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De velas e paixões

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“As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar.”

Voltaire

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Apologia ao povo do mar

20160629_232427A Bahia não seria Bahia se não tivesse existido Jorge Amado e Dorival Caymmi, dois monstros sagrados que elevaram a terra do Senhor do Bonfim ao patamar de um mundo sem igual, um mundo em que história, causos e costumes passeiam de mãos dadas entre lendas e verdades ficando difícil saber onde começa um e termina o outro. Amado fez, faz e fará gerações se encantarem com as páginas de livros que criam vida sem que se precise nenhum esforço do leitor. Caymmi segue na mesma toada do escritor, só que em músicas e letras que nem precisam ser cantadas para gerar emoção e prazer aos ouvidos alheios. As canções de Dorival Caymmi é um bálsamo para a alma de um navegante, até mesmo quando ele canta em câmera lenta “…É doce morrer no mar…”. “É doce morrer no mar” enfronha, acoberta, emociona, apimenta e dá vida ao romance entre Lívia e Guma, personagens de uma das mais maravilhosas obras sobre tinos e desatinos dos grandes mestres saveiristas. O cais do mercado, o chão de barro, o barraco, a lama, a cachaça, as mulheres, as damas, as vendedoras do corpo, as saciadoras da alegria, a tristeza, a algazarra, a música, os ventos, as tempestades, o medo, a traição, os sonhos, os vivedores do cais, os espertalhões, o choro, a certeza, Iemanjá, Janaína, a desgraça, a glória, o frio, a incerteza e novamente o medo, o medo da morte, o medo que a tudo corrói e a tudo transforma. O medo do mar. Não existe navegante que não tema o mar, que não tema Iemanjá, que não tema os ventos, as tempestades, as ondas, a ira da deusa de cabelos longos e de beleza sem igual. O medo de Guma diante da traição e da fraqueza dos seus desejos. O amor de Lívia para o seu homem. Lívia, uma mulher com a força de Iemanjá. O mar de Iemanjá como cenário sagrado e reino das verdades e segredos dos navegantes. O mar dos saveiros e seus mestres. O mar, palco de romances, aventuras, sorte, gozo, riqueza, vitórias e infortúnios. O mar da Bahia, de todos os Santos e magia. Mar Morto, um tratado brilhante, de um escritor brilhante, sobre um mundo desconhecido e guardião de segredos. Obrigado Jorge Amado por ter escrito Mar Morto!     

Conversa alinhavada

03 - março (88)

Nas ondas de um vento que de tão sem pressa mal assanhava as penas das pequeninas gaivotas que voavam despretensiosas sobre um cardume de peixes, o Avoante navegava em câmera lenta e em sua esteira espumas brancas teimavam em não se afastar. Das sombras da velha ilha dos tupinambás ecoavam sons abafados de uma humanidade tão sem causas e extremamente inquieta. Por que será que temos tanta pressa?

Olhando do meu cantinho no cockpit aquele quadro estático e flagrantemente vivo, meu coração se enchia de boas e felizes recordações e sonhos futuros, mas uma pontada de estranheza me cutucava o juízo diante de lembranças de conversas alinhavadas entre felizes homens do mar. E lá ia o meu veleirinho sem nenhum rancor diante daquela brisa que era nadica de nada, que o fazia patinar de um lado para outro a procura do sopro que o levasse a seguir o rumo que eu, seu amigo quase fiel, havia indicado.

Das lembranças das conversas surgiam resquícios de frases, fugidas da destemperança de velhos e novos navegantes, que no afã de adiantar a pressa, a sorte e razão, hasteavam a bandeira da ligeireza, sem ao menos pedirem perdão aos seus veleiros, e cravavam no peito o broche da velocidade mínima para o bom conforto a bordo. Com o eco de palavras tão atabalhoadas e me achando um infeliz abandonado pela sorte da boa velocidade, busquei no branco das velas a leitura para aquele vento tão sem graça que fazia o Avoante estacionar no espaço entre a proa e a popa.

Uma lancha cruzou a nossa proa rasgando água e de suas entranhas vieram gritos de festejos e brindes pela vida. Do meu cantinho observei a demonstração de velocidade e a fugaz alegria que ela proporciona. Na popa surgiu uma velinha branca, mais outra e mais outra, agora formávamos uma flotilha com quatro veleiros navegando na maciota daquele oceano sem vento.

Na segunda visada no rumo da popa as velas aumentaram de tamanho e antes que pudesse observa a terceira vez, elas já seguiam serelepes na proa do meu veleirinho quase parando. Seriam aqueles adeptos da velocidade mínima ou seria eu que insistia em ser agraciado pelas lufadas, que não vinha, do grandioso deus dos ventos e teimosamente ficava ali a ver navios, lanchas e veleiros estranhamente velozes?

Assim como quem não avisa, um ventinho foi chegando displicentemente e sem pestanejar o Avoante avançou com as velas ainda se espreguiçando e forçando um alongamento sem nenhuma intenção. A direção agora era outra e o que era perto o bastante para ser sonhado, ficou longe que nem uma saudade. E lá vai o veleirinho em busca de boas novas e tentando apressar o passo para o sei lá onde.

Olhei em volta e nem sinal das três velinhas que navegavam entristecidas pelos ventos quentes de um porão apertado. Não tinha o que reclamar e muito menos maldizer a minha sina de homem do mar e dos ventos. Era essa a minha escolha e nada no mundo iria tirar de mim aquele prazer amalucado de navegar para um lado na esperança de ir para outro. Pronto! Era disso que eu estava precisando para fazer meu veleirinho navegar em paz e com satisfação. De pensamentos de compreensão. De buscar na incógnita a força motriz que me moveria para frente. De sair do marasmo do ócio, encarar o vento e colher a essência de sua alma.

Precisava sim estar navegando em rumo oposto para ter a certeza que estava no rumo certo, porque é assim que fazem os vencedores, os idealistas, os reacionários, os amantes, os loucos, os vivos, os valentes e todos aqueles que trazem no sangue o antídoto para curar as adversidades. No mar não existe o mínimo e muito menos o máximo, porque o mar não respeita valores exacerbados. O mar só tem uma razão e essa é sem rosto, sem emoção e tão fria quanto o gelo dos polos. O mar não reconhece os valentes e sim os dotados de inteligência para reconhecer o medo. E o vento? O vento é aliado fiel do mar e grande maestro da orquestra de Netuno. É de sua batuta que saem os acordes, os sons, os rufos dos tambores e a maciez da sonoridade.

Precisava saber que estava longe para entender que estava tão perto de mim. Precisava ver meu destino se afastando para reconhecer que minha alma estava feliz e meu coração pulsava forte de alegria. Precisava sentir as velas enfunadas para espantar de minha mente aquelas conversas alinhavadas que falavam de velocidade mínima e máxima. Precisava ter chegado à hora de dar o bordo para lembrar a letra da música que diz: …De jangada leva uma eternidade/De saveiro leva uma encarnação…

Para que a pressa se a vida é tão sem lógica? Para que a pressa? Para que embarcar em um veleiro sabendo que ele é um fiel escudeiro dos ventos, um servo obediente das águas e tentar corromper sua alma?

Depois de oito horas dei por encerrada as quinze milhas navegadas e estava feliz e em paz ao lado do meu Avoante. “…Antes longe era distante/Perto, só quando dava…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

A canoa de tronco

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Pode ter sido pelas cores, pelo barco, pelo trapézio, pelo navegar, pela paisagem ou simplesmente pela beleza,  mas não me contive e registrei. 

Um resgate histórico dos velhos e fascinantes Saveiros da Bahia

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Dia desses eu estava lavando o Avoante no píer de serviço do Aratu Iate Clube, quando chegou o amigo Sérgio “Pinauna” Netto perguntando: – Nelson você aceita um livro? – Claro que sim! – Espere ai que vou buscar. Ao retornar, com o livro na mão, ele falou: – Se não quiser ler, ou se já leu, pode deixar na biblioteca do clube ou doe a quem quiser. O livro em questão era o da imagem acima, Embarcações do Recôncavo – Um estudo de origens, do antropólogo luso-brasileiro Pedro Agostinho, esgotado desde de 1973 e que em 2011 foi reeditado pela Oiti/OAS Empreendimentos. A obra é uma joia rara e um resgate da cultura náutica da Bahia, em que tinha o Saveiro como grande baluarte. Recheado de fotos belíssimas, inseridas em um escrito histórico de encher os olhos, o livro me deixou maravilhado. Como bem disse a Senhora Carmine De Sierve, no texto de apresentação: …uma obra de referência, um tesouro desejado por aqueles que se interessam pela história e etnografia naval e pelo patrimônio cultural da Bahia e do Brasil” Caro amigo Sérgio Pinauna, só tenho a agradecer o presente e dizer que ele está sendo muito bem aproveitado em minhas fontes de pesquisa.

Teste para o bom observador

2 fevereiro (74)

O que tem nesse Saveiro que difere dos outros?

Paraguaçú – Um rio de história

                                                                   Fomos saindo das águas da Baía de Todos os Santos e entrando nas águas cheias de história do Rio Paraguaçú. Palco inicial das lutas pela nossa independência. Região de antigos engenhos de açúcar. Berço dos grandes saveiros e seus mestres. Esconderijo intocado de muita natureza e beleza ainda a ser explorada. Em suas margens viveram índios Tupinambás. Em seu leito pulsa um coração vibrante, poderoso e um eco-sistema muito rico. Navegar em suas águas é sonho de muitos velejadores, e eu faço parte dessa turma de sonhadores.

                                   Cada centímetro de seu caudaloso leito, se desnuda uma paisagem fascinante. Em cada curva, em cada enseada, em cada ilha, em cada praia que se espalha em suas margens se multiplicam locais de ancoragem. Todos com suas peculiaridades e em condições favoráveis aos ventos e as correntes.

                                   Cachoeiras belíssimas encravadas nas matas. Ruínas de antigos engenhos de açúcar. Igrejinhas solitárias na paisagem. Antigos conventos e suas belas arquiteturas. Pequenos povoados ainda sem energia. Belas fazendas. Cidades históricas. Belas montanhas e muito verde da floresta que se debruça sobre as águas.

                                   Fazer uma navegação explorando tudo que existe no Rio Paraguaçu, é coisa para mais de seis meses e pode ser que ainda fique muito a ser visto. Nós não tínhamos todo esse tempo dessa vez, gostaria de ter mais do que isso, mas apenas os dias de férias em que Mariana, nossa netinha, iria ficar com a gente.

                                   Iríamos explorar o máximo, porém sem forçar a barra, afinal, estamos na Bahia e navegando no grande Paraguaçú, aonde as correntes de enchente e de vazante afetam e muito a navegação. Aonde a beleza exposta, atrasa nossa vontade de seguir em frente. Aonde a história intocada em suas águas e margens, falam de uma época de conquistas, riquezas e glórias. Aonde pequenas cidades e povoados ribeirinhos, acolhem os visitantes com muito carinho, calor humano e com uma culinária riquíssima em peixes, mariscos e carnes defumadas.

                                   Os cheiros que exalam das matas que margeiam o grande rio e se espalham ao sabor das brisas, nós entorpecem com o fresco de uma natureza ainda virgem, que enchem nossos pulmões de leveza e saúde. Os vôos dos pássaros ao alvorecer, com seus cantos de paz e a volta deles ao ninho ao entardecer, formam um espetáculo maravilhoso e colorido no céu.

                                   Apreciar o navegar suave dos saveiros que sobem e descem o rio, numa velejada suave e inteligente. Observar os Mestres Saveirista, que conhecem todos os segredos dessas águas que se renovam a cada virada de maré, mas que não perdem o fio da meada de toda sua história, que continuam encravadas em lajens submersas, em pedras e rochas, em coroas de areias, em igarapés e rumos que somente o saveirista sabe decifrar. Acompanhar a passagem desses barcos e seus comandantes é fazer uma viagem na imaginação. As horas passam é a gente vai ficando mais um pouquinho em cada ancoragem.

                                   Fomos entrando nesse poço de história, com a maré de enchente que nos empurrava rio acima e abria alas para nossa proa cheia de curiosidade. Fomos entrando com o sol iniciando sua trajetória rumo ao crepúsculo. Fomos entrando com a companhia de botos cinza que bailavam a nossa frente, mostrando suas barbatanas de alegria. Fomos entrando com nossas velas abertas, empurrados por um vento sul que soprava forte. Fomos entrando num canal de mais de 40 metros de profundidade com quase meio milha de largura.

                                   Estávamos na foz do Rio Paraguaçú, o grande rio que conta quase toda a história da Bahia. Um saveiro bordejava próxima a margem direita nos dando boas vindas e a praia da Barra do Paraguaçú, surgia bela e imponente na margem esquerda, com seu pequeno farol branco e suas encostas de mata atlântica e pedra.

                                   O vento que soprava forte fora do rio, logo se acalmou e as águas ficaram mansas como se nos convidassem para a primeira ancoragem de nosso roteiro. Fomos aproximando devagar, Mariana já familiarizada com os equipamentos de bordo, foi para o eco-sonda conferir a profundidade que subia vertiginosamente. Ancoramos e fomos curtir o belíssimo pôr-do-sol na Barra do Paraguaçú.

                                   A noite chegou de mansinho trazendo uma leve brisa de chuva.

Nelson Mattos Filho

Velejador