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Do muro das lamentações – II

3 Março (260)

No muro das lamentações anterior embrenhei-me entre fios, condutores e terminais que fazem as conexões elétrica e eletrônica das embarcações. Um mundo complexo e incrivelmente fantástico e que enche de orgulho a alma de muito comandante mundo afora, mas que é um prato cheio para o humor azedo dos duendes que povoam os porões dos barcos. Vale salientar que não tenho nada contra equipar um veleiro com as últimas novidades eletrônicas do momento, porém, algumas novidades servem mais para criar problemas do que para ajudar na navegação. E como bem disse meu amigo Fábio Constantino: Quanto mais simples um veleiro for equipado, mais prazer e alegria ele dará ao seu comandante.

Certa feita um amigo me questionou para saber se no Avoante eu usava gaxeta ou selo mecânico – duas formas de resfriamento do eixo quando o motor está em movimento. Claro que entendi a sua pergunta, porque sabia que ele usava o selo mecânico, mas sabia também que a pergunta vinha carregada de alguma crítica sobre minha opção. Respondi que utilizava gaxeta por ser mais simples, de fácil manutenção, barato, seguro e eu mesmo fazia a troca quando necessário. Ele me olhou com a cara de quem estava com o discurso pronto e discorreu uma série interminável de vantagens a favor do selo mecânico, que ele usava em seu veleiro. Porém, estava com sérios problemas de vazamento, não tinha como resolver sem a ajuda de um técnico, e este só estaria disponível na semana seguinte. Disse ainda que estava preocupado em deixar o barco sem ninguém a bordo e que do jeito que estava não tinha como navegar. Para finalizar, acrescentou que Deus o livrasse de nunca ter que utilizar gaxeta em seu veleiro e não sabia como eu, um velejador tão conhecido, ainda utilizava um equipamento tão ultrapassado.

Baixei a cabeça, respirei fundo, concordei piamente com suas palavras e quase lhe dou um beijo de agradecimento por me torrar a paciência. Cá para nós: Ele raramente dava duas velejadas por ano e quando saía, o barco apresentava algum defeito, além de que, a briga dele com o selo mecânico era antiga. Deus é mais!

Em um grupo de mídia social os participantes trocavam informações sobre manutenção nos sanitários e eu lia com um sorriso no rosto os tratados de como proceder para manter um sanitário de barco funcionando a contento. Uns usavam graxa, outros silicone, outros desmontavam tudo a cada semana e passava um paninho fino entre as tubulações, teve até quem cheirava a encanação para sentir algum vestígio estranho e como sempre, apareceu aquele que só utilizava água doce, porque era assim que tinha que ser. Teve até quem detalhasse a técnica de sentar no vaso e como fazer força na hora do vai ou racha. Diante de tantas “técnicas científicas” não vi ninguém dizer assim: Gente, a melhor maneira de manter um sanitário de barco funcionado maravilhosamente bem, basta despejar semanalmente um copinho de óleo comestível, de preferência, aqueles que se joga fora depois de alguma fritura. Simples assim!

Eita, e já que falei em fritura, vou contar um segredo e peço que não espalhem: No Avoante Lucia frita peixe, bolinhos de arroz, batatinhas ou qualquer outra gostosura do mundo maravilhoso da gastronomia. Aí alguém vai se arrepiar e questionar: – Como é? Fritura a bordo? Isso é uma aberração desaconselhável por todos os manuais da navegação! O mau cheiro da fritura nunca mais vai sair! Vai entranhar nas anteparas! Vai fazer todo mundo enjoar! Fritura a bordo, jamais! No Avoante nunca existiu essa preocupação com frituras e fazemos questão de propagandear que usamos sim e sem medo.

Grande parcela dos problemas de manutenção a bordo nasce na cabeça do proprietário e na maneira de como ele se propõe a resolvê-los. Muitos se revolvem com um balde de água, bucha e sabão, mas como bons humanos que somos, procuramos a saída pelos tortuosos corredores de um intricado labirinto.

Nas minhas conversas com amigos e companheiros de velejadas, muitas vezes meus conselhos passam despercebidos ou são sumariamente descartados de tão simplórios que são. Mas como o ditado ensina que se conselho fosse bom era muito bem vendido, vou seguido em frente e assistindo do cockpit o temporal cair lá fora. Às vezes vejo um ou outro velejador passar descabelado pelo píer, soltado impropérios ao vento, porém, nem tudo são flores e nem adianta o observador se meter a dar um pitaco, senão, é arriscado levar um sonoro xingamento e a mãe da gente não tem nada com isso.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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Do muro das lamentações

1 janeiro (76)

Em todos esses anos morando a bordo do Avoante, onze anos, tenho acompanhado os traumas e incertezas dos companheiros do mar quanto ao quesito manutenção da embarcação. Este é um tema que requer atenção e que leva o navegante a enfrentar terríveis dilemas existenciais. A coisa é tão complicada que cada vez que tentamos conversar sobre o assunto em uma gostosa roda de bate papo, sob a sombra de um palhoção de clube náutico, o máximo que conseguimos é uma interminável série de interrogações e discursões acaloradas. Já nos grupos de mídia social, o moído vira um legítimo samba do crioulo doido e no final sobram mais dúvidas do que certezas. No afã de demonstrar conhecimentos, o interlocutor virtual se transforma numa monumental enciclopédia tipo Delta Larousse e saí detalhando ensinamentos a torto e a direito.

Nos grupos sociais o tema manutenção é tão complexo e animado que até quem nunca teve um barco, nunca navegou e nem sabe para que lado se localiza a popa ou a proa de uma embarcação, discursa de cor e salteado manuais técnicos e práticos. Alguns ainda se arvoram em garantir que assina embaixo da afirmação, porque sabe que funciona, pois ele soube por um amigo da prima do vizinho, que tal teoria funcionou no barco de um colega distante do namorado da tia torta de um sobrinho da cunhada de um conhecido da época de ginásio. Bem pertinho!

Sou declaradamente cético quando escuto ou leio sobre manutenções infalíveis e que todos deveriam seguir. Se um barco nunca é igual a outro, navega em condições diferentes, estão baseados em climas totalmente adversos e recebem dos proprietários atenções distintas, como pode uma mesma receita servir para doentes tão diferentes.

Claro que orientações são sempre bem vindas e não devemos descartá-las, por mais que achemos que sejam bobagens, porém, muita dor de cabeça e prejuízo pode ser evitado se seguirmos a lógica dos fatos e observamos o que causou o problema. Muitos nem se dão ao trabalho de pensar na solução e prefere pagar valores absurdos aos prestadores de serviço maledicentes e sem nenhuma ética profissional.

Fico abismado quando as soluções indicadas descambam para o mundo da carestia, como se tudo para ser bom e funcional precisasse ser acrescido de valor monetário elevado. Como se o mar e suas intempéries soubessem avaliar as coisas pelo tamanho da conta bancária do navegante.

Um barco para dar o prazer que o navegante necessita, requer simplicidade nos detalhes e nenhuma dose extra de extravagância, principalmente na parte elétrica e eletrônica, que são os maiores causadores dos problemas a bordo. Dotar uma embarcação com os últimos lançamentos do mundo das bruxarias náuticas nunca trouxe alegria e nem satisfação ao navegante, a não ser a satisfação de empostar a voz para anunciar e mostrar aos amigos os brinquedinhos disponíveis. Quando sou eu o apresentado as incríveis parafernálias eletrônicas que equipam alguns barcos, dou os parabéns e digo que tudo aquilo é arretado. E fico a me perguntar: – Será que tudo isso terá uso realmente? E se der uma pane elétrica, será que o barco navega?

Uma das grandes fontes de defeitos, e que ninguém afirma que seja verdade, é a geladeira. Certa feita um amigo chegou até mim para anunciar que havia a comprado uma geladeira para o veleiro e que a partir da instalação a vida dele no mar seria outra, pois teria mais conforto, água gelada, cerveja fiofó de foca e mais uma série de coisas maravilhosas. Fiquei a matutar na alegria do meu amigo e imaginando que eu bem que poderia ter a mesma alegria e empolgação se comprasse um refrigerador para o Avoante. Eita ia ser o céu! Perguntei quanto havia custado o equipamento e ele respondeu que foi coisa de pouco mais de mil reais. Beleza! Segui meu caminho tentando entabular umas contas para adquirir uma geladeira e ele seguiu o dele, feliz e sonhando com sua nova vida de conforto no mar.

Meses depois encontrei novamente o amigo e perguntei como estava a geladeira. Ele fez cara de muxoxo e respondeu: Rapaz, ainda não funcionou a contento, porque é preciso refazer a vedação da caixa, necessito comprar mais uma placa solar, duas baterias, se brincar um gerador eólico e continuo levando uma caixa de isopor com minhas cervejinhas. Já estou achando que não foi boa ideia, pois tenho navegado tão pouco ultimamente. Além de que, a turma da manutenção é um pé no saco. Apenas assenti e mudei de assunto.

Sempre que vejo barcos super equipados me vem na lembrança às palavras do velejador Fábio Constantino, em uma palestra no Iate Clube do Natal: – Quer se deleitar com a vida a bordo de um veleiro? Mantenha isso estupidamente simples!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Inverno com pimenta

7 Julho (36)

Acho que não existe nada mais improdutivo do que fazer manutenção em barco nos tempos de inverno. Faz mais de uma semana que estamos tentando renovar o verniz da cabine e a pintura do convés do Avoante e a chuva não deixa. E para piorar a situação, desde ontem, 06/08, que os deuses da natureza se alinharam e resolveram colocar mais pimenta no tempero: É muita chuva e muito vento sobre a capital baiana. Que é isso meu rei? Veja o que diz o Cptec/Inpe:

 

REGIÃO NORDESTE

07/08/2014: No norte do MA: variação de nuvens e possibilidade de pancadas de chuva pela manhã. No centro-leste da região: muitas nuvens. No nordeste da BA e em SE: muitas nuvens e chuva. No litoral de PE e AL: chuva isolada. No leste da BA, incluindo Salvador: nublado com possibilidade de chuva. Nas demais áreas da região: sol e poucas nuvens. Temperatura amena no centro-leste da BA. Temperatura máxima: 34°C no PI.
08/08/2014: No norte do MA: variação de nuvens e possibilidade de pancadas de chuva. No leste da região: nublado. Em SE e AL: muitas nuvens e chuva. No sul do MA, PI e oeste da BA: predomínio de sol. Nas demais áreas da região: sol e poucas nuvens. Temperatura estável. Temperatura máxima: 35°C no PI. Temperatura mínima: 12°C no sul da BA.
Tendência: No norte do MA: variação de nuvens e possibilidade de pancadas de chuva. No oeste do MA: pancadas de chuva à tarde. No centro-leste da região: nublado. No leste de PE, em AL e SE: nublado com possibilidade de chuva. No litoral de AL: muitas nuvens e chuva. No sul da BA: sol e poucas nuvens. Nas demais áreas da região: sol e poucas nuvens. Temperatura estável.
Elaborado pela Técnica em Meteorologia Camilla Correia.

Atualizado 07/08/2014 – 12h02

Apenas um dedinho de prosa

pintura do avoante (1)pintura do avoante (7)pintura do avoante (12)pintura do avoante (15)

Viver a bordo de um veleiro não é tão fácil como se imagina. Primeiro as pessoas acham que a gente não faz nada e que tudo é um mar de rosas. Segundo, a gente fica achando que as pessoas têm razão e vamos escorregando em gostosos bate papos e quando abre o olho, as coisas vão se acumulando a bordo. Fechar essa equação não é tão fácil e é preciso muito “técnica” para escapar do vício da vida boa que não quer pressa.

O Avoante estava precisando de uma super manutenção na pintura há muito tempo, mas a gente ficava nessa de velejar para lá e dar um bordo para cá, que quando abrimos o olho o barquinho estava ficando sofrido e precisando de uma repaginada geral.

Toda casa precisa de uma reforma anual pelo menos de pintura, quando não de uma ligeira mão de cal para o vizinho não ficar falando. E barco é a mesma coisa, só que, como não temos vizinhos para fuxicar com a nossa vida, a gente vai empurrando com a barriga e mudando de porto quando alguém do barco ao lado começa a olhar pelo canto do olho. Continuar lendo