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Uai! Parte 1

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“… Oh! Minas Gerais/Quem te conhece/Não esquece jamais…”.

Foi durante um almoço com os amigos Venícios e Sandra Gama, em um restaurante de comida mineira localizado em Natal/RN, que surgiu a ideia de conhecer a Terra das Alterosas. Na verdade não sabíamos bem o que visitar, porque quando se fala em Minas logo vem em mente o pão de queijo, o doce de leite, o tutu, os apetitosos torresmos, as igrejas seculares, o fantástico conjunto arquitetônico, as serras, a inconfidência, o fenomenal trabalho de Aleijadinho, Juscelino Kubitschek, as cachoeiras e a cachaça. Queríamos conhecer tudo e mais um pouco, pois queríamos caminhar pelas estradas onde pisaram reis, rainhas e por onde foi transportada a riqueza monumental do ciclo do ouro e do diamante.

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A proposta inicial era alugar um carro em Salvador/BA e se embrenhar pelos caminhos do interior, passar pelas belezas da Chapada Diamantina, até desembocar na capital mineira para decidir o que fazer depois. A viagem seria no começo de maio de 2016, mas os desatinos da vida nos fez rever metas, reavaliar razões e assim, a viagem foi marcada para o finalzinho do mês das mães e não mais de carro a partir da Bahia. Para ganhar tempo, iríamos de avião de Salvador a Belo Horizonte e chegando lá alugaríamos um carro para escarafunchar as Alterosas. Venícios e Sandra sairiam de Natal. E assim foi!

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Não é fácil montar o roteiro turístico pelas paisagens de Minas. Por mais que a gente tente se esmerar no rumo a seguir, sempre ficaremos em débito com a vontade. Na ânsia de conhecer o máximo possível em oito dias de visita, mergulhamos nos sites tipo, “o que fazer em tal lugar”, e avaliamos o que poderia ser feito. As rotas do ouro e do diamante são imperdíveis e é um pecado não fazê-las. Os circuitos da fé, da arquitetura, do barroco, dos museus, das praças, das cachoeiras e da ecologia também. E os restaurantes e barzinho que compõem a vida noturna da capital? Nada que tem a grife Gerais deve ser descartado. Aliás: Pode, mas não deve.

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E foi numa noite fria que desembarcamos em Belo Horizonte para o primeiro contato com uma cidade que nos chamava para um abraço. Mais do que depressa, pois não queríamos perder tempo, deixamos as malas no hotel, tomamos um banho e saímos para as calçadas da Savassi – região nobre, situado no centro sul da cidade e famosa pelo grande número de botecos.

20160527_103424Já que estou falando de um estado que é uma das fontes da história brasileira, acho melhor dar o primeiro mergulho: Nos anos 30 existia uma padaria, na Praça Diogo de Vasconcelos, no bairro dos Funcionários, batizada de Savassi e de propriedade do italiano Amilcare Savassi. Com o decorrer do tempo a praça ficou conhecida como Praça da Savassi e consequentemente toda a região agregou o nome. Na calçada da padaria se reunia diariamente um grupo de rapazes, famosa por suas peripécias noturnas, que ficou conhecido como Turma da Savassi. Pois bem, com tantos motivos o nome pegou e ficou.

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Foi na região boêmia que demos o ponta pé inicial nos segredos do mundo gastronômico mineiro. A porta de entrada foi o boteco Redentor, localizado na Rua Fernandes Tourinho, 500, que tem chope da melhor qualidade, cardápio delicioso e atendimento de primeira linha. Aliás, o atendimento em Minas Gerais me chamou atenção pela excelência.

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No dia seguinte, pegamos a estrada até o município de Brumadinho e de lá rumamos para visitar uma das joias da coroa mineira, mas sinceramente, até então esta não estava recebendo tantas estrelas indicativas no guia que havíamos montado. Fomos assim meio sem muita vontade de ir, mas ao chegar, nos deparamos com um magnífico memorial ao meio ambiente emoldurando um suntuoso, instigante e um dos mais relevantes acervos da arte contemporânea do mundo.

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O Instituto Inhotim, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, foi idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz nos anos 80. Mello Paz doou sua propriedade para o projeto ao receber incentivo do escultor pernambucano Tunga, natural de Palmares/PE. O escultor tem um acervo maravilhoso em uma das fascinantes galerias do museu.

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Tudo no Inhotim é fora do comum e raro de ser encontrado em outros lugares mundo afora. Se você não gosta de arte, vá até lá. Se você não gosta de árvores, vá. Se você não gosta de caminhar, vá. Se você não gosta de paz, vá. Se você não gosta de silêncio, vá. Se você não gosta de nada, vá. Pois tenho certeza que você se encontrará no Inhotim.

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O Brumadinho fica a pouco mais de 50 quilômetros de Belo Horizonte, mas não pense em sair da capital muito tarde, porque a visita é um programa de uma manhã e uma tarde e dificilmente você desejará ir embora.

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Fui gostei e muito em breve quero voltar, pois não vi tudo. O Inhotim é apaixonante. Como bem disse a amiga Lourdinha Oliveira, quando soube que lá estive: “… um sonho de consumo”.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Breve história de um descaso

Museu Waderley Araujo Pinho - Nimbus

O casarão debruçado sobre as águas da Baía de Todos os Santos, com uma vistosa mata de floresta ao fundo, torna o local meio que enigmático, porque em um raio pouco maior do que uma centena de metros, existe um grande porto comercial, um povoado e um gigantesco parque industrial onde tudo cabe, menos os devidos controles ambientais. Talvez seja essa vizinhança maligna que tenha mexido os pauzinho e interferido no glorioso e educativo destino do velho casarão que morre aos poucos, com as bênçãos de uma burocracia tosca e maledicente dos órgãos oficiais. Essa imagem é o que restou de um projeto ambicioso, maravilhoso e educativo de um antigo usineiro baiano e ex-deputado, o Sr. José Wanderley de Araújo Pinho (1890-1967). Museu Araújo Pinho, como é conhecido em toda a região e nos salões culturais da Bahia, hoje é um marco da falta de incentivo, organização, descaso, incompetência e mais um monte de adjetivos que possam caber em um balaio de xingamentos. É por essas e outras que a voz geral diz que o Brasil não conhece sua história e tudo é contado de acordo com as ideias delirantes e ideológicas dos chefetes da vez. É triste ver pessoas que se dizem doutores e catedráticos em artes e cultura, assumirem cargos de direção nos vários órgãos de incentivo ao tema e ao se aboletarem na cadeira de chefia, abandonar o discurso em prol de um salário no final do mês e uma posição de destaque no mundo dos malandros. – Tomem ciência cambada de hienas! A alma do velho usineiro e ex-deputado baiano deve está se debatendo nas profundezas das catacumbas diante da ignorância e descaso dos moderninhos donos da verdade e detentores do saber cultural. Para mim são uns amalucados, deslumbrados que nem sabem para que vieram ao mundo e se metem a ser curadores da história de um povo. Claro que isso é um desabafo de um brasileiro que está cansado de ouvir baboseiras e desculpas esfarrapadas das “digníssimas autoridades”. É um desabafo bem menor do que a tristeza que me abateu quando hoje, 10/03, quando peguei a estrada com a intenção de conhecer as instalações do Museu Wanderley de Araújo Pinho, mas sabendo eu, que não havia mais nada por lá, porque, segundo a informação recebida, tudo havia sido roubado por alguns espertalhões oficiais e o que sobrou, que não foi muito, foi depositado em outro museu na capital. Pelos registros das matérias jornalísticas, o Museu Araújo Pinho estava passando por ampla reforma é seria entregue ao público em 2014. Seria, mas não foi! Ficou o dito pelo não dito e o dinheiro da reforma deve ter tomado destinos mais useiros.

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Voltando a minha visita: Depois de rodar por mais de 33 quilômetros, cheguei ao portão do museu e o encontrei fechado e com um enorme cadeado servindo de cartão de visita. Logo que adentrei a estrada de acesso vi que não havia nada ali, porque o abandono é visível, com carcaças abandonadas de carros queimados – denunciado que ali era ponto de desova – e uma áurea de filme de terror pairando no ar. Buzinei alguns vezes em frente ao portão e depois de alguns minutos surgiu um vigilante que anunciou que o museu estava fechado e não era permitida a entrada sem uma autorização de um órgão que não entendi o nome. Tentei argumentar dizendo que queria apenas bater umas fotos, mas o vigilante foi irredutível. – O que será que tem ali que não pode ser visto?

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A única imagem que pude registrar, além do portão e do arremedo de estrada de acesso a um museu brasileiro, foi do telhado do casarão que pede socorro para não ser esquecido. Diante da falta de informação e da negativa do vigilante, me socorri numa postagem de 2012, do Blog do Veleiro Nimbus, para copiar, sem as devidas autorizações da Dani e do Tiago, pedacinhos do texto que dizem assim:

Constituído no Século XVI e localizado na Baía de Todos os Santos, o Museu Wanderley Pinho era o antigo Engenho Freguesia. Sua história teve início quando uma sesmaria foi dada ao colono  Sebastião Álvares…Quando as Sesmarias* eram doadas, crescia o número de habitantes no lugar e com isso o lucro crescia também porque a produção de açúcar era bem maior com a mão de obra do povo ( muitos deles eram escravos trazidos pelos portugueses). Apesar de  que muitas peças foram furtadas do museu por descuido de algumas autoridades, ainda hoje podemos encontrar algumas que nos fazem viver e pensar como era a vida naquele século…Construído em terras doadas pelo então Governador-Geral do Brasil, Mem de Sá, o casarão foi alvo das invasões holandesas, em 1624, e vivenciou momentos de apogeu na produção de açúcar até a segunda metade do século XIX. Quando as leis abolicionistas passaram a vigorar no país, o engenho entrou em decadência e, em 1890, as moendas de cana-de-açúcar foram desativadas…José Wanderley de Araújo Pinho (1890-1967), que dá nome ao museu, foi proprietário do engenho e, como deputado federal, apresentou ao Congresso, em 1930, um projeto de lei de proteção dos bens móveis e imóveis de valor artístico e histórico que resultou na criação do atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

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Para os que, como eu, quiserem pegar a estrada e ver com os próprios olhos o estado em que se encontra o Museu Wanderley Araújo Pinho, é só seguir o mapa. O museu fica próximo a praia de Caboto, em Candeias/BA. Quem preferir ir de barco, o point fica logo após o Porto de Aratu e em frente a Ilha de Maré, justamente na posição indicada pelo círculo amarelo com pontinhos na carta. É triste ver a incompetência assumindo o papel de curador da história de um povo! Vale lembrar que curador vem do latim e que dizer “aquele que tem uma administração a seu cuidado”