Arquivo da tag: o que fazer em Minas Gerais

Uai! Parte 14

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Sabará na língua tupi significa pedra reluzente e no mapa de Minas Gerais se configura como um belo e tradicional município, tão próximo de Belo Horizonte que fica até difícil para um visitante saber onde começa um e termina o outro. Com uma população de mais de 126 habitantes, segundo o censo de 2010, a cidade que nasceu de uma antiga vila de bandeirantes, sob a regência do ciclo do ouro e da prata, como quase toda cidade mineira, e seguindo a partitura de uma lenda que envolvia a serra de Sabarabuçu, hoje batizada de serra da Piedade, tem uma história recheada de intrigas, violências e paixões, tão comum nos arraiais de mineração e ainda tão em voga no mundo atual. Aliás, intrigas, violências e paixões é a mola mestra que move os terráqueos desde de que esse asteroide pequeno se declarou dotado de inteligência.

 2 junho IMG_0001 (6)2 junho IMG_0001 (9)2 junho IMG_0001 (29)Pois bem, Sabará praticamente havia ficado de fora de nosso roteiro, mas como o voo de Sandra e Venícios era pela manhã e o nosso à noite, deixamos o casal no aeroporto e voltamos para conhecer um pouco mais da capital mineira. No caminho vimos a placa de Sabará e entramos. Juro que esperei mais da cidade e até que seus monumentos históricos estivessem mais bem preservados, porém, ficamos surpresos com o que vimos. Talvez a proximidade com a capital tenha contribuído para tirar um pouco do brilho do antigo arraial do ouro, mas também pode ter sido um desencantamento de final de viagem depois de ter visitado Ouro Preto, Diamantina, Congonhas, Tiradentes, Mariana, Beriberi e tantas cidadezinhas e museus encantadores. Tudo pode ter sido, mas pretendemos um dia retornar com mais calma a cidade para descobrir seus segredos e revisitar a bela Igreja de Nossa Senhora do Carmo, que passamos o olho ligeiramente por seu interior e deu para perceber a beleza dos traços do mestre Aleijadinho.

2 junho IMG_0001 (14)2 junho IMG_0001 (18)2 junho IMG_0001 (21)2 junho IMG_0001 (24)2 junho IMG_0001 (26)2 junho IMG_0001 (8)2 junho IMG_0001 (33)

Visitamos a Casa da Ópera (Teatro Municipal) que apesar de ter uma arquitetura fantástica e ter tido na plateia os imperadores Dom Perdro I e Dom Pedro II, encontra-se em lastimável estado de depreciação. Caminhamos despreocupadamente pelo centro, passamos em frente à casa de Borba Gato, bandeirante e explorador que chegou a região através do seu sogro Fernão Dias Paes e chegou a ser juiz ordinário da Vila de Sabará. Borba Gato, que recebeu homenagem de uma estátua de bronze no Museu Paulista por seu extraordinário conhecimento como bandeirante, apesar de sua importância na administração da antiga Vila, não se sabe onde está enterrado. Paramos um pouco na praça para observar o movimento da cidade e fomos saindo de fininho meio que decepcionados com o que vimos. De volta a capital mineira, tomamos o rumo do Mercado Central e mais uma vez nos deliciamos com suas cores, seus cheiros e seus costumes.

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Pronto, depois do Mercado foi chegada a hora de colocar um ponto final em nossa viagem e nesse relato. O que vimos de Minas Gerais jamais sairá de nossas lembranças e ficará eternamente com aquele gostinho de quero mais. Dizem que visitar é uma coisa e morar é outra, mas digo que se um dia o destino me reservasse o direito, moraria de bom grado nas terras das alterosas. Claro que escolheria um pequenino e bucólico povoado, que me desse o prazer de tardes modorrentas e noites frias dos ventos das serras. Que ficasse próxima dos velhos e deliciosos alambiques de fundo de quintas e que me reservasse bons bate papos com os tradicionais mineirinhos e seus cigarrinhos de palha. E o doce? E o queijo? E as galinhadas? E os leitões? E o pão de queijo? E os sanduiches de salsicha? E o café? E aquela vidinha mansa de quem não quer nada? E os museus? E as igrejas? E a arquitetura? E os campos? Pois é, tudo isso eu queria diante de minha varadinha no pé de serra.

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Pois foi, Minas me encantou e jamais deixarei de agradecer ao casal Sandra e Venício Gama pelo convite para acompanhá-los essa viagem deslumbrante, inesquecível e de fortalecimento dos laços de amizade. Como é gostoso estar junto de pessoas que amamos e que temos como irmãos. Como é gostoso viver dias de alegrias e que desejamos que se estendam além dos limites das horas. Como é gostoso caminhar por um Brasil tão brasileiro. E por tudo isso é chegada a hora de responder aquela pergunta que tantas vezes nos deparamos enquanto planejávamos esse passeio: O que fazer em Minas Gerais? – Tudo, mais um pouco e só não deixe ir.

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Para finalizar, vou parodiar uma letra do cantor e compositor Dorival Caymmi e tão gostosamente entoada pelo também compositor e cantor Lenine, para dizer assim: – Você já foi a Minas? – Não? – Então vá!

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Oh! Minas Gerais/Oh! Minas Gerais/Quem te conhece/Não esquece jamais…

Nelson Mattos Filho

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UAI! Parte 13

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Sabe de uma coisa, relatar uma viagem é um processo engenhoso e cheio de nuances, onde o mais leve escorregão nos leva a esquecer detalhes que, por mais que achemos indiferentes, podem ser o elo que faz o leitor se encantar ou não com o roteiro. Lucia diz que todo lugar tem seu encanto e se não estamos com o olhar pronto para vê-lo, ou a alma livre para senti-lo, o que era encanto vira um sofrível desencanto. Sempre apostei que ela tem razão, porque só vemos a beleza quando a mente está aberta para o belo, mesmo que estivermos mirando o feio. De uma coisa eu sei: Dificilmente um visitante sairá desiludido dos caminhos das Minas Gerais e nem adianta querer encurtar o relato que não conseguirá. Por isso estou levando você a entrar no décimo terceiro capítulo da viagem que fizemos as terras das alterosas, em maio de 2016, e para clarear as ideias de quem acompanha esse relato desde o início, relembro que no capítulo anterior estávamos jantando em um aconchegante e delicioso restaurante na cidade de Ouro Preto, em uma noite fria que só vendo. Era a nossa última noite na região do ouro e das manifestações e a penúltima nas terras mineiras.

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Na manhã seguinte voltamos a cidade de Mariana para conhecer a Mina da Passagem, uma antiga mina desativada que hoje sobrevive como ponto turístico para aqueles que querem explorar as entranhas da Terra e sentir um pouco do clima sufocante em que trabalham os mineiros. Bem que o local poderia estar mais bem preservado e melhor estruturado para receber o turista, mas a visita é imperdível. Depois de embarcar em um trole, carrinho sobre trilhos típico das minas, fomos encaminhados as profundezas onde estavam as galerias prontas para a visitação. Não é um programa para quem tem fobia, porém, a visão que temos lá embaixo é fantástica e nos faz refletir diante da grandeza da natureza exposta.

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O passeio pelas galerias dura pouco mais de vinte minutos e as informações do guia nos faz sonhar acordado diante das paredes de cor dourada que fazem muita gente pensar que é ouro, mas na verdade é pirita, mais conhecido como ouro de tolo. A mina está desativada desde dos anos 50 e por isso muitas de suas galerias estão inundadas e só são acessíveis por experientes equipes de mergulhadores de cavernas. Em uma das galerias existe um lago de águas cristalinas onde é permitido ao visitante mergulhar por alguns minutos e devido a profundidade da mina, não existe nenhuma forma de vida em seu interior.

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Com tantas informações repassadas pelo guia não poderiam faltar as tragédias ali acontecidas, como a acorrida em 14 de dezembro de 1936 que resultou na morte por afogamento de dezesseis trabalhadores, e as histórias de fantasmas. Conta-se que vez por outra a alma penada de um certo capitão Jack, um mineiro inglês que morreu durante uma explosão para extração do ouro, cavalga sobre um cavalo pelas galerias cobrando seu quinhão na partilha do minério. Outra curiosidade, e que remete a fé dos mineiros, é a imagem em uma das cavernas, de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, e que no candomblé é Iansã, orixá muito vaidoso. Diante de tantos mistérios e visões, foi chegada a hora de retornar a superfície pelo mesmo carrinho que nos trouxe. Lá em cima podemos ver a técnica da lavagem do material escavado até chegar nos resquícios de ouro, um processo que nem sempre tem sucesso. Na demonstração do guia, depois lavar o cascalho em uma bateia, ele apontou alguns fragmentos brilhosos dizendo que era ouro. Pelo sim e pelo não, valeu o esforço do nosso guia. Pronto, tínhamos completado a nossa visita aquela região encantadora e era chegada a hora de retornar a Belo Horizonte e assim pegamos a estrada abismados com tantas belezas visitadas. Com a imagem daquele labirinto subterrâneo e a riqueza ainda intocada no seio daquela velha mina, fiz o caminho de volta pensando em uma frase que li em um antigo livro de ditados, que se memoria não me falha dizia assim: “Quando nos encantamos com o brilho dos diamantes, deixamos de perceber o melhor dos tesouros que é a essência da vida”.

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Quando nos apaixonamos com uma viagem fica difícil esquecê-la, e por mais que o tempo passe, mas a saudade e a vontade de voltar aperta dentro do peito. Sempre fica a sensação que poderíamos ter visto mais, ter andado mais, ter escarafunchado a exaustão, ter pego mais informações e ter tirado mais retratos, ou procurado ângulos mais perfeitos. Ainda mais quando se visitou um estado como Minas Gerais.

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Nosso roteiro inicial incluía a cidade de Sabará, tão próxima a Belo Horizonte que chega a ser confundida com um bairro, mas fomos pulando algumas etapas e a visita foi ficando para outra oportunidade, até que chegou a hora.

Nelson Mattos Filho

UAI! Parte 12

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A viagem de carro pelos recantos mineiros é esplendorosa, convidativa e simplesmente deliciosa, mas não espere eu falar novamente nas gostosuras oferecidas nas barraquinhas, lanchonetes e restaurantes localizadas a beira das estradas, pois acho que vocês já estão fartos de ler aqui sobre os sanduiches de linguiças, pamonhas, cafés e torresmos. Porém, é preciso fazer um alerta: As estradas que andamos estavam bem conservadas, tão bem conservadas que se tornam perigosas, pois motorista mineiro não é afeito a obedecer a sinalização, principalmente as que dizem respeito a velocidade e ultrapassagem. Quanto a policiamento e fiscalização nas rodovias federais, estas seguem o padrão encontrado em qualquer estrada brasileira: A Polícia Rodoviária Federal só aparece quando vislumbra alguma câmera de TV ou está em andamento alguma operação, fora isso, as estradas são verdadeiros mares de rosas.

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De Congonhas, cidade dos Dose Profetas de Aleijadinho, tiramos direto para a cidade de Tiradentes e ao chegar nos deparamos com uma cidade que dá vontade de ficar por lá durante um bom tempo. Não vou ser intempestivo, mas se tivéssemos começado a viagem por Tiradentes talvez todo esse relato tivesse sido outro, pois a cidade é um encanto. Como bem diz um folheto turístico: “Tiradentes não apenas se conhece, vive-se.…”.

1 maio IMG_0004 (857)1 maio IMG_0004 (881)20160530_13280520160530_13284620160530_14401720160530_144150A “Vila de Reis”, como é carinhosamente chamada, é charmosa e conserva um estilo ímpar, apesar de ter em sua imponente arquitetura muito do que se vê em várias cidades históricas de Minas. Sinceramente não encontro definição para o meu deslumbramento por Tiradentes, mas caminhando entre suas ruas de pedra, algo tocou em minha alma. Se fosse pelo meu desejo ficaríamos uma eternidade naquele pedacinho lindo de Brasil. Esperaria pelos festivais de cinema e gastronomia. Escutaria em silêncio o desenrolar de sua história e faria infindáveis passeios de charretes apenas para observar o cotidiano que se debruça em seus maravilhosos janelões. A cidade é emoldurada pela bela serra de São José e tem na Matriz de Santo Antônio a fortaleza de sua fé, fé que é a força do povo mineiro.

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Talvez toda essa áurea histórica e estilosa sobre Tiradentes tenha traçado seu destino, pois a cidade, e as outras que lhe fazem fronteira, é um celeiro de grandes artistas das artes em madeira e barro. A estrada que liga São João del-Rey a Tiradentes, em toda sua extensão, é um show room a céu aberto onde estão expostos moveis rústicos dificilmente encontrados em outros locais. A região é uma fonte sem fim de criatividade para artesões e em cada trabalho notasse o esmero com que foram criados. Os olhos do visitante, que sai em busca de peças únicas para decoração de ambientes, se enchem de brilho quando chegam ao povoado de Bichinhos. O povoado fica a pouco menos de 10 quilômetros de Tiradentes e parece que é lá que a criatividade cria asas e cores.

20160530_14434420160530_14451620160530_151459Poderíamos ter seguido viagem pela estradinha que liga Tiradentes a Bichinhos e ter ido a Prados, que segundo as informações, outro município onde as artes com madeira, cerâmica, ferro, tecido e palha ganham novos talentos, contudo tínhamos que começar a retornar, pois o final da nossa viagem pelas alterosas estava chegando ao fim. Queríamos conhecer São João del-Rey e ainda teríamos que retornar a Ouro Preto, nossa base na região do ciclo do ouro, é o caminho de retorno era longo para quem havia passado o dia perambulando pelos caminhos por onde pisaram reis e rainhas.

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Sobre São João del-Rey, que em 2007 recebeu o título de “Capital Brasileira da Cultura”, tenho pouco, ou quase nada a falar, porque o tempo havia se adiantado e demos apenas um giro de carro pelo centro. Porém, percebemos que a cidade – que já não é tão pequena – não tem o ar e nem a originalidade que merecia ter, em decorrência de seu passado e de sua relevância no cenário político brasileiro. Não teríamos muito tempo, mas tínhamos obrigação como turista de ir até lá, nem que fosse para contar pontos em alguma rodada de bate papo entre amigos. A cidade do presidente Tancredo Neves tem uma belíssima e suntuosa arquitetura, um rico acervo artístico cultural e merece uma visita mais apurada e sem pressa.

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Na estrada da volta não paramos de falar e nem de sonhar acordado com uma visita futura a Tiradentes. A “Vila dos Reis”, de todas que visitamos, pelo menos para mim, foi a cidade que escolheria para viver, se um dia o destino me levasse a morar em Minas Gerais. Se me perguntarem o que fazer em Tiradentes responderei sem pestanejar: – Tudo e até nada!

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Oito horas da noite estávamos de volta a Ouro Preto para nossa última noite nessa região encantadora. Escolhemos um bom restaurante e lá fomos brindar a vida, a viagem e a amizade. Lá fora, um frio de congelar nossa trupe de nordestinos desavisados, dava um clique de perfeição a noite escura.

Nelson Mattos Filho

Uai! Parte 9

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Minas Gerais tem muitos caminhos, mas tem aqueles que se destacam em importância, apesar de traçarem rumos que margeiam os principais corredores rodoviários.

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Estrada Real, a maior rota turística do Brasil, com mais de 1.680 quilômetros de extensão entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, tem como objetivo valorizar a cultura, a beleza e as tradições ao longo do percurso. A estrada, que originalmente é uma trilha, foi construída pela Coroa Portuguesa no século 17, para escoar a produção de ouro e diamante até o porto do Rio de Janeiro. O Instituto Estrada Real, órgão criado em 1999 pelo sistema FIEMG – Federação da Indústria do Estado de Minas Gerais – para fomentar e gerenciar o turismo autosustentável ao longo da trilha, beneficiando 199 municípios, criou o Passaporte da Estrada Real, um documento simbólico voltado para os viajantes que desejarem registrar a passagem pelos caminhos da história. O passaporte deve ser carimbado nos pontos oficiais, indicados pelo Instituto, e ao ser totalmente preenchido, o viajante recebe um certificado.

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Lucia fez o nosso registro no site do Instituto para retirar o documento, que é entregue mediante a doação de um quilo de alimento não perecível, e apesar de termos andando um bocado, muito ficou a ser feito em outras oportunidades. O roteiro que planejamos valorizava algumas cidades as margens da velha estrada, contudo, os desejos de um viajante são como barcos a vela que seguem de acordo com o sopro do vento e nem sempre os ventos casam com os desejos. De uma coisa eu sei: – A Estrada é uma viagem a parte e vale ser conhecida em sua essência.

20160527_104658Na página anterior desse relato havíamos deixado para trás a maravilhosa arquitetura de Diamantina e as cachoeiras de Beribiri para pegar a estrada que nos levaria a Ouro Preto. Pouco mais de 385 quilômetros separam os dois destinos turísticos mais famosos e a viagem é bastante prazerosa. Não levamos em consideração o tempo de viagem e nem nos preocupamos com a hora de chegar a Ouro Preto, queríamos mais era curtir a viagem sem pressa, sem atropelos e parando em pontos que nos chamasse atenção, como uma lanchonete que anunciasse deliciosas pamonhas ou outra que nos chamasse para experimentar um sanduíche de pão com linguiça. As estradas mineiras são verdadeiros SPAs de engorda.

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Após cinco horas de viagem chegamos enfim a Ouro Preto, cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, uma obra de arte a céu, um dos mais belos e encantadores conjuntos arquitetônicos do Brasil, cidade onde a história brasileira é contada em cada passo que damos sobre becos e ruas seculares. Ouro Preto é um quadro poético de um artista das telas emoldurado por uma paisagem natural do reino das utopias. Chegamos e fomos brindados por um frio maravilhoso que nos fez entrelaçar os braços sobre o peito, como aquele gostoso e simbólico gesto universal de quem abraça o mundo.

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A cidade Patrimônio é sim tudo o que está escrito nos folhetos turístico e mais um pouco. O difícil é não se sentir envolvido pela vida que ali existiu em séculos passados. Os museus são de um primor de deixar o visitante boquiaberto. O Museu da Inconfidência, que não pode ser fotografado internamente, dá para sentir os passos e a as vozes de homens e mulheres que se engajaram em um ideal e deram o pescoço para que pudéssemos estar vivendo dias de liberdade de pensamentos e sonhos. Pensar hoje em um Brasil tolhido da riqueza desses ideais é o mesmo que levar novamente a forca aqueles que deram a vida para que tivéssemos um futuro melhor. Muitos subiram ao cadafalso com um sorriso estampado no rosto, porque mesmo condenados, sabiam que a vitória caminhava a passos largos.

1 maio IMG_0004 (829)20160529_160810Mas é no Museu dos Contos que a história estapeia nossa cara e nos faz refletir. O museu conta em detalhes o que gerou a riqueza desse país maravilhoso, diversificado e multicultural. Dotado de uma suntuosa e bem preservada arquitetura, o Museu dos Contos reserva o mais mágico dos seus cômodos para que possamos pedir perdão e envergonhar-se pela crueldade dos nossos antepassados. A Senzala – assim mesmo com “S” maiúsculo -, não existe palavras para descrevê-la, pois simplesmente o nó que trava a garganta só nos permite a reflexão e a emoção. – Como somos cruéis!

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Dentro daquela Senzala escutei um comentário que até hoje ecoa em meus ouvidos: “Olhando o que existe dentro dessa senzala, fico a imaginar o que fizeram aqueles que combateram a ditadura militar para merecerem mensalmente milionárias indenizações, enquanto os negros vivem questionados apenas por serem beneficiados por um simples sistema de cotas…”.

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O título de Patrimônio Cultural da Humanidade é pouco para Ouro Preto.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Uai! Parte 8

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“Como pode o peixe vivo/Viver fora da água fria/Como pode o peixe vivo/Viver fora da água fria…” Talvez essa cantiga de roda seja a música que mais retrata a imagem da cidade de Diamantina/MG, pois Peixe Vivo, uma bela canção popular, foi o tema escolhido pelo seu mais ilustre morador, o presidente Juscelino Kubitschek, para marcar sua passagem pelo mundo e foi entoada por um enorme e emocionado coral popular durante o seu enterro.

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Diamantina tem o rosto e os trejeitos das minas gerais e, sem medo de errar, é uma das cidades que jamais deve ficar fora de um roteiro turístico pelas alterosas, sob pena do turista, ao comentar sobre a viagem com os amigos, ser visto com olhos atravessados de interrogações.

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O município de pouco mais de 47 mil habitantes, segundo dados estatísticos de 2014, e com 185 anos de fundação é dotado de uma beleza arquitetônica e cultural espetaculosa. O início de sua história se deu em 1713, nos áureos tempos do ouro e dos diamantes, e teve na pessoa do bandeirante Jerônimo Gouvêa que se apossou de um pedaço de chão ao descobrir uma grande quantidade de ouro na confluência do Rio Piruruca com o Rio Grande. O povoamento se deu em 1722 e se chamava Arraial do Tejuco e a partir de 1730 pegou a crescer e a florescer sua arquitetura. Já batizada Diamantina, em 1938 a arquitetura fascinante do seu Centro Histórico foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e no final dos anos noventa a cidade recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Prêmio mais do que merecido, porque a cidade é um encanto! Continuar lendo

Uai! Parte 7

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Contar um relato de uma viagem é uma forma de resgatar algumas passagens que se perdem naqueles traçados entremeado do cérebro. É pensando assim que venho escrevendo a história da nossa viagem pelas alterosas. Tenho recebido alguns comentários dizendo que estou me estendendo além da conta, mas digo que precisamos ir em busca da essência de uma viagem, pois assim nos sentimos mais felizes em tê-la realizado. Quem se propõe a ler, o faz com interesses diversos e até pela amizade que nutre com o autor, porque amigo também serve para essas coisas, porém, muitas informações contidas no diário de uma viagem facilitam a vida de um turista que visualize as entrelinhas. – Uai, que papo escalafobético é esse? – Deixe de moído e escreva homem!

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Para pegar o fio da meada, lembro que na página anterior estávamos caminhando para conhecer a Gruta Rei do Mato, um monumento natural, localizado em frente ao trevo do município de Sete Lagoas/MG, na BR 040, e que é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral.

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A história não confirma, mas diz que a gruta recebeu o nome de Rei do Mato, pois ali morou um homem, de nome e procedência ignorados, nos idos anos de 1930. Contam que era um fugitivo da Revolução de 1930 e que diariamente ia até a cidade caminhando por uma trilha na mata. Se existiu de verdade o tal Rei eu não sei, mas que a gruta é de uma beleza estonteante, isso eu sei.

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O monumento tem aproximadamente mil metros de comprimento, mas ao visitante somente é permitido caminhar por 220 metros e na profundidade de 31 metros e com o acompanhamento de um guia do parque. São quatro salões onde podemos observar estalactites, estalagmites, inclusive em formações que os cientistas consideram bebê. A caminhada é feita em uma passarela bem construída e que valoriza os contornos e a visualização do interior iluminado por luzes de LED, que destacam ainda mais as formações. Chama atenção a formação batizada de sorvetão e também a que forma a imagem de um Papa. Segundo o nosso guia, as formações de estalagmites e estalactites bebê encontradas na Gruta Rei do Mato são únicas no Brasil. Continuar lendo

Uai! Parte 4

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Na página anterior desse relato a nossa trupe estava caminhando entre os monumentos e museus do Circuito da Liberdade e demos por encerrada a caminhada depois que a fome bateu no bucho e anunciou que ou vai ou racha. Mais uma vez não conhecemos tudo o que tínhamos para conhecer, porque engrenar um passo que atenda a vontade sem ultrapassar a razão é complicado diante de museus incrivelmente fantásticos e passeando por avenidas e ruas em que a história se fez. O programa da Praça da Liberdade tem que ser feito em dois dias e olhe lá, pois se o passo não for firme não dá.

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Como a fome nos fez apressar o passo, demos adeus a Praça e tomamos o rumo do Mercado Central, sonhando com aquelas comidas gostosos que todos que já visitaram indicam com água na boca e brilho nos olhos. O Mercado é um marco no centro de Belo Horizonte e onde tudo parece começar em suas entranhas. Sem saber que rumo tomar e sem querer ir parando ali, acolá para pedir ajuda aos passantes, ligamos o GPS do celular e aceleramos seguindo o traçado azul. Não sei por que esses GPS de carro têm mania de bagunçar o coreto dos incautos motoristas. O nosso começava bem e seguia melhor ainda, mas quando se aproximava do objetivo o bicho dava a bexiga e se arvorava a fazer maluquice.

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Entra aqui, segue por acolá, volta tudo, refaz, recalcula, agora vai e pronto, chegamos. – Eita, parece que o Mercado já fechou! – E num é que fechou mesmo! Foi aí que descobrimos que aos domingos e feriados o Mercado Central fecha a uma hora da tarde. E agora? E fome? Bem, vamos dar um pito nela e já que estamos no centro da cidade, vamos conhecer o Museu dos Ofícios, na Praça da Estação. E novamente o GPS aprontou para valer.

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Ao parar em um sinal pedimos ajuda a um motorista de taxi, que tentou ensinar da melhor maneira mineira, mas se atrapalhou todo e quando o sinal abriu ele disse: Me siga que é melhor! No sinal seguinte, ele respirou fundo e recomeçou nos ensinamentos: – Siga em frente e na primeira vire totalmente a direita, na segunda rua vire totalmente a esquerda, na praça vire totalmente a direita e na rua seguinte vire a esquerda só um pouco, siga em frente que vocês chegam na Praça da Estação. Hum? Acho melhor a gente ir pelo GPS!

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E nesse entra, vira e segue, chegamos enfim a Praça da Estação, que originalmente se chama Praça Rui Barbosa, e consequentemente ao Museu dos Ofícios, dois destinos que jamais devem ser deixado de lado pelos que visitam Belo Horizonte. A Praça tem a história da cidade gravada em suas pedras, porque foi a partir de seu espaço que a cidade surgiu e floresceu. A Estação Central era o pórtico de entrada da capital e pelos trens chegavam às pessoas que vinham conhecer a nova capital e ficavam.

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A Praça se destaca pela imponência de um espaço amplo e cercado de belos monumentos que valorizam a história mineira. Alguns estão expostos em réplicas, porque o vandalismo incontrolável e permissivo não deixa que as obras originais permaneçam sob o chão da praça. O local serve para a realização de festas populares, entre elas o São João, que dizem ser um dos melhores do interior brasileiro.

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O Museu dos Ofícios é simplesmente imperdível e basta apreciar sua fachada para sentir a grandeza existente em suas dependências. O Museu foi idealizado pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez e o seu acervo, único no país, foi doado pela empresária Ângela Gutierrez. O tema do Museu está bem explicitado em seu nome e lá estão representadas todas as profissões que deram e dá forma a riqueza do Brasil. E como diz o folheto informativo: É um enorme painel da história e das relações sociais do trabalho no País nos últimos três séculos.

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São mais de 2 mil obras com detalhes que encantam até quem afirma que não gosta de visitar museu. Como aconteceu no Circuito Liberdade, não é visita para ser feita as pressas. O Museu dos Ofícios precisa ser visitado de pé em pé, com reflexão, com parcimônia e sentido a magia de obras tão perfeitas e que nos leva a estar vivendo a época de onde as obras foram retidas.

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Me vi representado e viajei naquele espaço tão fascinante e sai de lá com a certeza que preciso voltar. Preciso parar longo tempo diante de cada ofício ali exposto para sentir a energia e aprender um pouco mais sobre o mundo em que vivemos. Preciso de horas de reflexão caminhando pelos corredores bem cuidados para saber até onde chegaremos. Será que um dia os museus contaram a nossa história? A história desses anos amalucados em que estamos vivendo? O que será que deixaremos para ser visto?

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– E a fome? Ela apertou e agora vamos abafar sua ira. Vamos a Lagoa da Pampulha!

Nelson Mattos Filho/Velejador