Arquivo da tag: o menino

O Menino é mesmo do bagaço

image

O fenômeno meteorológico El Niño é um gigante endiabrado que vira a cabeça dos deuses climáticos e não é somente a nossa grande aldeia tupiniquim que sofre seus efeitos colaterais. Utilizando truques de feitiçaria, O Menino cutuca os botões, que regulam a temperatura, e é um deus nos acuda nas lentes dos satélites, deixando os homens das ciências feito baratas tontas. O povo do sertão há tempos conhece o poder da fera que espalha terror sobre a terra rachada de secura e calor. Já o povo do sudeste, que antes torciam o nariz para a desgraceira, agora sabe o que é bom para tosse. O Cantareira que o diga! Já essa semana, os gringos californianos se assustaram com um vermelhão nas areias das praias e quando chegaram perto para ver do que se tratava, se depararam com milhares de caranguejos vermelhos, os famosos red tuna crabs, mortinhos da silva. Os especialistas creditam a culpa no El Niño que elevou a temperatura da água. Eita Menino danado!  

Anúncios

Era uma vez um menino

4 abril (193)

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar… . Poderia começar assim esse texto, mas ai ele ficaria muito parecido com os muitos contos que encantaram e ainda continuam encantando gerações mundo afora. Mas é porque não?

Faz tempo que queria escrever sobre o menino, mas sempre tive medo de ser traído pela emoção e de não conseguir dizer o que queria sobre ele. Para mim ele era o máximo que uma criança poderia chegar nos quesitos educação, carinho e atenção para com os adultos. Simplesmente ele era o menino que todos adoravam.

Do mar e principalmente de barcos a vela, ele além de saber tudo era um atento observador. Nada do que fosse relacionado com veleiros e competições a vela passava despercebido da sua visão aguçada. Ele era o menino que todos gostavam.

– Tio, você está vendo as linhas daquele barco? Pronto, a partir daí ele destrinchava um rosário de especificações técnicas de fazer inveja a qualquer projetista naval. O menino tinha sete anos.

Tive a felicidade de estar a bordo de um veleiro onde ele era a criança que de tudo queria saber e nós, os adultos que não tínhamos respostas para tudo o que ele queria. O menino era inquieto por respostas.

Todos queriam estar junto a ele e ele queria estar próximo a todos que tivessem o mar e os barcos a vela como paixão, pois os veleiros eram seu mundo. Certa vez ele me falou que o Avoante era um excelente barco e que eu havia feito uma boa compra. Perguntou se eu iria dar uma volta ao mundo e disse que um dia ainda faria isso.

Sempre olhei para o menino com alegria, mas nunca achei que ele fosse realmente um menino feliz. Faltava alguma coisa na vida daquela criança abençoada que eu não conseguia imaginar o que fosse. O menino vivia as coisas do mar e o mar o acolhia com muita alegria, mas eu não conseguia ver o menino feliz, apesar do riso fácil que iluminava sua face meiga.

A última vez que vi o menino ele tinha oito anos. Saímos para uma rodada de sorvete na Sorveteria da Ribeira, em Salvador/BA, onde ele morou, na companhia dos meus filhos, Nelsinho e Amanda, e ele se encantou com Nelsinho, que para mim é o mais especial das crianças especiais. O menino não tomou sorvete, pois saiu de casa recomendado que não poderia e até hoje não entendi o motivo. O menino era super obediente, apesar do desejo ardente pelo sorvete. Por que será que nós adultos fazemos questão de tolher os desejos mais desejosos das crianças?

Crianças não são para sempre, mas algumas passam tão rápido que ficamos sem acreditar. E o menino se foi! Cadê o menino? Por que será que ele se foi? Quem será que julga a vida das crianças? Será que é Deus? Será por falta de anjos? E o menino foi velejar no Céu. E no Céu têm veleiros? Lógico que sim, pois se não tivesse, o menino não estaria lá. O menino adorava o mar e os veleiros. O menino era adorado por todos que o conheciam.

Dez anos. Nesse último mês de Outubro de 2013 fez dez anos que o menino se foi para os mares do Céu. Hoje ele estaria com 20 anos de dedicação ao mar e aos veleiros que tanto amava. Quando ele se foi, tenho certeza que os seres do mar pararam estarrecidos diante da deslealdade da morte. Foram pegos de surpresa com a passagem da sombra daquele menino num caminhar entristecido sobre as águas a caminho do abraço fraterno dos céus. Netuno deve ter ordenado toque de silêncio e luto de três dias em todos os oceanos do mundo. Éolo deve ter ordenado o mesmo aos fazedores de vento e o mundo da natureza deve ter parado para ver o caminhar entristecido daquele menino franzino no rumo das alturas.

Dez anos sem Thulio Mudri, o menino que um dia veio ao mundo para ser um dos reis dos mares. Aquele que Netuno depositava todas as suas esperanças e Éolo fazia questão de produzir o vento mais que perfeito. Thulio se foi e deixou dentro daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo a tristeza da saudade.

Thulio era meu amigo/menino em vida e há dez anos é um anjo da guarda a proteger todos aqueles que navegam em barcos a vela pelos mares do mundo, pois é isso que ele sabe fazer de melhor e é isso que ele ama.

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar e que num descuido da vida virou um anjo… .

Nelson Mattos Filho/Velejador