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O grande mar – III

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A primeira vez que desejamos navegar até São Tiago do Iguape foi em 2009, mas naquele ano as chuvas, os ventos e o frio nos fizeram retornar de São Francisco do Paraguaçu, cinco milhas náuticas antes, e deixamos a oportunidade passar adiante, porém, o desejo nunca passou.

No começo de 2015 o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros falou assim: – Nelson, você escreve maravilhas sobre a Baía de Todos os Santos, mais até do que muitos baianos. Você precisa escrever sobre a Baía do Iguape e todas as cidades banhadas por ela, pois ali está a verdadeira história da Bahia. Confesso que fiquei lisonjeado com as palavras do amigo, mas fiquei corado quando ele me colocou acima de “muitos baianos”. Deve ter sido piada!

Ele me fez retornar até 2009, o desejo aflorou novamente e dessa vez, com força total. Vou a Iguape, faça sol ou faça chuva!

Com as fogueiras sendo armadas em frente às casas nas ruas da Ribeira, soltamos as amarras que prendiam o Avoante ao píer do Angra dos Veleiros e debaixo de uma chuva forte subi as velas e aproei a Ilha de Itaparica, onde comemoramos o São João. De lá, tomamos o rumo de Salinas da Margarida para festejar o outro santo junino, o poderoso São Pedro. Os dois santos forrozeiros mandaram ver nas chuvas e estas castigaram Salvador e as cidades do Recôncavo Baiano durante todo o período festivo. Entre uma chuva e outra fomos ficando em Salinas, curtindo a velha e boa preguiça que sempre bate na gente nos dias de chuva e frio.

Numa manhã nublada, quando já descambava para seis dias de ancoragem em Salinas, suspendi a âncora, icei as velas e aproei a foz do Paraguaçu. Pronto, estava novamente no rumo de Iguape e onde os amigos diziam ter camarão em banda de lata.

A ideia inicial era ancorar em algum lugar ao longo do rio, mas a velejada estava tão boa, com o Avoante navegando na estonteante velocidade de média de 2 nós, que as ideias foram mudando, os locais planejados foram ficando para trás e quando o sol se preparou para ir embora, numa curva do rio, surgiu as torres da Igreja e logo estávamos jogando âncora em frente ao povoado, com a noite tomando forma em meio ao lusco-fusco. Foi uma noite tranquila e de belos sonhos.

Quando o dia amanheceu e botei a cabeça para fora do barco, me deparei com a canoa Carolina de onde o pescador gritava: – Gringo, camarão? Olhei para os lados e como não havia outro barco na ancoragem, deduzi que o gringo era eu mesmo. – Quero, pode chegar!

Foi ai que conheci Seu Lito, um pescador boa praça e que nos adotou como amigos logo de cara. Compramos o camarão, mas como não tínhamos gelo, ele se ofereceu para levar para sua casa e guardar no freezer. Beleza! Ele ensinou o endereço e combinamos que pegaríamos no dia seguinte.

Como a maré estava baixa, esperamos ela subir para poder desembarcar. Como assim? O desembarque é o ponto franco em Iguape e em todas as cidades que margeiam o Paraguaçu, porque a lama espessa que se deposita no fundo torna o desembarque um tremendo desconforto.

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Infelizmente a visão dos administradores não permite que eles enxerguem o apoio a navegação como um bem maior para incentivar o turismo e o desenvolvimento das cidades. No passado existia sim um píer para embarque e desembarque, mas o que restou dele virou escombros abandonados que enfeiam a paisagem.

A maré subiu e desembarcamos. Precisávamos comprar gás de cozinha e água mineral, o que foi resolvido na primeira mercearia em que Lucia parou e bem próximo ao porto. Em seguida saímos em busca de Dona Calú e Seu Jarinho, proprietários de um pequeno comércio de bar e mercearia. Eles foram recomendados por alguns velejadores baianos que outrora estiveram por lá. Seu Lito nos informou que há muitos anos não ancora por ali veleiros com bandeira brasileira e por isso ele achou que éramos gringos.

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Como Dona Calu e Seu Jarinho são mais conhecidos no povoado do que farinha, não foi difícil achá-los. Do primeiro interlocutor já recebemos as coordenadas: – No primeiro pé de amendoeira que encontrarem na praça a mercearia deles é na frente. E era mesmo! O casal é uma simpatia e logo que fizemos as apresentações viramos amigos de longas datas. Eita povo bom!

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É esse carinho espontâneo e a simplicidade que me encanta.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Cruzeirando pelas águas da Bahia – II

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Quando me perguntam por que Ilha da Cal, confesso que não sei nem um centavo o motivo, mas tem quem a chame de Ilha do Cal e é assim que a Carta Náutica batiza esse pequeno paraíso bem baiano. Mas prefiro chamá-la no feminino, pois assim aprendi nas minhas primeiras andanças pelo mar do Senhor do Bonfim. Essa ilhazinha que irradia paz e tranquilidade em quem navegar pelo Canal Interno de Itaparica oferece um delicioso fundeadouro para os amantes do silêncio. Alguns velejadores baianos e outros tantos cruzeiristas brasileiros contam que em outras épocas a Ilha serviu de base para churrascos e festas da vela, porém, nos dias atuais o proprietário não é muito afeito a quem pise em suas areias brancas e limpas. Uma pena mas tudo bem, ancoramos ali assim mesmo apenas para apreciar a beleza, a natureza e a noite que é uma maravilha.

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Foi lá que jogamos âncora quando saímos da Fonte do Tororó com o casal Elson e Fabiane Mucuripe. O banho por ali é muito gostoso, onde mergulhamos em uma água morna  e convidativa. Foi lá que Lucia serviu uma incrível moqueca de Banana com Camarão, acompanhado de pirão dos deuses. Essa moqueca é especialidade de Lucia e dificilmente você irá degustar em outro local que não seja o Avoante. O nascer da Lua cheia foi a senha para Elson dedilhar o violão e assim encerramos a noite. Quando o dia clareou, tomamos café, levantamos âncora, subimos as velas e voltamos para a Ilha de Itaparica onde tínhamos um convite do amigo Webber, veleiro Acauã, para um churrasco a bordo.

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Com essa imagem do Avoante ancorado ao largo da Fonte do Tororó vou deixar você com água na boca, mas espere um pouquinho mais pela terceira parte.

 

Mais um Carnaval que passou

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Apesar de estarmos navegando na Bahia, terra em que basta alguém bater numa lata para a folia começar, tentamos fugir da festança que sacode Salvador em seus circuitos carnavalescos. Alias, o povo do mar não parece mesmo afeito ao barulho ensurdecedor dos trios elétricos. O Carnaval passou sim, mas o lixo musical de absurdo mau gosto continua azucrinando nossos ouvidos e testando a paciência dos palhaços que somos nós mesmos. Ainda tem quem diga e aposte que o que se escuta por ai é música. Como bem dizia o comediante Lilico: “…Tento bom, não volta mais, saudade… de outros tempos iguais!”. Na terra de Dorival Caimmy, Caetano, Gil, Morais Moreira, Dodo, Osmar e tantos outros monstros sagrados da musicalidade o que impera nos dias atuais são “ritmos” que não sobrevivem a uma chuvinha de verão. Porém, como não adianta mesmo a gente reclamar, até porque não temos a quem fazê-lo, vamos lembrar alguns bons momentos do nosso Carnaval 2015, como estas imagens de um churrasquinho básico a bordo do veleiro Mandinga, do casal Sérgio e Simone.       

Dois alunos de futuro

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Mais um casal desembarcou do Avoante com um sorriso estampado no rosto e aproando o sonho de um dia poder viver a bordo de um veleiro pelos mares do mundo. Eduardo e Flávia que chegaram com muitas dúvidas na cabeça, a começar pela escolha do veleiro ideal, saíram, espero eu, com o pensamento muito mais firme em busca de uma vida em que a rotina é apenas uma palavra sem muito sentido lógico e não interessa em que modelo de veleiro.

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Foram quatro dias em que recebemos a bordo amigos que também apostaram no mar as mais valiosas fichas e com eles dividiram um pouco do que é a alegria de realizar um sonho. Sei que não tenho o poder de mudar a vida das pessoas, mas tenho sim, a pretensão de mostrar que podemos seguir caminhando pelo mundo em uma estrada em que o norte muda de acordo com a nossa proa e ela de acordo com nossa vontade.

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Poderíamos muito bem ter baseado o Curso apenas na Ilha de Itaparica e com isso ter mostrado fielmente o que a vida de um velejador de cruzeiro, que define seus horários ao sabor dos ventos e das correntes e por isso, na maioria das vezes, o tempo passa sem que se perceba. Esta bom aqui? Então vamos ficando e nada de pressa.

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Mas tínhamos que seguir um roteiro e nele faz parte ancoragens em locais maravilhosos e algumas velejadas para se tirar a prova dos nove, em que Flávia tirou nota máxima na prática e Eduardo ficou na maciota do piloto automático. E eu ainda fui acusado de fazer corporativismo.

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Eduardo e Flávia desembarcaram, deixaram saudades e prometeram retornar um dia, não para outro curso, mas sim para curtir um pouco mais dessa vida sem rotina e que encanta.  

Você já navegou na Bahia? Então vá!

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Comentário do velejador Sérgio Netto, que colabora com esse blog enviando histórias maravilhosas, no port sobre o tufão Ramassun que atingiu o sudeste asiático.  

“Quem quiser velejar em paz que venha para a Baía de Todos os Santos, sem dúvidas o melhor local do planeta terra para esse tipo de atividade: 1000 km2 de águas abrigadas, 26°C no verão e 24°C no inverno, ventos alísios na medida certa, meso-maré de 2,5m , fontes de água doce sempre disponíveis. Ao por do sol o vento cai deixando uma brisa suave para as velejadas noturnas. Vinte anos atrás, Charlie Gauglième, do Feijão me disse: vocês até que velejam direitinho, mas raramente alguém se aventura a uma travessia. Eu que todo ano venho velejando da França para cá para fugir do inverno do hemisfério norte agora entendi: o melhor programa do mundo é sair da Ribeira para Itaparica num final de semana.”

Onde está o Avoante?

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Mais uma vez venho com minhas desculpas esfarrapadas por deixar o blog tanto tempo abandonado a própria sorte. Mas também nove dias não é tanto assim, pois navegando pelas páginas digitais mais antigas o leitor encontra muita coisa interessante, basta direcionar o cursor e dar um click. Um amigo certa vez falou que eu não precisava usar todo o meu cabedal de desculpas, pois essa vida de blogueiro é assim mesmo cheia de altos e baixos. Mas me sinto nessa obrigação e não sei pensar diferente.

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Bem, quem acompanha o SPOT, através do link ONDE ESTÁ O AVOANTE, deve saber que estamos navegando e muito pela Baía de Todos os Santos, na companhia do casal potiguar Chiquinho e Lucienne, que veio passar sete dias a bordo do Avoante para conhecer o mar por onde navegamos. O passeio tem sido uma alegria só e eles tem aproveitado o máximo, num roteiro que enche os olhos de qualquer mortal. Vamos em frente que ainda temos muito para aproveitar e assim que internet permitir trarei notícias.  

Um Anjo nas águas da Bahia

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Esse post era para ter sido publicado ontem, Domingo 15/01, mas como esse mundo da informática é meio misterioso, ontem meu computador achou de não trabalhar. Por sorte, recebi a assessoria de Daniel Vidal, filhos dos queridos amigos Hugo e Catarina Vidal, que deixou seus afazeres de administrador no Hotel Praia da Sereia, na praia de Itapuã/BA, e passou o dia recolocando os miolos no bicho.

O Sábado amanheceu chuvoso e com cara que não daria vez a nossa vontade de velejar, mas Dona Welshe, esposa do comandante Noronha, disse que queria velejar de qualquer maneira e que um banho de chuva até que seria bem vindo. Assim é que se fala! Quando o tempo deu um vacilo, soltamos a amarra, levantamos as velas e fomos saindo de fininho pelo canal do Aratu. Eu tinha planejado ir até a praia do Loreto, por trás da Ilha do Frade, mas com aquele tempo incerto, achei por bem propor que velejássemos até o Farol da Barra, aproveitando a maré de vazante, apreciando a beleza da capital baiana, e retornássemos na maré de enchente numa velejada gostosa e que seria o batismo de Dona Welshe nas águas do Senhor do Bonfim. O comandante aceitou a proposta e eu segui em frente. No fogão Lucia dava vida a um delicioso Risoto de Rúcula com Tomate Seco, deixando a nossa fome com um misto de euforia e desejo. Vento bom, mar de almirante e o Malaika navegando macio e se achando o máximo recebendo a bordo seus felizes proprietários. Barco tem alma! Na língua Swahili Malaika significa “Anjo” e o comandante Noronha não poderia escolher outro nome para dar vida novamente a esse grande barco. O Anjo velejava pela Bahia e a cada milha navegada seus proprietários se encantavam cada vez mais com ele. Eu, no meu cantinho do cockpit, sorria aliviado e feliz por ter trazido esse barquinho e ter ajudado a proporcionar toda essa felicidade a eles. Voltamos ao Aratu Iate Clube quando o Sol já se encaminhava lentamente para o poente, trazendo o belo espetáculo diário de beleza,  cores e encantamento. Essa velejada, que espero seja o início de uma bela história no mar da família Noronha, marcou também a nossa despedida do Malaika, um barco que aprendemos a amar, respeitar e que nos acolheu durante 12 dias. Desejamos paz e que os ventos e os mares sejam sempre suaves com o “Anjo”. Ao amigo Noronha e sua esposa Dona Welshe agradecemos de todo coração o convite e a confiança em nos ter entregue o comando desse barco maravilhoso.