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Expedição Tranquilidade – V

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No post IV da Expedição Tranquilidade prometi que na postagem seguinte navegaríamos pelas veredas aquáticas que levam a um dos mais belos recantos navegáveis da costa brasileira, mas resolvi dar um bordo para ir até a cidade de Camamu. A imagem que abre essa postagem é da ponta sul da ilha do Goió e que dá uma pequena mostra da beleza reinante naquele santuário natural da costa baiana.

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Poderíamos ter ido a cidade de Camamu a bordo do Tranquilidade, numa navegação pontilhada de waypoints, mas nem por isso terrivelmente complicada. É apenas uma navegação que exige atenção e um pouco de conhecimento em rios e igarapés. O canal de acesso a cidade de Camamu tem sim seus segredos e eu até conheço boa parte deles, mas a prudência sempre fala mais alto e nada melhor do que embarcar em um dos muitos barcos, toque-toque, que fazem a linha, num passeio de interação com os nativos, vivendo suas histórias, escutando seus causos, dando boas gargalhadas e observando a paisagem que passa como em um filme em câmara lenta de um mundo encantado. Foi assim que deixamos o Tranquilidade ancorado entre as ilhas de Sapinho e Goió e embarcamos no barco Camponesa, do amigo boa praça Joaquim. Porém, com um pequeno detalhe: Temos que acordar às 5 horas da manhã, pois a Camponesa passa impreterivelmente às 5 horas e 45 minutos. Quem não estiver pronto e esperando fica!

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Coroas de pedras como essas é que trazem má fama ao canal. Elas foram plantadas há mais de 450 anos, por índios, colonizadores e outros defensores da terra descoberta, para impedir que esquadras de invasores tomassem conta do pedaço. Diz a história, que os barcos invasores ao encalharem sobre os bancos de pedras, eram atacados por flechas, pedras, balas, impropérios e tudo mais que estivesse ao alcance dos defensores. Deve ter sido uma farra das boas! O resultado é que as pedras continuam lá e até hoje não teve uma viva alma com coragem para retirá-las. Ainda bem!

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E o que será que fomos fazer na cidade histórica de Camamu e que já foi considerada uma das joias da coroa? Fomos a feira que acontece aos Sábados e é a maior da região. Enfeitei as imagens acima com muita pimenta e azeite de dendê, pois representam toda a cultura de um povo. O dendê de Camamu tem fama de ser o melhor do mundo e as pimentas ardem como qualquer outra pimenta baiana. É melhor ir com muita parcimônia quando for pedir uma moqueca por aquelas bandas. O negócio não é para brincadeira! E a cidade? Bem, a cidade não é mais essa joia toda, mas merece uma boa visita para podermos observar o quanto nossos administradores públicos estão desnorteados.

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Depois de cinco horas perambulando pela feira e ruas da cidade baixa de Camamu, chegou a hora de retornar. A Camponesa veio carregada e a gente disputando espaço com sacolas e caixas de compras, mas com muita alegria em estar vivenciando aquele momento. Alguns, apesar do barulho do motor, não conseguiram segurar o cansaço e o sono, que bateu pesado diante da malemolência do percurso. Eu preferi, como sempre, vir na parte de cima e aproveitar um pouco mais do bálsamo que exala daquela paisagem maravilhosa.

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Não posso, não nego e não me canso de falar: A Baía de Camamu é mágica e nenhum lugar no mundo consegue ser tão fascinante. Mas, isso é apenas a minha opinião.

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A CULINÁRIA DE CAMAMÚ

Esse artigo foi publicado em 2007 no Jornal TRIBUNA DO NORTE, onde escrevo aos Domingos a coluna DIÁRIO DO AVOANTE.                                

 

                                     Nesses dois anos de velejadas, tivemos boas surpresas e descobrimos vários lugares maravilhosos de difícil acesso por terra, mas facilmente acessíveis pela água. Em todos esses lugares nos deparamos com uma culinária rica e farta. Pratos deliciosos feitos por pessoas simples, mas com um toque de sabor que só os deuses da culinária sabem. Pessoas humildes, muitas vezes sem instrução, mas que colocam todo amor nos pratos que preparam. Os resultados são verdadeiras maravilhas culinárias.

                                   Um desses lugares que pega pela boca é a casa de Dona Aurora, na ilha de Campinho, Baía de Camamú/BA. Dona Aurora, uma senhora de 76 anos, prepara uma moqueca de deixar qualquer um triste de comer. Todos os dias ela vai pescar em sua canoa ou numa gamboa que ela tem em frente de casa. Todos os dias comem-se moqueca na casa de Dona Aurora. Moqueca de peixe. Moqueca de siri. Moqueca de polvo. Moqueca de sururu. Moqueca de tudo. Todas com bastante azeite de dendê e muita pimenta. Em Camamú/BA, se produz o melhor azeite de dendê do mundo. Em Campinho conheci a borra do dendê. Uma pasta de sabor exótico que colocada na moqueca da um sabor inigualável. Para os desavisados é bom primeiro saber onde fica o banheiro. O bicho é bom mais é brabo. A borra do dendê também é consumida com farinha ou pão.

                                   A moqueca de fruta pão, uma especialidade de Dona Onilía irmã da Aurora, é de deixar qualquer um extasiado. Onilía não gosta de ensinar a ninguém, mas a amizade que fizemos com essas senhoras foi tão estreita e fraternal que Lucia foi das poucas privilegiadas a aprender essa receita, pelas mãos da Onilia.

                                   Lucia aprendeu fazer uma moqueca de banana, que é uma coisa de outro mundo, ou melhor, do mundo culinário de Camamú. Ela aprendeu e aperfeiçoou com camarão. O resultado eu não tenho como descrever aqui, porque faltam palavras. A moqueca de banana é servida na Barra de Serinhanhém, Baía de Camamú/BA.  A de banana com camarão só pedindo a Lucia.      

                                   Na Ponta da Ingazeira, em Campinho, existe o barzinho do Ronrem, esse não é o nome do bar, mais o apelido do dono. Lucia insiste em chamá-lo de fifonho. Romrem serve um file de agulha, frito no dendê, que é dos sonhos. A técnica de retirar a espinha da agulha é muito interessante. O peixe fica inteiro e não perde nenhuma característica.

                                   Na ilha do Sapinho, eles preparam uma moqueca de lagosta ou a lagosta na casca, que faz a delicia dos poucos turistas privilegiados.

                                   Em Camamú, também se come moqueca de baiacu que um amigo velejador batizou de Pividi da Abissínia. O prato é uma delicia, mas o peixe precisa ser tratado por quem conhece, pois o baiacu é um peixe venenoso. Na Ilha do Campinho só tem um tratador confiável e o apelido dele é bordado, uma figura.

                                   A Lambreta, marisco encontrado em quase toda Bahia, em Camamú ele ganha um toque especial. Lucia prepara um espaguete com lambreta que é de lascar meio mundo.

                                   Em todos esses lugares as mesas são fartas e deliciosas. Os ambientes são muito simples. Alguns são pequenos bares e restaurantes. Outros como na casa de Dona Aurora a comida é uma forma de receber bem o visitante. As receitas são passadas com muita boa vontade. A não ser que a dona da receita seja Dona Onilia.

                                   Um dia recebi um convite de Dona Aurora para ir comer uma moqueca. O convite veio com uma advertência. A minha moqueca não teria muita pimenta, seria feita em separado. “- Dona Aurora, não mereço essa atenção”. “- Claro que merece você é do meu coração…”. Lucia, que gosta muito de pimenta, iria comer da mesma moqueca da Aurora. Chegamos um pouco antes da hora combinada, porque tinha umas cervejas geladas esperando é isso não e coisa que se deixe esperar. A moqueca da Aurora é feita no fogo à lenha embaixo de uma mangueira, tudo ao ar livre no meio do terreiro. A mesa fica embaixo de outra mangueira, também ao ar livre. Que saudade!

                                   Chegou à hora do almoço e lá vem minha moqueca. Quando coloquei na boca saiu fogo até pelos ouvidos. Dona Aurora olhou aquela cena endiabrada e falou “Nelson, deixe de ser fraco homem, não coloquei nem pimenta na sua moqueca, experimente um pouquinho da minha..” Bem, a moqueca, embora “quente” estava uma delicia. Pimenta tem uma magia, quanto mais você come mais tem vontade de comer. Hoje já não me surpreendo com as moquecas de Dona Aurora. Muitas vezes até coloco mais uma pimentinha. Quanto ao dendê, meu intestino teve de se acostumar, senão tinha que parar de comer aquelas delicias, isso é impensável.

 Nelson Mattos Filho

Velejador