Arquivo da tag: rios brasileiros

Sabe de uma coisa?

6 Junho (274)

Na página desse Diário que teve o título, O Grande Mar V, falei da situação de abandono que se encontram os rios brasileiros, que só em lembrar me deixa estarrecido. Escrevi o texto, que segue essa introdução, enquanto o Avoante navegava devagarinho as águas do Rio Paraguaçu e meus olhos procuravam vestígios de algum píer público. Não me queiram mal, porque foram palavras saídas do fundo do coração e que muitos podem até achar que são levianas.

Eu e todo navegante somos culpados, porque ficamos calados e inertes diante do descaso. Fazemos parte, junto às populações envolvidas, dos que seriam beneficiados e não estamos nem ai, pois fazemos de conta que não temos nada com isso. Um píer em boas condições de uso representa melhorias, atrai turismo, investimentos e desenvolvimento. Sem o píer todos perdem. É difícil entender isso? Acho que não!

Navegantes, clubes náuticos e população precisam levantar essa bandeira e partir para a luta. Cobrar ações, apresentar denuncias, mostrar para as pessoas o que elas estão perdendo, o quanto às cidades e povoados estão perdendo.

Sempre falei que o Brasil vive de costa para suas águas. Temos um litoral quase sem fim e dotado de infinita beleza. Do mar, o brasileiro curte apenas as praias e, assim mesmo, em dia de Sol. Dos rios, nem isso, pois nem conseguimos mantê-los limpos e despoluídos.

Temos um dos maiores e mais desejados rio do mundo, o Amazonas, e não sabemos e nem podemos aproveitá-lo livremente para a navegação amadora. Não existe apoio para isso, não existe segurança, não existem roteiros e nem guias náuticos confiáveis. Muito menos o interesse de alguma alma boa para fazer isso acontecer. Hoje navegando no baiano Paraguaçu, fico com esse grito preso na garganta. Quanto desperdício! Quanto descaso com a coisa pública! Quanta falta de visão das autoridades!

A Bahia tem sua história intrinsecamente ligada ao mar e das águas surgiram grandes personagens de sua história, navegando em belos saveiros e canoas de tronco. Tudo isso está sendo jogado no lixo como se não fosse nada. Como se não representasse nada. Parece até que querem apagar a história de um povo. O que é isso gente?

Não se comete uma desfeita sem que se pague um preço por ela. A história é inclemente com os malfeitores e usurpadores dos bens públicos. Como é também com quem se cala, se ajoelha, se acovarda e aplaude o descaso alheio.

O Paraguaçu ainda está vivo, porém, entristecido e com um jeitão de um velho abandonado. Não se abandona um velho a própria sorte, porque isso é um crime irreparável. O que vamos dizer as gerações futuras? Será que vamos deixar apenas que os livros contém como era? Que velhas e desbotadas fotografias denunciem o que deixamos para trás? Culpar a quem se os culpados somos nós mesmos.

Aqueles que têm a felicidade de viajar pelo velho continente, pelos EUA ou algum país que valoriza rios e mares, retornam contando maravilhas do que viram por lá. A França com seus canais sendo navegados por confortáveis embarcações. A Espanha com suas belas marinas e portos modernosos. A Croácia com suas águas cristalinas e apetitosas. Os EUA com sua instigante intracoastal waterway. A Turquia, a Grécia, Portugal, Itália, o Mediterrâneo. Tudo lindo, tudo preservado e acenando para o turista. No Brasil temos tudo isso embaixo de nosso nariz e viramos o rosto, porque não queremos cobrar, não sabemos exigir, não queremos enxergar.

Ficamos boquiabertos diante das manchetes dos jornais, quando estes flagram o descaso, a poluição, a destruição dos rios, a corrupção desvairada e no segundo seguinte, esquecemos tudo, pois ficamos conformamos, achando que sempre foi assim e assim será para o sempre.

Nós navegadores desse Brasil imenso, perdemos tempo em debater os últimos lançamentos da indústria eletrônica. Desperdiçamos sonhos em busca de barcos maiores. Confabulamos em intermináveis, e sem futuro, bate papos sob os palhoções dos clubes. Digladiamo-nos para alcançar o poder dentro das associações náuticas e esquecemos o que realmente precisamos. Será que perdemos o norte, ou será que a navegação pura e simples não é a nossa praia?

É com tristeza que olho hoje para as águas do velho Paraguaçu e vejo nelas o reflexo de todos os rios brasileiros. Todos mal amados e esquecidos. Todos precisando de apenas um afago para sair da lama em que se encontram metidos.

Somos todos culpados! Infelizmente!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

E os nossos recursos navegáveis?

klink_amyr_ABr230413DSC_3122 Acabo de ler no site Popa.com.br, que o velejador Amyr Klink, em uma de suas palestras, disse que o Brasil não aproveita quase nada o seu mar e seus rios. Comentários a parte, até porque presenciamos essa verdade sempre que apontamos a proa do Avoante em algum destino, mas saber que o Amyr Klink está empenhado em assumir em seus projetos futuros um melhor aproveitamento das águas do nosso País é muito salutar. Gastamos fortunas construindo estradas cada vez mais ineficientes e que contribuem a cada segundo no aumento das estatísticas de morte e atendimentos hospitalares. Engenheiros gastam neurônios em projetos rodoviários, mas já sabendo eles que vão apenas tapar buracos e ficar atrás das necessidades. O nosso país é reconhecidamente ineficiente quando o assunto é visualizar o futuro. Tudo que planejamos tem apenas o foco no presente ou na eleição seguinte e nada precisar ser tão lógico. Basta ver o que acontece com a seca, com as enchentes, com as cidades, com a saúde, a violência e com um monte de coisas que já não tínhamos que estar quebrando a cabeça. Diante das ingerências, os nossos recursos navegáveis não poderiam ter outra destinação a não ser servirem de esgotos as cidades. Pontes são construídas apenas para facilitar o trânsito dos automóveis, alavancar eleições, super faturar corrupção e quem tiver que navegar embaixo que se vire, pois sempre foi assim, sempre pensamos assim e, para os homens que mandam, não vai ser nenhum velejador a tirar esse conceito da cabeça deles. Se você não concorda, basta caminhar um pouco pelas cidades, observando a beleza dos rios e se perguntando se aquela ponte não poderia ser um pouco mais alta. Amyr falou que tem projeto de navegar a Intracoastal Waterway, maior via náutica interior do mundo, para mostrar ao brasileiro o que estamos desperdiçando. O projeto de Amyr Klink para navegar a Intracoastal já é feito a muitos anos por velejadores brasileiros. Recentemente o veleiro tupiniquim TEASA realizou essa navegação e já se encontra no Canadá a espera que o inverno e o gelo o deixe fazer a viagem de volta. Tomara que Amyr consiga mostrar ao nosso povo coisas que nossos governantes não conseguem enxergar. O Brasil das águas navegáveis agradece e belos rios como Vaza-Barris, Real, Piauí, Potengi, Cunhaú, Dona, São Francisco e tantos outros, que formam o vasto catálogo fluvial brasileiro, consigam despontar para o turismo, o comércio e contribuam para a melhoria da vida nas cidades.