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Cartas de Enxu 44

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Enxu Queimado/RN, 20 de julho de 2019

Meu caro, Sian, desde que você apareceu por essa Enxu mais bela, colorindo o mundo em preto e branco pelas lentes mágicas de sua possante máquina fotográfica e com uma indisfarçada alegria em apresentar aos poucos felizardos o maravilhoso projeto de fotografia documental, Um olhar de Si Através do Outro, passei a mirar as coisas deste minúsculo pedacinho de planeta por ângulos diferentes e muitas vezes indecifráveis. Eh, meu amigo, o que seria das cores se não fosse o preto no branco e branco no preto…. Aí você haverá de perguntar: – Sim, mas qual o motivo da reticência? Sei lá! Talvez porque quisesse escrever mais, mas sem saber o que. Talvez não quisesse escrever nada e elas apareceram do nada, ou talvez porque…sei lá. Bem elas estão aí, apareceram novamente e agora não sei como suprimi-las.

Amigo, as coisas por esse pedacinho de litoral estão caminhando como Deus quer, pois é assim que diz o povo. Juro que não sei se Ele gostaria que as coisas caminhassem como caminham, mas já que o povo diz e que, segundo o ditado, a voz dele e a voz Dele, vamos seguindo em frente e esperando não sei bem o que, mas vamos. Rapaz, não se avexe com esses meus pensamentos amalucados, pois como já disse lá em riba, tenho olhado o mundo por ângulos meio enviesados.

Fotografo, pelo pouco que aprendi naqueles poucos dias de curso, não é tão fácil a gente ver o mundo através do outro, até porque o outro nem sempre se mostra do jeito que é e se formos escarafunchar por aí, é coisa de risco grande, pois com o advento das mídias sociais, o outro é tão outro que ficamos em dúvida se ele é, foi ou será. Lembra do que presenciamos nas dependências da escola? Pois bem, pintam com uma tinta, mas a tinta não tem a cor que pintam. E não são assim as coisas por esses Brasil encantado? São, e em algum dia do futuro aportarão por aqui novos navegantes e esses haverão de nos descobrir por completo. Só tomara que não seja Cabral e sua trupe de degredados, pois se assim for, ele vai mandar cobrir tudo novamente, pois deu certo não.

Sian, por falar nos personagens do descobrimento e como no curso tiramos uma manhã para bater uns retratos da Praia do Marco e seu encoberto e abandonado Marco de Posse, digo que aquela paragem histórica continua a esperar que os contadores da história passem por lá, não só para dizer o pouco já sabido, mas para cobrar daqueles que devem compromisso e se fazem de desentendidos. Você bem viu que o lugar é lindo, paradisíaco, cheio de bons predicados, mas não passa disso, sobrevive apenas dos discursos feitos da boca para fora e sem nenhum compromisso com a intenção.

Ei, amigo, você sabia que o município de Pedra Grande é bem servido de lugares, que se fossem em outros países, ou mesmo em outros sítios por esse Brasil de futuro incerto, estariam ilustrando bem-aventurados programas de ecoturismo? Pois é! Por aqui existem trilhas e mais trilhas por entre as matas da caatinga e dunas. Existem belas lagoas que mais parecem oásis em meio as agruras da seca que castiga a região. Porém, o que é mais fantástico, existem grutas de valiosas riquezas arqueológicas, Gruta de Lajedo e Gruta dos Martins. Assim como o Marco de Touros, as duas grutas, que tempos atrás mereceu aprofundado estudo por parte da cadeira de geologia da UFRN, estão malcuidadas, abandonadas e, segundo línguas afiadas, servem até como depósito de lixo, que se for verdade, configura um criminoso atentado contra a humanidade.

Pois é, meu amigo fotografo, sair por aí brechando o planeta, como ultimamente tem feito o querido jornalista potiguar Flávio Rezende, nos faz ver situações indesejáveis, mas nem por isso impublicáveis. Aprendi que o olhar é facetado e por isso o cérebro nos obrigada a mexer a cabeça para fugir das ilusões de ótica ou mesmo enxergar um pouco mais além do horizonte. Aliás, a ciência prova que enxergamos invertido e o cérebro é que apruma o foco. Agora me diga: O mundo está de cabeça para baixo ou de cabeça para cima?

Sian Ribeiro Sene, meu novo e bom amigo fotografo, já faz dias que você e a maravilhosa Laura Branco botaram os pés por aqui. Que tal começarem a aprumar os passos de retorno? Aqueles retratos que você deixou em exposição já estão amarelando e todos os dias olhos para eles com saudades, mas sabendo que são registros da vida e a vida amarela com o tempo.

Venha, meu amigo, venha provar do sabor dos frutos da semente que você plantou. Não foram muitos frutos, mas toda plantação começa assim.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 43

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Enxu Queimado/RN, 30 de junho de 2019

Presidente, rapaz, desculpe a ousadia de enviar-lhe essa missiva e também a intimidade do “rapaz”, pois lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito que Ceminha ensinou, mesmo arriscando levar uns puxões de orelha. Mas antes de seguir ajuntando letras nos moídos, vou contar um tiquinho do porquê das Cartas de Enxu.

Idealizei as Cartas para contar um pouco das coisas do cotidiano da pequena comunidade praieira de Enxu Queimado/RN, onde moro atualmente sob as sombras de uma cabaninha de praia, e por aí vou indo contando fatos, causos, costumes e reparando nas necessidades que aqui são muitas. Pronto, já que contei um conto, vou contar o contado. Mas Capitão, antes de mais nada, me diga aí de onde danado vosmicê tira tanta coragem para se meter em falação? Pense num caboco pra gostar de peleja!

Presidente, Enxu Queimado, distrito do pequeno município de Pedra Grande/RN, é uma joia de lugar com a cara escancarada para o paraíso e com um povo ordeiro que faz inveja a uma ruma de lugar mundo afora. Por aqui a vida ainda é contada passo a passo que nem a letra de uma música do rabequeiro pernambucano Siba, “…toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar…”, porém, nem tudo são flores e quando são, vez em quando tem uns espinhos que é para o povo não esquecer o tranco.

Jair, o senhor está precisando conversar na linguagem do povo e o povo que o cerca precisa encolher a língua, senão o baralho vai embaralhar de vez. Sei que a orquestra estava bastante desafinada, porém, afinação se faz em um instrumento de cada vez, senão desanda no compasso e não tem maestro que consiga botar ordem no terreiro. Seus meninos estão muito ouriçados e tem horas que merecem até levar umas chineladas das boas. Onde já se viu criança se meter em conversa de adulto? Lá em casa tinha isso não e se acontecesse, Ceminha botava um quente e dois fervendo!

Homem de Deus, esse negócio de mandar recado e ditar diretrizes pelas linhas curtas do Twitter tem futuro não! Além do mais, a grande maioria do povo nem sabe o que danado é tuitar e aqui em Enxu tem esse bicho não. O papo cabeça por aqui é via WhatsApp, pelas teimas intermináveis sob a sobra de pé de pau ou embaixo de uma barraca a beira mar. Capita, se não for assim, ou através da telona de uma TV, o recado sai atravessado, distorcido e mal falado, porque quem conta um conto aumenta um ponto e quando o conto vem da sua conta, aí danou-se! Não vá na onda do “galego do topete”, pois ele tem panos pras mangas, viu! Quer um conselho? Bote uns coturnos macios e vá bater pernas por aí para escutar e dizer as verdades que precisam ser ditas e ouvidas.

Presidente, sei que muita coisa boa foi feita nesses seis meses de mandato, mas a engrenagem mestra que move o moinho do governo está pisando no eixo da grampola e se não for reparado ligeiro, vai torar em bandas! Tome tento, homem, pois até os “inocentes” do Congresso estão tirando onda de bons moços, porque lábia eles têm para dar, emprestar, alugar e receber, que é o que mais gostam. Seu povo aí está batendo cabeça e nós aqui é que recebemos a pancada. – Quer que fale mais, quer? – Pois lá vai: Está faltando conversa olho no olho e no fio do bigode, está sobrando lero-lero e acho que já estou sendo chato com essa conversa de pitaqueiro barato. Pronto, falei!

Seu Messias, que tal vir dar um passeio por essa prainha linda e aconchegante? Faz tempo que não aparece uma autoridade bacana por essas dunas brancas e quando aparece, chega transvestido de candidato e sendo assim a promessa corre solta pelos alísios e se vão para nunca mais. Capitão, o povo daqui não quer muito, quer apenas 11 quilômetros de estrada asfaltada que ligue o povoado a sede do município, um posto de saúde decentemente bem equipado e com bons médicos, boas escolas e um programa de incentivo para melhorar a flotilha de barcos de pesca, porque os barquinhos estão sofridos e com idade para lá de avançada. Se o senhor garantir que vem, vou ajeitar com Xará, presidente da colônia de pesca, para ajuntar os pescadores e assim o senhor fala o que quiser falar, mas não venha com mais promessa, porque de prometido e não cumprido os balaios já estão cheios.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, desculpe o atrevimento dessa cartinha mal escrita, mas gostaria muito que o senhor desse o ar da graça por essa prainha paraíso, que garanto que Dona Michelle vai adorar conhecer. Venha ver as riquezas de um pedaço quase esquecido do Brasil, apesar do gigantesco, porém, socialmente deficiente, parque eólico plantado sobre dunas e matas. Venha tirar um retrato no histórico e abandonado Marco de Posse, localizado  na Praia do Marco, parede e meia com Enxu. Venha degustar da moqueca produzida por Lucia, que é dos deuses, e venha se fartar em um delicioso caldeirão de lagosta feita no bafo. Venha que garanto estirar uma rede sob a varandinha de minha humilde cabaninha, para o senhor jogar conversa fora e tirar um cochilo sonhando o sonho dos justos.

Até mais!

Nelson Mattos Filho