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Olhe a tempestade aí gente!

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Rapaz, essa tempestade está difícil de passar e já nem sei se ela passará algum dia, porque a última postagem foi exatamente há nove meses e a anterior fazia a mesma ruma de tempo. Nem o El Niño chegou a tanto. Mas sabe de uma coisa: A história é boa e para quem acompanha a peleja desde o comecinho sabe que é boa sim, pois o Michael Gruchalski é um excelente contador de história. Se você quiser saber de onde vem essa peleja click AQUI e se inteire do assunto.

A TEMPESTADE

PARTE 20. SURFANDO PERIGOSAMENTE

Michael Gruchalski

O filho do capitão disse alguma coisa. Qualquer coisa que não entendi. Embalado em profundo sono pelo movimento rítmico e sereno da cabine de proa, não distingui nem o que havia dito nem entendi bem onde me encontrava. Num veleiro, ora. No meio do mar, ora. Porque, com quem, aonde?

– Venha ver, venha ver!

Voltei à realidade que me cercava. Todos os neurônios começaram a funcionar, juntos, de uma vez só. Girei o corpo e dei um salto até o salão pulando por cima da água no piso do banheiro. Ainda havia luz do dia, amarelada, mas forte. Iluminava a cabine com tons dourados, as sombras balançavam no teto e armários. La fora, o capitão fazia seu turno no trapézio e seu braço direito livre apontava para o mar.

– Estamos chegando na barra, olha só o tamanho daquelas ondas batendo ali !

Virei a cabeça para ver a proa. Pela alheta de boreste, não muito longe, não muito perto, havia uma linha contínua de espuma branca. Não muito alta, não muito espessa. Mas era uma linha de contínua de ondas quebrando, no meio do mar. Não deveria estar ali, àquela hora, segundo nosso desejo. Não havia vento naquela tarde calma de outono, porque as ondas? Tão altas, rolando sonolentas? Abri a boca, fechei a boca como se tivesse buscando por um pouco de ar. Segurei um palavrão, provavelmente para não elevar a tensão a preocupação. Olhei para bombordo, a orla de Aracaju estava lá, não dava para ver os carros, nem movimento, mas os prédios estavam lá, irregulares, na frente da luz do sol que ia se por dali a pouco. Continuar lendo

Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Sergipe – Um litoral que merece muito mais

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Foi com uma pontada de alegria que li uma manchete no blog e-Turismo, editado pelo jornalista Antonio Roberto Rocha, no jornal potiguar Tribuna do Norte, periódico que acolhe todos os domingos a coluna Diário do Avoante. A manchete diz assim: Sergipe quer apoio do Ministério do Turismo para píer, atracadouro e esculturas no rio que banha Aracaju. No corpo da matéria, que inicia falando de um encontro entre o governador sergipano e o ministro do turismo para tratar dos festejos juninos e manifestações culturais, entrou o tema náutico como fonte de incentivo aos anseios do progresso. Foi ai que minha alegria se transformou na velha certeza de que nossos governantes realmente desconhecem o poder que tem o mar como fonte de riquezas turísticas. O píer pretendido pelo governo, as margens do Rio Sergipe,  é para criar um novo cartão postal para a cidade. Diante dele, no meio do rio, serão plantadas oito esculturas de personagens do folclore sergipano. A ideia é louvável e acho mesmo que o Rio Sergipe merece essa repagina. As imagens que abrem essa postagem foram feitas no povoado de Pontal, as margens do Rio Real, e do alto da ponte Gilberto Amado, que cruza o Rio Piauí. Do alto da ponte retratei a Barra de Estância, uma barra larga, instigante e que deixa muitos velejadores de cruzeiro com água na boca. Já adentrei essa barra em duas oportunidade com o Avoante e me declaro um apaixonado pelas belezas que compõem aquelas pairagens que denomino de Explosão de Beleza. Não consigo uma definição melhor!

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Pois bem, o Governo de Sergipe deve mesmo apostar no píer do cartão postal, mas poderia também estender suas apostas para transformar o litoral de Sergipe em um novo ponto de atracação para veleiros de todo o mundo. Todos que navegam a costa brasileira olham com olhos de pidão para a costa sergipana, mas infelizmente suas barras são rasas, difíceis, desaconselháveis, porém, incrivelmente desejáveis. Não precisaria muito além de dragagem e balizamento, pois a divulgação seria feita no boca a boca entre os velejadores e tenho certeza do sucesso. Os rios que compõem o estuário do Rio Real são todos navegáveis e isso pude comprovar nas vezes em que estive por lá com o Avoante. Naveguei por mais de 7 milhas entre os rios Real, Piauí e Priapu até jogar ferro em frente ao povoado de Terra Caída. Quando os amigos do mar sabem que adentrei ali – muitos conhecem como Mangue Seco – me procuram em busca de mais informações e até dos waypoints de entrada, porém, toda a rota que fiz em 2009 passou a ser desautorizada pela natureza, que a cada período do ano modifica o formato e o local dos bancos de areia. Sergipe, com um litoral tão belo e dotado de rios encantadores, é o único estado do litoral brasileiro que não recebe regularmente veleiros de oceano. Taí um bom tema para a próximo encontro do governador com o ministro do turismo. As duas últimas imagens são de canoas do município de Indiaroba, as margens do Rio Real, e coberturas para pequenas embarcações no povoado de Terra Caída.      

Quadros da natureza

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Tem lugares que encantam pela beleza e outros pela poesia da paisagem. Terra Caída/SE é bela e poética.

A Tempestade – parte 18

8 Agosto (5)

Ufa! Depois de um longo e tenebroso inverno Michael resolveu nos mandar mais um capítulo de A Tempestade, uma aventura eletrizante no mar de Sergipe. 

A TEMPESTADE

A BARRA DE ARACAJÚ

Michael Gruchalski

Não havia muito a fazer.

Acordamos do sonho de sermos rebocados. Lentamente, como saindo de uma anestesia geral. A alegria de vermos os nossos problemas resolvidos durou pouco e deixou-nos frustrados. De repente, o destino que parecia tão perto, tornou-se distante, quase inatingível pelas dúvidas e dificuldades de se transpor, sem cartas ou ajuda externa, uma barra rasa e desconhecida. E havia ainda catorze milhas de mar a nossa frente. Uma viagem de três a quatro horas por águas de cor barrenta, espetadas por duas dezenas de plataformas, das quais só a metade ativa, com gente e barcos de apoio em volta. A outra metade eram restos de estruturas disformes, esqueletos enferrujados, sacudidos e maltratados ao longo dos anos pelo vento, mar e abandono pelo homem. Uma luz vermelha, solitária, no ponto mais alto, alimentada por placas solares, era o único aviso de perigo para os eventuais navegantes noturnos incautos que se aventuravam por ali, tão próximos da costa. Isso, quando não estivesse apagada ou tão fraca ou suja de excrementos de gaivotas depositadas sobre a placa solar…

Apertei os cabinhos da cana do leme, vesti o pé esquerdo com tênis do filho do capitão, prendi a adriça da mestra no mosquetão do meu cinto peitoral e fui para o trapézio controlar o rumo do barco. O capitão pediu para deitar um pouco e o filho do capitão lembrou-se da nossa fome e foi preparar sanduiches. Nosso estado físico era lastimável, minhas costas doíam, a pele, exposta ao sol forte da manhã, queimava. Havia um dedo de água salobra no piso da cabine e quatro vezes isso no banheiro. Tudo balançava para lá e para cá. Vi o filho do capitão abaixado com uma caneca de sopa, recolhendo o que podia de água.

Minha visão do conjunto, barco, mar e céu era privilegiada. De pé, do alto do espelho de popa, via o deck, o bico de proa, o interior do barco pela gaiuta do salão, as pequenas marolas laterais formadas pelo avanço a quatro nós aparentes de velocidade do barco, a mastreação e a cruzeta balançando debaixo de um céu azul e nuvens de flocos brancos.

Via também alguma coisa no horizonte. Outro barco de pesca? Proa de um navio? A primeira torre de petróleo? Não era um ponto em terra porque ela já estava bem visível no nosso través, pelo oeste. O continente era uma linha tênue, mas de cor bem definida, cinza escura, que já nos acompanhava desde o raiar do dia. Continuar lendo

Coisas assim…

6 Junho  (126)

Sim, eu sei que você achou o barco muito bonito, apesar do jeitão esquisito de suas linhas meio sei lá, mas não é esse o motivo desse post. Já naveguei um bocado pelo litoral nordeste brasileiro e conheci muita coisa em minhas andanças de carro por ai, e tenho a consciência que não conheço quase nada, mas sou apaixonado por lugares como o da imagem acima e adoro quando o Avoante fica emoldurado por paisagens assim. Terra Caída/SE, um lugar onde a natureza esbanja fascínio.

Indiaroba, a Terra do Divino

6 Junho  (204)

Indiaroba em tupi-guarani significa “óleo amargo” (nhandi roba). A cidade de Indiaroba/SE é quem faz a divisa , para quem vagueia pelas estradas do litoral, entre os estados de Sergipe e Bahia. A cidade sergipana já passou um bocado de amargô ao longo de sua história meio mal contada, já que os historiadores não conseguem chegar a um acordo quanto a sua origem. Sobre seus campos e as águas do Rio Real que banham suas margens, ocorreram lutas monstruosas e uma montanha quase interminável de intrigas ao longo dos anos pós-descobrimento, mas ela sobreviveu ao óleo amargo das guerras patrocinadas por interesseiros capitães-mores e hoje podemos apreciar a bela estátua bronzeada de uma jovem índia encravada na praça central. Porém, a disputada Indiaroba não teve tanto sucesso quanto seus outrora enriquecidos “donos”, mas merece uma visita de quem viaja pela famosa Via Linha Verde.

6 Junho  (207)6 Junho  (209)6 Junho  (212)6 Junho  (215)A feira livre que acontece aos Domingos é um bom momento para o visitante saber um pouco mais sobre os costumes do município e saborear uma gastronomia que tem no camarão uma das suas delícias.

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A pequena orla banhada pelo Rio Real, famoso por banhar também a tietana Mangue Seco, é dona de muita beleza, iluminada por um festivo colorido exuberante de velas e canoas.

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A Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, de frente para a orla, demonstra imponência, irradia beleza e deixa fluir no ar uma gostosa sensação de paz.

indiaroba sergipe (18)E como cheguei até lá? Bem, já havia passado muitas vezes na porta de Indiaroba em minhas andanças rodoviárias, mas confesso que nunca me senti atraído para conhecê-la. Somente depois de ter adentrada a Barra de Estância com o Avoante em 2009, para ancorar em frente ao distrito de Terra Caída, fomos apresentados e gostei. Hoje, sempre que volto a Terra Caída, de carro ou de ônibus, dou uma entradinha nesse simpático município sergipano. E prometo que assim que a difícil Barra de Estância resolver sua pendenga com os bancos de areia, tentarei chegar e amarrar o Avoante no que restar do mal conservado e perigoso píer da cidade. 

Coisas do reino dos homens

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A divisa entre Sergipe e Bahia, banhada pelo Rio Real e seus afluentes não menos belos, é um desses lugares que ainda podemos chamar de virgem. Para onde apontarmos os olhos aparecerá sempre uma paisagem espetacular de vida ainda em estado bruto. Mas a sede de progresso invertido que domina a mente dos homens, já cravou sua marca de insensatez com uma grande montanha de cimento serpenteando e atravessando as margens do Rio Piauí. Não adianta a revolução dos caranguejos, a revolta dos pássaros, a ira dos peixes, o choro das arvores e nem os olhos incrédulos de seres humanos conscientes, tudo já está fadado aos comandos brutais do agressor que dilacera entranhas e estupra a pureza silenciosa da natureza. Até quando veremos crianças caminhando descontraídas pelas praias? Até quando poderemos ver os coqueiros balançando ao vento? Até quando as conoas descansarão tranquilas em suas amarras? Até quando? Por enquanto, tudo está parado à espera de míseros milhões de Reais para finalizar a invasão. Isso não é uma denuncia, é apenas um grito solitário de um velejador amador que não consegue entender o valor do progresso anunciado pelos homens. 

Um dia lindo

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Você deve ter navegado pelo blog várias vezes nesses últimos dias à procura de notícias e viu que tudo parou no post As pedras e a educação náutica. Não foi preguiça e nem falta de assunto, mas é que saímos de Natal/RN no último dia 27/03, no rumo de Salvador/BA e paramos por dois dias num pequeno pedaço de paraíso em que é até difícil definir onde o Estado de Sergipe termina e onde começa a Bahia. Um lugar tão apaixonante que não tem como a gente acordar e não achar o dia lindo. Mas antes que você pergunte eu vou responder: Não viemos no Avoante, viemos no carro de apoio que foi um presente de minha Mãe e que tem deixado a gente muito mal acostumado. Outra resposta: Esses dias lindos acontecem no povoado Terra Caída/SE, parede e meia com a tietana Mangue Seco. Se você ainda não conhece, que tal nas próximas férias esquecer os salamaleques europeus, os acordes dos tangos e vinhos, os sandubas do Tio Sam, as asas apertadas das promoções e  se embrenhar pelas belezas das paisagens e riquezas culturais desse imenso Brasil?

Uma boa terra

Terra Caída

Artigo publicado em Janeiro de 2010 no Jornal Tribuna do Norte, coluna Diário do Avoante.

Toma Burro! Essa frase para quem conhece o povoado de Terra Caída no município de Indiaroba/SE é bastante familiar. Faz lembrar o impagável Zé de Teca, uma figura folclórica, amiga e cheia de boas histórias para contar.

Zé de Teca de vez em quando, ou quase sempre, esta aprontando uma boa, para alegria dos que tem o prazer de conviver com ele.

Sentar numa roda de bate papo e escutar Zé contar suas estripulias, quando da gravação da novela Tieta, é um deleite de alegria e diversão. Ele fala com naturalidade e numa intimidade tão aguçada da atriz Sonia Braga, a bela morena que encarnou Tieta na novela global, até parece que tudo aconteceu ontem à noite.

Zé de Teca, o italiano Burro, como ele mesmo gosta de se autodenominar, flanava com muita naturalidade no sete de filmagem e em todos os eventos sociais em que compareciam os artistas e sua musa super star.

A esposa de Zé, Dona Regina, que ele batizou de Regina Duarte, para não fugir da linha global, de tanto ouvir os seus relatos de paixões com atrizes e outras afamadas, já não esboça nenhuma reação de ciúme. Para ela Zé é um menino grande, um bode velho que escapou das dunas brancas de Mangue Seco e hoje faz sua festa particular em Terra Caída.

É muito difícil alguém por aquelas bandas não conhecer ou mesmo não saber alguma coisa sobre ele. Ficar amigo de Zé é muito fácil, basta que a pessoa goste de brincar, escutar histórias e acompanhá-lo em uma rodada de sapeca temperada com 51. Toma Burro!

Relatar suas aventuras com Sônia Braga é o maior prêmio para esse apaixonado pela vida. Difícil é saber até onde vai à imaginação do homem e qual a fronteira da verdade nesse relacionamento recheado de boas intenções com umas pitadas de amor platônico.

Numa das muitas festas que giraram em volta da filmagem e que Zé de Teca compareceu ao lado de sua musa morena, eles foram montados numa carroça puxada por um burro. Na festa tinha comida e bebida para dar de comer a um verdadeiro batalhão. Zé não agüentava mais comer nem beber coisa nenhuma. Seu estado etílico era de fazer inveja a muito boêmio apaixonado. Mas, ele solidário com o burrico da carroça e incentivado por Sônia Braga, juntou o que podia de bolo, torta, salgados e refrigerante, colocou tudo no mais fino prato de louça é foi dar de comer e beber ao burro. Enquanto o burro comia, ele e sua bela atriz deitaram na grama e ficaram um bom tempo olhando as estrelas. Quando acordaram, a festa já tinha terminado, o burro os observava de longe e não existia mais ninguém para contar a história, somente ele, Sônia e o burro. Mas, ele jura de pés juntos que nada de mais aconteceu fora à contagem das estrelas.

Quando terminou a gravação da novela, Sônia Braga quis levar Zé de Teca com ela, mas ele muito apaixonado por sua Regina Duarte, deixou que a bela morena partisse para nunca mais vê-la.

Certa vez um filho dele caiu da canoa quando pescava em alto mar e desapareceu nas profundezas do oceano. Dona Regina vendo o filho ser levado pelo mar, chorou uma semana seguida e Zé sempre dizia que ela não se desesperasse a toa, pois um dia ele votaria. Uma semana depois apareceu um tubarão em frente à Terra Caída e para surpresa de todos em cima do bicho, cavalgando alegremente, estava o filho de Zé.

Ele contou que quando afundou no mar o tubarão o pegou no lombo e saiu com ele numa viagem pela Bahia, Rio de Janeiro e outros Estados do sul. Quando ele já estava sem fôlego o tubarão deu meia volta e trouxe-o de volta. Toma Burro!

O Avoante já entrou três vezes na Barra de Estância e lá dentro, sempre faço o rumo do povoado de Terra Caída. Sigo em busca das histórias fantásticas do grande Zé de Teca, dos massunins da Ilha da Sogra, das sapecas na brasa e do calor humano de um povo bom.

Estamos prestes a sair novamente de Natal e uma das paradas oficiais do Avoante será novamente a tranquilidade dominante daquela ancoragem e dos aromas trazidos pelos ventos. Terra fértil, muito verde, muito peixe, muito crustáceo, muito calor humano e muita alegria.

Tomar banho de rio no pôr-do-sol e esperar a revoada de pássaros de volta aos ninhos. Tudo isso é Terra Caída e tudo isso é bem Brasil, mundo apaixonante e abençoado pela natureza.

Nelson Mattos Filho/Velejador