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Feliz Natal!

9 Setembro (60)

O NATAL DOS MEUS SONHOS

Mais um Natal e mais uma vez recolho-me num cantinho do cockpit do Avoante em busca de respostas para as coisas do mundo. Olho em volta e vejo a tranquilidade estampada nas imagens refletidas na água, enquanto alguns veleiros descansam adormecidos na ancoragem.

Como seria bom se todos os habitantes do mundo pudessem experimentar míseros segundos de momentos como esse. O que pensariam os donos da guerra? O que passaria na cabeça dos violadores da vida? O que diriam os traficantes, os estupradores, os assassinos, os sequestradores, os ladrões, os corruptos, os corruptores e todos aqueles que caminham pelo mundo espalhando a sanha cruel do terror e da maldade?

O vento sopra uma brisa gostosa e trás em suas entranhas ecos de um mundo que caminha meio que desnorteado. Até onde chegaremos? Até quando aguentaremos? Em que parada desembarcaremos tanto mal feito? Até quando assistiremos e aplaudiremos tantas promessas vãs de autoridades desgovernadas? Até quando? Nem o tilintar dos sinos do Papai Noel conseguimos ouvir. O mundo não acredita mais no bom velhinho.

Como era bom quando o velhinho barbudo enchia de fantasias o Natal. O treno puxado por renas voadoras e carregado de presentes era um sonho bom que o mundo deixou de alimentar.

Mas o Papai Noel não é o dono da festa, a festa é de um Menino que um dia nasceu em uma manjedoura e que veio ao mundo para iluminar. O Menino virou homem, espalhou algumas verdades pelo mundo e foi morto espetado na cruz por outros homens. O homem não gosta de ouvir verdades!

Como era boa a sincronia que existia entre o Menino e o Papai Noel. Tudo ali era paz, alegria, amor, compressão, beleza e felicidade. A vida agradecia. As pessoas saiam às ruas para festejar e se abraçar. Os sinos dobravam de prazer. O céu das cidades se iluminava. As casas ficavam de portas abertas a espera dos amigos. Mesas se estendiam nas calçadas, nas ruas e todos dançavam e pulavam de alegria ao som de uma boa música.

E a arvore de Natal? E o presépio? E a estrela de Belém? E a Missa do Galo? O que foi feito de tudo isso? Dizem que tudo ainda existe. Será?

Ninguém mais acredita na magia do Papai Noel e quanto ao Menino, a cada ano vai ficando sozinho em seu bercinho de madeira forrado de capim. O Menino, o dono da festa, em muitos lares tem o nome esquecido.

O Natal perdeu o encanto, perdeu a alma, perdeu a alegria e navega sôfrego entre tempestades. Das crianças roubaram a fantasia e dos adultos tomaram o prazer do abraço amigo e inventaram um de tal amigo secreto como se amizade fosse feita se segredos.

O Natal do Menino Jesus e do Papai Noel era outro, era o Natal da bondade, da fartura, da vida, do futuro, do amor, da verdade, da compressão, do afago, do aperto de mão entre desconhecidos, do aceno nas ruas, do Feliz Natal dito em altos brados, da reconciliação, do beijo, da troca de presentes. Era o Natal das ruas, das calçadas, das avenidas, dos becos.

Era o Natal que envolvia as pessoas em um só abraço, em torno de uma causa. Era o Natal das pessoas caminhando nas ruas das cidades a meia noite, despreocupadas, seguindo a estrela que indicava a Missa do Galo. Era o Natal das crianças tropeçando de sono, tentando ficar acordadas para ver o Papai Noel. Era o Natal do presente embaixo da cama, da surpresa, do espanto, da chaminé, do sonho, do encanto. Era Natal!

Olhando do mar em direção à cidade, vejo as sombras de pessoas caminhando assustadas pelas ruas. Escuto roncos de automóveis em fúria. Ouço letras deprimentes de músicas tocadas em alto volume. Vejo crianças destruídas pelas drogas e pelas facilidades. Escuto grito de famílias destroçadas pela violência. Presencio a saúde ser negociada nas esquinas escuras. Vejo a fome transformar homens em lobisomens. Vejo matança, crueldade, roubos. Escuto risos e até alguém afirmando: Isso é da vida! Não, isso não é da vida, isso é do homem.

Como eu gostaria de escrever essa página com palavras diferentes. Como eu gostaria de festejar o Natal como se festejava antigamente. Como gostaria que as crianças e os adultos continuassem acreditando em Papai Noel. Como seria bom se o Menino Jesus espalhasse pelo mundo seu manto de paz e a estrela de Belém trouxesse boas novas, como fez há dois mil anos.

Desejo a todos um Feliz Natal, carregado de amor, compreensão, paz e reflexão.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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