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A Tempestade – Parte 11

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Eu já sabia que nosso amigo e velejador Michael Gruchalski era um exímio contador de histórias, mas nem imaginava que ele tivesse a capacidade dos grandes autores de novela, para deixar a gente preso até o último capítulo. A Montanha Russa que dá prosseguimento a saga perigosa de três amigos a bordo de um veleiro em meio ao mar em fúria na costa sergipana é de tirar o fôlego. E olhem que ainda estamos no 11º capítulo!

MONTANHA RUSSA E PERIGOS I

Vento e chuva atingiram seu ponto máximo. O vento zombava de nós estacionado na casa dos quarenta nós, a chuva parecia um cachoeira furiosa, de tão densa e pesada. O barulho do vento e do mar quebrando em volta era ensurdecedor. Não importava a escuridão: estávamos de olhos fechados mesmo. Pouco importava reconhecer que havia traços de uma espuma branca esvoaçante em volta do barco. Nada importava. Nem o brilho dos relâmpagos, nem a explosão dos trovões. Estávamos exatamente naquele momento mágico, talvez até inconscientemente aguardado, do início da verdadeira tempestade. No olho dela. Estávamos ali, em má hora e no lugar errado. Dali em diante, em teoria, não podia piorar. Agora, a ordem era aguentar e esperar passar. E, pelo amor de Deus, não naufragar.

Nenhum de nós havia dormido ou mesmo descansado desde a perda do leme na madrugada anterior. O filho do capitão era quem em melhor situação estava. De ânimo e aparência. Antes do reconhecimento de enfrentar a tempestade, bem dito. Até aquele ponto, sorria puxando minimamente o canto do lábio esquerdo. Agora, além de não sorrir, mantinha o tempo todo, uma careta feia com um dos olhos semicerrados. O filho do capitão, apesar de reservado e econômico com palavras nas suas análises, quando consultado, era um norte para as nossas decisões. E era ele quem mais tempo aguentara pendurado no trapézio do nosso leme de fortuna desde aquele fim de tarde. Eu mesmo só fiquei meia hora e senti muita dificuldade.

Será que escapamos dessa, pensei pela segunda vez, protegendo-me da chuva que entrava fria por frestas, zíperes e dobras da minha roupa de mau tempo E agora, o que vamos fazer? Para que lado estavam as plataformas de Sergipe, as benditas plataformas? O capitão gritou alguma coisa, algo sobre o controle do barco. Não entendi, eu não estava ouvindo nada, só o escarcéu terrível do vento e da chuva. Abaixamos os nossos corpos, os olhos estatelados um no outro, assustados com a violência do início da tempestade. Será que motor ainda está funcionando ou já tinha desligou sozinho? Com o barulho da natureza em volta não dava para saber se o motor estava ligado ou não. Para onde estamos sendo levados? Onde ficou o controle do barco, onde estão o capitão, o timoneiro, o comando e o rumo?

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