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Medo de que?

12 Dezembro (468)

Navegando sobre as águas do imenso oceano virtual me deparo com as palavras ditas no afã de ânimos exaltados e que refletem o caos que toma conta das nossas mentes bombardeadas pelo terrorismo calamitoso midiático.

Mas quem sou eu para falar da mídia, sendo hoje um agente desse mundinho de egos inflados e interesses diversos. Não sou contra a mídia, apenas arregalo os olhos diante de manchetes que não refletem a essência do texto e quando tentam refletir, escorregam em meio ao lamaçal onde se misturam ideologias, poder, finanças e palhaçadas. A queda é inevitavelmente cômica, mas o estrago depende do humor da plateia. E tem plateia para todo gosto. Voltemos ao mar!

Há tempos escuto gritos alarmantes sobre pirataria nas águas brasileiras tendo como alvo a classe de velejadores e sinceramente olho para o horizonte e não consigo enxergar as bandeiras negras com a marca da caveira estampada. Claro que não sou irresponsável para dizer que o nosso mar é um paraíso onde não existam serpentes e nem maçãs, porém, depois de dez anos morando a bordo desse meu veleirinho cheinho de aconchego e navegando pelos mares do nordeste de Lampião, Gonzagão, Cascudo, Amado e mais uma penca de cabras bons, sinceramente não sei dizer de onde surgem tantos relatos de desassossego para o povo do mar.

Acho sim que o velejador brasileiro precisa se fazer ao mar e soltar as amarras que o prende aos aparelhos de TV e as páginas ensanguentadas dos jornais e revistas semanais. O Brasil do mar é outro e é incrivelmente desabitado dos percalços que afligem o mundo urbano. Os casos de violência e infortúnio são tão raros que nem nas estatísticas oficiais conseguem aparecer e se formos muito precisos, não conseguiremos preencher os dedos das mãos. É um caso de roubo de bote ou motor aqui, outro acolá, um assalto mais adiante e se não me falha a memoria, três mortes de velejadores em um espaço de quinze anos. O que será que tanto amedronta o povo do mar? As nossas ruas matam mais do que qualquer guerra mundo afora, tem índices de violência estratosféricos e nem por isso deixamos de caminhar e nem andar de carro.

Dia desses li alguns comentários que instigavam armamentos a bordo e outros querendo dotar o veleiro como se fosse um navio de guerra. Aquilo me deixou incrédulo e quase sem palavras para debater o inacreditável. Sou a favor do desarmamento e jamais queria ver tripulações de veleiros armadas até os dentes navegando por aí. O mar do velejador não precisa dessa demonstração de brabeza e nem da fúria declarada. O mar precisa apenas de mentes livres, corações abertos para a paz e corpos prontos para uma nova vida. Essa frase não é minha e nem sei de quem seja, mas dela faço uso: No dia em que precisar trancar meu veleiro para poder dormir em alguma ancoragem qualquer, prefiro desembarcar.

Não estamos livres da violência e nem o mar é uma fronteira intransponível para a bandidagem, porém, prefiro pensar positivo a me deixar intimidar pelo lado negativo da mente. Vim para o mar em busca de novos desafios e visando horizontes infinitos e ao embarcar deixei em terra as razões que não me traziam felicidade e cortavam as asas dos meus sonhos.

Sempre que escuto relatos de veleiros perseguidos por supostos piratas em águas brasileiras bate uma incredulidade que me arvoram os sentidos e me remete aos tempos de criança, quando éramos verdadeiros super heróis. Nunca soube de nenhum que fosse abordado em navageção e saqueado pelos ditos piratas e por isso que muitas vezes acho que os relatos sofrem o incremento dos medos que a sociedade nos impõe. O que mais se escuta e se lê são casos de fugas e escapatórias de situações de risco, mas nunca escutei relatos de perseguições bem sucedidas por parte dos “piratas”.

Certa vez tripulávamos um catamarã para Trinidad e aguçamos os sentidos ao passar ao largo da costa norte do Brasil e mantivemos alerta por vários dias. Estávamos sob o efeito de uma impressionante força alarmista que em nenhum momento se concretizou e víamos risco em qualquer barco que navegava em nossa direção ou nas proximidades.

Em uma noite, na costa do Suriname, avistamos as luzes de duas embarcações vindas por nossa popa. Apagamos as luzes e mantivemos a guarda para o provável. Escutamos pelo VHF a comunicação entre eles e nos espantamos quando falaram a posição onde estávamos. Pronto, é hoje! Ligamos os dois motores, aceleramos ao máximo e a nossa velocidade chegou a nove nós o que representa muito pouco diante da velocidade e força dos pesqueiros oceânicos. Os barcos vieram por bombordo, a uma distância de uma milha, viraram o bordo para aproar nosso veleiro e passaram a pouco mais de 100 metros de nossa popa e tomaram o rumo do mar. Eram dois atuneiros puxando rede! Só nos restou rir da situação vexatória.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Será coisa de maluco?

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Diz uma matéria no site Mundo Estranho, da Abril, que existem oito sons misteriosos nos oceanos que até hoje a ciência não conseguiu explicar, alias, existem muitas coisas saídas das profundezas abissais que carecem de explicações. O que dizer das vozes do mundo que mexe com imaginário dos navegantes desde que o mundo é mundo? Muitas vezes nos turnos de comando durante as madrugadas silenciosas, somos despertados por um verdadeiro bate papo fantasmagórico e quando procuramos na vastidão do mar para ver do que se trata, nos deparamos apenas com o sussurro do vento e o marulhar das ondas passando pelo casco. Se eu já ouvi? Claro que sim! Se é imaginação, sonho, fantasia ou simplesmente delírio de maluco eu não sei, mas que é assim é. Agora vem o Mundo Estranho com o caso dos oito sons misteriosos e me faz viajar. Eita mundão de água cheio de segredos!   

É assim!

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“…A primeira aventura náutica sempre é lembrada de duas maneiras: Ou foi uma experiências maravilhosa, recheada de planos futuros; ou foi um terror que não vale ser relembrada. No nosso caso foi maravilhoso e mesmo assim, não deixou de ter seus momentos de dúvidas e apreensões…”

Velejando de Salvador às Granadinas – III

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VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – III

Sergio Netto (Pinauna)

No dia 3 fomos abordados de novo na costa leste da Venezuela, perto de Trinidad, de dia, com tempo bom. Chegaram em silencio pela popa, chamaram em inglês sem sotaque, e se identificaram como ‘warship F-793’. Ostentavam uma bandeira francesa. A antena do radar dos caras era quase do tamanho da retranca do Blooper. Fizeram as perguntas de praxe, nome do barco, quem está a bordo, bandeira, registro, procedência e destino. Informaram a meteorologia. Quando perguntei se eram da Guiana, responderam “no, sixteen and out”. Esses gringos estão apavorados. Até os velejadores americanos se isolam com medo.

Hoje acabou o gelo e comi a penúltima banana. O despertador que estava sobre e mesa de navegação, que sacode a cada ‘marretada’ de onda no casco de sotavento, começou a enganchar e atrasar. Bruno já esta a fim de desembarcar. Nosso relacionamento esta ótimo, mas ele não tem visto americano e esta achando que já é tempo demais. Eu também; meus câncer de pele no braço já estão começando a se exibir.

Falei com Pedro Bocca de Ile Royale. Ele quer passar uma semana de executivo estressado, embarcando num sábado e desembarcando em dia marcado. Isto não funciona numa velejada. A gente sai do porto quando pode, e chega quando o vento deixa. Não confio que esta opção funcione para chegar a Fort Lauderdale.

No meu turno da madrugada de 3 para 4, fiz um registro em tempo real do diário de bordo: Continuar lendo

Cabe mais um?

fatboat_jpg_smlSerá que podemos dizer que nesse barco ainda cabe mais um?
Imagem do site: sailing anarchy

Tenha um bom domingo