricá. Coloquei as linhas n´água às 5h30 e as 7h00 começamos a ver muitas aves e logo depois muitos golfinhos cercando alguns peixes médios, de aproximadamente 1 kg. Talvez cavalas pequenas ou atuns tipo bonitos. Como nosso equipamento de pesca era leve, não tinha iscas para mar azul. Todo o tempo, desde a saída da baía de Angra, o vento permaneceu de leste, 100% contra nosso rumo. Motoramos e sempre mantínhamos a mestra armada dando bordos longos e mantendo o barco bem confortável.

Ao meio-dia o vento começou a apertar e chegou aos 17 nós reais, sempre “de cara”. Tinha a esperança do leste se manter depois da passagem por Cabo Frio e então podermos trabalhar o rumo numa orça não muito apertada. Depois do almoço fui descansar e quando acordei estávamos a 3 milhas da Ilha de Cabo Frio com vento real de 35 nós e aparente de até 47 nós. Sempre de cara. Nosso destino era o porto de Cabo Frio para abastecermos de óleo e água. A entrada do canal da Ilha foi espetacular (22° 59.894´S – 42° 0.770´O). Muitas anchovas saltando, alguns barquinhos pescando, muitos pescadores nas encostas de pedras e o mar fervendo de espuma branca devido ao vento canalizado. Continuar lendo