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Irma, o mito

20170908-furacaoirma-1024x682O furacão Irma, que segundo dizem, o mais endiabrado do último século, segue o destino das criaturas nefastas, depois que andam por aí matando, maltratando e azucrinado a paz das pessoas, e começa a perder força e já foi reclassificado para a categoria 3 após passar por cima de Cuba assobiando a mais de 200 km/h. Daqui uns dias será apenas uma Cruviana, mas sem esquecer de deixar seu nome cravado no panteão das desgraças. Jamais existirá outro Irma, pois aqueles que batizam os furacões tem o zelo de não dar uma segunda chance  aos desalmados. Agora é a vez do americano Estado da Flórida levar uma lapada da espada de Iansã, esposa de Xangô, orixá dos ventos e dos raios, a deusa que comanda as tempestades e também o espírito dos mortos. Eparrêi!  

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Votos renovados com o mar- I

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Não estou mais no Avoante e nem morando a bordo, que foi um dos maiores aprendizados que tive na vida e aconselho a todo mundo passar por essa experiência, mas não saí do mar e nem o mar saiu de mim, porque temos uma relação de amor incondicional, um imã poderoso, que nos faz ligados mesmo quando estamos a milhas e milhas de distância um do outro. O mar é o bálsamo que acalma minha alma irrequieta, mantém vivo meus sonhos e me abre encantadores horizontes. O mar é vida. O mar tem alma. O mar não é dos valentes, mas sim dos sonhadores e dos que tem no coração a leveza de ser e a perseverança de seguir um pouquinho mais à frente. Mar, ser encantador e guardião das verdades! Mar, me permita amá-lo para o sempre!

Estava eu sob a sombra da humilde, refrescante e instigante varandinha de minha cabaninha de praia, quando escuto o toque do celular e não sei porque me veio a lembrança dos seres encantadores dos oceanos. Do outro da linha o comandante Flávio Alcides me convidava para uma velejada pelas águas do Senhor do Bonfim e sem nem piscar o olho e nem pensar, respondi sim. – Quando? – Começo de dezembro. – Estarei lá! Isso não é convite que se faça a um amante do mar, porque por mais que forças estranhas lutem contra, mais a vontade cresce e os contornos vão sendo moldados para acolher a razão. Lucia sempre diz que para velejar é preciso prioridade e tudo mais deve ser descartado, ou simplesmente adiado sumariamente. – É assim? – Claro que é!

O convite não foi apenas para mim, mas também para alguns amigos em comum, que deixaram a prioridade de lado e se apegaram com os descartes e as desculpas. Resultado: Sobrou espaço no confortável catamarã Tranquilidade, um BV 43 construído no estaleiro Bate Vento, lá nas terras maranhenses do Boi Bumba. A tripulação foi formada apenas com o comandante Flávio, a imediata Gerana, Lucia e esse navegante e praieiro escrevinhador. Velas ao vento e vamos lá!

A viagem teve início em Enxu Queimado, um povoado praia – ou seria uma praia povoado? –, localizado no litoral norte potiguar, onde me divirto olhando de minha rede na varanda a natureza que muda a cada milésimo de segundo. – E como muda! A estrada era longa até Salvador do Senhor do Bonfim, mas como prefiro o mar e as estradas para me locomover, acelerei meu Fiat bala e fomos em frente com a alegria estampada no rosto. – Qual estrada seguir? Tudo já estava na minha mente, pois fiz o trajeto de carro entre Natal/Salvador inúmeras vezes, porém, partindo de Enxu Queimado seria a primeira, e tomara, de muitas.

Reprogramei a rota na cachola e partimos em direção a cidade de João Câmara, onde outrora morei e tive um comércio de padaria, aliás, sem falsa modéstia, uma das melhores da cidade. De lá seguimos pelas estradas e cidades do sertão e agreste: Bento Fernandes, Riachuelo, São Paulo do Potengi, Senador Elói de Souza, Tangará, onde tem um pastel maravilhoso, São José de Campestre, Passa e Fica, todas no Rio Grande do Norte. Na Paraíba passamos por Belém, Bananeiras, lugar mais do que lindo, Solânea e desaguamos na famosa Campina Grande, do melhor forró do mundo. Paramos na entrada da cidade de Barra Santana/PB para se esbaldar numa pamonha de lascar meio mundo de boa, no restaurante Leitosa. De bucho cheio a viagem seguiu por Toritama/PE, cidade famosa por suas fabricas de roupas de marca, porém, incrivelmente desarrumada e mal cuidada, Caruaru, capital pernambucana do forró e da moda, e seguimos em frente até alcançar a bela e faceira sereia Maceió/AL, onde paramos na casa do casal Daniel e Ângela Cheloni, proprietários do restaurante Del Popollo, o melhor da capital das terras dos menestréis.

Após uma noite bem dormida e bem alimentada, com as delícias do Del Popollo, tiramos uma reta para a capital baiana, que fica pouco mais de 600 quilômetros de Maceió. – Você acha que a viagem foi longa e cansativa? – Pois digo que cansativa foi um pouco, mas foi arretada de boa e adoro cruzar as estradas que cortam o interior brasileiro. Me sinto mais eu, mas vivo e um tiquinho mais conhecedor das causas que nos atinge no dia a dia. Como bem disse o mestre-sala das letras Aldir Blanc: “…o Brasil não conhece o Brasil…”. – Atesto e dou fé! Temos um país maravilhoso, acolhedor, rico, fascinante, empobrecido pelos desmandos, alegre, festeiro, livre, dotado de uma geografia ímpar e habitado por um povo fantástico. – Duvida? – Saia do bem bom do sofá e vá ver!

Ufa! Depois das estradas da vida desembarcamos na marina Angra dos Veleiros, onde nos esperava o catamarã Tranquilidade e seu belo casal de comandantes, revimos e abraçamos os amigos que ali estavam, embarcamos e abrimos uma cerveja para comemorar a abertura de mais uma página da nossa história no mar da Bahia, que de tanto eu falar bem, de tanto me deleitar em sua maciez, de tanto respeito que tenho por seu Senhor maior, guardião que a tudo protege do alto da Colina Sagrada, de tanto pedir a benção ao poderoso séquito de Orixás que por lá navega, recebo de coração e um eterno agradecimento tudo aquilo que eles me reservam.

“…Glória a ti nessa altura sagrada/És o eterno farol, és o guia/És, senhor, sentinela avançada/És a guarda imortal da Bahia…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

O tubarão híbrido

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Quanto mais nós humanos usamos nossa incrível capacidade destruidora, mais a natureza demonstra seu poder descomunal e regente de se recriar. A notícia que deu o mote para essas mal traçadas linhas é, para esses tempos internéticos e ligeiros, antiga, porque data do ano cristão enumerado de 2012. A prosa vem das páginas virtuais da revista Veja e trata de uma das mais inclementes, talvez a maior, fera dos sete mares, o Tubarão. O monstro marinho que faz tremer até o mais corajoso dos homens – e não me venha com onda de valente dizendo que não tem medo desse bichano de dentadura mais afiada do que navalha de malandro – tem se apresentado a cada dia mais cabuloso e ameaçador. O litoral brasileiro é bem habitado por tubarões, mas em alguns lugares, como o litoral pernambucano, eles são os donos do pedaço. Até em Fernando de Noronha, onde os tubas são atrações festejadas por agências de turismos e visitantes, e que se afirmava até dias desses serem “domesticados”, a fera já provou que está pronta para qualquer parada. Pois bem: Em 2012 cientistas australianos anunciaram a descoberta dos primeiros tubarões híbridos da espécie ponta-negra e segundo os estudos, a descoberta tem implicação direta na vida marinha dos oceanos. O ponta-negra australiano vive nas águas tropicais e os híbridos se adaptam bem em águas mais frias. Os tubarões híbridos já representam 20% da população dos tubarões-de-ponta-negra, mas o que chama atenção é que a população da espécie original não diminuiu. O assunto dos tubarões australianos me chamou atenção porque ao ler o livro Mar Morto, que comentei em uma postagem recente, notei em várias passagens o autor, Jorge Amado, fazer alusão aos tubarões que atacavam náufragos e aterrorizavam saveiristas dentro da Baía de Todos os Santos, mas em minhas andanças pelas águas dos Orixás não vi esse temor. Recentemente ocorreu um ataque de tubarão em uma praia próximo ao bairro da Calçada, na capital baiana, e alguns tubarões foram capturados em Madre de Deus e nada mais. Será que os tubarões de Mar Morto eram também personagens fictícios da escrita privilegiada de Amado? Será que os tubarões brasileiros já se tornaram híbridos? E em como anda a população de tubarões nesses tempos difíceis? Será que tem tubarão híbrido no Brasil? Dizem que a Polícia Federal tem pescado alguns bem nutridos. Em Pernambuco os tubarões parece que deram uma trégua. Será por causa da crise? E antes que alguém pergunte vou responder: – Nunca dei de cara com a fera em minhas velejadas.   

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim…

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Ouvindo a música “Trocando em Miúdos” do compositor Chico Buarque, Lucia perguntou o que quer dizer a medida do Bonfim que Chico fala na letra. Em minhas andanças pelos mares da curiosidade até já havia me interessado pelo assunto e encontrei o que queria saber, porém, antes de chegar nos finalmentes vou dar uns bordos pelos caminhos da história, que é de lá que conseguimos compreender o porquê das coisas.

10 Outubro (191)

A partir de 1809, data da sua criação, até 1950, quando deixou de ser utilizada e não me pergunte o porquê, a fita era chamada de medida do Bonfim e tinha exatamente 47 centímetros, que é a medida do braço direito da imagem do Senhor do Bonfim, postada no altar-mor da Igreja do Bonfim. A imagem foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII, e a medida era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados a mão e com acabamento em tinta dourada e prateada. Contam que a medida foi uma criação do português Manuel Antônio da Silva Serva, livreiro, editor e tipografo, que fundou a primeira tipografia da Bahia. Seu Manuel foi também o tesoureiro da irmandade da Devoção ao Senhor do Bonfim e por isso creditam a ele a ideia. A medida, com a imagem do santo e uma pequena escultura de cera com a parte do corpo curada, era usada no pescoço depois que o fiel alcançasse a graça pagando assim sua promessa.  As fitinhas coloridas apareceram na década de 60 e, diferente da medida, são presas ao pulso – em duas voltas, com três nós – e antes da graça ser alcançada. O pedido deve ser mantido em segredo, mesmo nesses tempos de whatsapp, até que a fitinha se rompa por desgaste natural. O que significa que os pedidos foram atendidos. A fitinha tem em suas cores um lado que poucos conhecem, mas que expõe todo o sincretismo religioso que paira sobre a Bahia. Cada cor simboliza um Orixá: Verde é Oxóssi; Azul claro, Iemanjá; Amarelo, Oxum; Azul escuro, Ogum; Rosa, Ibeji e Oxumaré; Branco, Oxalá; Roxo, Nanã; Preta com letras vermelhas, Exu e Pomba gira; Preta com letras brancas, Omulu e Obaluaê; Vermelha, Iansã; Vermelha com letras brancas, Xangô; Verde com letras brancas, Ossain. Bem, agora quando você ouvir Chico entoar Trocando em Miúdos você já sabe o que quer dizer um tiquinho da letra. Fontes: Instituto Memória e Wikipédia.