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Carnaval num rio encantado – I

Rio da Dona (10) A vida de velejador cruzeirista é cheia de surpresas, nem sempre boas, mas numa escala de valores as surpresas boas ganham com larga vantagem. Foi pensando assim que quando Davi Hermida e Vera, veleiro Guma, nos chamaram para passar o carnaval num lugar onde poucos velejadores conheciam, onde a animação do carnaval se resumiria na que a gente pudesse produzir, onde não veríamos quase nenhuma civilização a nossa volta, onde haveria muitos peixes, muitas ostras e muita beleza, não pensamos duas vezes. Vamos sim!

Rio da Dona (11) Minha única preocupação foi saber se teria calado suficiente para o Avoante. Davi Hermida, que conhece tudo sobre as águas da Bahia, foi logo respondendo: “… basta seguir pelo meio do rio que você chega…”. Não perguntei mais nada e tratei de levantar as velas.

Junto com o Avoante e o Guma iria à bela escuna Morena, do velejador Sampaio, outro que conhece tudo sobre o mar da Baía de Todos os Santos. Três barcos e uma multidão de seis pessoas. Esse seria nosso carnaval na Bahia, terra do maior carnaval do mundo, mas que a gente estava indo num sentido inverso a festa que já tomava conta das ruas de Salvador. Nosso rumo era o Rio da Dona, um rio muito pouco navegável, desconhecido da grande maioria dos velejadores baianos, preservado pela natureza ainda intocada, coalhado de Robalos, Tainhas, Carapebas e Ostras, e com um calado que nem os nossos cicerones, Davi e Sampaio, conheciam com precisão. “Basta seguir pelo meio e a gente chega!” Assim eu fiz e assim cheguei, depois de alguns sustos com os números do eco-sonda.

Rio da Dona (21) Quando saem mais de um veleiro para um destino, dificilmente se navega junto. Os barcos navegam diferentes, uns são mais rápidos, outros fazem rumos diferentes e assim a flotilha vai se distanciando. Saímos de Itaparica juntos, mas ao longo do percurso o Guma, que é um catamarã, e a Morena, uma bela escuna de 17 metros, que apesar das velas, tem um potente motor de 6 cilindros, logo tomaram à dianteira. O Avoante, como sempre, seguiu atrás, com todas as velas em cima e ainda sendo empurrado pela maré de enchente do canal interno da Ilha de Itaparica.

Nosso rumo era a Foz do Rio Jaguaripe, já no final de Itaparica, e de lá subir por ele até a Foz do Rio da Dona, 2 milhas acima. “Assim que avistar a igreja da cidade de Jaguaripe, entre a esquerda no rio largo. Esse é o Rio da Dona” Essas foram às palavras de Davi quando falou, pela última vez, com a gente pelo celular.

Rio da Dona (34) Entrar num rio desconhecido é um problema e sem nenhum waypoint para servir de orientação, a coisa fica meio aventuresca. Mas não contamos conversa e metemos a cara no rio largo. Lucia desceu e foi conferir o eco-sonda. Conferiu duas, três, quatro, cinco vezes e depois desistiu. “Parece que é fundo, a profundidade não sai de 3 metros” Muito bom! Pensei com meus botões: “Ainda bem que a maré esta enchendo!”

Quase duas horas navegando, pedi a Lucia para conferir novamente a profundidade, pois estava achando a coisa meio estranha. Ela desceu e falou: “… Estamos no meio do rio?” Eu respondi: “Estamos!” Ela replicou: “Pois então estamos navegando no seco. O bicho não esta marcando mais nada e ainda esta aparecendo duas letras, TF”. Eu nem tentei traduzir as letras, até porque naquela altura eu já sabia o que elas queriam dizer. Olhei para os lados, tentando achar uma saída, e depois de dois longos segundos, Lucia gritou lá de baixo: “Voltamos para a profundidade de 3 metros” Ufa! Lucia pegou o celular e ligou para o Davi perguntando onde eles estavam, pois já tínhamos navegado 5 milhas, passados por dezenas de curvas de rio e nada deles aparecerem. Davi, muito tranqüilo falou: “Siga pelo meio do rio que vocês chegam onde estamos”. Mais duas curvas de rio e lá estavam o Guma e a Morena ancorados tranquilamente a espera do Avoante.

Rio da Dona, um lugar fantástico e cercado apenas pela natureza!

Nelson Mattos Filho

Velejador

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