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Cotidiano

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O TREMOR, A CIDADE E O TEMOR

Conheci o município de João Câmara/RN, conhecido também pelo nome de Baixa Verde – não sei o porquê, mas simpatizo mais com o segundo -, há mais de 25 anos, durante minhas andanças em busca das praias do Rio Grande do Norte. De lá para cá, a visita virou caso de amor e durante seis anos passei a residir na cidade como proprietário de uma padaria, que logo virou um delicioso ponto de encontro, a Pão de Mel, e como reconhecimento, o vereador, na época, Marcelo Barrinha propôs ao plenário da Câmara Municipal que eu e Lucia fossemos agraciados com o Título de Cidadão Camarense, o que aconteceu em uma bonita cerimonia. Título que muito nos honra. A Pão de Mel ainda segue na vida comercial da cidade, sob a batuta do seu novo proprietário e nós, fomos navegar por aí, até que, depois de onze anos, resolvemos desembarcar para morar na praia de Enxu Queimado, parede e meia com João Câmara. Os segredos da paixão são indecifráveis.

Toda essa introdução é apenas para situar você no contexto deste texto, que tem os terremotos como pano de fundo, pois Baixa Verde ficou conhecida mundialmente como a cidade dos tremores e quase foi riscada do mapa em 30 de novembro de 1986, quando um abalo sísmico, de magnitude 5.1 na escala Richter, trouxe a face do terror aos moradores.

Pois bem, em 1994 quando falei para os familiares e amigos que iriamos morar em João Câmara todos olharam com incredulidade. – Na cidade do tremor? – Vocês estão malucos? Enquanto moramos, sentimos os efeitos de alguns tremores e até acordamos durante a noite com a cama sendo sacudida, mas tudo não passou de pequenos sustos e no decorrer do dia, a preocupação ia sendo apaziguada pelo humor embutido em frases engraçadas. Aliás, os estudiosos afirmam que o município nunca deixou de sofrer abalos, pois está situado em cima de uma falha geológica batizada de Samambaia, que é permanentemente monitorada por uma estação sismológica da UFRN. Em 2016, uma série de dezessete tremores, de magnitude leve, foram registrados num espaço de seis horas, mas felizmente não provocou danos.

Tem cidades mundo afora que aproveitam os efeitos de uma catástrofe natural para angariar com turismo e na época do primeiro abalo, com João Câmara não foi diferente. Muita gente foi ver a destruição de perto e alguns viraram morador. O Exército Brasileiro reconstruiu as casas, todo ano a cidade relembra o fato e a vida segue. A cidade hoje festeja o incremento da energia eólica que trouxe enormes ganhos ao município, porque Baixa Verde é conhecida como a capital do Mato Grande. Dá gosto andar por suas ruas e ver o movimento frenético de um comércio pujante, porém, o progresso trouxe o carma da violência desenfreada que destrói a sociedade brasileira com uma fúria implacável e que deixará marcas para o sempre. Os números da violência na região do Mato Grande são de assustar, mas o governo estadual continua fazendo ouvidos de mercador e virando a cara para o problema. Na maioria das cidades o destacamento policial não passa de dois soldados e quando muito chega a três. – Vergonha? – Que nada, é incompetência, descaramento, desfaçatez e falta de zelo com a população!

Ontem, dia 18/06, nas barbas de São João, Baixa Verde foi novamente sacudida por um tremor de magnitude 2.1. Não teve danos maiores do que o susto, mas ficou no ar a incerteza e voltaram as lembranças da desgraça ocorrida há 31 anos. Será que o fato merecerá uma visita do governador e do séquito de assessores que o acompanha? Acho que não! Se toda essa violência que já ceifou mais de mil vidas no RN este ano não tira o sossego do governador, imagine um terremotozinho de nada, numa cidade de interior! Alguém haverá de perguntar: – E o que o governo tem com isso? Resposta: – Se fosse um governo comprometido com a sociedade e que buscasse levar alento para as mazelas, ele já estaria em campo. Penso eu, né!

A falha de Samambaia está viva e fazendo ecoar o urro dos seus amuos pelas terras do Mato Grande. A violência está viva, incrivelmente cruel e sem ouvir o clamor dos nossos lamentos. Qual o pior do dois é difícil de avaliar, porém, acho a violência como um mal maior, porque vem no rastro do desgoverno e da falta de escrúpulo. Para acalmar o povo os governantes apostam nas melhores e maiores fogueiras. E aja foguetão e forró! – Forró?? – Homi, sei lá e deixe de pergunta besta!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 13

10 Outubro (188)

Enxu Queimado/RN, 17 de abril de 2017

Meu caro Pinauna, antes de me avexar em escrevinhar as linhas dessa carta, digo que por aqui está tudo nos conformes, mas ainda muito longe dos dias que passamos sobre as verdades verdadeiras do mar, mas tirando os nove fora e como diria um garotinho que certo dia nos serviu de guia pelas trilhas da serra de Martins, município localizado no alto oeste potiguar, lá na tromba do elefante: “Tá mais bom do que ruim! ”.

E já que falei em Martins e como você é um geólogo bom que só a mulesta e de vez em quando se arvora em fazer rastro pelas estradas do sertão brasileiro, vou dar a dica para na sua próxima viagem, incluir a Princesa Serrana e seus 700 metros de altura em relação ao mar, em seu caderninho. Lá tem frio que só vendo para crer e todos os anos a turma da alta gastronomia monta barracas, fogões e se dana a produzir gostosuras. Dizem que é o maior festival gastronômico de rua do Brasil. Dizem, viu! E tem também umas cavernas boas para o olhar de quem estudou pedras e buracos. Mas vou parar por aqui, pois já fiz propaganda demais da terra alheia e como diz o título, a carta e de Enxu, que fica no beiço da praia e um bocado de légua longe das serras do Oeste.

Pinauna, meu amigo, você pode até ficar matutando sobre o motivo dessa cartinha, mas digo que fique não, pois sempre lembro daquelas prosas boas nas varandas do Aratu Iate Clube, diante de um pôr do sol lindo sem igual, onde de vez quando você chegava com um livro debaixo do braço e perguntava: – Tem esse comandante? Se tiver passe para outro, se não tiver é seu. Rapaz, você me presenteou com cada raridade de fazer inveja a um monte de gente boa. Aquele sobre os Saveiros e aquele outro sobre as embarcações brasileira, foi demais da conta. Pense em dois livros que me renderam um punhado de conhecimento! Sempre que vou à praia, para uma caminhada ou comer um escaldaréu embaixo de uma cabaninha de palha, fico sentado e em silêncio em frente as jangadas e viajo em pensamento pelos oceanos do mundo. Tudo que vejo ao vivo está naqueles livros. As formas, o tabuado, as velas, as ferragens, a entrada do vento, a saída da água, as histórias e os causos contados em sussurros por interlocutores invisíveis. Eita coisa boa que muitos nem imaginam existir! Lembro de uma frase do Teatro Mágico que diz assim: “É simples ser feliz. Difícil é ser tão simples”.

Velejador, as jangadas de Enxu são bonitas, viu! Num tem muitas não, mas o suficiente para encher os olhos de um amante do mar. É gostoso observar suas idas para a lida e a hora da volta do mar. A velinha branca crescendo no horizonte, os cestos carregados, o olhar de cansaço do jangadeiro, a troca de palavras que somente eles entendem, a puxada do barco sobre troncos de coqueiro, a lavagem do convés e a caminhada do homem levando para casa o seu quinhão. Tudo meio mágico, tudo meio rude, tudo muito belo e dotado de muita sabença. Dizem que o povo do mar é encantado. Será verdade comandante? Um dia tentarei descobrir.

E as chuvas, meu amigo? Por aqui está assim meio sei lá e até já li nos jornais que a seca continua firme, forte e tá nem aí para o volume de chuva que São Pedro já mandou. Os homens do tempo dizem que falta pouco menos de 40 dias para as nuvens secarem de vez pelas bandas do Nordeste e se não houver uma reviravolta milagrosa, a chapa vai esquentar. Tomará que São João venha chuvoso e São Pedro assine em baixo, que é para o forró ser animado e tenha milho para a canjica e a pamonha. Por enquanto, chuva para valer é promessa santa e a seca, agouro da turma do quanto pior melhor. Agora me diga como está nas terras do Senhor da Colina Sagrada?

E por falar em chuva: Vi uma matéria num site daqui que uma pesquisadora da UFRN anda escavacando o semiárido potiguar em busca de respostas para a elevada incidência de câncer no pequeno município de Lages Pintada, que apresentou 415,2 casos para uma população de 4.614 habitantes. O estudo aponta para a péssima qualidade da água retirada do açude que abastece parte do lugar, mas também mira nos afloramentos rochosos que cercam a cidade, e na presença de ionizantes naturais que liberam gás radônio, que libera o chumbo para o meio ambiente. A cidade que fica a 135 quilômetros da capital, a mesma distância que separa Enxu Queimado de Natal, convive com a seca, mas é abastecida em parte por uma adutora. Aí você há de perguntar: – E para que beber água do açude? Meu amigo, as coisas das politicagens são como são e não como é para ser. Rapaz, eu nem te disse que em Enxu a água vem de poços artesianos meia boca. Pois é, um dia ia ter água encanada e teve até cano enterrado, mas aí é outra história e nessa prosa cada um que conte um conto.

Pois é eu amigo Sérgio Netto, Pinauna, desculpe lhe avexar com os percalços de minha terra, mas queria enviar notícias e falar um pouquinho do cotidiano da minha vida de praieiro. Mando um abraço para Dona Mila e Lucia manda um beijo para os dois.

Nelson Mattos Filho

Por uma causa

2 fevereiro (38)

Uma matéria publicada na revista potiguar Bzzz chama atenção para a contaminação por metais no açude que atende a cidade de Lages Pintada, região agreste do Rio Grande do Norte, e que segundo a pesquisadora Viviane Amaral, do Departamento de Genética da UFRN, é a causa do alarmante número de casos de câncer no município. Somente em 2010 foram 415,2 casos para uma população de 4.614 habitantes, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer – INCA.

Esse é um tema dos mais relevantes para a saúde de um país, mas está jogado dentro de uma agenda que somente é aberta durante campanhas anuais de prevenção, para servir de base para discursos inflamados dos loroteiros da vez. O câncer é um problema mundial e alguns países sérios tratam como prioridade máxima, porém, no Brasil das causas sociais é tratado quando der ou criminosamente sobrar algum pixuleco dos milhões arrecadados pelos ratos dos esgotos a céu aberto. Dia desses, o Jornal Nacional, da Rede Globo, fez um longo documentário sobre as dificuldades enfrentadas pelos que precisam do tratamento do câncer no Brasil, mas infelizmente o assunto passou despercebido da população e principalmente daqueles que se comovem diariamente nas redes sociais com os desmazelos da corrupção que destrói o país.

Diz à lenda que as redes sociais são responsáveis por boa parte das resoluções dos problemas brasileiros. Será verdade? Não é isso que mostram as pesquisas e por enquanto estão todas focadas no surto da Zika, inclusive com as devidas piadas de mau gosto.

A contaminação das águas brasileiras é um assunto que enche o saco e a paciência das autoridades e os que tentam mergulhar profundamente no problema são taxados de encrenqueiros, reacionários, golpistas ou direitistas – como se isso fosse crime inafiançável ou o mundo só precisasse de uma única cor.

A contaminação da água em Lages Pintada, segundo a pesquisa, é pela radiação natural potencializada pela escassez hídrica, que devido aos muitos afloramentos rochosos existentes no município, libera o gás radônio e chumbo. Teoricamente a cidade é abastecida por uma adutora que leva água a 23 municípios, porém, para algumas comunidades nas proximidades do açude público essa água não chega. Os casos mais comuns de câncer em Lages Pintada são os de orofaringe, estômago e pulmão, que segundo a pesquisadora podem estar relacionado com a exposição da população com o chumbo e o radônio.

O problema chamou minha atenção porque em minhas navegadas por aí tenho escutado relatos da grande incidência de câncer nas cidades litorâneas. Recentemente estive na praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, e escutei amigos comentando que no munícipio de Pedra Grande, do qual Enxu Queimado é distrito, a doença tem tomado rumos alarmantes. No ano passado vi uma matéria sobre a praia de Corumbau, litoral sul da Bahia, e num bate papo com um amigo, que tem casa no município de Prado, fui informado que toda aquela região o câncer maltrata para valer e a badalada praia de Trancoso é um dos redutos mais preocupantes.

A Baía da Guanabara, que receberá as provas dos esportes náuticos, já foi comprovadamente taxada como imprópria devido à contaminação de suas águas, mas o desatino de um secretário de estado que não tinha solução nenhuma para o problema, fez com esse anunciasse para a galera que mergulharia nas águas poluídas para provar que tudo não passava de intriga. O mergulho aconteceu e até agora graças à sorte que acompanha os desatinados o secretário parece que está intacto e contando goga.

Pensando bem, a contaminação das águas é um problema conhecido e denunciado apenas através dos noticiários, mas que ninguém quer saber, porque somos todos culpados. Se existe metal, esgoto, lixo, o raio que o parta ou se tudo isso causa algum mal a saúde, o problema é do vizinho ou das autoridades que não estão nem aí para a cor da chita e se divertem dando desculpas esfarrapadas aos jornalistas. Está aí o caso da barragem de mariana.

Lages Pintada, que eu infelizmente não conheço, está localizado a 136 quilômetros de Natal e é um pequeno município encravado no pé de uma serra. Se existe metal radioativo consumindo a população local é talvez um problema quase sem importância diante dos grandes problemas de uma nação continental, que agora está assanhada pelo voo de um mosquito descarado e zombador. – Para que danado um velejador quer se meter a falar dos assuntos de um lugar lá do meio do mato e que nem água tem para fazer uma canoa boiar? – Deve ser por falta de assunto.

Eh! Deve ser mesmo. Mas tomará que a Doutora Viviane consiga provar ao mundo sua verdade e a população de Lages Pintada, assim como tantas outras, se livre dessa maldição.

Nelson Mattos Filho/Velejador