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Cartas de Enxu 18

10 Outubro (187)

Enxu Queimado/RN, 11 de junho de 2017

Sabe meu amigo Davi, sinceramente não sei como iremos seguir nessa caminhada pelas estradas enuviadas desse Brasil sem rumo e sem comando. A coisa está descambando para a esculhambação geral e irrestrita, e ai de nós se tentarmos dar um basta. Mas não se avexe que não vou entupir sua paciência com toda essa mácula que nos absorve, porque hoje é domingo e domingo é dia de alegria.

Meu amigo, por aqui a pesca da lagosta já vai alta e a turma já encheu um bocado de caixas de isopor com esse crustáceo que é um néctar nas receitas mais afamadas, mas digo que prefiro degustá-los da maneira que aprendi quando por aqui cheguei, há mais de 27 anos, torrada na água do mar e, quando avermelha, levando o caldeirão para a calçada, abrindo umas cervas geladas e está feita a mesa. Meu amigo, tem pareia não! Mais do que isso é coisa dos livros de segredos.

Quanto a produção da lagosta em Enxu, vou confessar uma coisa: Já alcancei tempos melhores, onde via pescadores, por essa época, tomando banho de cerveja e tirando o excesso com água mineral. Eram tempos de fartura no mar e nem de longe se ouvia falar nesse tal de defeso, que sou totalmente a favor. Era raro chegar um barco com menos de 200 quilos de lagosta em seus porões e era bonito ver a festa na beira da praia, porém, não tinha um padrão de tamanho e nesse meio vinha muita lagosta miúda, ainda em fase de crescimento, que hoje é combatido pelo Ibama. Os homens dos estudos dizem que a captura indiscriminada foi a causa da inevitável queda na produção, mas vai botar isso na cabeça do pescador! Esse é o nó. Neste 2017, quando chega um barco com 100 quilos de lagosta é um fato a ser comemorado com louvor ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo com essa pindaíba toda, aos poucos, os números vão aumentando e assim a vida vai navegando.

Pezão, como “Mini” o chama tão carinhosamente, pois num é que ela aprendeu a fazer de mesmo a tal da saltenha! Dia desses, Paulinho Correia, irmão de Pedrinho, trouxe para ela dois quilos de peixe ubarana, dizendo que uma vez chegou uma professora por aqui para ensinar as mulheres a fazer hambúrguer e pastel com a carne desse peixe. Como ele soube que Lucia estava fazendo um tipo de salgado, ele lembrou que poderia servir. E num é que serviu! Rapaz, o negócio fica bom que só a peste. O problema é que Paulinho trouxe os quilinhos, dizendo que de onde havia saído aquele tinha bastante e ele seria o responsável para trazer, e agora nada. Lucia fez a propaganda das saltenhas de ubarana, as encomendas chegaram e agora temos que bater meio mundo em busca dos peixes. Ela até já aprendeu a tratar o peixe e a retirar a carne, que tem que ser com muito esmero, para não escapulir nenhuma espinha. A ubarana é um peixe espinhento, mas tem uma carne maravilhosa, que bem preparada fica do cara lamber os beiços e pedir mais.

Meu amigo, estou torcendo para você vir aqui com sua Vera, porque sei que vai adorar esse pedacinho de paraíso. Aqui tem tudo o que você gosta. Tem cerveja gelada, peixe a vontade, umas lagostinhas para variar, sombra, água fresca e muita gente pronta a sentar embaixo de um alpendre para jogar conversa fora. E se quiser navegar de jangada, tem também. Dou por visto você aqui emendando os bigodes numa conversa com essa turma do mar. Vixi!

Sim rapaz, me dê notícias do povo da vela dessa Bahia arretada. Ouvi falar de umas traquinagens praticadas pela turma do mal que tem deixado o grupo de velejadores assustado. Por aqui os pentelhos andaram recolhendo uns celulares, mas parece que deram um freio quando a polícia entrou em ação. Meu amigo, dessa malfeitoria da bandidagem ninguém escapa tão cedo, pois o ensinamento vem das bandas do planalto central. Se quem manda pode fazer, porque quem obedece não pode fazer também, né não? Ainda mais agora que foi ensinado que prova não é bem uma prova e, ou, muito pelo contrário e quem provar pode muito bem ficar desaprovado, basta o juiz querer. Sim, tem mais um negócio que eu não sabia: Que um juiz pode ser atrapalhado na hora de anunciar sua sentença, para ver as fotos da netinha linda. Coisa de avô, né não! Isso é muito lindo! Porém, eu não vou falar muito sobre isso, pois a caboco prometeu cortar a cabeça do falador. Deus é mais!

Pezão, voltando a falar de jangada, você precisa ver as ideias do pescador para fabricar os equipamentos de bordo. Só lembro dos saveiros e seus maravilhosos mestres. As roldanas para subir a vela, os cunhos, o caneco de jogar água para encher os poros do pano, os esticadores, os furos para posicionar o mastro num contravento, través ou empopada. Meu amigo, é tudo de uma simplicidade e rusticidade que me deixa babando. Por que danado temos que inventar tanta complicação em nossos veleiros modernosos? Agora vou pisar nos seus calos: Ainda não vi por aqui nenhuma jangada catamarã. Veja bem, não precisa responder, viu?

Davi Hermida, meu amigo, meu professor das águas baianas e conhecedor como poucos do mar abençoado pelos Orixás, deixo um grande beijo para Dona Veroca e fico por aqui aguardando a visita. Mas venha, viu!

Nelson Mattos Filho

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Apologia ao povo do mar

20160629_232427A Bahia não seria Bahia se não tivesse existido Jorge Amado e Dorival Caymmi, dois monstros sagrados que elevaram a terra do Senhor do Bonfim ao patamar de um mundo sem igual, um mundo em que história, causos e costumes passeiam de mãos dadas entre lendas e verdades ficando difícil saber onde começa um e termina o outro. Amado fez, faz e fará gerações se encantarem com as páginas de livros que criam vida sem que se precise nenhum esforço do leitor. Caymmi segue na mesma toada do escritor, só que em músicas e letras que nem precisam ser cantadas para gerar emoção e prazer aos ouvidos alheios. As canções de Dorival Caymmi é um bálsamo para a alma de um navegante, até mesmo quando ele canta em câmera lenta “…É doce morrer no mar…”. “É doce morrer no mar” enfronha, acoberta, emociona, apimenta e dá vida ao romance entre Lívia e Guma, personagens de uma das mais maravilhosas obras sobre tinos e desatinos dos grandes mestres saveiristas. O cais do mercado, o chão de barro, o barraco, a lama, a cachaça, as mulheres, as damas, as vendedoras do corpo, as saciadoras da alegria, a tristeza, a algazarra, a música, os ventos, as tempestades, o medo, a traição, os sonhos, os vivedores do cais, os espertalhões, o choro, a certeza, Iemanjá, Janaína, a desgraça, a glória, o frio, a incerteza e novamente o medo, o medo da morte, o medo que a tudo corrói e a tudo transforma. O medo do mar. Não existe navegante que não tema o mar, que não tema Iemanjá, que não tema os ventos, as tempestades, as ondas, a ira da deusa de cabelos longos e de beleza sem igual. O medo de Guma diante da traição e da fraqueza dos seus desejos. O amor de Lívia para o seu homem. Lívia, uma mulher com a força de Iemanjá. O mar de Iemanjá como cenário sagrado e reino das verdades e segredos dos navegantes. O mar dos saveiros e seus mestres. O mar, palco de romances, aventuras, sorte, gozo, riqueza, vitórias e infortúnios. O mar da Bahia, de todos os Santos e magia. Mar Morto, um tratado brilhante, de um escritor brilhante, sobre um mundo desconhecido e guardião de segredos. Obrigado Jorge Amado por ter escrito Mar Morto!