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Após a revolução neolítica

VELEIRO VAHINE

Um belo texto da velejadora baiana Valéria Mendes, veleiro Vahine, descrevendo com elegância, simplicidade e bom humor, dias maravilhosos de boas velejadas pela águas abençoadas pelo Senhor do Bonfim.

  

APÓS A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA

De pernas pro ar, descanso, relaxamento, nada pra fazer…

Estamos em um grupo de amigos, uns de longe, outros bem mais próximos, participando de um passeio de barcos à vela, na mansidão e malemolência dos ventos calmos da Baía de Todos os Santos, naquele modo de vida ‘doce far niente’. No mar não nos preocupamos com o tempo, que parece caminhar com mais lentidão, e assim seguimos o curso de leveza referendada por todos os colegas de vela, aqui temos unanimidade: o ócio! Como diria uma amiga – que juntamente com seu marido se deslocam de São Paulo para matar a saudade de seu veleiro, cujo porto é nas nossas águas – a despeito das férias da infância: “O que você está fazendo? – Naaaadaaa”, ela mesma responde.

Por outro lado também trabalhamos, mas não esse labor diário, essa ida e vinda corrida, de asfalto e poluição que a odisseia da humanidade nos legou. Nossa lide aqui é outra, primeiro buscamos nos conectar com os elementos, o vento, mestre maior, as marés e correntezas, o sol, a lua, a chuva, além de outras tarefas, que se tornam prazerosas, como preparar um jantar para todos ou um drink ao por do sol com o capitão, além de encontrar os amigos e nos ajudar mutuamente, desenvolvendo o espírito de equipe. Temos os trabalhos naturais que lembram nossos parentes coletores-caçadores, lá nos primórdios da civilização – que o digam os apreciadores dos espaguetes de chumbinho e saladas de peguari. E não reclamamos. Gostamos até!

Precisamos de pouquíssima tecnologia, apenas as necessárias à navegação, e leitura e escrita, sem o qual não estaria relatando esta história, e se muito mais, um pouco de contagem e aritmética, para, por exemplo, calcularmos as distâncias entre um e outro portinho, aonde só os veleiros vão, ou mesmo para avaliar se a ancoragem está correta, se é lua cheia ou crescente, qual a diferença da baixa pra alta maré, ou quantas garrafas de vinho ainda nos restam.

Temos o privilégio do trabalho que cabe somente aos artistas, que é observar os inúmeros tons de azuis no decurso do dia: Aqua, azul cristal, azul laguna, cobalto, Del Rey, mediterrâneo, turquesa, azul da Prússia, azul do mar profundo, azul da noite sem lua, e tantos outros, que enriquecem a nossa contemplação.

Esta excursão nos trouxe a grata companhia de uma pessoa, já nossa amiga, recém-casada com um velejador, reunidos após quase cinco décadas de um amor adolescente, e agora vivendo um “derramamento de amor”, palavras dela na sabedoria da maturidade. Um brinde ao reencontro!

Com o passar dos dias percebemos as mudanças da maré, os ventos que sopram diferentes, da mesma maneira que temos a noção da imprevisibilidade da vida, da nossa jornada e a necessidade de “soltarmos as amarras”, palavras do comandante da nossa flotilha.

Como em muitas boas histórias nosso relato conclui com a certeza de outras aventuras e experiências que virão e novos ventos que soprarão em nossas velas.

Valéria Mendes

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Isso é vela

Homem e equipamento em sincronia com a natureza. Por isso o mundo da vela é tão fascinante.

Sanitário náutico da hora

banheiro Quando digo que não existe povo mais armengueiro do que velejador, muitos colegas ficam me olhando de lado, mas tai a prova da criatividade reinante.

Uma notícia triste

velejar e meio ambiente Nos dias que antecederam o Natal faleceu no Rio de Janeiro o autor do livro, Clássicos do Iatismo e editor da revista Velejar e Meio Ambiente, Antônio Luiz de Souza Mello, mais conhecido no mundo náutico como Tonico. Não cheguei a conhecer o Tonico, mas desde que entrei no mundo da vela tive a revista Velejar como referência, pois era em suas páginas que a vela brasileira navegava com muito mais prazer. A notícia não foi uma surpresa, pois sabia da luta que Tonico vinha enfrentando há vários anos para restabelecer a sua saúde, o que me chamou atenção foi que depois que soube do ocorrido, através do grupo Flotilha Guanabara de Oceano, do qual faço parte, dei vários bordo nos mares da internet e não vi nenhum outro registro. Matheus Eichler, comodoro da Flotilha Guanabara, escreveu assim:  “…Tonico é um nome que precisamos guardar e reverenciar, foi alguém que fez muito por nossa tão vasta e ao mesmo tempo tão negligenciada cultura náutica de recreação e desporto…”. Descanse em paz Tonico!

É assim!

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“…A primeira aventura náutica sempre é lembrada de duas maneiras: Ou foi uma experiências maravilhosa, recheada de planos futuros; ou foi um terror que não vale ser relembrada. No nosso caso foi maravilhoso e mesmo assim, não deixou de ter seus momentos de dúvidas e apreensões…”

Pense num comandante corajoso!

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Em quase todo veleiro encontramos plaquinhas informando de tudo um pouco, mas na grande maioria são frases engraçadas e que refletem o ambiente desejado a bordo, mesmo que nada funcione de acordo com os desejos. Essa placa que encontrei a bordo do veleiro Vagabond é bem sugestiva, mas pode trazer muita dor de cabeça ou mesmo afundamento da embarcação.  

A Tempestade – Parte 15

8 Agosto (112)

A imagem acima não tem nada haver com a Tempestade enfrentada pelo velejador Michael e seus dois companheiros de viagem, escolhi apenas com o propósito de dar um refresco ao décimo quinto texto dessa peleja que promete dar uma verdadeira enxurrada de adrenalina em você leitor.      

PARTE 15 – VELEJAR PERIGOSAMENTE

Forçar a navegação à noite com vento de través de vinte e cinco a trinta nós cavalgando ondas gigantes com um leme de fortuna instável é uma temeridade. Nós não sabíamos, nem poderíamos saber pelas circunstancias, se a nossa tática de tentar a velejada de través iria dar certo. Resultado: logo de primeira, no final dos dez minutos seguintes em que o barco virou uns poucos graus para leste e velejando bem, Netuno, ainda meio bravo, deu-nos mais um presente de grego. Uma atravessada fenomenal. Uma onda mal resolvida, mal formada, mais alta e louca que as outras. Não custa repetir: à noite a gente não consegue adivinhar o que tem e o que vem pela frente. A gente desconfia, se prepara, sente, mas não consegue adivinhar o tamanho do estrago, do maldito presente.

Por mais que confiássemos com a robustez do nosso leme, sabíamos que ele poderia não responder à altura a certas situações.

Com um leme normal, quando se percebe que o barco vai para algum ponto indesejado ao subir uma onda em posição desfavorável, antes mesmo de completar o percurso pode-se abortar a subida jogando bruscamente o leme para o lado contrario. Continuar lendo