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AO COMANDANTE VASCONCELOS

                                 

                                    “Nelson, você está realizando um sonho de um marinheiro…”. Esta frase veio acompanhada com um nó na garganta, a algumas milhas da Ilha de Fernando de Noronha em direção a Natal. O dia era uma bela manhã de Outubro, com o mar acordando com o humor alterado.

                                   É fácil reconhecer os homens do mar. Em suas faces brilham o real sentido de honra, liberdade, amizade, reconhecimento, parceria, doação, responsabilidade, respeito, humildade e estão sempre de braços e mãos estendidas para um auxilio.

                                   Hoje presto minhas homenagens a um verdadeiro homem do Mar: Capitão de Mar e Guerra Francisco José Silveira de Vasconcellos ou simplesmente Comandante Vasconcelos, que até o dia 29 de Janeiro de 2010, assumiu o comando da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte.

                                   Nossas latitudes e longitudes se cruzaram no decorrer do ano de 2009, nas dependências do Iate Clube do Natal, eu um simples velejador sonhador e ele um apaixonado pelo esporte a vela, mas com a autoridade de guardião dos portos do Rio Grande do Norte.

                                   Certa vez um amigo perguntou o que eu achava da aproximação e da fácil amizade de Vasconcelos. Na hora fiquei sem resposta, até porque eu não costumo prestar atenção a essas coisas. Para mim, amizade é lealdade e nunca me aproximo de um amigo em busca do que ele possa me dar em troca. Hoje, refletindo um pouco mais, ainda continuo sem resposta. Até porque Vasconcelos é um amigo e de um amigo dificilmente se cobra alguma coisa.

                                   Vasconcelos mudou a cara da Capitania dos Portos. Escancarou suas portas a comunidade náutica e revolucionou a prestação de serviços ao público. Eu, em várias ocasiões, vi o homem Vasconcelos com lagrimas nos olhos diante do reconhecimento de seus comandados e pelas homenagens que nunca lhe faltaram.

                                   Amigo leal, mas sempre pautado pelas normas e Leis da autoridade marítima, nunca precisou usar de sua autoridade para convencer alguém que as regras precisavam ser seguidas. A vida no mar exige respeito e assim, todos aqueles que se aproximavam do comandante sabiam o rumo a seguir.

                                   Aproximava-se o dia da regata Recife – Fernando de Noronha em 2009 e a tripulação do Avoante estava completa, mas num dos muitos encontros de velejadores no clube, ao meu lado sentou o comandante Vasconcelos, com sua habitual alegria e amizade. Numa lacuna dos assuntos da reunião ele pegou no meu braço e falou baixinho: “Volto de Noronha no Avoante”. Dei uma risada e respondi de pronto: -“A tripulação já esta completa…”. Ele não baixou guarda e já desferiu um cruzado de direita: “Eu sei, mas eu vou a Noronha de avião e volto no Avoante nem que seja amarrado nas velas”. A reunião seguiu em frente e ele ficou com aquela cara de quem ganhou a peleja. E ganhou mesmo!

                                   Quem era aquele homem que tínhamos acabado de conhecer e que já se posicionava no mais alto pedestal da amizade e ainda invadia o nosso querido Avoante? Com tanto barco para ele vir de Noronha, porque escolheu logo o nosso, ainda mais sabendo que já estava lotado? Sou difícil de dizer um não aos inimigos, quanto mais aos amigos. Mas, aquele capitãozinho, metido a besta, já começou abusando.

                                   A partir daí nossa amizade foi sendo lapidada e se multiplicou ao longo da travessia oceânica de Noronha/Natal. Amizade que tem o orgulho de vestir a camisa do Avoante e sair exibindo. Amizade de ter dividido turnos em uma longa noite de mar endiabrado. Amizade de ver os vergalhões de ondas e o uivo dos fortes ventos de um Pirajá mais enfurecido, mas que diante da confiança não se abala. Amizade verdadeira que somente o mar pode abençoar e compreender.

                                   Hoje o Comandante Vasconcelos não comanda mais a Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte, cumpriu com dignidade o seu posto e agora assume novas funções na sua amada MARINHA DO BRASIL. Vai navegar longe do mar, sua paixão. Vai navegar levando sua experiência e competência aos cerrados e planícies da Capital Federal. Vai navegar pelas avenidas largas e pelas águas tranqüilas de um lago de uma cidade que pulsa a procura de homens de honra e respeito como nosso Comandante.

                                   Bons ventos Comandante Vasconcelos e que o mar, diante do grande marinheiro que você é, seja sempre um bonito mar azul.  

 

Nelson Mattos Filho

Velejador

* Artigo também publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE, coluna DIÁRIO DO AVOANTE em 31/01/2010. A coluna é publicada aos domingos. 

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