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Visões em uma noite de dezembro

7 Julho (186)

Nesses dias de luz, renovação e esperança que antecedem o Natal, fico aqui em meu cantinho no cockpit a refletir sobre o cotidiano desses tempos modernosos e me pego navegando em mares que me aguçam os sentidos.

Estamos ancorados ao lado de uma ilhota baiana e cobertos pelo manto negro da noite escura. Ao longe, luzes adormecidas acalentam o sono de uma pequena comunidade praieira e nada mais, a não ser o silêncio ensurdecedor que de vez em quando é quebrado pelo marulhar dos peixes saltando próximo ao casco do Avoante. Como é gostoso ouvir o silêncio e observar as sombras enfeitiçadas que dançam no imenso palco noturno.

O que faria Jesus nos dias de hoje? Será que nasceria em uma acanhada e tosca manjedoura ou sob os cuidados de uma excelente equipe de médicos famosos? Qual estrela anunciaria seu nascimento e quem seriam os três magos que caminhariam ao seu encontro? Existiria lista de presentes em alguma loja afamada? E os burrinhos, as ovelhas, os carneirinhos e os outros bichos que cercavam a acanhada manjedoura, será que fariam parte da nova cena? Qual crença ficaria com os direitos autorais de seu nascimento? Os sacerdotes usariam mantos puídos e empoeirados ou vestiriam belos e vistosos ternos ornamentados com gravatas coloridas. E o batismo? Seria em algum templo monumental e sagrado ou seria em algum riozinho qualquer que ganharia fama imediata, apesar da poluição infernal das águas que corroem os rios desse novo mundo tão bisonho.

Diante de tantas indagações me socorri da escuridão e do silêncio que me cercava para pedir perdão ao Menino Jesus das heresias dos meus pensamentos. Claro que as sombras da noite me enfeitiçaram e amalucaram minhas ideias. Quem sou eu para pensar tantas besteiras sem sentido e sem nenhum senso lógico? Tudo está escrito nos livros sagrados e apenas os sacerdotes conhecem os meandros por detrás das letras. Os sacerdotes anunciam a volta de Jesus e mantem segredo do dia e hora, porque assim lhes foi dito pelos anjos anunciadores. Dizem eles que trombetas soarão, trovões sacudirão a terra e o fogo de mil línguas cortará o Céu. Nada parecido com a tranquilidade e simplicidade de dois mil anos atrás, onde apenas uma estrela surgiu no firmamento anunciado o Messias.

Os tempos hoje são outros, segundo dizem os novos anunciadores, estamos no tempo da desgraça, da falta de vergonha, de pudor, de honra, de amor, de sentimentos. Vivemos sob o domínio dos gananciosos, dos pregadores do caos, dos sacerdotes afortunados, dos vendilhões, dos enganadores da alma, dos encantadores de espíritos, dos espertalhões da fé e dos julgadores do pecado alheio. Diante de tanta desfaçatez somente a fúria de mil canhões atômicos para um novo recomeço do mundo. Depois disso, trevas reinarão nos campos, as águas se agitarão, o ar ficará irrespirável e somente os puros de pecado sobreviverão. Será pretensão?

Eita que minha noite está longa e meus pensamentos cada vez mais pecaminosos. Um vinho! Isso mesmo, um vinho para por ordem em minhas ideias e me tirar da escuridão silenciosa. O vinho que representa o sangue de Cristo e sendo assim acalmará a minha alma. No céu uma estrela brilhante toma forma e reflete sua luz sobre a taça. Será a estrela de Belém? Será o anuncio do Menino Jesus? O pão! Sim, um pão para matar a minha fome. Mas, fome de que? Não tenho fome, o que tenho são pensamentos tendenciosos e maledicentes. Mas deixa ver, pois quem sabe eles clareiam.

Onde nasceria o Menino? Será que no meio da loucura da guerra que maltrata e corrói a Terra Santa? Será nos campos castigados pela loucura de etnias religiosas amalucadas que não se toleram? Ou será naquele povoado que avisto do cockpit do Avoante e que me parece coberto de paz. Mais um copo de vinho e sinto que meus pensamentos sobrevivem à força terrível da heresia. A estrela brilha sobre a cidade, porém, não vejo movimento sobre a terra adormecida. Nenhum mago, nenhum carneirinho, nenhum burrinho, nenhuma vaquinha e nem sinal de camelos. Mas estou longe e talvez por isso não esteja enxergando. Apenas aquela estrela que brilha sem cessar enquanto se encaminha para o poente.

Tento escutar o sussurro do vento, porém, o silêncio não deixa. Sinto nas entranhas o pulsar do oceano sob mim e fecho os olhos para me reencontrar. A estrela se foi, a noite reflete um brilho negro fascinante, o vento faz rodeios sobre minha cabeça e as águas parecem ressonar. Olho em volta e sinto que não estou só naquela noite de magia. Lucia dorme um sono profundo, mas tem alguém ali que eu não vejo. Alguém que quer me dizer que o Menino foi único, que se fez homem e morreu pregado na cruz diante de uma plateia ensandecida, incitada por um rei corrupto, malandro e demagogo. Tristezas assim se renovam e a humanidade não aprende.

O vinho acabou e fui tentar dormir o sono dos justos e sonhei com um menino caminhando pelos campos e conversando com as flores. Que noite!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Feliz Natal!

9 Setembro (60)

O NATAL DOS MEUS SONHOS

Mais um Natal e mais uma vez recolho-me num cantinho do cockpit do Avoante em busca de respostas para as coisas do mundo. Olho em volta e vejo a tranquilidade estampada nas imagens refletidas na água, enquanto alguns veleiros descansam adormecidos na ancoragem.

Como seria bom se todos os habitantes do mundo pudessem experimentar míseros segundos de momentos como esse. O que pensariam os donos da guerra? O que passaria na cabeça dos violadores da vida? O que diriam os traficantes, os estupradores, os assassinos, os sequestradores, os ladrões, os corruptos, os corruptores e todos aqueles que caminham pelo mundo espalhando a sanha cruel do terror e da maldade?

O vento sopra uma brisa gostosa e trás em suas entranhas ecos de um mundo que caminha meio que desnorteado. Até onde chegaremos? Até quando aguentaremos? Em que parada desembarcaremos tanto mal feito? Até quando assistiremos e aplaudiremos tantas promessas vãs de autoridades desgovernadas? Até quando? Nem o tilintar dos sinos do Papai Noel conseguimos ouvir. O mundo não acredita mais no bom velhinho.

Como era bom quando o velhinho barbudo enchia de fantasias o Natal. O treno puxado por renas voadoras e carregado de presentes era um sonho bom que o mundo deixou de alimentar.

Mas o Papai Noel não é o dono da festa, a festa é de um Menino que um dia nasceu em uma manjedoura e que veio ao mundo para iluminar. O Menino virou homem, espalhou algumas verdades pelo mundo e foi morto espetado na cruz por outros homens. O homem não gosta de ouvir verdades!

Como era boa a sincronia que existia entre o Menino e o Papai Noel. Tudo ali era paz, alegria, amor, compressão, beleza e felicidade. A vida agradecia. As pessoas saiam às ruas para festejar e se abraçar. Os sinos dobravam de prazer. O céu das cidades se iluminava. As casas ficavam de portas abertas a espera dos amigos. Mesas se estendiam nas calçadas, nas ruas e todos dançavam e pulavam de alegria ao som de uma boa música.

E a arvore de Natal? E o presépio? E a estrela de Belém? E a Missa do Galo? O que foi feito de tudo isso? Dizem que tudo ainda existe. Será?

Ninguém mais acredita na magia do Papai Noel e quanto ao Menino, a cada ano vai ficando sozinho em seu bercinho de madeira forrado de capim. O Menino, o dono da festa, em muitos lares tem o nome esquecido.

O Natal perdeu o encanto, perdeu a alma, perdeu a alegria e navega sôfrego entre tempestades. Das crianças roubaram a fantasia e dos adultos tomaram o prazer do abraço amigo e inventaram um de tal amigo secreto como se amizade fosse feita se segredos.

O Natal do Menino Jesus e do Papai Noel era outro, era o Natal da bondade, da fartura, da vida, do futuro, do amor, da verdade, da compressão, do afago, do aperto de mão entre desconhecidos, do aceno nas ruas, do Feliz Natal dito em altos brados, da reconciliação, do beijo, da troca de presentes. Era o Natal das ruas, das calçadas, das avenidas, dos becos.

Era o Natal que envolvia as pessoas em um só abraço, em torno de uma causa. Era o Natal das pessoas caminhando nas ruas das cidades a meia noite, despreocupadas, seguindo a estrela que indicava a Missa do Galo. Era o Natal das crianças tropeçando de sono, tentando ficar acordadas para ver o Papai Noel. Era o Natal do presente embaixo da cama, da surpresa, do espanto, da chaminé, do sonho, do encanto. Era Natal!

Olhando do mar em direção à cidade, vejo as sombras de pessoas caminhando assustadas pelas ruas. Escuto roncos de automóveis em fúria. Ouço letras deprimentes de músicas tocadas em alto volume. Vejo crianças destruídas pelas drogas e pelas facilidades. Escuto grito de famílias destroçadas pela violência. Presencio a saúde ser negociada nas esquinas escuras. Vejo a fome transformar homens em lobisomens. Vejo matança, crueldade, roubos. Escuto risos e até alguém afirmando: Isso é da vida! Não, isso não é da vida, isso é do homem.

Como eu gostaria de escrever essa página com palavras diferentes. Como eu gostaria de festejar o Natal como se festejava antigamente. Como gostaria que as crianças e os adultos continuassem acreditando em Papai Noel. Como seria bom se o Menino Jesus espalhasse pelo mundo seu manto de paz e a estrela de Belém trouxesse boas novas, como fez há dois mil anos.

Desejo a todos um Feliz Natal, carregado de amor, compreensão, paz e reflexão.

Nelson Mattos Filho/Velejador