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Sabores do Rio Grande do Norte

172418Ginga com tapioca é uma das mais saborosas iguarias da cozinha potiguar e ganharia disparado qualquer concurso brasileiro, tipo, comida de barzinho. O prato é típico dos bares do Mercado Público da Redinha e a Redinha e uma praia do litoral norte do RN, famosa pelos antigos e bons tempos de veraneio. A velha e boa prainha hoje anda meio esquecida embaixo de uma ponte monumental, mas tem muito a oferecer aos que procuram suas belezas banhadas pelas águas do rio e do mar.  Quem já foi a Redinha e teve o prazer de se deliciar com o inigualável sabor da Ginga com tapioca sabe que é coisa dos deuses e quem ainda não provou, não sabe o que está perdendo. Pois bem, vejo nos portais de notícias que o Mercado da Redinha irá receber assessoria dos alunos de uma universidade potiguar, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, para preparar os proprietários e funcionários dos bares e restaurantes, em cursos de qualificação no atendimento e manuseio de alimentos, com o objetivo de preparar o ambiente para um Festival de Ginga que deverá acontecer em breve. Fico matutando com meus botões: – Será que vão repaginar a Ginga com o modismo das comidas de chef? Valei-me Iemanjá!     

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Cartas de Enxu 14

4 Abril (133)

Enxu Queimado/RN, 02 de maio de 2017

Sabe meu irmão, nesses tempos modernosos é cada vez mais complicado tentar entender alguma coisa e por mais que nos aproximamos da verdade, sempre nos deparamos com a incógnita de novos estudos, releituras, permissividades e daí a confusão é grande na cabeça de um cinquentão metido a jovial.

O ovo da galinha é o melhor dos parâmetros para medir a confusão em que estamos metidos, pois numa hora os ovinhos são os mais temíveis vilões do universo e no minuto seguinte torna-se inocente anjinho protetor da vida. Já cansei de ler notícias difamadoras sobre eles e basta o carro dos ovos da galega chegar na cidade, anunciado no microfone rouco a promoção de uma bandeja com trinta por onze reais, que sou o primeiro a ficar plantado na porta de casa para garantir minha parte dos ovos. Prefiro os vermelhos, mas juro que nunca vi diferença quando adquiro os brancos, mas entre o sim e o não, vou assim.

Rapaz, você viu que até a tapioca entupiu na peneira fina que trata dos alimentos não saudáveis? Pois foi e até um conterrâneo nosso, cabra comedor de tapioca, se encarregou de espalhar a desdita pelo meio do mundo. Meu irmão, onde danado já se viu tapioca com manteiga de garrafa fazer mal a algum cristão? E se for acompanhada com umas gingas fritas no dendê, lá do Mercado da Redinha? Vixi! Pois é homem, esse mundo está ficando cada dia mais sorumbático e cheio de trejeitos amarmotados. E eu que pensei que o mundo daria um salto para a melhoria nesses tempos de comunicações instantânea! Parece até que ficamos mais aburralhados, como bem diz uma amiga dessa beira de praia que estou pastorando.

E por falar em aburralhado, num é que até o dito primeiro mundo tem sofrido e tomado rumos que beira a esquisitice. Logo eles que batiam no peito, davam um pontapé na modéstia e arrotavam que eram países bem resolvidos política, econômica e socialmente. Balela para encher os olhos e ouvidos de um povo que gosta de aplaudir discursos de alquimistas. Aliás, eu nunca entendi bem essa tal escala para medir o mundo em um, dois, três, resto e escória, e agora é que não entendo mesmo, pois botaram tudo em um liquidificador e quem quiser que se exploda. E ainda inventaram um bebezão com os olhinhos puxados, único dono de um país empobrecido, cavalgando em cima de uma bomba bujão e doidinho para acertar o quengo de quem chamar ele de feio. Como disse um transeunte, numa calçada no centro de Natal: “Ele quer frescar… ”.

Pois é meu irmão, o rapaz latino americano se foi e deixou no ar aquele vazio que sempre deixam as coisas boas que acabam. O cearense era bom nas cantigas e vai demorar um bocadão para aparecer outro pelo menos igual. Lembra quando ele cantou assim: “…tudo poderia ter mudado, sim, pelo trabalho que fizemos – tu e eu. Mas o dinheiro é cruel e um vento forte levou os amigos para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos, e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não…”. O cabra era bom em nos fazer pensar. Pena é que as verdades e emoção das letras são esquecidas quando a música termina. Mas vamos em frente, né!

E as chuvas invernosas? Por aqui tá bem chovido e o chão úmido, mas sinto falta daquelas chuvaradas de deixar a terra seca ensopada por vários dias, pois basta dois dias de sol para a poeira tomar conta do pedaço. Meu feijão já rendeu boas paneladas e estou adorando colher, debulhar e tomar o caldo bem quentinho acompanhado de uma dose da branquinha. O milho está crescido, mas não estou apostando nele para o São João, porque estou achando ele meio macambúzio. A batata doce fez uma rama mimosa e promete, mas o inhame demora, viu. O canteiro das hortaliças está mais fraco do que caldo de batata, mas também, quem disse que as lagartixas deixam as plantinhas em paz. Pense num bichinho para gostar de folha verde! Deve ser por isso que é magro!

Meu irmão, mudando de pau para cacete, e sabedor que você gosta de um vinhozinho: Fiquei espantado com a danação de coisas que o caboco precisa saber para dar uns golezinhos numa taça de vinho. Diz um professor que primeiro temos que descobrir o nosso próprio gosto. Depois vem uns tais valores subjetivos e também objetivos, vem ainda as experiências sensoriais e se depois de muita luta o cara gostar do vinho, mesmo assim ele não sabe se gosta ou desgosta, pois que vai dizer é outro que entende mais do que ele. Pense numa bebidinha cheia de pra que isso! Mas eu gosto, viu. Só não sei meu gosto é próprio ou impróprio.

Pois é Iranilson Lopes Matos, com um “t”, é assim que tenho visto a vida por aqui. Faz dias que você não aparece e quando vier, venha sem pressa de voltar, pois seus meninos já estão bem crescidos. Pode trazer os netos, que aposto um dindim que vão adorar. Diga a Nêga que mando um cheiro.

Até mais e um beijo.

Nelson Mattos Filho