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A história esquecida em meio ao cal

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Sou bairrista sim, e adoro bater pernas pelos recantos desse Brasil mais belo impossível, porém, em muitas dessas caminhadas fico frente a frente com os desmandos e desmazelos de um país terrivelmente carregado de normas e leis, em que algumas, de tão esdruxulas ou escrachadamente burocratizadas, não conseguem sair do papel. E vou logo alertando aos que em tudo despejam ideologias de cartilhas baratas: – Antes de mirar no momento presente,  olhe de banda e reflita o que se deu no passado longínquo e recente, viu! – Sim, e o que isso tem a ver com a capelinha e a placa “profanada” do retrato aí em cima? – Digo! A igrejinha, que infelizmente não consegui saber qual santo homenageia, está fincada numa minúscula comunidade na beira da estrada, BA 880, que liga o famoso município de Santo Amaro da Purificação/BA, terra de Dona Canô, ao distrito de São Tiago do Iguape, uma joia encravada nas margens do Rio Paraguaçu e pertencente ao município de Cachoeira/BA. Pois bem, a capelinha, pelo que consegui tatear por entre a tinta maledicente que encobre a placa, foi construída no início do século passado, reerguida em 1918, após um incêndio, e reconstruída em 1920 por um tal Bel. José Augusto… (não consigo identificar o sobrenome). Fotografei a capelinha em junho de 2016 e juro pelo santo homenageado, que nem sei se a construção ainda está de pé, neste 2018, pois naquele tempo a estrutura pedia encarecidamente que aparecesse outro Bel. José Augusto, para lhe proporcionar uma sobre vida. – E o IPHAN, aquele órgão “tão bem intencionado” com as coisas do patrimônio cultural, material e artístico das terras de Pindorama? – E os movimentos culturais? – E as políticas públicas? – O que? – IPHAN, movimentos, políticas públicas? – Homi, tenha fé em Jesus! E assim, com placas borradas com mão de cal, vai sendo rabiscada a história desse povo varonil. Um dia a gente toma jeito!  

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De volta a São Tiago do Iguape

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Vai completar um ano que estivemos em São Tiago do Iguape pelo primeira vez, foi no começo de julho de 2015, e nesse, 17/06/2016, retornamos ao pequeno distrito, que pertence ao município de Cachoeira/BA, para Lucia aprender os segredos para produzir o famoso camarão defumado, iguaria que dá ao acarajé e ao abará um toque de sabor mais do que especial. Antes de entrar na seara da culinária, vou comentar um pouco do que vi um ano depois. Para começo de conversa dessa vez não fomos de barco e sim de carro pelas estradas da vida. Para chegar lá é fácil e nem é preciso pedir ajuda aos duendes do google maps. Partindo de Salvador, pela BR 324, em direção a Feira de Santana, segue por mais ou menos 45 quilômetros até encontrar a indicação para o município de Santo Amaro da Purificação. De Santo Amaro segue pela estrada para Cachoeira e 1 quilômetro após o posto da Polícia Rodoviária Estadual, vira a esquerda – ao lado de duas palmeiras – e depois é só seguir em frente. A estrada termina em São Francisco do Paraguaçu, porém, São Tiago do Iguape fica 6 quilômetros antes.

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Achei a cidadezinha de Iguape bem mais bucólica do que há um ano, talvez porque naquele tempo estivesse se preparando para a sua festa maior em homenagem ao padroeiro. Como dessa vez cheguei com mais de quinze dias de antecedência, a tranquilidade reinava na praça. Enquanto Lucia entrava na aula de defumação com a professora Dona Calú, eu peguei a máquina fotográfica e fui dar uma caminhada até a beira do mar, pois é nele que eu me acho.

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Revi a bela igreja, fotografei canoas, apontei a lente para o rio, conversei com alguns pescadores que chegavam da lida e notei a existência de um pequeno canteiro de obras que soube se tratar da construção de um píer público para embarque e desembarque.

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Será verdade ou será mais uma obra para azeitar as eleições municipais que se aproximam?

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De volta a mercearia de Dona Calú e Seu Jarinho me aboletei numa cadeira e fui prosear com os locais, numa prosa boa, divertida e regada com cerveja gelada e acompanhamento de camarão defumado e amendoim cozido. Entre uma conversa e outra Seu Jarinho disse assim: “…aqui tinham muitos barcos a pano que navegavam até Água de Menino, levando e trazendo mercadoria, mas a chegada do motor nos barcos,  em vez de contribuir acabou com tudo”. Disse ainda que o pai era proprietário do Saveiro Macapá, doou a embarcação para o mestre, esse para o filho e anos depois, em péssimo estado, o Macapá encalhou em um banco de areia e foi abandonado para o sempre. Hoje a frota de Iguape se resume a poucas canoas de tronco, outras de fibra e todas movidas a motor. Uma pena, mas é assim!

20160617_122920Enquanto o bate papo corria solto lá fora, Lucia dava seguimento aos seus estudos e o quando o vento batia, chegava até nós o cheiro do camarão sendo envolvido pela fumaça. Mais conversa, mais causos, mais risos e assim a aula terminou, o almoço foi servido – moqueca de siri – e podemos provar o resultado dos ensinos. A aluna foi aprovada com nota máxima. Pense num camarão defumado que ficou bom!

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Muitos baianos, e não baianos, hão de dizer que essa conversa de camarão defumado em acarajé é balela e tem até quem afirme que o bom mesmo é o camarão cozido. É difícil se chegar a uma unanimidade em matéria de acarajé, ainda mais em um Estado que tem um tabuleiro em cada esquina e onde cada freguês é fiel a sua baiana de preferência. Eu já bati meia Salvador em busca do melhor acarajé e confesso que gostei de quase todos. Alguns vem recheados com camarão cozido, outros com o defumado e para mim o mais saboroso é o segundo, além de ser o tradicional.

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Em 2015 Lucia fez um curso de acarajé e abará, no Senac do Pelourinho, e faz as iguarias para baiano nenhum botar defeito, mas faltava aprender a defumar o camarão, o que não tem muitos segredos, porque ela quer fazer em Natal/RN e lá não vende esse tipo de camarão, ou se vende nunca encontramos. Sabendo ela que os que eram defumados em Iguape eram os mais deliciosos, se prometeu que aprenderia a fazer e pediu ajuda a Dona Calu que se prontificou a ensinar.

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Pronto, agora o tabuleiro de Lucia está completo, em breve vamos tirar a prova dos nove e para quem não tiver a alegria de provar, postarei a fotos aqui para deixar muita gente com água na boca. Me aguarde!     

Santo Amaro da Purificação – Um giro pelas cidades do Recôncavo Baiano

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Aproveitando essa nossa permanência prolongada em Salvador, resolvemos fazer umas excussões terrestre pelo interior da Bahia para conhecer melhor a baianidade e a cultura desse povo tão cheio de sincretismo religioso, cultural, racial e filosófico. Planejamos começar pelas cidades que cercam a Baía de Todos os Santos e que fazem parte da região conhecida como Recôncavo Baiano. Como ponta pé inicial, pegamos a estrada e tiramos direto para a não menos famosa cidade de Santo Amaro da Purificação, que fica a 79 quilômetros de Salvador, e reconhecida como a cidade dos artistas Caetano Veloso, Maria Bethânia e da matriarca dos dois, Dona Canô, de saudosa memória. Logo na saída do Aratu Iate Clube fomos indagados por um amigo que queria saber onde iriamos tão cedo, falamos que estávamos indo a Santo Amaro e perguntamos o que ele nos aconselhava conhecer por lá. Ele foi taxativo e seco respondendo assim: Nada! Aquilo lá não tem mais nada para ver. Demos uma tremenda risada, desconversamos e seguimos o nosso caminho, mas sempre lembrando  das palavras daquele amigo tão cético. Como queria que ele estivesse errado, pois fomos munido de uma revista editada pela Bahiatursa que entoava loas de orgulho as cidades baianas.

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logo na entrada da cidade começamos a querer acreditar nas palavras do amigo, pois caminhamos por ruas mal conservadas, sujas, desarrumadas e desembocamos no entristecido e derrotado Rio Subaé, envolvido em um manto de descaso e imundice. Mas ainda assim não perdemos as esperanças de que tudo não passava de ilusão de ótica. Era Sábado, e por isso dia de Feira Livre, e como somos piolhos de Feira não perdemos a oportunidade de caminhar entre as bancas. De cara, já vimos que aquilo passava longe de qualquer tipo de organização e asseio, mas deu para sentir a alma do povo e aprender um pouco sobre a vida do povo santoamarense.

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Porém, Santo Amaro tem sim muita beleza para mostrar em sua bela arquitetura colonial, nos monumentos encravados na Praça da Purificação, nas igrejas e nos desenho de suas ruas e vielas. Falta sim, uma administração pública que valorize sua história e que resgate toda uma cultura abafada pelos desmandos. Não consigo concordar com a sentença do meu amigo, quando diz que lá não tem nada, pois a cidade de Santo Amaro da Purificação é um poço rico e maravilhoso de história, basta apenas se reencontrar no tempo.

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Valeu, e muito, ter conhecido a cidade dos antigos índios tapuias e de Dona Canô, e deixo a dica para outras pessoas irem até lá. Digo mais: Não se atenham aos meus comentários impopulares, pois sou apenas um pretenso e metido saudosista, que se acha no direito de querer que a história não caia na vala comum do desuso e do esquecimento.  

 

   

A Bahia amanheceu entristecida

A Bahia amanheceu mais triste neste Natal de 2012. Morreu Dona Canô, a musa de 105 que era a cara e o jeito do povo do Recôncavo Baiano e que levou o nome da sua amada Santo Amaro da Purificação aos quatro cantos do mundo. Eu, apaixonado que sou pela bela Baía de Todos os Santos, que ela tanto amava, não poderia deixar de prestar minha homenagem. Por isso fui me socorrer no YouTube e encontrei essa pérola.