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Fraude do arrastão

1 Janeiro (177)

Auditoria do Ministério da Transparência e da Controladoria Geral da União, divulgada dia 4/10, anuncia que dois terços dos beneficiados pelo seguro-defeso, não tem direito ao programa. A fraude chega a mais de R$ 1,5 bilhões anuais aos cofres públicos. Em Roraima, segundo o resultado da auditoria, a irregularidade chega a 100% dos benefícios, seguido de Sergipe com 86,05%. O seguro-defeso é concedido aos pescadores artesanais e profissionais durante o período de reprodução dos pescados. O valor pago a cada pescador é de um salário mínimo vigente, durante quatro meses em média e dependendo da espécie. No caso da lagosta a proibição da pesca é de seis meses. O seguro-defeso tinha tudo para ser um excelente programa social, mas a fragilidade no cadastramento, aliada ao vírus letal da corrupção arraigada na administração pública brasileira, está fazendo com que o programa naufrague em mais um mar de lama. Somente em 2014, em que tivemos eleições para presidente, governador, senador e deputado federal, o número de inscritos cresceu 760%. Em setembro de 2013 teve 3,2 mil novos beneficiários e em setembro de 2014, houve 24,4 mil inscrições. Pois é, antigamente o voto era de cabresto, agora é de rede de arrasto. Fonte: Tribuna do Norte      

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Cartas de Enxu 18

10 Outubro (187)

Enxu Queimado/RN, 11 de junho de 2017

Sabe meu amigo Davi, sinceramente não sei como iremos seguir nessa caminhada pelas estradas enuviadas desse Brasil sem rumo e sem comando. A coisa está descambando para a esculhambação geral e irrestrita, e ai de nós se tentarmos dar um basta. Mas não se avexe que não vou entupir sua paciência com toda essa mácula que nos absorve, porque hoje é domingo e domingo é dia de alegria.

Meu amigo, por aqui a pesca da lagosta já vai alta e a turma já encheu um bocado de caixas de isopor com esse crustáceo que é um néctar nas receitas mais afamadas, mas digo que prefiro degustá-los da maneira que aprendi quando por aqui cheguei, há mais de 27 anos, torrada na água do mar e, quando avermelha, levando o caldeirão para a calçada, abrindo umas cervas geladas e está feita a mesa. Meu amigo, tem pareia não! Mais do que isso é coisa dos livros de segredos.

Quanto a produção da lagosta em Enxu, vou confessar uma coisa: Já alcancei tempos melhores, onde via pescadores, por essa época, tomando banho de cerveja e tirando o excesso com água mineral. Eram tempos de fartura no mar e nem de longe se ouvia falar nesse tal de defeso, que sou totalmente a favor. Era raro chegar um barco com menos de 200 quilos de lagosta em seus porões e era bonito ver a festa na beira da praia, porém, não tinha um padrão de tamanho e nesse meio vinha muita lagosta miúda, ainda em fase de crescimento, que hoje é combatido pelo Ibama. Os homens dos estudos dizem que a captura indiscriminada foi a causa da inevitável queda na produção, mas vai botar isso na cabeça do pescador! Esse é o nó. Neste 2017, quando chega um barco com 100 quilos de lagosta é um fato a ser comemorado com louvor ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo com essa pindaíba toda, aos poucos, os números vão aumentando e assim a vida vai navegando.

Pezão, como “Mini” o chama tão carinhosamente, pois num é que ela aprendeu a fazer de mesmo a tal da saltenha! Dia desses, Paulinho Correia, irmão de Pedrinho, trouxe para ela dois quilos de peixe ubarana, dizendo que uma vez chegou uma professora por aqui para ensinar as mulheres a fazer hambúrguer e pastel com a carne desse peixe. Como ele soube que Lucia estava fazendo um tipo de salgado, ele lembrou que poderia servir. E num é que serviu! Rapaz, o negócio fica bom que só a peste. O problema é que Paulinho trouxe os quilinhos, dizendo que de onde havia saído aquele tinha bastante e ele seria o responsável para trazer, e agora nada. Lucia fez a propaganda das saltenhas de ubarana, as encomendas chegaram e agora temos que bater meio mundo em busca dos peixes. Ela até já aprendeu a tratar o peixe e a retirar a carne, que tem que ser com muito esmero, para não escapulir nenhuma espinha. A ubarana é um peixe espinhento, mas tem uma carne maravilhosa, que bem preparada fica do cara lamber os beiços e pedir mais.

Meu amigo, estou torcendo para você vir aqui com sua Vera, porque sei que vai adorar esse pedacinho de paraíso. Aqui tem tudo o que você gosta. Tem cerveja gelada, peixe a vontade, umas lagostinhas para variar, sombra, água fresca e muita gente pronta a sentar embaixo de um alpendre para jogar conversa fora. E se quiser navegar de jangada, tem também. Dou por visto você aqui emendando os bigodes numa conversa com essa turma do mar. Vixi!

Sim rapaz, me dê notícias do povo da vela dessa Bahia arretada. Ouvi falar de umas traquinagens praticadas pela turma do mal que tem deixado o grupo de velejadores assustado. Por aqui os pentelhos andaram recolhendo uns celulares, mas parece que deram um freio quando a polícia entrou em ação. Meu amigo, dessa malfeitoria da bandidagem ninguém escapa tão cedo, pois o ensinamento vem das bandas do planalto central. Se quem manda pode fazer, porque quem obedece não pode fazer também, né não? Ainda mais agora que foi ensinado que prova não é bem uma prova e, ou, muito pelo contrário e quem provar pode muito bem ficar desaprovado, basta o juiz querer. Sim, tem mais um negócio que eu não sabia: Que um juiz pode ser atrapalhado na hora de anunciar sua sentença, para ver as fotos da netinha linda. Coisa de avô, né não! Isso é muito lindo! Porém, eu não vou falar muito sobre isso, pois a caboco prometeu cortar a cabeça do falador. Deus é mais!

Pezão, voltando a falar de jangada, você precisa ver as ideias do pescador para fabricar os equipamentos de bordo. Só lembro dos saveiros e seus maravilhosos mestres. As roldanas para subir a vela, os cunhos, o caneco de jogar água para encher os poros do pano, os esticadores, os furos para posicionar o mastro num contravento, través ou empopada. Meu amigo, é tudo de uma simplicidade e rusticidade que me deixa babando. Por que danado temos que inventar tanta complicação em nossos veleiros modernosos? Agora vou pisar nos seus calos: Ainda não vi por aqui nenhuma jangada catamarã. Veja bem, não precisa responder, viu?

Davi Hermida, meu amigo, meu professor das águas baianas e conhecedor como poucos do mar abençoado pelos Orixás, deixo um grande beijo para Dona Veroca e fico por aqui aguardando a visita. Mas venha, viu!

Nelson Mattos Filho

Dos deuses da culinária

2 Fevereiro (188)

Escaldaréu na linguagem simples e direta do pescador é um pirão do caldo de peixe preparado sobre o piso da jangada e muitas vezes feito com a própria água do mar. Mas não se assuste e nem faça careta, porque nesses tempos modernosos, em que os barcos estão mais equipados, o pirão é feito mesmo na panela, porém, para tudo na vida existe  saudosismo. No último dia 22/02 acordei com desejo de comer um escaldaréu e saí pesquisando com aos amigos pescadores da praia de Enxu Queimado/RN sobre a melhor receita do prato e entre várias indicações vi que, como toda receita, não existe aquela que podemos chamar de original, pois depende dos ingredientes que tiver a bordo e todas me pareceram deliciosas. Lá para as tantas cheguei na casa de Paulino Correia e Lindamar e falei do meu desejo e eles se prontificaram a preparar o prato, mas eu disse que queria que tudo fosse preparado sob as barracas que ficam na beira mar. – E qual o problema? –Vamos preparar lá! Combinamos para o começo da noite e na hora marcada estávamos a postos, com uma garrafa da cachaça alagoana Caraçuipe embaixo do braço. Convidamos alguns amigos, entre eles Seu Neném Correia, Seu Nilo, Dona Tita, Lucinha de Pedrinho, Loura, Dedinha e alguns meninos que estavam zanzando por ali. Lindamar acendeu o fogareiro a carvão, botamos o panelão com peixe no fogo e fomos bater papo até que o cheiro denunciou que a prato estava pronto e fomos tirar a prova dos nove se o bicho estava mesmo bom como merecia. Rapaz, o bicho tava bom não, tava a molesta de saboroso e teve gente que raspou o tacho. De bucho cheio e a cabeça com algumas doses de cachaça a mais, voltamos para casa satisfeitos da vida e com a certeza que o danado do escaldaréu é de se comer lambendo os beiços. Agora vamos a receita: Peixe cortado em postas, incluindo a cabeça e o rabo; cebola, tomate, pimentão, cebolinha, coentro, um pouquinho de colorau, um pouco de óleo e sal a gosto. Ponha tudo na panela e leve a fogo até ferver. Coloque farinha de mandioca em outra panela e vá despejando o caldo quente do peixe em cima, mexendo, até ficar homogêneo. Pronto: Chame os amigos, abra uma cerveja bem gelada, ou uma garrafa de cachaça da boa, mande seu nutricionista procurar coquinho em ovo e coma sem culpa.    

E apois!

Outubro (166)

Tem certas palavras que são verdadeiros tabus e ai daquele que se meter a besta para pronunciá-las diante de um grupo em que estejam presentes alguns membros mais exaltados. Se você acha que estou brincado, experimente chegar em meio a uma reunião de motociclistas e chame os participantes de motoqueiros. Rapaz, no mínimo sua mãe receberá um tratamento “elogioso”, no mínimo. Quer mais: Chame um velejador, mesmo aquele que só navega com o motor no último giro de potência, de lancheiro. Seu menino, você vai receber tantos impropérios que nem imagina. Pois bem, na postagem anterior coloquei a foto do convés de uma jangada em que aparece uma “corda” sobre ele, e inseri a frase, Corda ou cabo? Eis a questão, para instigar os leitores. Os navegantes, principalmente os amadores, se alvoroçaram em cravar o xis na palavra cabo, porque, segundo se aprende em todos os manuais náuticos e nas rodas de bate papo, corda a bordo apenas para quem deseja se enforcar ou para fazer relógio funcionar. Aí estávamos na beira mar da praia de Enxu Queimado/RN, na companhia dos amigos Fernando Luiz e Marta Machado, esperando a largada de uma pequena regata de paquetes, quando Marta apontou para um cabo e perguntou ao mestre da pequena jangadinha qual a função daquele cabo no barco. Ele olhou para ela e respondeu: – Isso não é cabo, é uma corda! Marta sorriu, agradeceu, se virou para mim e Fernando, e disparou: – Quero ver quem será o engraçadinho que vai me corrigir a partir de hoje. Se esse homem que praticamente nasceu no mar, vive no mar, tira o sustento dele e da família do mar, chama de corda é porque é corda e ponto final. Fernando deu um gole na cerveja, sorriu e completou: – É mesmo!!!!

De Enxu a Namíbia ou de lá pra cá

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Tanto faz, é, tanto faz…Tanto o Mar daqui quanto o Mar de lá, o Mar é o Mar, e como diz Caymmi: “…que carrega com a gente pra gente pescar…”, porque “o pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no Mar….”.

E é a preguiça, a rainha da inspiração, que nos leva a andar bestando pelas areias de Enxu, pensando na Namíbia do lado de lá, pensando em Noronha que é bem acolá, sonhando, sonhando um dia voltar.

Quando a gente volta do Mar pra beira do Mar, um pedaço ficou por lá, e o pedaço de cá quer se juntar, como a lua cavaiando que fica ali a olhar Vênus a seu lado querendo abraçar, e os dias passam e o afastamento se faz pouco a pouco, numa sofrência do apartar, sou eu saindo do Mar, partindo pra longe querendo ficar, ficar…

Estou eu na rede armada na varanda, abestado com a harmonia orquestrosa das palhas do coqueiral regidas pelo sopro de um vento ligeiro, quando toca o telefone, naquele velho e característico trim para anunciar boas novas e do outro lado da linha, vem a voz arrastada de um cearense arretado dizendo para preparar mais um armador de rede que ele com a viola no saco para tocar toadas e prosear. E não é que veio mesmo! O cabra da peste estava vindo das águas oceânicas de Netuno e depois de festejar com cantorias a rainha Janaína, desembarcou da Nau do velho marinheiro Leo, no enigmático porto do Jacaré, em Cabedelo/PB sim senhor, pegou uma lotação e veio desaguar nessa Enxu de mil encantos. As amizades são assim mesmo e o caboco bate mundos apenas para ter o prazer de avistar o outro e dar um abraço.

Pois foi, o Mucuripe chegou, acompanhado de sua Neguinha, se armou da viola e se danou a tocar e prosear durante dois dias e duas noites. Foi tanta cantoria e tanta conversa entremeada entre acordes e canções, que o tempo passou e ninguém nem se deu de conta. Como é gostoso sentar numa varandinha praieira para brindar o histórico das boas amizades. Falar dos astros, das voltas que a maré dá, de Lua cavaiando, de galinhas poedeiras, de retratos, de jangadas e paquetes, das histórias de pescador, rir do nada e de tudo e entre um sim e um não, o toque de um reisado para eternizar a visita. Nesses festejos das amizades os problemas não têm vez e ai daquele que chegar trazendo notícia entristecida, pois vez não vai ter não e ainda vai ter que amargar uma piada com o tema da desgraceira. Nesses momentos o caboco ri de tudo e até do desafortuno de ver sua redinha limpinha sendo mijada por um garotinho, já próximo da hora de botar os olhos para dormir. Sem ter o que dizer, ele diz para a mãe da criança: – Tem nada não mulher, eu já estava pensando mesmo em dormir no chão! Ah condenado!

Pois é, amizade é assim e nasce de um nadica de nada, as vezes até de um esbarrão desencontrado e quando o cabra dá por fé, já está contando coisas da sua vida para o amigo novato. Pois digo que foi assim que surgiu minha amizade com o Mucuripe: Estava eu sentado no cockpit do Avoante, atracado ao píer do Iate Clube do Natal, quando ele surgiu, se roendo de curiosidade e desejo para navegar no Rio Potengi. Olhei para aquele sujeito que não senti muita firmeza e falei: – Hoje tem jeito não, mas se você vier amanhã, nós vamos no Avoante. Rapaz, o cearense só faltou ficar sem fala, mas falou: – Pois eu venho amanhã logo cedinho. Pois não é que ele veio mesmo e já chegou marcando o terreno para solidificar amizade. Eita fi da peste!

Da amizade eu já falei, como já falei de Enxu, mas falta falar da Namíbia que entrou no título aqui, porém, essa prosa é longa e aconteceu lá no mar do Senhor do Bonfim. Agora danou-se, pois não sei se reconto essa peleja ou passo por cima, mas acho que vou recontar, nem que seja um tiquinho que é para você se assuntar: Certa feita o Mucuripe embarcou no Avoante, na Ilha de Itaparica, munido de um sextante, pois queria tirar uma visada para avistar a Barra do Paraguaçu, ponto do nosso destino. Entre uma olhada e outra no astro rei do céu, ele se desatou a fazer contas e quando anunciou o resultado da matemática disse que estávamos na costa da Namíbia. Claro que foi pra mode fazer graça, pois o cearense é bom nas coisas dos astros, mas fiz um moído danoso e que virou causo de riso no meio da turma do mar.

E foi na pisadinha da prosa e canção, embaixo da varandinha, que Mucuripe falou: – Vamos escrever um texto a quatro mãos para celebrar essa visita? Topei na hora e ele disse que iria dar o mote. O que ele escreveu está poetado lá em cima, em formato itálico, e quando sentei para escrever minha parte, ele pegou na viola e se danou a cantar assim: Silêncio, por favor…. Não diga nada sobre meus defeitos…. Hoje eu quero apenas, uma pausa de mil compassos…. Porque hoje eu vou fazer/Ao meu jeito eu vou fazer/Um samba sobre o infinito. Depois, botou a viola no saco e se mandou pra Brasília.

Nelson Mattos Filho 

Coisas do reino da poesia

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“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Dorival Caymmi

 

                    

Pense num pescador!

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É sabido que pescador, velejador, mergulhador, caçador e outras comunidades esquisitas são chegados a estórias carregadas de criatividades e ficam bravos quando o interlocutor não acredita em suas incríveis façanhas, mas o pescador australiano Brendon Hilder mandou ver e ainda apresentou um pequeno vídeo para provar que ele fisgou um tubarão tigre com quatro metros utilizando apenas uma linhazinha de mão. Diz a matéria, publicada no Globo.com/Planeta Bizarro, que Brendon depois de posar para fotos, lançou o bichano novamente ao mar. Eita cabra bom!