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A cara feia da cruviana

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A imagem é bela, mas como dizem que quem vê cara não vê coração, mesmo estando a milhares de quilômetros, dá para sentir um frio na espinha. O Florence, furacão que os cientistas já consideram que fará parte da lista dos mais destruidores, se aproxima da costa leste dos EUA, produzindo ventos turbinados de mais de 220 km/h, e pelo caminhar da fera, deverá atingir a Carolina do Sul, para fazer reboliço, entre a noite da quinta-feira e a manhã da sexta. Porém, o bicho não está sozinho nessa jornada catastrófica pelo Atlântico Norte, e coladinho em seu rastro caminham três filhotes de monstros doidinhos para mostrar serviço. Que os deuses tenham compaixão! 

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Olhe a tempestade aí gente!

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Rapaz, essa tempestade está difícil de passar e já nem sei se ela passará algum dia, porque a última postagem foi exatamente há nove meses e a anterior fazia a mesma ruma de tempo. Nem o El Niño chegou a tanto. Mas sabe de uma coisa: A história é boa e para quem acompanha a peleja desde o comecinho sabe que é boa sim, pois o Michael Gruchalski é um excelente contador de história. Se você quiser saber de onde vem essa peleja click AQUI e se inteire do assunto.

A TEMPESTADE

PARTE 20. SURFANDO PERIGOSAMENTE

Michael Gruchalski

O filho do capitão disse alguma coisa. Qualquer coisa que não entendi. Embalado em profundo sono pelo movimento rítmico e sereno da cabine de proa, não distingui nem o que havia dito nem entendi bem onde me encontrava. Num veleiro, ora. No meio do mar, ora. Porque, com quem, aonde?

– Venha ver, venha ver!

Voltei à realidade que me cercava. Todos os neurônios começaram a funcionar, juntos, de uma vez só. Girei o corpo e dei um salto até o salão pulando por cima da água no piso do banheiro. Ainda havia luz do dia, amarelada, mas forte. Iluminava a cabine com tons dourados, as sombras balançavam no teto e armários. La fora, o capitão fazia seu turno no trapézio e seu braço direito livre apontava para o mar.

– Estamos chegando na barra, olha só o tamanho daquelas ondas batendo ali !

Virei a cabeça para ver a proa. Pela alheta de boreste, não muito longe, não muito perto, havia uma linha contínua de espuma branca. Não muito alta, não muito espessa. Mas era uma linha de contínua de ondas quebrando, no meio do mar. Não deveria estar ali, àquela hora, segundo nosso desejo. Não havia vento naquela tarde calma de outono, porque as ondas? Tão altas, rolando sonolentas? Abri a boca, fechei a boca como se tivesse buscando por um pouco de ar. Segurei um palavrão, provavelmente para não elevar a tensão a preocupação. Olhei para bombordo, a orla de Aracaju estava lá, não dava para ver os carros, nem movimento, mas os prédios estavam lá, irregulares, na frente da luz do sol que ia se por dali a pouco. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 19

6 Junho  (240)

– E a Tempestade que nunca acaba? Pois é amigos, há nove meses publiquei aqui a 18ª parte de A tempestade, escrita pelo velejador Michael Gruchalski, e de lá para cá venho recendo cobranças dos leitores que embarcaram no relato e estão ao deus dará em meio a um mar tempestuoso em frente a bela cidade de Aracaju/SE sem saber que rumo tomar. Depois de nove meses, eu já havia perdido as esperanças, o cronista resolveu pingar mais uma dose para aplacar a nossa angústia. Agora vamos rogar aos céus para que o autor consiga achar o caminho do Porto e atracar o veleiro em segurança. Achar o fio da meada dessa peleja é fácil: Basta ir em PESQUISAR NO BLOG e inserir o título A Tempestade. Está tudinho lá.  

A TEMPESTADE

PARTE 19. A BARRA DE ARACAJU II

Por: Michael Gruchalski

Não sei quanto tempo havia passado quando abri um olho, depois o outro. A cabine balançava ritmicamente, ouvi o motor trabalhando. Com certeza, estava num veleiro. Levei mais quatro segundos para entender como, onde e por que.

Não me mexi. De olhos estatelados, consciente da situação, pensei no motor. Nosso coração de ferro. Lembrei-me de um ensinamento de um velejador experiente que não perdia a oportunidade de dizer: “perca o mastro e as velas, perca a comida, os eletrônicos e as bombas, perca tudo, mas não perca o motor, eixo e hélice. O motor é a diferença entre chegar e chegar bem”.

Você nunca vai deixar de chegar a algum lugar enquanto estiver em cima de um casco bem feito porque o mar não o quer flutuando sobre ele a vida inteira. Sem motor, você terá muitos problemas para resolver, mas estará seguro do seu destino. Seu destino, não importa aonde, será algum ponto em terra firme, algum dia. Até lá, o maior problema vai ser o tempo, só isso. O tempo de atraso. Serão alguns dias se você tiver sorte, semanas ou meses, se tiver azar. Continuar lendo

A força dos ventos

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O velejador baiano Haroldo Quadros, incansável pesquisador e navegador das paragens internéticas, enviou algumas curiosidades sobre a força dos ventos sobre o planeta Terra e que são registradas como recordes nas páginas digitais da enciclopédia livre Wikipédia. Vejamos:

Acredita-se que cada um destes recordes seja um valor oficialmente medido por instrumentos meteorológicos dentro dos padrões da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Recordes de velocidade do vento

  • Maior velocidade registrada: 484±32 km/h, numa rajada de 3 segundos; observada por um radar Doppler, durante a passagem de um tornado próximo à cidade de Oklahoma, EUA, em 3 de maio de 1999.
  • Maior velocidade registrada com um anemômetro: 407 km/h, numa rajada de 3 segundos em Barrow Island, Austrália Ocidental, 10 de abril de 1996, durante o ciclone tropical Olivia.
  • Maior velocidade registrada por um anemômetro, fora de um ciclone tropical ou tornado: 372 km/h, na média de um minuto; Monte Washington, Nova Hampshire, EUA, 12 de abril de 1934.
  • Maior média de velocidade no período de 1 dia: 174 km/h, Port Martin (Terra Adélia), Antártida, entre 21 e 22 de março 1951.

Tufão Neoguri ameaça ilhas japonesas

Link permanente da imagem incorporada É essa coisinha ai na imagem que está preste a despencar sobre a região sul do Japão nas próximas horas. O tufão Neoguri que está produzindo ventos de mais de 250 quilômetros por hora se formou em meio ao Oceano Pacífico, Domingo 06/07, e avança como uma bala em direção as ilhas japonesa e outros países asiáticos. As autoridades já emitiram comunicados de alerta de tempestades e marés altas para toda a região a ser atingida. A grande preocupação é com as usinas nucleares que existe na ilha Kyusku, que fica na área em que o tufão deverá castigar. Dois a quatro tufões atingem o Japão anualmente, mas raramente no mês de Julho. Fonte: uol notícias.

A Tempestade – Parte 17

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A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 16

Michael Gruchalski (2)Depois de quase um verão inteiro de silêncio o velejador Michael Gruchalski colocou novamente a Tempestade para moer a nossa curiosidade, pois eu já não sabia mais o que responder aos que me perguntavam se a borrasca havia acabado. Tomara que ele não resolva entrar em estado de hibernação durante o outono. 

A TEMPESTADE

RECUPERANDO FORÇAS

Agora entendo porque algumas pessoas não devem ir para o mar.

Agora entendo porque outras, depois de passar por aquilo adotam uma religião, outras envelhecem dez anos e, outras ainda, com receio de serem tachados de mentirosos, calam-se para todo o sempre. O que dizer de navegadores de mares verdadeiramente perigosos e assustadores? Gente que diz ter passado dias, dias e dias no meio de uma tempestade com ondas de oito, doze metros de altura, verdadeiras massas líquidas em movimento, temperaturas subantárticas congelando nariz, orelhas e pontas dos dedos? Sozinhas, no cockpit, segurando o leme, o corpo doído, enrijecido, o olho fixo no mar para não atravessar a próxima onda. Sem comer, sem dormir, sem urinar? Ou comendo frutas, dormindo de olhos abertos e fazendo xixi nas calças para esquentar os fundilhos. Tudo isso, por dois, três longos dias e noites? Num veleiro, em situações de stress agudo, muda o comportamento dos órgãos. O intervalo entre as necessidades fica muito mais espaçado. O volume de urina cai ridiculamente para poucos pingos. E eu soube que, em situações de stress prolongado, consegue-se ficar mais de uma semana sem sentar no trono. Isso sem contar a falta de higiene e banho. Os sentidos aguçam na direção das necessidades imediatas de sobrevivência.

Qual a diferença entre esses super-homens que se aventuram em roteiros e mares impossíveis e nós, velejadores normais? A diferença está em que eles não têm medo de morrer. É isso. Ai está a diferença. Essa gente não tem medo de morrer. Essa gente pode até afirmar que o importante é ter um barco de boa qualidade e tamanho, equipado com toda a parafernália de eletrônicos e itens de segurança mas, no fundo, sabem que mesmo isso pode não ser suficiente. Eles sabem, repito, que quando a natureza decide que é hora do show, é hora do show….

Navegam e não lamentam estar por perto na hora do show. Porque não têm medo. De morrer.

Vento? Chuva? Trovões? Isso é só confete, serpentina e lança-perfume de um baile de carnaval. Não alteram as coisas, afetam apenas os sentidos, impressionam. Nesse mesmo baile, ondas e relâmpagos são a bebida excessiva que leva o folião a nocaute. Ondas de dois a três metros, pequenas, desencontradas, nervosas, nascidas prematuramente por vontade de um ventão tropical repentino e mal humorado são mais perigosas e, principalmente, traiçoeiras, do que aqueles vagalhões com tamanho de cinco locomotivas, lentas e pesadas formadas por ciclones em latitudes setentrionais ou abaixo das “forties”. Relâmpagos que parecem nascer da água, a poucos metros do barco, carregam energia suficiente para reduzir barco e tripulação a pó. Das duas, qual a mais perigosa? Haveria uma forma de comparação? Não acredito que haja. Além disso, como tantas coisas na vida, comparações nesse nível pouco valem quando analisadas em terra, fora do baile ou distantes do show, protegidos dos elementos que desencadeiam aqueles fenômenos. Melhor ou pior, tudo depende de como cada um recebe e aceita as situações. E do discernimento e capacidade de ser honesto quando divulgar suas lembranças e impressões.

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