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Litoral, energia limpa, paisagem e a ilusão do progresso

10 Outubro (39)

O site Mar Sem Fim, do jornalista João Lara Mesquita, na matéria Litoral, energia eólica e paisagem: Você precisa saber, de dezembro de 2015, alertou para o gigantesco crime ambiental que estava sendo cometido para implantação dos parques eólicos no Brasil e o incrível descaso das autoridades. Em agosto de 2016, na postagem Energia Limpa?, cutuquei a mesma ferida. A paisagem do litoral nordestino mudou, dunas praticamente foram dizimadas e a caatinga, mata nativa do sertão brasileiro, está virando uma triste e cruel lembrança. Muito em breve, se já não foi, até o estonteante parque dos Lençóis Maranhense será cravejado de torres. Dizem que será um parque de grandes dimensões. Georges Braque, pintor e escultor francês: “As aspirações de cada época são limitadas: daí a ilusão do progresso”

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Cartas de Enxu 16

4 Abril (226)

Enxu Queimado/RN, 28 de maio de 2017

Sabe meu amigo Zeca, tomei um grande choque em ter mudado do mar para a terra, não que eu não esperasse por isso, mas a realidade está bem pior do que a utopia da espera. Aí você irá perguntar: – E quando da mudança da terra para o mar, não houve choque? – Ouve não, meu amigo, o que ouve foi um turbilhão de alegrias recheado de maravilhosos deslumbramentos. Mas vou levando assim mesmo, até porque, no retorno, tive a sorte de possuir essa palhocinha de praia tão aconchegante, cercada de coqueiros e arejada pelos velhos e bons alísios que trazem belas poesias ao povo do mar.

Meu amigo, nunca esqueci nossos primeiros papos sobre barcos e de minha ida a sua casa para ver o projeto, feito por você, de um catamarã. Aqueles rabiscos estrambólicos, na visão de um neófito que mal sabia distinguir proa e popa, no primeiro momento me encheram de desesperanças, porém, bastaram algumas explicações mais apuradas, de sua parte, para provar que minhas desesperanças tinham alto grau de fundamento, ainda mais quando fui apresentado a valores e custos das coisas de barcos. Ainda bem que controlei os batimentos cardíacos e nossa conversa tomou o rumo de suas histórias pelos mares do Brasil e do Caribe.

Zecão, mudando de assunto, o que danado está havendo com esse mundo? A coisa está muito desarrumada e sem nenhuma perspectiva de melhora. Diga aí rapaz, o que danado se passa em sua cabeça naqueles momentos de reflexão durante suas navegadas entre Natal e o Atol das Rocas? Sempre gostei de pensar nas cidades durantes meus turnos de comando, porque o mar transforma e acalma sentimentos. Hoje, sob a sombra de minha varandinha, tenho me visto meio desassossegado, mas juro que não perdi a esperança de um dia viver em um mundo igualzinho ao que avistava lá do alto mar.

Os caras que se dizem autoridade e se alto intitulam líderes, agora chegaram onde queriam, pois nos meteram dentro de um ninho de serpentes, onde eles são as cobras, e ficam se divertindo em nos ver espernear e gritar velhas palavras de ordem, que nem cabem mais nos dicionários. Estamos a tal ponto envenenados, que não sabemos mais quando estamos seguindo em frente ou dando passos para trás. Estamos feitos canibais comendo uns aos outros e rindo da cara de todos, como se nada fosse mais importante do que a cara diabólica e as mentiras destiladas pelas línguas das serpentes. A nossa situação é caótica, insolúvel e está indicando que não existirá mais lugar no mundo onde possamos sobreviver sem a presença das serpentes.

Poxa, meu amigo, estamos em pleno século XXI, dezessete anos a mais do que a vida prometida pelos Jetsons, e estamos quase retornando ao mundo dos Flintstones, tamanha é a sanha destruidora dos donos do mundo. As redes sociais, que sempre apostei como sendo o futuro é a desgraça dos encantadores das massas, se mostram a cada dia mais abduzidas por eles, e o pior, cada integrante anuncia uma verdade, ou mentira, mesmo, sabendo ele, que não passa em nenhum crivo.

E a violência? – Não, prefiro não falar sobre isso, pois não costumo assistir e nem ler nada com esse tema, até porque, essa comunidade que hoje me acolhe, tirando alguns roubos de galinhas, boatos ou pequenas e divertidas desavenças pessoais, ainda está imune a esse tema.

Rapaz, acho que estou lhe abusando com temas tão para baixo, ainda mais em um domingo tão gostoso de maré de Lua cavaiando, em que o Sol por aqui faz um esforço tremendo para furar uma barreira de nuvens prometedoras de chuvas. Por isso vou pular uma casa. Ei, os noticiários anunciam muita chuva pelas bandas das Alagoas, mas aqui em nós, a coisa está periclitante e já tem agricultor se conformando que a safra vai para o beleléu. Os meus pezinhos de milho estão prometendo, mas também, eu não arredo o pé de aguar todo dia. O feijão já tirei umas três safras e tenho notado que já começaram a esmorecer. Rapaz, tirar feijão verde do pé, debulhar, colocar na panela e tomar o caldo bem quentinho, com uma cerveja bem gelada, é bom demais! Vixi!!

Carioca, a temporada da lagosta inicia dia primeiro de junho e os barcos já estão prontinhos para se fazerem ao mar. Cada pescador carregando o sonho de uma pescaria aprumada, para tirar o atraso. Enxu Queimado tem a pesca da lagosta como carro chefe de sua economia e é gostoso ver o movimento e ouvir da boca do pescador o que eles esperam da nova safra. Eu acho que esse ano vai ser bom, até porque, o período de defeso vem sendo cumprindo à risca, mas tudo é segredo e a natureza é quem vai dizer, né não!

José Martino, meu amigo Zeca do Borandá, você precisa vir aqui para a gente emendar os bigodes na conversa e colocar os assuntos em dia, rapaz. Deixe de preguiça e venha conhecer as boas terras do Mato Grande e essa praia maravilhosa. Pode vir de barco que garanto uma poita arretada para o fundeio. Deixo um cheiro para Lucia e outro para o filhote arquiteto. Venha, meu amigo, pois você vai se apaixonar por esse lugarejo que é só paz e alegria.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 02

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Pois é, nessa minha varandinha refrescada pelos alísios do nordeste a vida vai passando entre prosas e vento e de repente me dou conta que nunca mais me ative a escrever as cartas que havia prometido escrever. Coisas para contar tenho muitas, porque vida de praieiro é uma resenha, o problema é concatenar as ideias e se livrar do chamado chamegoso de uma rede macia de quatro mocotós. – Rede de quatro mocotós? – Sim, porque rede se vende por mocotó. Dois mocotós é rede para uma pessoa e de quatro, é aquela rede larga, para se fazer o que der na telha, e até dormir. E apois!

E por falar em alísios, os ventos por essas bandas de Enxu Queimado estão mais avexados do que tainha de açude e o coqueiral está num bailado que só vendo. É bonito ver a alegria das palhas sendo sacudidas pelas lufadas de um vendaval ligeiro e a poeira tomar conta do mundo, como se um Saci tivesse riscado o barro do chão com suas gaitadas presepentas. São os ventos de agosto, que se estendem por setembro e descambam para outubro, até baixar o facho lá pelo meado de novembro. É o preparo da natureza para sacudir a poeira de um inverno sem graça e sem chuva e entregar tudo colorido e brilhando para o comando do senhor verão das cores e bocas. – E a primavera? – Rapaz dizem que aqui tem disso não, mas tem, pois tem flores e rosas desafiando a secura das juremas pretas e basta uns pinguinhos de chuva para a caatinga fazer bonito. E por falar em caatinga, pois num é que o bonde do progresso está passando por cima de tudo sem nem dá bola para o tal do meio ambiente. É triste, mas não tem a quem reclamar não, pois nem bispado tem por aqui e o padre só de vez em quando. Eita nordeste velho incompreendido! A sorte é que o povo é forte que nem touro brabo e teve forró está tudo certo.

– E ainda tem forró? – Tem, mas está arrastando os pés, pois um tal de levada do batidão aputanhado, alinhado a um monstrengo chamado paredão, está dominando tudo e a paisagem está entre o não e o sim da descaracterização. Quem tiver ouvido que escute e quem não achar bom, que escute também, pois o filho da peste, dono das bocas de som da mala do possante, é aporrinhado com reclamante e escreveu não leu, o caboco reclamador leva tapa nas orelhas. Dizem que tem até Cabo-Delegado levando tapa olho por aí. Por aqui o paredão tem cantado fino, pois o delegado se arvorou com uma ordem do Dr. Juiz e tem cumprido o riscado bem na risca, mesmo assim, de vez em quando aparece um gaiato querendo bagunçar a ordem. Ora veja, respeite a polícia e a caneta do juiz, cabra safado!

Eita que dá saudade do mar a bordo de um veleirinho, pois no reinado de iemanjá a coisa é mais respeitadora e o povo das águas escreve ética com “E” maiúsculo. Mas a vida é assim mesmo e de vez em vez é preciso dar uns bordos e ficar com a cara no vento para ficar mais animado. A verdade é que eu já estava desacostumado com os moídos urbanos e tudo é novidade, mas daqui a pouco entro nos conformes e tudo fica tinindo.

E por falar em conformes, num é que a vida lá fora anda cheia de novidade que nem de longe se adivinhava! Nas ondas da internet vejo que os cientistas se danaram a colorir um dinossauro e se esmeraram tanto que o bicho ficou todinho um papagaio, todinho vírgula. O bichano milenar é um tal de Psitacosauro que andou boçando por aí e se escafedeu ninguém sabe como, mas segundo conta a lenda, foi devido um meteoro. Pegaram a ossada, colocaram a imagem em um programa de computador e saiu na impressora um dinossauro com cara de papagaio, com chifre, e colorido que só penoso falante. Será que o bichinho também era presepeiro? – E a tartaruga? – Essa história também veio nas “nuvens” e eu pesquei na rede. Dizem que um “tartarugo” tarado lá das ilhas Galápagos conseguiu tirar a espécie da mira da extinção. A tartaruga, da espécie Chelonoidis Hoodensis, batizado por Diego e hoje com 110 anos de vida, teve mais de 800 filhotes. Pense num cabra, ou melhor, tartaruga arrochada! Diego ainda nada por Galápagos e se alguma tartaruguinha der mole ele, creu! Danou-se!

E a Lua? Eita que nessa rede cai coisa viu! Os homens dos estudos apostam que a Lua surgiu de um choque planetário e da mesma bagaceira surgiu a Terra, porém, os menos que afirmam isso se avexam em dizer que tudo somente será fácil de ser assinado embaixo lá pelos anos 2040. Ah bom! Nesse caso, vamos relaxar e admirar a Lua cheia que já é tempo.

E a tartaruga em? Cento e dez anos de muito amor pela espécie. Tá vendo só como tem assunto embaixo dessa varandinha?

Nelson Mattos Filho

A jangada, o coqueiral e o mar

20160906_115028Isso é Brasil bem brasileiro. País de sol, mar, dunas e praias bonitas. Praias de um nordeste bem Brasil. Isso é Enxu Queimado, litoral do Rio Grande do Norte.

Coisas do progresso

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Nada contra as fontes de energia renovável, mas o que estão fazendo com as dunas e matas virgens que são uma das molduras de beleza do litoral brasileiro é um crime ambiental que até agora passa despercebido do grande público. Montanhas de dunas estão sendo destruídas sem a menor cerimônia e o desmatamento, que não acontece somente no litoral, ameaça a fauna e a flora de grande parte do interior brasileiro, tudo para serem erguidas as torres dos geradores eólicos. Enquanto isso, os fiscais do meio ambiente apontam suas armas para os pequenos pescadores de lagosta e os caçadores de arribaçã. Mas como diz o ditado: “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa” . O homem, em pleno século XXI, ainda não aprendeu a lidar com o progresso sem precisar desmontar a natureza.