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Divergências

3 Março (7)

Enquanto olho a noite e as sombras que se esparramam pelo pequeno povoado que me abriga tão carinhosamente, minha mente vaguei despreocupadamente pelas boas lembranças do que foi nossa vida a bordo de um veleiro de oceano e após uma lufada de vento, passo a escutar sussurros das muitas perguntas que me fazem sobre o período que vivemos a bordo e me atenho em uma delas: “Como pode uma pessoa morar tantos anos a bordo de um veleiro e de repente voltar a morar em terra firme? ”. Depois de muito matutar e varrer a mente em busca de palavras para satisfazer uma pergunta tão inquietante, continuei sem respostas, mas a consciência continuou em um moído surdo e insistente, até que fechei os olhos e adormeci com o suave balanço da rede.

Sonhei com crianças correndo na vastidão de um campo sem flores. Sonhei com o planetinha azul sendo derretido pelo fogo da discórdia. Sonhei com a desagregação dos povos. Sonhei com uma cruz cravejada de hipocrisia. Sonhei com abastados de mãos estendidas em busca de mais. Sonhei com o vazio, com a dor, com o grito, com o feio e com a beleza mais feia do que nunca. Sonhei com frases desconexas e com o riso de deboches dos governantes diante de uma multidão de aplausos. Sonhei com a desgraça das drogas consumindo famílias, mas recebendo a benevolência da cegueira moderna. Sonhei com o terror e suas vítimas inocentes estraçalhadas nas calçadas. Sonhei com a fome, com a sede, com as doenças desalmadas, formando uma trinca de um jogo vitorioso dos poderosos. Sonhei com as guerras combinadas entre quatro paredes pelos combatentes opositores e todas elas longe do território deles. Sonhei com as religiões e a desfaçatez de suas verdades. Sonhei muitos sonhos, mas não sonhei pesadelos, porque ao abrir os olhos, enxerguei no escuro da noite que aqueles sonhos se pareciam incrivelmente reais. Mas eram sonhos.

“Como pode uma pessoa morar…” Novamente a pergunta estava lá a me perseguir e lembrei das palavras de um amigo, quando anunciei que estava voltado para a vida urbana: “Seja bem vindo ao caos, meu amigo”. Foram onze anos e cinco meses sobre as ondas do mar e sendo regido por deuses fascinantes e maravilhosamente imprevisíveis, onde vivi o melhor dos mundos. Fui para o mar por livre e espontânea vontade e sem carregar sobre os ombros nenhum trauma ou interesse, a não ser o interesse da busca da paz, do conhecimento e da reflexão. Não é justo fazer comparações entre o mar e a terra, porque são tantas as desavenças que dificilmente casaríamos alguma. No mar nunca tive sonhos como os que sonhei em minha rede da varanda, mas talvez seja pelo motivo de que estivesse olhando as cidades por um ângulo mais humano e belo, porque sempre achei que as cidades vistas do mar são mais aconchegantes e humanas. O caos a que se referiu meu amigo é escrachado diante de nossos olhos e nenhum tapume colocado na paisagem das cidades pode mascará-lo.

– Sim, mas porque a volta? Hoje morando em uma pequena localidade praieira já fiz essa pergunta inúmeras vezes e talvez por isso que a pergunta do leitor tenha me deixado encabulado, pois também interroguei vários conhecidos que desembarcaram e nunca a resposta satisfez minhas curiosidades. Hoje, refletindo tudo o que vivi a bordo do Avoante e o cenário encontrado nas ruas das cidades, posso dizer que não existem respostas, porém, precisava desembarcar e amadurecer as verdades que aprendi sobre as ondas, como também aprumar o rumo dos arquivos de assuntos pessoais que foram sendo jogados aqui e ali e estavam navegando em mares desencontrados e tenebroso.

Pode até ser que os “encantos” da vida urbana me entorpeça a razão e adormeça os extintos e as afeições que adquiri no reino de Netuno, porém, jamais perderei o norte verdadeiro e nem esquecerei o som do canto da Rainha do manto azul. Quem um dia foi ao mar jamais esquecerá, pois são ensinamentos para toda a vida e que serão repassados as minhas gerações futuras como elos de uma grande e interminável corrente. Acredito na máxima de que todos os habitantes do planeta deveriam passar uma temporada em um veleiro, pois assim teríamos humanos mais humanos e comprometido com a ideia de um mundo em que a paz, a ética e o companheirismo sejam parte inerentes da vida.

Não enxergo meu retorno como uma regressão e sim, como mais um período de um feliz aprendizado que busco em cada momento da vida. O retorno foi um bem maior e dele buscarei retirar o mais doce dos frutos, mesmo que não seja aguado com o néctar das águas salgadas, onde as verdades e os homens são mais verdadeiros. Saudade tenho sim, mas não daquela que faz doer, porque é uma saudade forjada em alegrias, maravilhosas lembranças e isso já basta para o sorriso da alma.

– E quando se dará a volta? Taí mais uma pergunta enigmática, mas por enquanto, ficarei regando minhas plantas.

Nelson Mattos Filho 

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Das utopias

01 - Janeiro (1)

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”

Mario Quintana

Palavra de poeta

03 - março (39)

“O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado”. Ariano Suassuna

1º Congresso on-line sobre a arte de velejar – Palestra

Quem é do mar deve saber que o site Velejando pelo Mundo está apresentando desde o dia 26/09 um inédito e bem festejado 1º Congresso On-Line Sobre a Arte de Velejar, um evento arrojado e maravilhosamente bem vindo ao mundo náutico e também para quem sonha em um dia se fazer a mar. Se você ainda não sabe, basta acessar o Velejando pelo Mundo e fazer sua inscrição 0800. Ontem, 28/09, foi minha vez de palestrar com os participantes e falar um pouco do sonho de morar a bordo. Veja o vídeo e confira! Mas antes que alguém pergunte qual o livro que me levou a enveredar pelo mundo da vela, que terminei não falando no vídeo, foi o primeiro livro da Família Schurmann, Dez Anos no Mar

Sonhe, acredite e vá

Acho que todo brasileiro, mesmo aquele que nunca assistiu e nem gosta de futebol, lembrará com amargura das duas Copas do Mundo que aconteceram no Brasil. A de 1950 fomos pegos no contra pé pelos deuses do futebol e a nação brasileira chorou diante do triunfo da seleção uruguaia. Em 2014, euforia, alegria, esperança, histerismo, patriotismo, certeza e mais uma infinita lista de substantivos motivacionais deram lugar a uma impactante incredulidade que nos deixou paralisados diante de um time adversário que também não acreditava no que estava acontecendo. O que será que houve dentro das quatro linhas do estádio mineiro que fez calar uma nação, até então conhecida como dona do melhor futebol do mundo? Para mim, que entende de futebol tanto quanto um ermitão entende de carnaval, a resposta não estava naquele estádio e sim, nas maravilhosas águas do litoral de Santo André, no Sul da Bahia. Foi lá, nos redutos do nosso descobrimento, que a seleção alemã foi buscar os elementos para conquistar a Copa do Mundo e consequentemente nos fazer ver que, assim como no cotidiano da vida urbana, política e empresarial, precisamos de líderes inovadores, éticos, integrativos, eficientes, produtivos, comprometidos, adaptáveis e que gerem resultados vitoriosos para o bem comum. Não está nas areias da Praia de Santo André e muito menos nas confortáveis instalações do hotel de sonhos, que a colheu os alemães, a resposta para o acachapante 7 x 1. Talvez, quem sabe, a resposta esteja na forma como eles foram acolhidos pelos nativos e na impressionante interação afetuosa que se deu entre jogadores e a população daquele lindo pedaço de Brasil. Pode ser também que o segredo da vitória tenha passado pelos abraços, apertos de mãos e troca de presentes entre os gringos e os nativos das terras do descobrimento, mas ninguém prestou atenção quando uma Nau modernosa ancorou ao largo, como fizeram os descobridores, e emitiu sinais somente compreendidos pelos visitantes futebolísticos. Os jornais olharam para o veleiro majestoso na linha do horizonte e vislumbraram apenas como mais uma mania exótica dos gringos, não sabendo eles que ali estava sendo forjada a senha para meter a mão na taça. Pois bem, recentemente participei de um curso de Cultura da Liderança, no Sebrae/RN, e, na primeira aula do segundo módulo, foi passado o vídeo que ilustra essa postagem. No vídeo, que fui buscar no Youtube, está contido tudo o que a Seleção Alemã foi buscar a bordo de um veleiro e que serviu, não como meio de transporte para um passeio pelo mar da Bahia, mas como um valioso laboratório motivacional para transformar em eficiência a equipe que chegou sobrando na Copa do Mundo 2014. Se você não acredita, veja o filme.   

  

De loucuras, quadradices e barcos

Um barco legal

“… A loucura é estigmatizada. Falta amor para se dedicar aos loucos… Só há mundo para os “saudáveis” e suas quadradices… Pouco se quer perceber sobre a profundidade criativa que nela, na loucura, há…”. Estava à procura de palavras para expressar meus sentimentos diante das inúmeras regras daqueles que se declaram politicamente corretos querem nos impor. Ao ler o artigo, nas páginas da Tribuna do Norte, assinado pelo poeta e advogado Lívio Oliveira, encontrei o fio da meada da minha prosa. Mas antes de seguir em frente, quero parabenizar o poeta pela crônica e pedir perdão por ter copiado suas palavras.

Mas será que é mesmo de loucura que eu quero falar? Será que os “loucos” que deixam tudo para trás e caminham sem direção pelos vastos horizontes do mundo, a procura de nada além da felicidade de viver a vida, podem ser considerados loucos? Quem avalia os loucos? Somos nós, que vivemos no desespero de ter mais, juntar mais, querer mais, exigir mais e sonhar menos? Machado de Assis um dia escreveu sobre a loucura e espantou o mundo com suas palavras, porém, o espanto virou reflexão, depois virou verdades, passou a ser imaginação, descambou para espasmos literários e hoje o livro está abandonado em alguma estante empoeirada. De vez em quando, as palavras do escritor são lembradas e ditas como verdadeiras por algum cronista ou crítico literário afamado, em seguida a página é virada, o livro e novamente fechado e volta à prateleira empoeirada.

Certa feita, ao participar de uma conversa entre uma senhora e um velejador, me ative quando a mulher perguntou ao homem qual o objetivo dele com o barco que havia comprado. O velejador respondeu que pretendia dar uma volta ao mundo. A mulher se espantou e disse: – O senhor é muito louco e aventureiro! O velejador perguntou quantos filhos ela teve e a mulher respondeu que tinha três. Foi aí que o velejador devolveu a pergunta: – E o louco e aventureiro sou eu é?

Somos assim mesmo e estamos sempre querendo padronizar a vida dos outros olhando exclusivamente para a nossa. Chamamos de loucos aqueles que nem de longe desejam caminhar pelos nossos caminhos, como se estes não tivessem espinhos e nem pedras. Avistamos o certo apenas quando os padrões estabelecidos por alguém guiam nossos olhos. Temos que ficar calados diante daqueles que discordam das nossas crenças para não atiçar a fúria desenfreada através de palavras e agressões físicas. Deve ser por essas e outras que taxamos de loucos aqueles que não aceitam como verdades as nossas certezas, ou aqueles que querem dançar na rua, que sorriem e falam sozinhos, que andam sujos, que dormem nas ruas, que comem migalhas apanhadas do lixo, que andam nus ou que simplesmente falam verdades que não queremos ouvir. Afinal o que é a loucura?

Mas minha prosa não era essa, pois o que queria mesmo era achar um mote para esmiuçar a fotografia que ilustra esse texto meio amalucado. Isso mesmo, essa imagem para mim escancara um mundo de sonhos possíveis e imagináveis e me leva a varar os oceanos em busca dos infinitos horizontes. A imagem desse barquinho fora do comum é a síntese que sempre busquei a bordo do meu Avoante, em que vivi uma vida de sonhos, apesar de ter viver fora dos padrões das “quadradices”.

Quanto mais olho para o retrato desse barquinho navegando suavemente sobre as águas mansas e com sua chaminé soltando lufadas de fumaça branca no ar, mais me vejo como seu tripulante. Na loucura de minha imaginação me vejo cruzando oceanos, acenando para outros barcos, chegando a uma ilha deserta, fazendo planos para novos rumos ou simplesmente sentado na popa e olhando para o mundo em minha volta. Imagino o que pensariam os “saudáveis” envolvidos em suas lógicas ao me ver navegando nesse barquinho encantado. Será que perguntariam quais equipamentos eletrônicos que eu usava? Será que perguntariam pela potência do motor? Será que perguntariam pelos equipamentos de salvatagem? E o tipo de âncora? E sobre as baterias? E o modelo? Qual o projetista? Qual a marca das velas? – Não, acho que não perguntariam nada! Acho até que teriam pena de mim por está navegando em uma embarcação tão rústica. Talvez tirassem uma foto para mostrar aos amigos nos grupos sociais. Talvez um aceno de cabeça para aliviar o desconforto em me vê navegando ali em coisa tão imprópria e ele em um barco tão maravilhoso.

Pois é, a cada olhada na imagem minha imaginação flutua no espaço e sai em busca de novos horizontes. A cada nova olhada, novos sonhos se somam aos outros e me alegro por estar vivendo aquela viagem naquele barquinho. Recordo das muitas vezes em que fui taxado de alienado porque vivia a bordo de um veleiro lindo e que me deu infinitas alegrias. O Avoante não tinha o luxo desejado e buscado por tantos sonhadores com a vida sobre o mar, mas me deu tudo o que eu queria ter, enquanto assistia calado e espantado o filme dos desejos sem fim do delírio dos sonhadores.

A imagem desse barquinho sem nada e com tudo do que o homem necessita me abre o coração, e deixa minha mente aberta para novamente viver o sonho.

Quanta loucura! Quanta “quadradice”!

Nelson Mattos Fillho/Velejador

Paliteiro de mastros

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Imagens assim faz o homem sonhar…