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Um passeio em família

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Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

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A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

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Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

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No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

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A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

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No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.

 

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Navegando pela Baía de Tinharé – III

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Falei no texto anterior que o distrito de Galeão, as margens do Canal de Taperoá, tem história e tem mesmo. Mas dessa vez eu não me aprofundei nas pesquisas, preferi sentar-se à mesa do Bar da Maria, no pé da ladeira que sobe até a igrejinha de São Francisco Xavier, para escutar os moradores que vieram saudar nossa presença. A ladeira é grande e subir com o sol da Bahia castigando a moleira não é fácil, mas a visão que temos lá do alto é de encantar os mais céticos e acho até que tem muito pecador que se acha perdoado depois que consegue chegar ao topo.

Subi o morro imaginando o que se passa na cabeça do padre quando é designado para acolher os fieis do Galeão lá nas alturas. Descobri que o padre só vai lá umas poucas vezes durante o ano e quando vai, vai em cima de uma carroça puxada por um trator. Deus é mais! Quando viu a bronca que teria que enfrentar toda semana, o primeiro sacerdote tratou logo de construir uma capela no centro do povoado. Na verdade não sei se foi o primeiro, mas com certeza ele teve vontade.

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O padroeiro São Francisco Xavier, comemorado em 03 de dezembro, é considerado o maior missionário do Cristianismo, desde São Paulo. Foi fundador, junto a Inácio de Loyola, da Companhia de Jesus. Porém, Francisco Xavier nunca esteve no Brasil. Seu lema: “De que vale a um homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma?” (Mc 8, 36). Por aqui esteve um parente seu, também da Companhia de Jesus, João de Azpilcueta Navarro, um dos primeiros catequistas do Brasil. Mas isso eu não aprendi no Bar da Maria e sim navegando nos mares internéticos, para dar um sentido mais interessante a essa prosa.

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E como na Bahia toda festa religiosa que se prese tem que ter uma lavagem, a do padroeiro do Galeão não podia ficar atrás. A lavagem da igreja de São Francisco Xavier é feita uma semana antes da festa e cá pra nós: Duvido muito que o Santo goste do reboliço que vem agregado as lavagens, pois ele chegou a pedir ao rei Dom João III que instalasse uma inquisição em uma das colônias por onde passou, por discordar dos rumos que os fieis estavam tomando. Imagine se ele escutasse uma dessas quebradeiras que tocam por aí? Ia faltar lenha para fazer fogueira!

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Sabe o que eu soube no Bar da Maria: que quando foi construída uma igreja na base do morro, a imagem do Santo foi colocada lá, mas ele não gostou e toda noite a imagem subia a ladeira para se postar no altar da igrejinha do morro. Foram tantas idas e vindas, sem ninguém acreditar no que estava acontecendo, pois achavam que era brincadeira de algum gaiato. Até que numa noite um morador quase foi parar no beleléu, quando se deparou com a imagem do Santo subindo a ladeira. Depois de recuperar o folego, e a cor, o morador correu para contar o que viu. Dali em diante a imagem ficou onde queria ficar, no alto do morro, e avistando tudo em sua volta.

Sabe o que mais: O Bar da Maria fica num local onde antigamente era conhecido como boca da mata, que era lugar mal-assombrado e ninguém tinha ousadia de ultrapassar, até que um dia um posseiro corajoso resolveu enfrentar o mau assombro e construiu um barraco para por os trecos e foi seguindo por outros. Ainda bem, pois se não fosse essa peleja não existiria o bar e nem eu iria saber de tantas coisas.

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Tudo foi dito pela Maria e seus cunhados, pessoas boa praça, simpáticos e que deixou saudades na gente. Não recorri às informações oficiais e nem fui à procura dos moradores mais antigos, pois queria saber primeiro o dito popular. Enquanto a conversa rolava solta e os copos de cerveja eram cheios, esvaziados e reenchidos, ninguém se deu conta do passeio despreocupado de um papagaio sobre a mesa e quando caiu à ficha, o bicho já havia dado uns bons goles nos copos. Eita papagaiozinho cachaceiro! Dizem que ele é acostumado a fazer essa presepada e nem vira a perna. Ainda bem que o bicho não aprendeu a chamar palavrão!

Conversa vai, conversa vem, Paulo Lourenço – nosso tripulante – perguntou sobre uma pequena casinha branca na beira do rio. A informação é que se chama Pedra do Santo e que ali existe uma laje que avança rio adentro. Certo dia uma embarcação derivou para cima da laje e antes que batesse, apareceu o Santo que salvou o barco de uma tragédia. Em agradecimento a população ergueu o santuário.

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Se dependesse da nossa vontade e da vontade dos nossos anfitriões, a conversa varava o resto do dia, mas tínhamos que retornar a bordo para almoçar, pois Lucia havia preparado um Risoto de Bacalhau que só em lembrar dá água na boca. Mas foi aí que chegaram as irmãs da Maria, com uma bacia de caranguejos e aratus. Elas vinham do mangue e Lucia não perdeu tempo e foi aprender os segredos daquela arte.

9 Setembro (130)9 Setembro (125)9 Setembro (129)Foi papo para mais meia hora, umas três cervejas e boas risadas. – Vocês viram a primeira casa daqui? – Vimos não! – É bem ali embaixo, onde tem umas estátuas! Pronto, mais um ponto turístico a visitar. Maria, traga a conta que vamos nessa!

Nelson Mattos Filho/Velejador