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É assim

10 Outubro (4)

É durante as tempestades que o bom timoneiro, cada vez mais, mantém a serenidade

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A Tempestade – parte 18

8 Agosto (5)

Ufa! Depois de um longo e tenebroso inverno Michael resolveu nos mandar mais um capítulo de A Tempestade, uma aventura eletrizante no mar de Sergipe. 

A TEMPESTADE

A BARRA DE ARACAJÚ

Michael Gruchalski

Não havia muito a fazer.

Acordamos do sonho de sermos rebocados. Lentamente, como saindo de uma anestesia geral. A alegria de vermos os nossos problemas resolvidos durou pouco e deixou-nos frustrados. De repente, o destino que parecia tão perto, tornou-se distante, quase inatingível pelas dúvidas e dificuldades de se transpor, sem cartas ou ajuda externa, uma barra rasa e desconhecida. E havia ainda catorze milhas de mar a nossa frente. Uma viagem de três a quatro horas por águas de cor barrenta, espetadas por duas dezenas de plataformas, das quais só a metade ativa, com gente e barcos de apoio em volta. A outra metade eram restos de estruturas disformes, esqueletos enferrujados, sacudidos e maltratados ao longo dos anos pelo vento, mar e abandono pelo homem. Uma luz vermelha, solitária, no ponto mais alto, alimentada por placas solares, era o único aviso de perigo para os eventuais navegantes noturnos incautos que se aventuravam por ali, tão próximos da costa. Isso, quando não estivesse apagada ou tão fraca ou suja de excrementos de gaivotas depositadas sobre a placa solar…

Apertei os cabinhos da cana do leme, vesti o pé esquerdo com tênis do filho do capitão, prendi a adriça da mestra no mosquetão do meu cinto peitoral e fui para o trapézio controlar o rumo do barco. O capitão pediu para deitar um pouco e o filho do capitão lembrou-se da nossa fome e foi preparar sanduiches. Nosso estado físico era lastimável, minhas costas doíam, a pele, exposta ao sol forte da manhã, queimava. Havia um dedo de água salobra no piso da cabine e quatro vezes isso no banheiro. Tudo balançava para lá e para cá. Vi o filho do capitão abaixado com uma caneca de sopa, recolhendo o que podia de água.

Minha visão do conjunto, barco, mar e céu era privilegiada. De pé, do alto do espelho de popa, via o deck, o bico de proa, o interior do barco pela gaiuta do salão, as pequenas marolas laterais formadas pelo avanço a quatro nós aparentes de velocidade do barco, a mastreação e a cruzeta balançando debaixo de um céu azul e nuvens de flocos brancos.

Via também alguma coisa no horizonte. Outro barco de pesca? Proa de um navio? A primeira torre de petróleo? Não era um ponto em terra porque ela já estava bem visível no nosso través, pelo oeste. O continente era uma linha tênue, mas de cor bem definida, cinza escura, que já nos acompanhava desde o raiar do dia. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 15

8 Agosto (112)

A imagem acima não tem nada haver com a Tempestade enfrentada pelo velejador Michael e seus dois companheiros de viagem, escolhi apenas com o propósito de dar um refresco ao décimo quinto texto dessa peleja que promete dar uma verdadeira enxurrada de adrenalina em você leitor.      

PARTE 15 – VELEJAR PERIGOSAMENTE

Forçar a navegação à noite com vento de través de vinte e cinco a trinta nós cavalgando ondas gigantes com um leme de fortuna instável é uma temeridade. Nós não sabíamos, nem poderíamos saber pelas circunstancias, se a nossa tática de tentar a velejada de través iria dar certo. Resultado: logo de primeira, no final dos dez minutos seguintes em que o barco virou uns poucos graus para leste e velejando bem, Netuno, ainda meio bravo, deu-nos mais um presente de grego. Uma atravessada fenomenal. Uma onda mal resolvida, mal formada, mais alta e louca que as outras. Não custa repetir: à noite a gente não consegue adivinhar o que tem e o que vem pela frente. A gente desconfia, se prepara, sente, mas não consegue adivinhar o tamanho do estrago, do maldito presente.

Por mais que confiássemos com a robustez do nosso leme, sabíamos que ele poderia não responder à altura a certas situações.

Com um leme normal, quando se percebe que o barco vai para algum ponto indesejado ao subir uma onda em posição desfavorável, antes mesmo de completar o percurso pode-se abortar a subida jogando bruscamente o leme para o lado contrario. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 14

nat rec 2012 (11) marcelinho

Novela boa é aquela que a gente assiste um capítulo e fica torcendo que chegue o dia seguinte para assistir o outro. Pelo menos é assim na telinha e acho que é isso que aposta o velejador Michael Gruchalski. A Tempestade chega ao 14º capítulo, cada vez mais carregada de emoção, e parece que os deuses da natureza decidiram dar um refresco aos nossos personagens. Parece!

O vento e a chuva diminuem

Naquele momento, a superfície do mar, com a mudança sofrida em duas horas de vento ascendente, era inacreditável. O mar estava raivoso, espumando e frenético. Impressionava muito mais quando as cristas das ondas eram iluminadas pela luz prata dos clarões dos relâmpagos. Adicionando-se o efeito do reflexo de bilhões de prismas que a precipitação dos pingos de chuva provocava, a visão causava sentimentos desencontrados que iam de encanto e beleza ao terror paralisante.

O que dizer do comportamento do nosso barco, um veleiro de trinta pés, menos de dez metros, no meio daquela confusão? Daquela pancadaria sem igual, promovida pela musculatura de mil gênios do mal? Se veleiros falassem, o que estaria dizendo ele ali, naquela hora? Que tipo de xingamento, quantos “ais” e “uis” teria soltado? Quantas dores pelo casco, ampliadas pela torção das cavernas, pelo esforço do verdugo, pela pressão na enora, pelo estiramento dos membros superiores, os fuzis, esticadores, terminais e timbós. Tudo se contorcendo, trabalhando no limite.

O nosso veleiro tinha quase vinte anos de idade e, com certeza, nunca tinha passado por um aperto tão grande. Lembrei-me do estalo que tinha vindo debaixo do cockpit quando o barco mergulhou de cabeça naquela onda gigantesca havia menos de trinta minutos. Procurei não pensar em nada. Afinal, um estalo é um estalo, nada mais.

O capitão sabia que o vento, soprando do noroeste, estava atingindo nosso barco pela alheta de popa e que estávamos sendo levados para o oceano aberto, para o leste/sudeste, portanto. O motor trabalhava bem, mas perdia metade da sua função por causa da descentralização do leme de fortuna. Quanto mais tempo nós demorássemos em endireitar o leme para que ele atuasse centralizado, pior seria para recuperar a distância perdida em relação à linha da costa. Em uma hora tínhamos percorrido quatro milhas ou mais para fora. Isso era bom sim, por causa da tempestade, mas seria ruim no dia seguinte se, posicionados muito ao sul, tivéssemos que enfrentar uma orça fechada com os previsíveis ventos de leste/nordeste, que dificultariam a aproximação de Aracaju.

É certo que com um leme de fortuna, só mesmo um louco se aproximaria das plataformas com vento e chuva de trinta nós. Por isso, com um leme de fortuna, o correto seria meter a proa, o nariz do barco, rumo para a África. Para fugir de praias, pedras e o desastre certo. Era um dilema. Num primeiro momento, ser levado para onde não se quer ser levado e, sem seguida, ter que ir para onde não se quer ir por uma deficiência técnica incontornável.

Ao primeiro sinal de diminuição da força dos ventos, teríamos que tomar o rumo sudoeste, mais para perto das plataformas cuja distancia era, no início da tempestade, de dezessete milhas. Isso, além de nos aproximar de terra e melhorar o sinal de rádio VHF do tráfego marítimo entre plataformas, facilitaria também encontrar barcos pesqueiros e eventual socorro como reboque.

Fácil de imaginar, difícil de realizar. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 09

tumblr_mqklmvUock1sv5axco1_500 Bem que falei que a Tempestade de Michael iria pegar pressão e deixar a gente, que acompanha a resenha muito bem aboletado numa poltrona e na firmeza da terra, sentido os efeitos da natureza em fúria. Até a imagem de um raio tenebroso ele enviou para dar veracidade ao texto.

A APROXIMAÇÃO DA CHUVA – 01

Michael Gruchalski

Quase onze da noite. Vento. Todos assustados, acocorados no cockpit. Muitas mãos segurando a cana de leme. Eu fui o primeiro acidentado da noite. Ao abandonar meu posto de timoneiro sem aviso, saltei em direção ao fundo do cockpit à procura de abrigo mas esqueci que estava amarrado pela adriça da mestra obviamente caçada ao máximo. Resultado: minhas pernas chegaram ao destino mas meu corpanzil ficou pendurado no ar, os braços também. Senti o cinto de segurança peitoral esmagar todas minhas costelas. Não sei quantas são, mas garanto que foram todas. Dei um urro, o capitão entendeu e bateu com a manicaca no “stopper” liberando a adriça. Acabei de cair e aterrissar como um saco de batatas no poço do cockpit, quatro pernas me observando.

Onde estava a chuva? O vento chegou rasgando mas, repito: onde estava a chuva? Seria aquela mancha espessa, cinza-esbranquiçada, a baixa altura, tomando parcialmente, os céus a uns trinta graus acima do horizonte e a metade do seu círculo? Ou seria aquela cortina aveludada, ao redor dela, cor de azeviche, que parecia absorver para dentro de si toda a luz das faíscas intermitentes? Continuar lendo

A Tempestade – Parte 7

8 Agosto (25)

Nada! Como na 6ª Parte a imagem não tem nada a ver com a chegada de uma tempestade tão carregada de enigmas e medos, como a Tempestade que ameaça o comandante Michael e seus dois companheiros de tripulação, mas esse belo pôr do sol, bem que poderia fazer parte do cenário dessa história, que chega agora a 7ª Parte, para desanuviar a aflição.  

A TEMPESTADE

A CHEGADA DO VENTO

Tudo preparado.

A “jib” arriada e presa por elásticos ao guarda mancebo da proa. Quieta, disponível. Gaiuta do salão no lugar, tudo fechado, barco fechado. Nenhum travesseiro, almofada ou objeto solto dentro do barco. Muita fita “silver tape” cinza em volta do respiradouro do banheiro e em algumas partes do acrílico onde sabíamos haver vazamentos. Todos os interruptores do painel elétrico na posição desligada, inclusive a do automático da bomba de esgotamento do salão. Uma lanterna grande, bojuda, presa com fita e um cabinho ao “stopper” da antepara. Além das nossas mini lanternas nos bolsos. A faca de mergulhador no coldre de couro e presa com fita também ao porta-manicacas. O alicate de cortar estai, limpo da vaselina que o conserva, enrolado em papel manteiga, acessível dentro do paiol. Para qualquer emergência. Nenhum cabo solteiro solto.

O motor zurrava baixinho transmitindo segurança à tripulação. O filho do capitão, calçando tênis molhado sem meias, cumpria seu turno no trapézio pressionando para baixo, com seu peso, o conjunto do leme de fortuna. O barco ia a cinco nós e muito raramente, quando iniciava um circulo, era prontamente abortado em sua intenção pelo timoneiro.

Com a mestra enfunada sobre a retranca e o balanço suave do barco, avaliei com algum orgulho nossos preparativos. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 6

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A imagem acima não condiz com o texto do velejador Michael Gruchalski, mas é apenas um alento para a tempestade que se anuncia, nessa história muito bem contada, e que hoje apresentamos o 6º capítulo. 

A TEMPESTADE

Muito a fazer. Quem vai para o mar, se prepara em terra.

E, para quem já está no mar? Prepara-se no mar, ora.

Primeira providencia: prender a vela mestra na retranca com todos os elásticos e cabinhos solteiros possíveis por cima da capa. Não deixar solta nem uma pontinha sequer a disposição do vento. Caçar todas as escotas, cabos e adriças em seus “stoppers” até o limite e certificar-se de que seus engates rápidos não se abririam de jeito nenhum. Transferir a adriça do balão e a adriça reserva da genoa que ficam presas nas alças da base do mastro para a base do púlpito de proa. Caçar os cabos de rizos até tesá-los a partir dos olhais da valuma da mestra. Subir a retranca tesando o amantilho para, em seguida, caçar o burro da retranca ao máximo. Liberar cabos de serviço como o amantilho do pau do balão e a adriça auxiliar da mestra, ambos, do olhal do mastro para outro lugar qualquer de maneira que não fiquem batendo contra o mastro quando o vento chegar. Passar um segundo cabinho pela ferragem de apoio da âncora, evitando qualquer solavanco na corrente. Prender boias circulares, retirar a bandeira, verificar se o pau de “spi” está bem preso e, finalmente, verificar os engates nos terminais da linha do guarda mancebo. Um deles pode se soltar justamente quando você estiver se apoiando nele… Continuar lendo