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NORONHA EM FÚRIA

Na semana passada foram divulgadas, pela Internet, fotos de um forte swell que atingiu a Ilha de Fernando de Noronha. A Ilha pernambucana sempre sofre com as fortes ondas, que fazem a alegria dos surfistas e trazem muitas preocupações para os proprietários de embarcação.  Repassei as fotos ao amigo e velejador Orion, veleiro Bicho Papão, que fez um relato de um swell que ele enfrentou na Ilha em 1999, participando de uma edição da REFENO. Pedi permissão ao Orion para divulgar no Blog o seu relato, o que me foi autorizado. Muito obrigado meu amigo e fique certo que nossos leitores irão gostar muito.

Oi Nelson.
Tudo bem com vocês? Tenho lido seus artigos frequentemente. Muito bons. Gostaria de saber quando foram tiradas estas fotos. É coisa recente? No dia 02.10.1999, pouco depois da largada da Regata Noronha-Natal, 5MN da ilha, quebrou o leme do meu barco. Voltei para Noronha rebocado e ancorei a uns 150m dos molhes. Tirei o que sobrou do eixo e da madre, mais o projeto do leme, e mandei para o Bryan,  em Cabedelo-Jacaré, para ele fazer um novo. Fiquei esperando em Noronha durante 30 dias. No dia 25.10.1999, entrou um Swell destes e tive que soltar uns 100m de cabo de âncora para poder me afastar dos molhes o máximo possível da arrebentação. Também passava por cima dos molhes e tirou quase toda a areia da prainha do porto. A água passava por cima do asfalto, perto da lojinha Apnéia, e caia do outro lado, fóra do porto. A água batia nos rochedos do forte e espirrava espuma quase lá em cima (foto anexa). Todos os barcos saíram do porto. Foram três dias de grande tensão a bordo. Eu tinha deixado uma bomba injetora na ilha para soldar a base, próximo ao furo do parafuso de fixação, e estava sem motor também. Sem leme e sem motor. Foi um sufoco… Um navio de madeira que fazia o transporte de mercadorias de Natal para Noronha – que depois viria a naufragar em uma de suas viagens – estava com o meu leme que o Érico das Virgens havia pego em Cabedelo e despachado para mim. O barco ficou ancorado perto de nós e tinha mais uns 30cm de borda livre para que a água não invadisse o convés e levasse o meu leme para o fundo. Era só o que faltava, mas não era não. No dia 27.10.1999, depois de passar o Swell, no meio da noite disparou o alarme de profundidade, que eu havia configurado para Min 10m e Max 20m, e levantei para tirar a água do joelho e dar uma olhada. Notei que os barcos a minha volta tinham sumido… “Onde está o barco da Atlantis que estava ao meu lado? E o barco do Carlinhos? Onde está o porto? Onde está a ilha?”… Foi um susto da porra. Pense numa sensação ruim… hehehe. Eu já estava muito longe de Noronha, rumo NW, a deriva.  A profundidade aumentando rapidamente. Emendei quase todos os cabos que tinha a bordo e lancei a minha âncora reserva. Finalmente consegui parar o barco com 119m de profundidade. Pelo rádio consegui reboque de um barco de pesca ancorado lá perto do porto. Eram 4:30hrs da madrugada quando voltei a fundear nas próximidades do porto. No dia 28.10.1999 consegui recuperar a âncora de 15kg, 30m de corrente calibrada e uns 20m de cabo de âncora de 20mm. Ele tinha arrebentado roçando no fundo de rocha vulcânica depois que o Swell tinha passado. No dia 29.10.1999 o Carlinhos me rebocou para dentro do porto e me ajudou a colocar o leme no lugar. Chegamos em Natal no dia 02.11.1999 e convidamos o Érico das Virgens e outros amigos do clube para comer conosco um saboroso churrasco em volta da piscina. Alguns maus momentos entre tantos bons e boas lembranças.    
Grande abraço.
Órion

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