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Para quem sonha em morar a bordo

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O mundo da engenharia e arquitetura naval não para de se renovar e a cada dia os barcos vão se transformando em uma excelente extensão do mundo urbano. Não duvido que muito em breve veremos barcos que não sofram os efeitos do mar e naveguem sem um mínimo sequer de balanço. Vai ser o Céu para aqueles que se martirizam com os enjoos. Pedrinho, meu amigo lá da praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, um dia disse assim: – Veio, se o mar não tivesse ondas existiria engarrafamento. E não é mesmo! Nas páginas virtuais da Revista Náutica me encantei com o projeto futurista desse barco-casa, que pode vir a calhar com os planos de muitos que sonham em morar a bordo de um barco. O projeto do Cruising Home, que oferece duas versões e vários tamanhos, reza na cartilha da inovação e sustentabilidade e tanto pode servir para uso comercial ou moradia. Gostei! 

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Um brinde a vida

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O blog Bombarco, especializado em negócios náuticos, reeditou uma matéria com pessoas que decidiram morar a bordo de um veleiro e estamos lá, brindado a vida. Acesse o site bombarco.com.br e saiba um pouco mais sobre nós.   

Apenas uma questão de prioridade

1 janeiro (2)

Não quero ser pretensioso, mas depois de 8 anos morando a bordo de um veleiro de oceano, acho que tenho um pouco, apenas um pouco, de propriedade para falar sobre essa vida tão cheia de surpresas e incertezas.

Surpresas, porque o mar nos reserva todos os dias momentos únicos de reflexões e aprendizados. Incertezas, porque as reflexões e aprendizados muitas vezes nos colocam diante de rumos cruzados e do grande muro das indagações.

De tudo o que aprendi e vivi, posso dizer que a escolha não é fácil. A começar pelo rol das prioridades e as cobranças dos familiares e amigos que são infindáveis e muitas vezes maltratam a consciência. Mas posso dizer também que hoje sou outra pessoa e mais aberto para os segredos desse mundo tão cheio de verdades infalíveis.

Nas nossas andanças por ai, sempre ouvimos teorias e planejamento minuciosos sobre projetos de pessoas desejosas de morar a bordo, mas raramente escutamos ou vemos o grau de prioridade necessário para a realização do sonho. Tento argumentar sobre minhas observações e mostrar um lado mais simples, original e verdadeiro, mas me recolho diante de teorias tão precisas e sem margens para questionamentos.

Levar essa vida tão alternativa não é preciso malabarismos, enquetes, mágicas, teorias, parcelas de sofrimento, finanças abastadas para comprar todos os desejos e muito menos o último lançamento daquele estaleiro famoso. É preciso sim simplicidade no viver, que é uma coisa que as grandes cidades empurram cada vez mais para as vias marginais.

Hoje, depois de uma noite de chuva e frio, acordei com os pensamentos voltados para o início de nossa vida a bordo do Avoante. Como uma fita em câmera lenta, o filme foi sendo rodado e expondo detalhes já esquecidos. Lá estavam às agruras do mar, os açoites dos ventos, os terríveis enjoos, os momentos de aflição, os questionamentos sem respostas, as alegrias com os objetivos alcançados e a incerteza diante do poder tão descomunal demostrado pela natureza.

Em meio a pensamentos tão melancólicos, enquanto a chuva castigava o mundo lá fora, comprovei até onde vai o nosso comprometimento com o mundo que o Avoante representa para mim e reconheço que não é fácil, mas faria tudo outra vez.

Não é aquele mundo de aventuras como dizem alguns, nem a busca infalível pela perfeição do planejamento, muito menos o enfrentamento de grandes ondas e terríveis tempestades e nem de longe passa pelo desprendimento total dos valores, mas sim aquele mundo perdido, em que amizade, companheirismo, ética, sinceridade, simplicidade, amor e paz são o que são e não o que queremos fazer com que pareçam. Por isso muitos desistem do mar.

Certa vez escutei de um amigo que a esposa dele somente embarcaria numa dessas se conseguisse comprar o veleiro mais confortável. O barco precisaria ter ar condicionado, chuveiro elétrico, suíte e mais um monte de balangandãs que nunca seria muito. Esse amigo não escondia o descontentamento, mas também não dava um passo em prol do sonho. Vivia na eterna amargura reclamando da esposa e ela, se fazendo de forte e levando ao extremo seu embate contra as intenções maledicentes daquela alma sonhadora. Ele não é o único no barco dos descontentes e reféns da falta de prioridade, pois essa é uma tripulação populosa.

Acho que já falei aqui várias vezes que no Avoante não temos geladeira e muito menos o espaço oferecido pelos novos modelos de veleiros, mas isso nunca foi motivo para desistir e nem maldizer a nossa escolha. Temos sim tudo o que precisamos que é o companheirismo, o amor e a paz de espírito que renovamos todos os dias ao acordar.

Ter um veleiro é um sonho alcançável por qualquer pessoa. Não precisa ser um grande veleiro para cruzar os oceanos, mas apenas um veleirinho, para navegadas naquele riozinho ou no lago pertinho de casa já é uma grande conquista para corações aventureiros. Mas fazer que o uso desse veleiro se torne uma prática regular e prazerosa é outra história se isso não for prioridade.

Sei que não é fácil acordar, como num desses dias de muita chuva, sem poder colocar a cabeça para fora do barco, ou se deparar com goteiras sobre estofados, livros e equipamentos eletrônicos, mas basta parar um pouco, respirar fundo e apreciar a beleza dos pingos de chuva caindo sobre o mar para o problema ter outro sentido.

Não é fácil, mas no Avoante temos simplesmente a prioridade de sermos felizes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Não é Facil! Será?

A cada dia me surpreendo com comentários e suposições das pessoas quanto morar a bordo de um veleiro. Sei que viver a vida num veleiro oceânico não é uma das mais confortáveis formas de levar a vida. Sei também que foge completamente dos ensinamentos e das aspirações do ser humano. Realmente morar a bordo de um veleiro esta longe de tudo do que a sociedade espera de nós. Continuar lendo

VIDA A BORDO 33

“Um barco é uma empresa em alto mar”, esta frase da velejadora Heloisa Schurmann, mostra como é importante o planejamento e o objetivo de uma viagem e como deve ser administrada uma embarcação. Assim como as empresas, um barco mal conduzido pode afundar com o dono.

                                    São vários os motivos que levam uma pessoa a adquirir uma embarcação. Gostar do mar, de pescar, de mergulhar, de pesca submarina, passear, fazer um cruzeiro, velejar ou navegar, ferramenta de trabalho, necessidade de deslocamento, porque o vizinho ou amigo tem um ou apenas por status. Muitos compram barcos e usam apenas um final de semana ou um verão, passando a empolgação inicial abandonam o barco em casa ou na marina e nunca mais navegam. Não era o que pensavam, muito trabalho, muitas regras, custo muito alto, a família e os amigos não queriam navegar, mareava muito, não tinha muito aonde ir, precisava de um marinheiro ou simplesmente era um saco navegar. Um dia resolvem vender, querendo pelo menos tirar o investimento e se dão conta que o barco esta muito deteriorado pelo abandono, não valendo o que foi pago, apesar de ser um barco pouco usado. Outros compram barcos muito grandes ou pequenos sem analisar aonde seriam utilizados, em que condições, se terão local para a guarda, de quantos tripulantes precisaram, quantos passageiros poderão levar, se podem usar em mar aberto ou águas abrigadas.

                                   Barcos existem de todos os tamanhos e modelos, vários preços, muitas ofertas de barcos usados e muitas novidades saindo das pranchetas dos estaleiros.  Um barco tem de ter navegabilidade, funcionalidade, resistência, conforto e segurança. Não adianta ter um barco muito bonito, caro, barato, grande ou pequeno se ele não atender a esses cinco fatores.

                                   Não devemos comprar um iate de 30 metros para navegar com ele em um pequeno lago, mas podemos ter um barco de 5 metros e atravessar um oceano ou navegar no pequeno lago. O importante é o planejamento que é feito para a compra e uso da embarcação e não o dinheiro disponível.  

                                   Barco grande, seja veleiro ou lancha, tem custo de manutenção alto. Os preços de marinas e clubes náuticos também são cobrados por tamanhos. O consumo de combustível também é muito elevado para o caso das lanchas. Muitas delas, apesar do tamanho, não têm autonomia para longos cruzeiros ou travessia de oceano. Nos veleiros, que são movidos pelos ventos, às velas que são de tecidos especiais, quanto maior o barco, maior o tamanho das velas e consequentemente os preços. Quanto à autonomia de distancia a ser navegada no veleiro, depende apenas dos ventos e de sua determinação. Os preços nas marinas são cobrados por tamanho independente de veleiro ou lancha.

                                   Barco pequeno, tudo e mais barato, mas mesmo assim tem que existir o planejamento para a compra. Não podemos comprar um barco feito para rios e navegar com ele em mar aberto. Comprar um barco para 2 tripulantes e colocar 6. Comprar uma lancha e colocar um mastro para andar a vela. Já vi veleiro, navegar somente a motor, por opção do dono, alguns até retiram o mastro.

                                   Podemos enfrentar uma tempestade, um furacão ou um mar bravio com um barco impróprio, mas nossa chance de sair bem dessas situações ou simplesmente sair e pouco provável. As marcas que deixarão no navegador serão muito profundas se ele conseguir escapar com vida. Muitas vezes leva-se para um caso de milagre, sorte ou azar, heroísmo, religião, Deus quis assim. Tudo vira motivo para encobrir a falta de planejamento, organização, conhecimento, treinamento, capacidade e equipamento adequado.  

                                   O famoso velejador Francês, Eric Tabarly, que já tinha dado varias voltas ao mundo, em solitário, festejado e premiado em todo mundo, desapareceu no mar, quando navegava com um grupo de aspirantes a velejadores. Caiu no mar durante uma troca de vela e não conseguiu ser resgatado. Houve excesso de confiança e falta de disciplina em não ter colocado o cinto de segurança. Não bastou o treinamento, o conhecimento e experiência, faltou um pouco de humildade em não usar um equipamento vital para sua segurança e de toda a tripulação, que se não entendessem de navegação estariam em sérios apuros.

                                   Acho que falei muito sobre barcos e navegação e nada de empresas. Será?  Mas, muitas empresas são criadas sem nenhum planejamento. Não são analisados mercados, não conhecem os clientes potenciais, quantos funcionários serão necessários, o piso salarial da categoria, se o local é adequado, desconhecem as exigências tributárias, fiscais, jurídicas, ambientais e sociais, são levadas de acordo com a maré e os ventos. Resultado! Afundam.  Será?

                                  

Nelson Mattos Filho

velejador

* Todos os artigos VIDA A BORDO, são publicados no Jornal TRIBUNA DO NORTE, coluna DIÁRIO DO AVOANTE. A coluna é publicada aos Domingos. Esse artigo foi publicado em 2007.