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De Salvador a Mangue Seco com o Pinauna

O velejador baiano Sergio Netto, Pinauna, que já nos presentou com excelentes relatos de suas viagens pelos mares do mundo, envia mais um diário de bordo e dessa vez da velejada que fez até a tietana Mangue Seco, onde a Bahia e Sergipe dividem meio a meio o Rio Real.

A RESTINGA MANGUE-SECO – PRAIA DO SACO – ABAIS

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A restinga é este cordão litorâneo na imagem acima,que se estende da costa norte da Bahia para a costa sul de Sergipe, interrompido pela saída dos rios Real e Piauí. O complexo litorâneo inclui a barreira da restinga, as dunas e a laguna interna com o mangue. A laguna é o corpo d”água alongado paralelo à restinga por dentro, e a migração das dunas pelo vento de fora recobre o mangue lamacento, dai o nome Mangue Sêco. Como as águas dos rios tem que sair, elas interrompem a restinga com um canal de maré que tem profundidade suficiente para que se acesse a laguna com um veleiro.

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O mangue na laguna O farol sobre a duna que recobre o mangue

Dito assim é simples, mas o efeito das ondas que atingem a costa modificam continuamente o acesso, transportando a areia ao longo da passagem, criando e removendo barras arenosas, de forma que quem pretenda entrar na laguna deve ir lá por terra, e sair a barra com uma canoa local (bianas com espelho de popa) para verificar onde está o canal de acesso antes de investir com um barco de quilha.

O mapa abaixo é a carta CCDGold de 2015, mostrando na linha branca beirando a costa da Praia do Saco o canal de acesso, que agora em 2016 mudou para o track em preto

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com os pontos brancos de forma que o canal agora passa onde era uma barra emersa no ano passado!

Tomadas estas providências, vela em cima e vamos lá. São 145 milhas a partir do Aratu Iate Clube, no verão sempre no contra-vento e contra-corrente.

Saímos às 15 horas de 25 de dezembro 2016, vento SE 13 nós, no início da vazante, Mila Rainha, Karine, Carlos Kakali e eu. Às 17 h, passamos o farol da Barra, vento E, dai que fomos orçando por cima do Banco Sto. Antonio até às 18:30 h, quando descemos da plataforma continental para o talude; às 19 h fizemos a primeira cambada que nos levou orçando no rumo 50V; o vento rondou um pouco para NE às 21 h e o anemômetro começou a dar sinais de cansaço, descontrolando o piloto automático que estava interfaceado em ‘vane’. Desliga instrumentos e torna a ligar, funcionou. À meia noite estávamos de novo sobre a plataforma continental em frente ao rio Jacuipe, onde a correnteza contra era mais forte, e demos um bordo para fora de 1,5h, no rumo 140V que nos levou às águas profundas, permitindo retornar ao rumo 20-30V até às 9 da manhã do

clip_image008clip_image010dia 26, quando o vento diminuiu de intensidade e rondou ligeiramente para SE, defronte à Praia do Forte. Já estávamos de novo sobre a plataforma, motorando por 3 horas na companhia de barcos de pesca, mas era dia claro e mantivemos o rumo até às 15 h, quando demos outro bordo para fora defronte ao rio Subauma, com vento NE força 4. Neste meio tempo Carlos Kakali embarcou um bonito de 1 kg. Às 17 h do dia 26 perdemos o fundo na sonda e demos o bordo de dentro que nos levou até a entrada de Mangue Seco, com o piloto interfaceado com o fluxgate (‘comp’) porque o anemômetro deixou de registrar a velocidade do vento. O vento cresceu e rondou para E, baixamos a mestra para o primeiro rizo e seguimos em bordo direto, chegando defronte à entrada da barra de Mangue Seco às 3 h da manhã, tudo escuro, lua nova, no turno de Carlos Kakali.

Quando acordei às 3:30 ele disse que estava indo para Aracaju para esperar o dia clarear.

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Enrolamos a genoa e ficamos por ali até que o sol saiu no horizonte. Como era lua quase nova, ela estava pertinho do sol e quando a lua sai no horizonte, em qualquer fase, a maré está sempre vazando, o que com vento E levanta mar na entrada da barra. Descemos a mestra e fomos motorando ver se dava para passar na arrebentação. Dava para ver áreas mais calmas e decidimos investir surfando nas ondas. Karine achava que ‘entraríamos com a ajuda de deus’, mas o bandido resolveu sacanear e no meio de uma surfada o motor de boreste tocou o alarme de temperatura. Sem dar bola pra vontade do carinha, entramos com o motor de bombordo e às 6:30 estávamos ancorados na praia do Saco, em Sergipe. A menor profundidade com 1,2m de maré foi de 3,5m. Ai Mila Rainha providenciou um lauto desjejum com champanhe. O problema do motor foi que folgou a correia da bomba d’água; apertei e funcionou. Removi o anemômetro no painel e apliquei abundante limpa-contato nas conexões, e quando reinstalado, funcionou. Mas Karine já tinha instalado birutas de lã nos estais para ver a direção do vento. Encontramos sobre o convés um parafuso de fixação do pino do batten-car no ponto de apoio da tala, que caiu durante a noite, mas fiz um ATE (armengue técnico emergencial, nomenclatura de Nogueirão) com um parafuso de 10cmx8mm da caixa de sucata.

Aproveitamos a maré vazia para passar debaixo da ponte na entrada de Terra Caída. Nem precisava, ainda sobraram uns 5m acima do tope do mastro para a base da ponte no vão mais alto. Me pareceu que a amplitude da maré aqui é semelhante à de Salvador, uma hora mais tarde. Ancoramos defronte à casa de Gileno e Cássia às 11:30 do dia 27, em 2,5m d’água, que logo começou a subir até 4,5m.

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Eles tem um píer e dá para abastecer de água na maré cheia. Chegaram no dia 28 e nos receberam de maneira fidalga. Esta recepção foi o ponto alto da viagem. Gileno é conhecido em Terra Caída como ‘Catalão’, e Cássia é ‘A Mulher’. Vá lá que ela lhe conta a história. No dia 27 jantamos no Frutos do Mar em Terra Caída, e no dia 28 desembarcamos às 11:30 e ficamos com Gileno, Cássia, e a família dela, inclusive D. Lidôca, a mãe de 90 anos até a noite, quando fomos experimentar os famosos caldinhos do Lene’s Bar. Dia 29 acordamos com um canoeiro batendo no barco: veio trazer pencas de lindas bananas que o Catalão mandou. Carlos diagnosticou e consertou um vazamento no sistema de pressurização de água. Zerei o odômetro parcial que desde o AIC registrou 194 milhas, e às 9:30 zarpamos no final da vazante. Dentro da laguna até Mangue Seco tem muita rede de pesca que exige atenção. Ancoramos às 10:40 em 3,5m de água logo no final do píer de contenção pouco além da pousada Algas Marinhas, junto ao parque onde os buggies pegam os turistas para visitar as dunas. Dormimos ai de 29 para 30. Saímos no buggy azul de Manuel, que também é prático da entrada da barra

clip_image024As dunas migram em muito pouco tempo, e alguns coqueiros e até postes ficam  clip_image026soterrados até o gogó, A areia fina que escapa, junto com a erosão da barranca do rio vai se acumular na Ilha da Sogra, entre a laguna e a restinga. Esta praia da Ilha da Sogra, de areia quartzosa fina e compactada na superfície, com piscinas de água quente, foi a mais encantadora que já vi no mundo todo. Daí esperamos a maré estar à meia enchente e zarpamos após o descanso do almoço, às 14:30.

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O porão de bombordo estava cheio de água salgada, que Carlos diagnosticou como um vazamento possivelmente no retentor da bomba d’água do motor de bombordo. Drenamos e saímos a barra com vento e corrente de enchente na cara, mas sem arrebentar na rota de saída. Às 15h estávamos fora, vela em cima. Observamos um rasgão no segundo painel da mestra, que aguentou bem até o AIC, quando Mila colocou um tampão de reforço. Vento e corrente favoráveis, a volta foi tranquila. Antes de escurecer estávamos além da isóbata de 1000m, saindo mais até 2000m. Durante a noite dois navios passaram próximo, mas foram identificados no AIS , e ao chamá-los ambos confirmaram que nos viam no radar. Às 13h do dia 31 passamos o farol da Barra, e achamos que era esperar muito tempo para assistir a queima de fogos à meia noite. Os Kakali desembarcaram no AIC às 15h, e Mila e eu após limparmos o barco e um jantar de fim de ano a bordo, celebramos a virada do ano ‘comme Il faut’ à meia noite…de Paris.

Na viagem de ida, as 145 milhas programadas cresceram 25% devido aos quatro bordos de contra-vento e à correnteza, tornando-se 181 milhas em 37 h. A volta foi um presente de ano novo, completada em 24h da Ilha da Sogra ao Aratu Iate Clube. Recomendo!

Fiz um registro do track em .gdb com as profundidades do acesso e da laguna que enviei para Cláudio, do veleiro Anni, Gerson, veleiro Tô Indo e Michael da CCD-Gold, e que está disponível para quem se interessar em estudá-lo no MapSource.

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Sergipe – Um litoral que merece muito mais

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Foi com uma pontada de alegria que li uma manchete no blog e-Turismo, editado pelo jornalista Antonio Roberto Rocha, no jornal potiguar Tribuna do Norte, periódico que acolhe todos os domingos a coluna Diário do Avoante. A manchete diz assim: Sergipe quer apoio do Ministério do Turismo para píer, atracadouro e esculturas no rio que banha Aracaju. No corpo da matéria, que inicia falando de um encontro entre o governador sergipano e o ministro do turismo para tratar dos festejos juninos e manifestações culturais, entrou o tema náutico como fonte de incentivo aos anseios do progresso. Foi ai que minha alegria se transformou na velha certeza de que nossos governantes realmente desconhecem o poder que tem o mar como fonte de riquezas turísticas. O píer pretendido pelo governo, as margens do Rio Sergipe,  é para criar um novo cartão postal para a cidade. Diante dele, no meio do rio, serão plantadas oito esculturas de personagens do folclore sergipano. A ideia é louvável e acho mesmo que o Rio Sergipe merece essa repagina. As imagens que abrem essa postagem foram feitas no povoado de Pontal, as margens do Rio Real, e do alto da ponte Gilberto Amado, que cruza o Rio Piauí. Do alto da ponte retratei a Barra de Estância, uma barra larga, instigante e que deixa muitos velejadores de cruzeiro com água na boca. Já adentrei essa barra em duas oportunidade com o Avoante e me declaro um apaixonado pelas belezas que compõem aquelas pairagens que denomino de Explosão de Beleza. Não consigo uma definição melhor!

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Pois bem, o Governo de Sergipe deve mesmo apostar no píer do cartão postal, mas poderia também estender suas apostas para transformar o litoral de Sergipe em um novo ponto de atracação para veleiros de todo o mundo. Todos que navegam a costa brasileira olham com olhos de pidão para a costa sergipana, mas infelizmente suas barras são rasas, difíceis, desaconselháveis, porém, incrivelmente desejáveis. Não precisaria muito além de dragagem e balizamento, pois a divulgação seria feita no boca a boca entre os velejadores e tenho certeza do sucesso. Os rios que compõem o estuário do Rio Real são todos navegáveis e isso pude comprovar nas vezes em que estive por lá com o Avoante. Naveguei por mais de 7 milhas entre os rios Real, Piauí e Priapu até jogar ferro em frente ao povoado de Terra Caída. Quando os amigos do mar sabem que adentrei ali – muitos conhecem como Mangue Seco – me procuram em busca de mais informações e até dos waypoints de entrada, porém, toda a rota que fiz em 2009 passou a ser desautorizada pela natureza, que a cada período do ano modifica o formato e o local dos bancos de areia. Sergipe, com um litoral tão belo e dotado de rios encantadores, é o único estado do litoral brasileiro que não recebe regularmente veleiros de oceano. Taí um bom tema para a próximo encontro do governador com o ministro do turismo. As duas últimas imagens são de canoas do município de Indiaroba, as margens do Rio Real, e coberturas para pequenas embarcações no povoado de Terra Caída.      

Quadros da natureza

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Tem lugares que encantam pela beleza e outros pela poesia da paisagem. Terra Caída/SE é bela e poética.

Indiaroba, a Terra do Divino

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Indiaroba em tupi-guarani significa “óleo amargo” (nhandi roba). A cidade de Indiaroba/SE é quem faz a divisa , para quem vagueia pelas estradas do litoral, entre os estados de Sergipe e Bahia. A cidade sergipana já passou um bocado de amargô ao longo de sua história meio mal contada, já que os historiadores não conseguem chegar a um acordo quanto a sua origem. Sobre seus campos e as águas do Rio Real que banham suas margens, ocorreram lutas monstruosas e uma montanha quase interminável de intrigas ao longo dos anos pós-descobrimento, mas ela sobreviveu ao óleo amargo das guerras patrocinadas por interesseiros capitães-mores e hoje podemos apreciar a bela estátua bronzeada de uma jovem índia encravada na praça central. Porém, a disputada Indiaroba não teve tanto sucesso quanto seus outrora enriquecidos “donos”, mas merece uma visita de quem viaja pela famosa Via Linha Verde.

6 Junho  (207)6 Junho  (209)6 Junho  (212)6 Junho  (215)A feira livre que acontece aos Domingos é um bom momento para o visitante saber um pouco mais sobre os costumes do município e saborear uma gastronomia que tem no camarão uma das suas delícias.

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A pequena orla banhada pelo Rio Real, famoso por banhar também a tietana Mangue Seco, é dona de muita beleza, iluminada por um festivo colorido exuberante de velas e canoas.

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A Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, de frente para a orla, demonstra imponência, irradia beleza e deixa fluir no ar uma gostosa sensação de paz.

indiaroba sergipe (18)E como cheguei até lá? Bem, já havia passado muitas vezes na porta de Indiaroba em minhas andanças rodoviárias, mas confesso que nunca me senti atraído para conhecê-la. Somente depois de ter adentrada a Barra de Estância com o Avoante em 2009, para ancorar em frente ao distrito de Terra Caída, fomos apresentados e gostei. Hoje, sempre que volto a Terra Caída, de carro ou de ônibus, dou uma entradinha nesse simpático município sergipano. E prometo que assim que a difícil Barra de Estância resolver sua pendenga com os bancos de areia, tentarei chegar e amarrar o Avoante no que restar do mal conservado e perigoso píer da cidade. 

Seguindo os rastro de Tieta

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Foi natureza eu estou dentro e nunca deixo de me render aos seus encantos. Tá certo que alguns locais já não tem aquele velho charme de paraíso em estado bruto, mas o ar que paira sobre eles ainda nos faz sonhar e deixa a nossa alma entorpecida. É assim que me sinto sempre que vou a Mangue Seco/BA. Lá não encontramos mais os traços brejeiros e perfumados da morenice suada da bela Tieta de Jorge Amado. Caminhando em suas areias ainda somos forçados a sonhar de olhos abertos e acreditar que a bela morena realmente viveu e marcou seus passos na quentura daquelas paragens escaldantes e alvas.

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Se a Tieta existiu de verdade ou saiu da feliz imaginação de um Amado mais criativo e seus personagens maravilhosos, caminhando por Mangue Seco é difícil de avaliar. Nas vielas, becos e praças da pequena vilazinha tudo anuncia sua presença e de seus companheiros do romance apimentado. Está lá a igrejinha, a fonte, a casa, os segredos e a estória contada e decorada por qualquer nativo, independente da idade. Se procurarmos bem, é até capaz de encontrarmos seus herdeiros e afins.

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Mas a bela praia de Tieta não é mais a mesma, apesar de conservar um pouco do charme de outros tempos. Foi invadida pela modernidade que insiste em construir o mais dentro possível da água, e para isso, constrói paredões de pedra, cimento e ferro na tentativa vã de enfrentar o mar. Coisa feia de se ver e que atravanca a vida de nativos e visitantes. Nos terrenos que ainda restam a beira mar se encontra de tudo, até carcaças abandonadas de fuscas e brasílias, que emprestaram seus chassis para bugres. Não deveria ser assim, mas é assim que é!

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Mas apesar da ingerência dos homens, a natureza ainda consegue ditar as regras e se apresentar em seu estado mais belo. Em cada ângulo que se aponte uma câmera fotográfica é fácil tirar de lá imagens maravilhosas e encantadoras.

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Mangue Seco é um encanto de lugar e navegar entre os rios que banham suas areias e história, refresca a alma de qualquer mortal. Pôr os pés em lugares a esmos como Ilha da Sogra e sua paz latente, nos dá a dimensão do que é o poder da natureza.

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A Ilha da Sogra é um imenso banco de areia que a natureza nunca deixa em paz, confundindo para que o homem não entenda seus segredos. Situado em plena Boca da Barra ele muda a cada maré ou a cada estação do ano, determinando por onde os barcos devem ou não adentrar suas águas. Eu mesmo já cai na besteira de demarcar o canal com ajuda do GPS, mas depois de ter a alegria de entrar com o Avoante duas vezes, me vi barrado e impotente diante do meu total desconhecimento dos segredos e mistérios da natureza.

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Então qual o segredo para navegar nas águas dos rios Real, Piauí, Priapú e conhecer lugares que poucos conhecem?  Contrate os serviços de um bom mestre, como sempre fazemos e dessa vez foi o amigo Piçarro e sua bela canoa Dia Lindo, e embarque de alma livre para receber o melhor que a natureza pode oferecer. Não se deixe levar e nem se apegue os meus comentários desairosos sobre Mangue Seco, pois eles são apenas frutos de meu coração apaixonado pela paz e tranquilidade do modo simples de ver a vida. Pisando nas areias macias e escaldantes e seguindo os rastros feitos pela morena Tieta, tenho certeza que você vai se sentir revigorado e energizado diante desse mundo urbano tão cheio de penúrias.

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O Farol de Mangue Seco, oficialmente Farol de Estância, está lá a indicar o rumo para nortear os sonhos. Em minhas navegadas noturnas no trecho de mar entre Sergipe e Bahia eu sempre procuro na escuridão os seus lampejos e nunca deixei de me alegrar por saber que ali tem um mundo onde a natureza riscou seus mais belos traços.

Um pedacinho de Brasil que poucos conhecem

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Uma vez me perguntaram o que tem para ver no povoado de Terra Caída/SE, além das belezas que eu faço questão de divulgar. Para mim apenas a natureza pulsante já é o bastante, mas se você quiser aproveitar muito mais, basta ter cinco minutos de bate-papo com os pescadores nativos que não vai faltar passeio em canoa e convites para degustar umas deliciosas sapecas no fogo de brasa. O melhor cicerone pelos caminhos navegáveis da região é o amigo Zé de Teca, ver post Uma boa Terra, e sua prosa alegre e pitoresca. Os amigos Ângela e Daniel, que quando não estão navegando pelo Canadá sabem o que tem de bonito no Brasil, são nossos anfitriões na bela casa as margens do rio. Acompanhados desse trio de amigos a nossa vida nessa bela região é cheia de boas lembranças. Se um dia você tiver a oportunidade de ir até lá, não esqueça de saborear as apetitosas sapecas e na hora do tira gosto, vá até o Restaurante do Pascaziu e encha a boca de água com umas empadinhas dos deuses. Mas, se você gosta de guaiamum ou caranguejo os melhores são servidos no Bar do Ninho. Pronto, já dei várias dicas deliciosas para sua próxima viagem pelo Brasil. Que tal deixar a Disney para outra oportunidade?

Coisas do reino dos homens

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A divisa entre Sergipe e Bahia, banhada pelo Rio Real e seus afluentes não menos belos, é um desses lugares que ainda podemos chamar de virgem. Para onde apontarmos os olhos aparecerá sempre uma paisagem espetacular de vida ainda em estado bruto. Mas a sede de progresso invertido que domina a mente dos homens, já cravou sua marca de insensatez com uma grande montanha de cimento serpenteando e atravessando as margens do Rio Piauí. Não adianta a revolução dos caranguejos, a revolta dos pássaros, a ira dos peixes, o choro das arvores e nem os olhos incrédulos de seres humanos conscientes, tudo já está fadado aos comandos brutais do agressor que dilacera entranhas e estupra a pureza silenciosa da natureza. Até quando veremos crianças caminhando descontraídas pelas praias? Até quando poderemos ver os coqueiros balançando ao vento? Até quando as conoas descansarão tranquilas em suas amarras? Até quando? Por enquanto, tudo está parado à espera de míseros milhões de Reais para finalizar a invasão. Isso não é uma denuncia, é apenas um grito solitário de um velejador amador que não consegue entender o valor do progresso anunciado pelos homens.