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Cartas de Enxu 17

1 Janeiro (59)

Enxu Queimado/RN, 05 de junho de 2017

Sabe meu amigo Hugo, como seria bom se o cotidiano da vida fosse regido pelos alísios que fazem bailar as palhas dos coqueirais de uma beira de praia. Talvez todo esse desajustamento que rege atualmente a humanidade, não tivesse vez para criar raízes tão desumanas e cruéis. Aonde chegaremos eu não sei, e duvido muito que algum sociólogo de plantão tenha as respostas, mas que estamos navegando em meio a um terrível maremoto, isso eu sei. No silêncio da varanda de minha palhocinha fico imaginando o porquê de tanta maldade e de tantos discursos abonativos com os possuídos de ideias e ideais desencaminhadores. Mas calma aí, quem danado sou eu para julgar ideias e ideais de alguém, né não? Aprendi navegando sobre as ondas do mar que não se julga sonhos de ninguém a não ser que se queira tolher a esperança, a liberdade e a felicidade do outro. Como é gostoso sonhar, ainda mais quando o sonho nos leva a boas novas. Eu sonho com um mundo onde a paz, a união, o amor e o entendimento entre os povos não seja apenas palavras de conforto para a alma, mas sim o alicerce que norteará futuras gerações.

Meu amigo, desculpe por abrir essa carta com tão carregada de aflição, mas tudo são frutos desse mar de lama e incerteza que nos chega através de um jornalismo que a cada dia está mais focado nos assuntos do terrorismo fácil. Certa vez, em conversa com um blogueiro, perguntei o motivo de tantas postagens com gosto de sangue em seu blog e ele respondeu, o que para ele é obvio: “- Nelson, é o que dá ibope! ”. Rapaz, até parece que o jornalismo esqueceu o jornalismo, e o pior, muitos jornalistas ficam tiririca com os blogueiros, acusando-os de não serem profissionais do ramo. Ora, se eles que são não agem como fossem, imagina quem não é e a age como sendo!

Sabe Hugo, juro que essa carta não se destina a reclamar da vida, mas sim para mandar notícias desse lugarzinho em que vivo, porém, é difícil não enveredar pelas bandas das reclamações, pois parece que os homens das coisas públicas não fazem outra coisa senão chafurdar com o bom andamento do cotidiano da gente. Pois num é que estamos – momento em escrevo estas linhas – há mais de 22 horas sem energia! Rapaz, dizem por aí, mas eu ainda não vi os escritos para falar com certeza, que a falta de energia não pode durar mais de 2 horas sob pena da concessionária de energia pagar umas multinhas pelo desserviço. O problema aqui foi a irresponsabilidade de um motorista que meteu o pé mais fundo do que devia, numa estrada piçarrada, e se danou em cima de um poste, partindo a estrutura em três pedaços. Ei, a turma por aqui conta isso dando risadas, como se o feito fosse uma glória para a irresponsabilidade. Pois seu menino, dizem que o motorista saiu ileso, mas deixou para trás, ou seria para frente?, uma noite, uma madrugada e já vamos caminhando para mais da metade do dia sem nem sinal de energia, sem funcionar as escolas, posto de saúde e comércio. Sabe o que mais me invoca? A moça do telemarketing da companhia energética não cansa, e não se manca, de afirmar que está sendo providenciado. Rapaz, para trocar um poste e remendar um fiozinho de nada! Eita nós, viu! O que não entra em minha cabeça é que estamos no meio de um dos maiores parques eólico do país, com uma infraestrutura fantástica de equipamentos de manutenção e montagem de torres e postes, apoiado por um enorme séquito de engenheiros e técnicos, e nada. Ponto para a incompetência! Pois é meu amigo, a vida por aqui é mansa, mas tem suas verdades.

Sim rapaz, dia primeiro de junho acabou o período do defeso da lagosta, foi aberta a temporada de pesca e já tem lagosta a bambam por aqui, pois o mar daqui é uma das boas fontes do crustáceo. Os pescadores apostam que a pesca vai ser boa, mas os donos dos ranchos – barracões que recebem o produto – não estão botando muita fé, mas não me pergunte o motivo, pois tenho visto barcos chegando bem carregados. Nesse fim de semana comi algumas lagostas e aprovei o sabor e o tamanho. Sou favorável ao período de defeso e isso está sendo provado pelo tamanho da lagosta pescada. Em anos recentes pegavam muita lagosta miúda, que inclusive é proibido, e o Ibama tinha um bocado de trabalho para botar ordem no terreiro. Hoje a coisa tem andado em brancas nuvens e por enquanto os dois lados, pescador e fiscalização, estão em paz.

Ei, Lucia está a cada dia mais esmerada nas saltenhas, aqueles salgadinhos deliciosos de origens boliviana e argentina. Ela aprendeu aprendido e agora bota banca de excelência no feitio do produto. Eu sou suspeito em afirmar, mas quem prova, aprova e pede mais. Tem de carne, frango, calabresa, bacalhau, ricota com espinafre e agora anunciou que vai fazer de lagosta. Vixi! Essa semana um amigo trouxe, para ela fazer um teste, uns quilos de ubarana que dizem ter a carne muito boa para fabricação de hamburguês e recheio de salgados. Acho que vem novidade por aí!

Pois meu amigo Hugo Vidal, velejador arretado de valente e conhecedor como ninguém das tardes baianas de Itapuã, por enquanto é isso, mas tem muita novidade por essa Enxu mais bela. Você precisa vir aqui para ver como é a vida de um praieiro e traga minha amiga Catarina, que prometo armar a melhor e mais bonita rede na varanda. Hoje o vento amanheceu soprador e vindo do quadrante Sul. A Lua está linda e crescente e o mar com uma cor esmeralda e convidativo.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 12

2 Fevereiro (165)

Enxu Queimado, 25 de março de 2017

Sabe meu caro Woden, não o conheço pessoalmente, mas admiro seu trabalho, sua resistência jornalística e leio assiduamente a Coluna do WM nas páginas do jornal papa jerimum Tribuna do Norte, sei que isso não me credencia a sua amizade, porém, me sinto seu amigo pela via do seu filho, Woden Junior, parceiro “derna” dos bons tempos de uma Natal apaixonante e que deixou saudades em quem a viveu. Como dizia o personagem Lilico, o “Homem do Bumbo”, do programa A praça é Nossa: “Tempo bom, não volta mais, saudade… de outros tempos iguais! ”. Depois dessa breve e simplória apresentação, sigo em frente no rastro da chuva que acompanho de minha cabaninha de praia.

O texto de sua coluna do dia 24 de março, depois de discorrer sobre os meandros e segredos do tempo, coisa que os meteorologistas andam mais perdidos do que cego em tiroteio, você fechou o firo com a frase “O Nordeste é mesmo uma Academia”. Pois digo que é mesmo e os estudiosos do clima precisam tirar um tiquinho a atenção dos satélites e computadores para dar um passeio pelas Academias das feiras livres e bancos de praça do interior, pois é ali que se passam as verdades verdadeiras e as esperanças tomam ciência do sim ou do não. E tem mais, esse negócio de “normal” e “abaixo da média” e palavreado de arrodeio.

Seu Woden, não sou do campo, gosto mesmo é das diabruras do mar, pois é nos verdes campos de Netuno e Iemanjá que a vida conta léguas para tirar a prova dos nove daqueles que dizem saber das coisas das navegações. Já vi muito valente acabrunhado diante de uns torinhos de mar, mas também já vi muitos grumetes de alma lavada, pois na lei dos oceanos o que vale mais é o reconhecimento do medo e a vontade do constante aprendizado. Porém, digo que no terreiro dessa cabaninha de praia, que vim ficar debaixo depois que desembarquei do Avoante, me arvorei a espalhar umas sementinhas pelo chão e não me canso de procurar nuvens de chuva nos quadrantes do céu. O feijão já tá bota, não bota. O milho, que plantei um dia desse, já apontou, o inhame está bonito que só vendo e as fruteiras estão faceiras e botando safra. Para quem até uns dias passados estava balançando num veleirinho no meio do mar, até que estou indo bem.

Fico vendo suas notícias de volume de chuva pelo Rio Grande do Norte afora e fico imaginando onde danado você consegue esses números tão milimétricos. Por aqui, nessa Enxu Queimado de uma pequena Pedra Grande, essas informações estão mais raras do que onça brava. E por falar em onça, de vez em quando algumas davam as caras por aqui, mas depois que os parques de energia dos ventos tomaram conta da caatinga, passando o trator em tudo que é pé de jurema, os bichanos se escafederam. Jornalista, se fosse só na mata nativa do sertão estava até bom, mas o trator passou raspando tudo que é duna e daqui uns dias vamos saber apenas que existiu umas tais areias andantes que engoliam cidades.

Mas voltando a frase que fechou sua coluna do dia 24 de março, comentei com Lucia, a dona do meu ser, e como ela pergunta tudo ao pé da letra, tratou logo de interrogar: – Academia de que? Respondi que era Academia de ensino e que seu artigo falava dos erros e acertos dos homens que estudam o tempo. Ela deu um gole no café e disparou: – Eles erram porque não se apegam nos ventos, se prestassem atenção no que dizem os ventos não errariam tanto. Eu ainda quis argumentar falando nos “meninos” dos Andes, mas fiquei quieto. Em nosso tempo de vida a bordo eu nunca acertei uma quando o assunto era se iria chover ou não. Quando eu dizia que vinha chuva, Lucia botava a cabeça fora da gaiuta, olhava para o poente e sentenciava: – Vem não! Aí eu dizia: – Mas amor, o vento está vindo de lá e vem trazendo muitas nuvens escuras. – Mas não vai e pode tratar de terminar o serviço que começou ontem, viu! Pronto, acabava o assunto e a chuva.

Meu caro jornalista Woden Madruga, não sei onde fica Queimada de Baixo, recantinho de terra que você tem tanto carinho e que acolhe uns rebanhos de bodes manhosos, mas um dia vou dar um passeio por lá. Agora, se quiser comer umas postas de bicuda gorda e uns galos do alto mimosos, apareça em Enxu Queimado que garanto que Dona Lucia prepara um pirão de fazer pareia com o da Comadre. Minha casa é fácil de achar, basta chegar e perguntar, porém, se ninguém souber é porque você não está em Enxu.

Eita que já ia esquecendo de assuntar que o tempo hoje, 25 de março, sábado de quaresma, foi de Sol forte e poucas nuvens, porém, o chão está bem chovido. Anote no seu caderninho da chuva, viu!

Nelson Mattos Filho

Coisas que não entendo

PONTA NEGRA (3)

Confesso que tem coisas que custo a entender, mas tem outras que por mais que eu tente, o entendimento dá a bexiga e não chega. Lendo uma matéria sobre poluição nas praias e rios do Rio Grande do Norte, um estado que se declara um dos paraísos turísticos do Brasil, fiquei matutando com meus botões: O que danado quer dizer a frase “um trecho de mar”? A frase em questão se refere a praia de Ponta Negra, um dos mais belos cartões postais da capital potiguar, que segundo levantamentos feito pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte, IFRN, através do programa Água Azul, o trecho que eu nunca ouvir falar, mas que dizem ser conhecido como Free Willy – e não me perguntem o porque desse nome estrambólico – está impróprio para o banho de mar. A foz do rio Pirangi, outro cartão postal potiguar, e as águas do rio Potengi em frente a praia da Redinha, embaixo da Ponte de Todos os retratos e egos politiqueiros, também sofrem do mesmo mal, ou melhor, estão mais para fossas do que para praias. O que está queimando meu juízo – se é que tenho algum – é a frase “um trecho de mar”. Como danado os estudos chegam a um nível de certeza de que apenas um trecho está infestado de esgoto e outro a poucos metros, mais para trás ou mais para frente, não está? A Praia de Ponta Negra é uma baía e por assim ser, as correntes marinhas sofrem alteração de fluxo e refluxo a depender dos ventos e marés. Pelo menos eu na minha santa ignorância acho que seja assim. Basta caminhar nas areias da praia para ver línguas negras despejando dejetos no mar, mas isso só quem vê e o pobre mortal banhista, porque se for perguntar a alguma “autoridade” a resposta é a mesma de sempre: Vamos averiguar, fazer um estudo técnico, elaborar um planejamento, tentar enquadrar quem está causando o problema, mas sabemos que é muito difícil, porque ninguém quer se expor para denunciar. Bem, quanto ao Rio Potengi há muito sofre com o esgoto da cidade e acho até que ele nem liga mais para uma merdinha a mais ou a menos e no Rio Pirangi a pisadinha é a mesma. Aliás, o Rio Pirangi só vai aparecer nos noticiários no período de verão e enquanto isso o esgoto fica em banho maria. Alguém haverá de dizer: – Homem deixe de leseira e tome ciência, pois se nos mares olímpicos do Cristo Redentor o esgoto está no meio da canela, imagine no Rio Grande do Norte que num vai ter nem disputa de cuspe a distância!